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História de Halloween 11 a 12 anos Leitura 21 min.

O cabide e a abóbora da meia-noite

Tomás e seus amigos embarcam em uma aventura de Halloween para cumprir a missão de pendurar a capa mágica de Tomás no cabide antes da meia-noite, enquanto ajudam Dona Aurora a acender a abóbora do senhor Maurício, descobrindo o verdadeiro significado da amizade e das boas ações no caminho.

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Há 4 crianças: - Tomás: um menino de 10 anos, com cabelo castanho bagunçado e olhos brilhantes. Ele usa uma capa preta de vampiro e segura um saco de doces, sorrindo entusiasticamente no centro. - Gui: um menino de 9 anos, com cabelo loiro e um grande par de óculos. Ele está fantasiado de múmia com ataduras brancas que se desenrolam levemente, apontando para uma casa à esquerda de Tomás. - Rafa: um menino de 10 anos, com cabelo castanho e um bandana vermelho. Ele está vestido de pirata, segurando uma espada falsa, à direita de Tomás, rindo e mostrando um doce que encontrou. - Leo: um menino de 11 anos, com cabelo preto e um chapéu de feiticeiro muito grande. Ele veste uma roupa preta com estrelas douradas e segura uma pequena lanterna, observando a cena com curiosidade um pouco atrás. O local é uma rua escura e misteriosa, com casas antigas cujas janelas são iluminadas por lanternas em forma de abóbora. Folhas secas giram ao redor das crianças e sombras dançam nas paredes, criando uma atmosfera mágica e um pouco assustadora. A cena principal mostra as crianças se aproximando de uma casa no número 23, onde uma grande abóbora sorridente brilha na porta. Elas parecem animadas e um pouco nervosas, prontas para bater à porta em uma aventura de Halloween cheia de surpresas. reportar um problema com esta imagem

O cabide da meia-noite

Tomás esticou a capa preta sobre a cama como quem alisa um mapa do tesouro. A capa era do pai, antiga, cheirava a baú e a canela da casa da avó. As pontas brilhavam um bocadinho à luz das velas da abóbora na janela.

— Hoje a missão é simples — disse ele, com um ar sério e um sorriso a espreitar —: usar a fantasia, não a amassar, e pendurá-la no cabide antes da meia-noite. Missão Cabide.

— Só tu inventavas uma missão para um cabide — troçou Gui, a ajeitar a máscara de múmia que teimava em desfazer-se.

— O cabide do Tomás é mítico — acrescentou Rafa, vestido de pirata, com um brinco de plástico que tilintava. — Dizem que foi talhado por carpinteiros mágicos. Ou pelo teu avô, já não me lembro.

— Pelo meu avô — confirmou Tomás, a endireitar o colarinho de vampiro. — E a avó disse: "Se não pendurares a capa antes da última badalada, ela ganha pernas e passeia-se pelo corredor a assustar chinelos." Não arrisco.

Leo apareceu à porta, com um chapéu de feiticeiro tão grande que quase lhe tapava os olhos.

— Prontos? As abóboras não vão esperar por nós! — anunciou, espetando a varinha no ar. — Truque ou travessura, meus senhores.

A mãe de Tomás tirou uma fotografia, o flash foi um relâmpago pequeno.

— Divirtam-se, meninos. E Tomás, não te esqueças… — apontou o dedo para a capa com um sorriso conhecedor.

— Cabide, meia-noite. Prometido.

Saíram para a rua. O bairro estava transformado: janelas com fantasmas de lençol, ramos com teias de algodão, lanternas abóbora a balouçar, e o cheiro a castanhas assadas a cair do céu. Um vento leve arrepiava as árvores e levantava folhas secas que dançavam ao nível dos tornozelos.

— Ouviram? — murmurou Leo, parando de repente.

Um "uuuuuh" longínquo atravessou a rua. Além, talvez um cão. Talvez o vento a entrar num cano e a fazer música.

— Só o bairro a treinar a sua voz de fantasma — disse Tomás, rindo. — Vamos lá.

Começaram a fazer o percurso das casas. Em cada porta, campainhas, risos, mãos de açúcar e travessuras. Um senhor de barba branca vestido de lobisomem disse com voz cavernosa: "Escolham três doces cada um, ou sofrem a Maldição da Língua Verde". Gui esticou a língua, fingindo que já ia ficando verde. Riram tanto que quase derrubaram a travessa.

