Capítulo 1 — O Clube dos Recordes Esquisitos
Na cave do prédio do Tomás havia um cartaz torto feito com fita-cola e caneta preta: “CLUBE DOS RECORDES FARFELOSOS — ENTRADA SÓ PARA CORAJOSOS (E COM FOME)”.
Lá dentro, quatro rapazes de onze anos ocupavam o “quartel-general”: um tapete velho com migalhas, uma mesa baixa cheia de tampas de garrafa e um sino de bicicleta que servia para “momentos oficiais”.
Tomás era o presidente autoproclamado e dono do sino. O Rui era o inventor, sempre com elásticos no bolso. O Léo era o estratega, adorava fazer listas. E o Nuno… o Nuno tinha uma habilidade rara: caía sem se magoar e ainda fazia parecer que era de propósito.
— Ordem de trabalhos! — anunciou Tomás, tocando o sino: trin-trin-triiin.
— A última ordem de trabalhos acabou com o teu dedo preso no agrafador — lembrou Rui.
— Detalhes históricos — disse Tomás, soprando a mão como se tivesse acabado de assar uma pizza.
Nesse instante, alguém bateu à porta da cave. Três pancadas curtas, como se o visitante tivesse pressa, mas também educação.
Era a Dona Palmira, a vizinha do rés-do-chão, com um pacote na mão e um olhar de quem já viu muita coisa… e não gostou de metade.
— Meninos, ouvi dizer que vocês fazem… recordes — disse ela, escolhendo as palavras como quem escolhe espinhas no peixe.
— Fazemos! — respondeu Léo, alinhando-se.
— Farfelos, mas com ciência! — acrescentou Rui, exibindo um elástico como se fosse uma medalha.
— E sem partir nada… quase sempre — completou Nuno, cruzando os dedos atrás das costas.
Dona Palmira ergueu o pacote. Lá dentro, claramente visível através do plástico, estava um tarte de maçã.
— Então façam este recorde: entreguem este tarte ao senhor Artur, do quinto esquerdo, sem tremer, sem entornar, sem espreitar pelo caminho e sem falar alto no corredor. O elevador está avariado. E… — ela estreitou os olhos — …sem provar.
Os quatro engoliram em seco ao mesmo tempo. Foi tão sincronizado que pareceu um recorde à parte.
— Isso é… — começou Tomás.
— Impossível! — terminou Rui, com o tom dramático de quem anuncia o fim do mundo.
— Silêncio no corredor e sem provar? — Nuno arregalou os olhos. — Mas eu respiro alto!
— E não espreitar pelo caminho? — Léo já estava a imaginar uma lista de “coisas para não fazer”.
Dona Palmira sorriu, mas daquele jeito que parecia simpático e perigoso ao mesmo tempo.
— Quero ver se vocês sabem ouvir. O senhor Artur está doente, precisa de descanso. Se conseguirem, eu… — ela fez uma pausa — …conto-vos o segredo do recorde mais estranho deste prédio.
Tomás tocou o sino, nervoso.
— O Clube aceita o Desafio Impossível do Tarte Inabalável!
Capítulo 2 — O Plano Simples (e um Pouco Ridículo)
Assim que Dona Palmira saiu, os quatro rodearam o tarte como arqueólogos em volta de uma relíquia.
— Regra número um: não provar — disse Léo, escrevendo com caneta num papel. — Regra número dois: não tremer. Regra número três: não falar alto. Regra número quatro: não espreitar pelo caminho.
— E regra número cinco: respirar baixinho — acrescentou Nuno, inspirando como um hamster discreto.
Rui bateu na mesa.
— Precisamos de um plano simples. Nada de engenharia pesada. Só… criatividade.
— Criatividade eu tenho — disse Tomás. — Tenho um capacete de bicicleta.
— Isso não é criatividade. Isso é… segurança rodoviária — corrigiu Léo.
— Serve! — Rui já estava com os olhos a brilhar. — Vamos fazer o “Suporte Anti-Tremeliques”.
