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História de desafio impossível 11 a 12 anos Leitura 16 min.

Os desafios impossíveis do Sr. Vieira e o gelado colossal da Baía do Caracol

Quatro amigas enfrentam os desafios impossíveis do Sr. Vieira na praia — atravessar a “Passadeira do Caranguejo” sem tocar na areia e tocar o Sino das Dunas sem acordar o Sr. Ambrósio. Pelo caminho, aprendem a colaborar, a inventar soluções e a confiar umas nas outras.

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Quatro meninas de 12 anos atravessam uma passarela de rede baixa sobre a areia: Inês (cabelo castanho preso em rabo de cavalo, camiseta amarela, short azul) marcha atrás segurando a mão de Marta; Marta (cabelo loiro encaracolado, camiseta rosa, jeans dobrados) hesita com um pé numa tábua, mãos erguidas para equilibrar-se; Joana (cabelo castanho curto, óculos redondos, vestido verde) está no meio equilibrando uma tábua e murmurando “centro de gravidade”; Sara (cabelos longos pretos, regata listrada, short bege) na frente puxa nós de corda junto a uma rocha, sorrindo. Ao lado, um pequeno caranguejo laranja-avermelhado está sobre uma boia azul; à direita há um carrinho de gelados em tons pastéis com o vendedor Sr. Vieira (cerca de 60 anos, chapéu de palha, bigode branco, avental colorido) aplaudindo; ao fundo, o Sr. Ambrósio (cerca de 70 anos, chapéu sobre os olhos, camisa xadrez) dorme numa espreguiçadeira à sombra de uma palmeira. A praia é rochosa e ensolarada, com dunas de areia dourada, rochas planas, algas escuras, tábuas ruidosas e pequenas poças brilhantes sob um céu azul com poucas nuvens. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1

A praia da Baía do Caracol estava em modo “cartão-postal”: sol a brilhar, gaivotas a discutir batatas fritas invisíveis e o mar a fazer aquele barulho de “shhh” como se quisesse contar segredos.

A Inês, a Joana, a Marta e a Sara—todas com doze anos e uma energia que dava para carregar um farol—chegaram com mochilas, toalhas e um saco de bolachas que já vinha a meio.

—Hoje é dia de aventura —declarou a Inês, a líder do grupo sem precisar de levantar a voz. Ela era otimista por natureza, do tipo que via “oportunidade” até num guarda-sol que teimava em fugir com o vento.

—Aventura? Eu só queria que a areia não entrasse na sandes —resmungou a Marta, já a sacudir grãos que pareciam ter plano de carreira.

A Sara apontou para uma placa espetada perto das dunas, com letras tortas pintadas à mão:

“DESAFIOS IMPOSSÍVEIS DO SR. VIEIRA. Prémio: 1 gelado gigante (legalmente gigante).”

Ao lado da placa estava o próprio Sr. Vieira, o velho vendedor de gelados, com um chapéu de palha enorme e um bigode que parecia ter sido desenhado com marcador.

—Meninas! —ele anunciou, teatral—. Hoje preciso de… coragem juvenil e mãos rápidas. Quem vencer os meus desafios leva o Gelado Colossal. Duas bolas por cima, três por baixo e uma bolacha a servir de trono.

—Isso nem é fisicamente estável —sussurrou a Joana, que adorava ciência e tinha cara de quem calculava ângulos até a olhar para conchas.

—É por isso que é impossível! —o Sr. Vieira piscou um olho.

A Inês aproximou-se com um sorriso:

—Quais são os desafios?

—Primeiro: atravessar a “Passadeira do Caranguejo” sem tocar na areia. Segundo: tocar o Sino das Dunas sem fazer o Sr. Ambrósio acordar.

—Quem é o Sr. Ambrósio? —perguntou a Sara, já a cheirar confusão.

O Sr. Vieira apontou para uma espreguiçadeira a meia sombra. Um senhor adormecido roncava com tanta convicção que até as conchas vibravam.

—Ele. Acorda com tudo. Uma vez acordou com um pensamento.

As quatro olharam umas para as outras. Gelado gigante de um lado. Desafios “impossíveis” do outro. A resposta foi óbvia.

—Vamos! —disse a Inês, e o “vamos” soou como um plano simpático, não como uma ordem.

Capítulo 2

A “Passadeira do Caranguejo” era uma zona entre rochas baixas e areia fofa, onde uma fileira de cordas velhas estava esticada, como se fosse um percurso secreto. O Sr. Vieira explicou:

—Regras simples: pés não podem tocar na areia. Só podem usar o que encontrarem na praia. E… cuidado com os caranguejos. Eles gostam de opiniões.