Num cruzamento mais escuro, uma luz piscou numa janela do primeiro andar. Uma silhueta passou lá dentro, alta e lenta, de chapéu pontiagudo. Gui aproximou-se de Tomás.

— Viste aquilo?

— Vi um chapéu. Provavelmente a tua tia, a treinar feitiços contra a humidade — disse Tomás, e pôs-se em bicos de pés para não deixar a capa roçar numa poça.

A certa altura, no meio das gomas e das moedas de chocolate, Tomás deu com algo diferente dentro do saco: um envelope pequenino, de papel laranja, fechado com um autocolante de morcego. Tinha uma letra caprichosa: Para quem o vento escolher.

— Uau — disse Rafa, tocando no autocolante. — Isto é a sério.

— Abre! — insistiu Gui.

Tomás abriu com cuidado e tirou um cartão escrito à mão: "Se o encontraste, tens bom faro de Halloween. Antes da meia-noite, passa pela casa 23 da Rua do Silêncio. Há um recado por entregar e uma abóbora a acender."

Eles olharam uns para os outros. A Rua do Silêncio era um beco no fim do bairro, onde as árvores fazem sombras em escamas no chão e os gatos dormem nas varandas.

Leo ergueu a varinha.

— Missão Cabide… e Missão Recado? Aceitam?

Tomás suspirou, mas os olhos brilhavam.

— Aceito. Mas sem amassar a capa. E, por favor, se virem uma poça, gritem.

A Rua do Silêncio

A Rua do Silêncio fazia jus ao nome. Havia menos luzes, mais folhas, e os passos deles soavam como papel amarrotado. O número 23 era uma casa com um jardinzinho, um portão de ferro que chorava uma canção enferrujada, e uma abóbora apagada com um sorriso de dentes tortos.

— Isto parece o início de uma história — sussurrou Gui.

— Estamos na história — respondeu Tomás, pousando a mão no portão. — E eu quero que a capa acabe num cabide e não num espantalho. Vamos rápidos.

Empurraram o portão, que gemeu como uma baleia antiga. Um gato preto saltou do muro e passeou-se entre os tornozelos deles, de cauda levantada como uma bandeira.

— Com licença, senhor Gato — disse Leo, inclinando-se num cumprimento muito sério de feiticeiro.

Bateram à porta. Esperaram. O vento brincou com a capa de Tomás, que a segurou contra o peito com o cuidado de quem protege um segredo.

A porta abriu-se devagar. Do outro lado estava uma senhora de cabelo branco apanhado, olhos muito vivos e um avental às bolinhas. Tinha um chapéu de bruxa pequeno, de feltro, preso com um gancho.

— Boa noite? — disse ela, num tom que misturava surpresa e alegria. — Quem são os meus visitantes com tão bom gosto de guarda-roupa?

— Somos… os amigos que o vento escolheu — disse Tomás, a mostrar o envelope. — Encontrámos isto numa casa. Dizia para vir ao 23 da Rua do Silêncio.

A senhora bateu palmas baixinho, como quem espanta pó de estrela.

— Ah! O meu recado perdido. Eu sou a Dona Aurora. O vento faz das suas e eu já não corro como antes. Entrem, não mordem.

A casa cheirava a bolo de batata-doce e a livros. Na sala, havia lanternas de papel e desenhos de crianças. Um quadro com uma bruxa sorridente montada numa vassoura tinha por baixo uma legenda: "Bruxa só em Novembro. Em Outubro, sou Aurora."

— O recado é simples — disse a senhora, pegando num papel dobrado em quatro. — O senhor Maurício do número 5 esquece-se sempre de acender a sua abóbora. É o último cantinho escuro do bairro. E um bairro sem abóbora acesa é como chá sem bolacha. Podem entregar-lhe isto? Ele gosta de bilhetes bonitos. Digam que é da Aurora e do seu gato, o Gregório.

Ela mostrou o gato, agora enrolado numa poltrona como um casaco vivo.

— Claro! — disse Rafa, entusiasmado. — E aquela abóbora apaga…?

— Essa espera por vocês — disse Dona Aurora, piscando um olho. — Mas só acende quando sentir que alguém fez uma pequena boa ação no caminho. É cismática, a minha abóbora.

Tomás sorriu.

— Perfeito. Fazemos a entrega, acendemos a abóbora, e eu vou a correr pendurar a minha capa no cabide antes da meia-noite.

— O cabide! — exclamou Dona Aurora. — A peça mais honrada de qualquer casa. Vai dar tudo certo.

Ela encheu-lhes as mãos de broinhas de abóbora, tão quentes que parecia que ainda tinham o sol por dentro.

Voltaram à rua. O céu parecia um cobertor escuro polvilhado com açúcar em pó. O relógio da igreja ao longe deu dez e meia.

— Temos tempo — disse Leo, mas olhou para a capa como quem olha para uma ampulheta.

O bilhete que iluminou o beco

Seguiram para o número 5. No caminho, um grupo de duendes de jardim em miniatura apareceu, crianças mais novas a correr de porta em porta, rindo alto. Um deles tropeçou e a saquinha de rebuçados voou, atirando gomas no ar como confetes.

Tomás nem pensou duas vezes. Segurou a capa com um braço e com o outro apanhou a saquinha e ajudou o duendezinho a levantar-se.

— Está tudo bem? — perguntou.

— Estou! — disse o miúdo, olhando para a capa de Tomás com adoração. — A tua capa é mesmo de vampiro?

— É de vampiro que prefere bolos a sangue — disse Tomás. — E que cuida das capas e dos duendes.

Gui e Rafa recolheram as gomas do chão, sopraram as folhinhas e devolveram-nas com a seriedade de quem entrega tesouros.

— Obrigado! — gritou o duende, correndo para os amigos.

Quando chegaram ao número 5, bateram. O senhor Maurício abriu com uma camisola de lã grossa e óculos ao meio do nariz, olhos sorridentes.

— Ora boas! Jovens do susto. Em que vos posso ajudar?

— Temos um recado — disse Leo, estendendo o papel. — Da Dona Aurora e do Gregório. E da abóbora cismática.

O senhor Maurício leu, sorriu ainda mais, e olhou para a janela vazia.

— Esqueci-me outra vez… A minha abóbora está ali, triste no parapeito. Esperem só um bocadinho.

Voltou com uma abóbora de sorriso tímido, uma vela e um isqueiro.

— Querem ajudar a acender? — perguntou.

Tomás sentiu a capa puxar-lhe as costas. Olhou o relógio no telemóvel: onze menos vinte. Tinha tempo, mas não demasiado. Ainda assim, pegou na vela com cuidado.

— Eu seguro — disse, e o chama bruxuleou como uma estrela pequena. — Pronto.

A abóbora acendeu-se, e no vidro formou-se uma cara feliz de luz laranja. Nesse momento, um sopro morno percorreu a rua, como se alguém tivesse soltado um "obrigado" muito baixo.

— Obrigado, rapazes — disse o senhor Maurício. — Vocês lembram-me porque gosto deste bairro.

Quando se afastaram, Rafa apontou para trás com o queixo.

— Repararam? A abóbora da Dona Aurora… — disse.

Eles olharam: lá ao fundo, no 23, a abóbora até então apagada brilhava agora com uma luz que parecia riso.

— A cismática convenceu-se — disse Gui. — Missão recado: quase concluída.

— Falta o último passo — disse Tomás. — E o mais importante: Missão Cabide.

Corrida contra as badaladas

O relógio marcava onze e meia. O vento levantou-se, brincalhão e um bocadinho ousado, como se quisesse experimenta a capa de Tomás. As sombras esticavam-se e encolhiam, o bairro parecia um palco onde os cenários deslizam de repente.

— Caminho mais curto? — perguntou Leo.

— Pelas traseiras do campo de futebol — sugeriu Gui. — Menos ruas, mais folhas.

— E o cão do senhor Álvaro — lembrou Rafa, franzindo a testa. — O Ruca acha que chapéus são frisbees.

— A minha capa não é frisbee — disse Tomás, levantando o queixo. — Vamos assim mesmo. E se o Ruca vier, eu lanço broinhas de distração.

Cortaram caminho entre arbustos, saltaram um pequeno muro, atravessaram o campo com as luzes apagadas, onde as balizas pareciam bocas abertas a bocejar. Lá estava o Ruca, deitado, sonhando, a pata a tremer de vez em quando como se perseguisse algo no sonho.