A Marta olhou para a areia como se a areia a tivesse ofendido pessoalmente.

—Como é que isto é possível? Não há pedras suficientes.

A Inês respirou fundo.

—Vamos experimentar. Primeiro passo: observar.

A Sara já tinha apanhado duas tábuas pequenas trazidas pela maré e um balde meio enterrado. A Joana, metódica, examinou um monte de algas como se fossem material de laboratório.

—Podemos usar as tábuas como “sapatos” —sugeriu a Sara.

—Ou como catapultas —disse a Marta, esperançosa.

—Sem catapultas —riu-se a Inês—. Vamos com calma.

Primeira tentativa: puseram uma tábua no chão, subiram em cima como quatro pinguins apressados e tentaram “passar” a tábua para a frente. Parecia simples… até não ser.

—Um, dois, três… mexe! —gritou a Inês.

A tábua mexeu, mas a gravidade fez aquele truque clássico: a Marta escorregou e aterrou na areia com um “puf” que parecia um bolo a cair.

—Falhei por razões artísticas —disse ela, com areia na sobrancelha.

De repente, um caranguejo apareceu, levantou uma pinça e fez um “clac” que soou a gargalhada.

—Viram? Eles julgam-nos! —queixou-se a Marta, apontando para o crustáceo como se fosse um crítico de teatro.

A Joana tentou equilibrar-se no balde, mas o balde rodou. A Sara deu um passo para salvar a Joana e… tocou na areia.

O Sr. Vieira, ao longe, anunciou com um sino pequenino:

—Primeira tentativa: oficialmente… um espetáculo. Mas não passou!

A Inês pousou os pés na areia de propósito e levantou as mãos.

—Ok. Pausa. Não vamos discutir com a areia. Vamos pensar melhor.

Ela reuniu o grupo numa roda, como uma capitã a juntar a tripulação.

—O que correu mal?

—Faltou atrito —disse a Joana, séria, como se a palavra “atrito” fosse uma amiga.

—Faltou dignidade —disse a Marta.

—Faltou mais tábuas —disse a Sara.

A Inês assentiu, tranquila.

—Então fazemos de outra forma. Vamos transformar isto num jogo de equipa. E ninguém fica para trás.

Capítulo 3

A segunda tentativa começou com uma expedição pela praia, como se estivessem a caçar tesouros. A Inês ia à frente, mas perguntava sempre:

—Joana, o que achas? Sara, encontras algo leve? Marta, queres ser responsável pelo “departamento de coisas estranhas”?

—Isso é o meu sonho —respondeu a Marta, já a revirar uma caixa de esferovite que parecia ter viajado desde outro planeta.

Encontraram: duas tábuas maiores, uma bóia furada, três tampas de plástico, uma rede de pesca velha e um guarda-sol partido. A Sara olhou para o guarda-sol e sorriu com malícia.

—E se… não usássemos os pés? —disse ela.

—Como assim? Andamos de mãos? —perguntou a Marta, já a imaginar as dores no dia seguinte.

A Joana pegou na rede e esticou-a.

—E se fizermos uma espécie de “tapete” suspenso? Como uma ponte de rede, apoiada nas rochas… com a bóia para flutuar se cair.

—Uma ponte de rede com bóia de segurança —a Inês repetiu—. Isso soa… totalmente sensato e absolutamente ridículo. Perfeito.

Trabalharam em equipa. A Inês distribuía tarefas sem mandar:

—Sara, tu tens jeito para nós e nós. Podes prender a rede?

—Joana, calculas onde a rede aguenta mais peso?

—Marta, precisas de uma missão de heroína: testar o primeiro passo.

—Testar? Eu? Porquê? —Marta arregalou os olhos.

—Porque és a mais dramática. Se aguentar contigo, aguenta com qualquer uma —disse a Inês, e a Marta ficou ofendida por dois segundos… e depois orgulhosa.

A rede ficou esticada entre duas rochas e presa com nós que a Sara fazia como se tivesse sido pirata noutra vida. Puseram as tábuas por cima, para distribuir o peso, e a bóia ficou amarrada ao lado, a boiar numa poça, como um cão de guarda preguiçoso.

—Momento oficial: Marta, pisa —disse a Inês.

A Marta pôs um pé na tábua. A tábua rangeu como um avô a levantar-se do sofá. A Marta congelou.

—Se eu cair, avisem a minha mãe que eu… —começou ela.

—…que tu caíste com estilo —completou a Sara.