Passaram ao largo, em bicos de pés. Gui tropeçou numa raiz, soltou um "opa!" que foi engolido pela noite. Ninguém caiu. Ninguém amassou a capa. Tomás sorriu, aliviado.

Na rua seguinte, um grupo de adolescentes soltou um susto ensaiado. Um lençol caiu-lhes em cima como neve de cetim.

— Buuuu! — gritaram, mas riram logo a seguir, mostrando sacos cheios.

— Boa tentativa — respondeu Leo, alisando a boca da varinha. — A nossa missão é maior que um lençol.

A igreja soou onze e quarenta e cinco quando viram o portão de casa de Tomás. Do outro lado, a janela da sala tinha aquela luz amarela que parece chá a fumegar. A avó de Tomás estava no sofá, a fazer malha, a televisão muito baixinho com um filme antigo de bruxas simpáticas.

Entraram a correr, mas a correr com cuidado. Tomás tirou a capa com delicadeza de bibliotecário a devolver um livro raro. A avó levantou o olhar e sorriu como um cobertor que se abre.

— Chegaram a tempo?

— A tempo e com broinhas — disse Rafa, abanando o saquinho.

— E com uma história — acrescentou Leo.

— Primeiro, o cabide — disse Tomás, solene.

Subiu ao quarto. No canto, como um guarda paciente, o cabide de madeira esperava. Era liso, polido, com uma curva perfeita. O pai tinha-lhe contado que esse cabide aguentara capas de super-herói de plástico, casacos encharcados de chuva, e até uma manta que servira de tenda numa sala de estar. Tomás levantou a capa com as duas mãos, sacudiu o pó invisível, e encaixou-a nas costas largas do cabide. Endireitou as pregas, com um gesto que parecia acalmar a própria noite.

— Pronto — sussurrou. — Descansa.

O relógio no corredor marcou onze e cinquenta e cinco. A capa ficou ali, com um brilho que não era bem luz, mais um sossego.

O bilhete da amizade

Ao descer, Tomás encontrou os amigos na cozinha a beberem chocolate quente, canecas com desenhos de morcegos a boiar. A avó pousou à frente dele uma caneca com um morcego que sorria.

— Então, aventuras? — perguntou.

— Muitas — respondeu Gui. — E ainda falta uma coisa.

Tomás pegou num papel simples e numa caneta. As mãos ainda tinham o calor da capa. Escreveu devagar, escolhendo as palavras como quem escolhe peças de um puzzle:

"Obrigada, Dona Aurora, por lembrar a luz da abóbora do senhor Maurício, e por lembrar-nos que a noite fica mais bonita quando fazemos uma coisa boa por alguém. Esta é a nossa pequena luz de volta."

Assinou: Tomás, Gui, Rafa, Leo. E acrescentou um desenho rápido: um cabide com uma capa a sorrir.

Leo inclinou-se.

— Vais entregar-lhe isto agora?

— Sim — disse Tomás. — Prometi que acendíamos a abóbora dela depois de uma boa ação, e isto… — apontou para o papel — é a nossa boa ação de volta. E é um recado entregue.

Rafa bateu com a mão aberta na mesa, feliz.

— Missão Recado, Missão Cabide. Duas em uma.

— Três em uma — corrigiu Gui. — Missão Chocolate Quente, cumprida.

Eles riram. Puseram os casacos por cima das fantasias, pegaram no bilhete e numa lanterna pequena. A avó lançou-lhes um olhar de ternura e preocupação leve.

— Vão e voltem num instante. E cuidado com as escadas do jardim do senhor Álvaro. O Ruca sonha alto.

— Vamos com cuidado, avó.

A rua estava mais calma. As luzes de abóbora tremeluziam, algumas já apagadas, como sorrisos a bocejar. O vento tinha acalmado, ou talvez tivesse adormecido no braço de uma árvore.

Ao chegarem ao 23 da Rua do Silêncio, a abóbora de Dona Aurora continuava acesa, a luz mansa, como uma vela dentro de um copo de mel. Bateram à porta. A senhora apareceu, agora com um xaile às flores nos ombros.

— Meus valentes — disse ela, contentíssima só de os ver. — A abóbora do Maurício está luminosa que dá gosto. E o meu Gregório ganhou coragem para subir ao armário mais alto. Que vos traz agora?

Tomás estendeu o bilhete.

— Um recado de volta. E o "obrigado" que faltava. Por nos darem uma missão que era, afinal, sobre sermos amigos.

Ela leu, devagar, como quem saboreia, e os olhos ficaram brilhantes como se tivessem captado a luz das abóboras. Depois levou a mão ao coração.

— Vocês são o tipo de fantasma preferido da minha casa: os que deixam calor nos sítios por onde passam. Obrigada.

Do nada, um pequeno brilho percorreu a abóbora à porta, um pulinho de chama que desenhou, por um segundo, um cabide dentro do sorriso.

— Viram? — sussurrou Leo.

— A minha abóbora entende de mensagens — respondeu Dona Aurora, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

— Temos de ir — disse Tomás, olhando o relógio. — O cabide já cumpriu o seu destino, agora nós cumprimos o nosso: dormir para sonhar aventuras.

— Levem isto — disse a senhora, entregando-lhes um saco com quatro bolinhos redondos, polvilhados de açúcar. — Chama-se "luz de bolso". É bom para manhãs que parecem nubladas.

Eles agradeceram e começaram a afastar-se. No portão, Tomás virou-se.

— Dona Aurora?

— Sim?

— O meu avô fez um cabide tão bom que hoje pareceu… mágico. Acho que coisas simples também podem ser encantadas.

— As coisas simples são as mais encantadas — disse ela, com um sorriso que parecia um cobertor. — Um cabide que segura a tua capa. Uma mão que segura um saco de rebuçados de um duende. Um bilhete que chega ao lugar certo. Isso é o feitiço.

Tomás acenou. Voltaram para casa num passo leve, quase silencioso, como se não quisessem acordar a noite.

A última luz

Quando entraram, a casa parecia suspirar de alívio. A avó deixara uma vela acesa na janela, um pequenino farol. Tomás subiu ao quarto para mais um olhar à sua capa. Ela estava lá, impecável, pronta para o sonho do cabide.

— Até para o ano — disse-lhe, sem embaraço por falar com uma peça de roupa.

Os amigos pousaram os casacos, e sentaram-se todos um bocadinho na sala, a ouvir a televisão muito baixinho, onde uma bruxa de nariz torto aprendia a cozinhar panquecas. Partilharam os bolinhos de "luz de bolso" e calaram-se nos últimos bocados, porque às vezes há silêncios que sabem bem.

O relógio da igreja deu a meia-noite. Lá fora, uma última criança correu, riu, e uma porta fechou-se com um "até amanhã". As abóboras apagaram-se, uma a uma, bocejando no escuro. Mas na janela da Rua do Silêncio, muito ao longe, parecia ainda haver um pontinho a brilhar — talvez fosse a abóbora cismática a demorar-se, talvez fosse um vagalume atrasado.

Tomás encostou a cabeça ao ombro do sofá e pensou em cabides, em capas, em bilhetes que acham o seu caminho. Pensou também nos amigos, que tinham levantado a capa para não molhar, que tinham corrido e rido e repartido broinhas e coragem.

— Hei, Tomás — sussurrou Gui, com sono na voz. — Missão Cabide?

— Cumprida — respondeu ele.

— E a Missão Recado?

Tomás sorriu na sombra.

— Entregue.

E por um momento, pareceu-lhes que a casa respondeu, num murmúrio muito baixinho, como um recado que chega: "Obrigado." E naquela noite, entre o mistério e o chocolate, entre o frio e o riso, dormiram com a certeza de que as coisas simples — uma capa bem pendurada, um bilhete bem entregue, uma amizade bem guardada — são a melhor magia de Halloween.

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Abóbora
Um fruto arredondado, geralmente de cor laranja, que é muito usado na decoração de Halloween e na culinária.
Cismática
Uma pessoa que tem muitas manias ou que é difícil de agradar.
Aventura
Uma experiência emocionante ou arriscada, muitas vezes cheia de surpresas.
Capa
Uma peça de roupa que se usa por cima de outras, geralmente sem mangas e que cobre os ombros.
Recado
Uma mensagem ou aviso que se envia para outra pessoa.
Traversia
Um caminho ou acesso que passa por trás de algo, muitas vezes menos utilizado.

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