A Inês aproximou-se, sem pressa, e estendeu a mão.

—Vamos juntas. Um passo de cada vez. Eu sigo ao lado.

E assim foram atravessando: uma a uma, com a Inês sempre a ajudar quem hesitava, a Joana a dizer “centro de gravidade!” como se fosse um feitiço, a Sara a fazer piadas sobre “ponte VIP” e a Marta a narrar tudo como um documentário de sobrevivência.

Um caranguejo tentou atravessar também, subiu na rede, escorregou, e acabou sentado na bóia, com ar ofendido.

—Olhem! O caranguejo está a usar o nosso sistema de segurança! —riu-se a Joana.

Quando chegaram ao fim, sem tocar na areia, o Sr. Vieira tocou o sino pequenino como se fosse fanfarra.

—Passadeira do Caranguejo: concluída! —gritou ele—. Os caranguejos estão… moderadamente impressionados!

O caranguejo fez “clac” uma vez, que podia significar “parabéns” ou “vou dominar o mundo”. Ninguém quis confirmar.

—Agora o Sino das Dunas —disse a Inês, e o coração dela bateu como um tambor feliz. O “impossível” já parecia um brinquedo.

Capítulo 4

O Sino das Dunas ficava no topo de uma duna alta, pendurado numa armação de madeira. Lá em baixo, a poucos metros, o Sr. Ambrósio dormia na espreguiçadeira, com um chapéu a tapar os olhos e um ronco em três tempos: “Rrrr… rr… RRRR!”

O Sr. Vieira sussurrou, exagerando o drama:

—Têm de tocar o sino. Só uma vez. Se o Sr. Ambrósio acordar… perdem. Ele é simpático, mas faz perguntas. Perguntas intermináveis.

—Pior que um teste surpresa —murmurou a Sara.

Começaram a subir a duna. A areia cedia a cada passo, como se a duna estivesse a dizer “voltem amanhã”. A Marta, atrás, já reclamava:

—A areia aqui é diferente. É areia com atitude.

No topo, o sino brilhava ao sol. Parecia inocente, mas, quando a Joana encostou um dedo para testar, ele fez um “tin!” microscópico que lhes congelou os ossos.

Lá em baixo, o ronco do Sr. Ambrósio mudou de ritmo.

As quatro agacharam-se como se fossem agentes secretos… mas agentes secretos de chinelos.

—Plano A: tocar muito devagar? —sugeriu a Sara.

—Plano A vai falhar —disse a Joana—. Um sino é literalmente feito para fazer barulho.

A Inês olhou à volta. Viu um monte de conchas grandes, um pacote vazio de batatas fritas preso numa planta e uma pena de gaivota a dançar ao vento.

—Precisamos de humor e suavidade —disse ela. —Não podemos lutar contra o sino. Temos de… enganá-lo.

—Como se engana um sino? —Marta perguntou.

A Sara levantou o pacote de batatas fritas.

—Com isto? Faz barulho de “crac crac”.

—Isso acorda o Sr. Ambrósio em segundos —disse a Joana.

A Inês pegou na pena da gaivota e sorriu.

—E se… fizermos o sino tocar por fora, mas sem metal a bater em metal?

A Joana arregalou os olhos.

—Amortecimento! Se colocarmos algo macio entre o badalo e o sino…

Encontraram um pedaço de tecido esquecido (uma meia solitária, misteriosa e muito corajosa) e envolveram o badalo do sino. A Sara amarrou com um nó. A Marta aproximou-se para tocar.

—Se isto der errado, eu finjo desmaio artístico —avisou ela.

A Inês colocou uma mão no ombro da Marta, leve.

—Tu consegues. E se não conseguir, nós resolvemos juntas.

A Marta puxou a corda. O sino fez: “tuf”. Um som tão fofinho que parecia um sofá a suspirar.

Lá em baixo, o Sr. Ambrósio virou-se… e continuou a dormir.

As quatro taparam a boca para não rir alto. A Sara quase caiu para trás, de tanto se segurar.

—Conseguimos! —sussurrou a Joana, triunfante.

—O sino ficou educado —disse a Sara.

—O impossível tem cócegas —respondeu a Inês.

O Sr. Vieira, ao longe, levantou os braços em vitória silenciosa e apontou para o carrinho de gelados como se fosse um tesouro lendário.

Capítulo 5

De volta à sombra do carrinho, o Sr. Vieira preparou o Gelado Colossal com um cuidado exagerado, como um escultor maluco: duas bolas por cima, três por baixo, e a bolacha-trono no topo.

—Promessa cumprida —disse ele, entregando o gelado numa taça tão grande que parecia uma bacia.

A Marta olhou para aquilo com reverência.

—Isto não é um gelado. Isto é um monumento.

O Sr. Vieira fez um gesto de “esperem”.

—Ainda falta a última parte. A tradição manda terminar com um jogo final: “A Corrida do Gelado Sem Drama”.

—Sem drama? Então a Marta está automaticamente desclassificada —disse a Sara.

—Eu posso ser drama controlado —defendeu-se a Marta, levantando um dedo pegajoso de areia inexistente.

O jogo era simples e hilariante: tinham de levar o Gelado Colossal até uma toalha marcada com conchas, sem deixar cair nada e sem discutir. Se discutissem, o Sr. Vieira tocava o sino pequenino e voltavam ao início.

A Inês dividiu o “monumento” em tarefas:

—Joana, tu vais à frente a escolher o caminho mais plano. Sara, tu vais ao lado direito a equilibrar. Marta, lado esquerdo—e respira antes de falar. Eu vou atrás a segurar e a lembrar-nos que isto é para nos divertirmos.

—Isso é… liderança doce —murmurou a Joana, e a Inês fingiu não ouvir, mas sorriu.

Começaram a andar. A taça balançava como um barco numa mini tempestade de risos. A Sara tropeçou numa concha.

—Concha assassina! —sussurrou ela, em modo teatral.

—Desvia à esquerda! —disse a Joana, apontando com precisão.

A Marta abriu a boca para fazer um comentário dramático, viu o olhar calmo da Inês e decidiu canalizar a energia para outra coisa:

—Eu… eu estou a fazer cara de estátua. Estátuas não falam.

O Sr. Vieira observava com o sino pronto. As gaivotas, claro, seguiram como fãs insistentes.

A meio do caminho, uma rajada de vento tentou roubar a bolacha-trono. A bolacha levantou uma ponta, como se quisesse fugir para uma vida mais emocionante.

—Emergência! —disse a Sara, segurando-a com dois dedos.

—Sem pânico —disse a Inês, e falou baixinho, como se estivesse a acalmar um animal arisco. —Joana, caminho mais rápido. Marta, segura firme. Sara, mantém a bolacha no trono. Eu ajusto a taça.

Chegaram à toalha marcada com conchas e pousaram a taça no centro. O gelado manteve-se inteiro, alto e orgulhoso, com a bolacha no topo a parecer uma coroa.

Por um segundo, ninguém falou. Era como se o próprio mar estivesse a esperar o resultado.

O Sr. Vieira tocou o sino pequenino uma única vez, alegre:

—Vitória! Sem drama… quase sem drama!

A Marta levantou os braços.

—Eu fui um drama silencioso! Isso conta como maturidade?

—Conta como milagre —disse a Sara.

Sentaram-se à volta do Gelado Colossal e comeram às colheradas, rindo com a cara já a colar e a língua a ficar de cores impossíveis.

A Inês olhou para as amigas, para o sol e para a ponte de rede que ainda balançava ao longe, e pensou que “impossível” era muitas vezes só uma palavra… à espera de uma ideia engraçada e de uma equipa que se ouve.

—Amanhã fazemos outro desafio? —perguntou a Sara, com a boca cheia.

—Amanhã —disse a Inês— inventamos nós. E desta vez, os caranguejos é que vão ter de passar na passadeira.

O caranguejo da bóia apareceu perto da água, ergueu uma pinça e fez “clac”.

Parecia aceitar o desafio. Ou talvez estivesse só a pedir uma colher.

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Cartão-postal
Imagem bonita que parece saída de um postal, muito perfeita e arrumada.
Teatral
Que é feito com exagero, como numa peça de teatro.
Atrito
Força que impede duas superfícies de deslizar facilmente uma sobre a outra.
Catapultas
Aparelhos ou ações que lançam algo com força para longe.
Expedição
Viagem organizada para explorar ou procurar coisas.
Tripulação
Grupo de pessoas que trabalham juntas numa aventura ou missão.
Gravidade
Força que puxa tudo para o chão ou para a terra.
Amortecimento
Ato de tornar um choque ou som mais suave e menos forte.
Badalo
Peça dentro de um sino que bate na parede para produzir som.
Fanfarra
Toque de instrumentos, como uma pequena festa sonora.
Espreguiçadeira
Cadeira longa onde se deita, usada para descansar ao ar livre.
Moderadamente
De forma média, nem demasiado nem muito.
Suspenso
Algo preso ou apoiado no ar, sem tocar no chão.

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