Ele puxou uma bandeja redonda, quatro elásticos, uma t-shirt velha e… um rolo de fita-cola que parecia ter sobrevivido a três guerras.
— A bandeja vai ser a base. A t-shirt vai ser a rede. Os elásticos vão… elasticar. E a fita-cola vai colar coisas que não querem ser coladas.
— Isso descreve quase tudo na vida — comentou Nuno.
Em cinco minutos, construíram uma espécie de “cama elástica” para tarte: bandeja em baixo, t-shirt esticada por cima, elásticos presos nos lados.
Tomás pousou o tarte no meio. A massa tremeu um bocadinho, como se tivesse medo de altura.
— Agora, cada um segura uma ponta — explicou Rui. — Se alguém tremer, os outros compensam.
— Como uma equipa de futebol, mas com açúcar — disse Léo.
— E silêncio total — lembrou Tomás, apontando para a boca e fazendo “zip” com um fecho imaginário.
Nuno levantou a mão.
— E se eu espirrar?
— Não espirras — respondeu Léo, com a calma de quem acha que mandar é a mesma coisa que resolver.
— Eu não controlo os espirros! Eles controlam-me a mim!
— Então… — Rui pensou um segundo — …quando sentires um espirro, levanta o cotovelo e aponta para o chão. Abafa. Como um ninja.
— Um ninja com alergias — murmurou Nuno, aceitando.
Antes de saírem, Tomás tocou o sino uma última vez.
— Missão: subir cinco andares, entregar o tarte, sem tremeliques, sem falatório e sem… — olhou para o tarte — …lamber o ar.
— Eu nem lambo o ar — disse Rui.
— Eu já lambi o ar sem querer quando comi algodão-doce numa feira — confessou Nuno.
— Concentração — cortou Léo. — Ouvir as regras. Ouvir o corredor. Ouvir os passos.
Os quatro pegaram no “Suporte Anti-Tremeliques” como se carregassem um tesouro muito frágil.
E saíram para o corredor, onde o silêncio parecia ter ouvidos.
Capítulo 3 — O Corredor Que Queria Falar
O primeiro desafio não foi a escada. Foi o corredor.
Dois vizinhos estavam a discutir junto às caixas do correio, em modo “teatro ao vivo”.
— Eu disse que o teu gato me olhou com desprezo! — dizia um.
— O meu gato não olha com desprezo. Ele olha com personalidade! — respondia o outro.
Os rapazes avançaram devagar, com o tarte a balançar como um barco num lago muito calmo… mas cheio de crocodilos imaginários.
Tomás fez um gesto de “silêncio” tão exagerado que quase parecia que estava a dirigir uma orquestra muda.
Rui piscou os olhos: “não falem, não falem”.
Léo, com a lista na cabeça, contava passos.
Nuno respirava tão baixo que parecia que tinha desligado.
Um dos vizinhos viu-os.
— Olha! Quem são estes? — perguntou alto.
Tomás apertou os lábios. Rui olhou para o teto. Léo fingiu que era uma coluna. Nuno, por instinto, fez uma vénia. Uma vénia silenciosa. Parecia um mordomo a pedir desculpa por existir.
Os vizinhos ficaram confusos e, por um milagre raro, calaram-se para observar.
Os quatro passaram como se estivessem a transportar um cristal secreto. O tarte brilhou um bocadinho sob a luz amarela do corredor, só para provocar.
— Cheira bem — sussurrou um vizinho, mas tão baixo que não contou como conversa.
Nuno engoliu saliva. Uma gota de água na boca fez “ploc” de tentação.
Chegaram às escadas. O elevador avariado estava com a porta meio aberta, como uma boca a bocejar.
Rui apontou para a escada.
— Subida em modo tartaruga.
Léo levantou um dedo: “um degrau de cada vez”.
Tomás tocou imaginariamente o sino na cabeça.
Nuno fez cara de “eu consigo, eu consigo”, mas o nariz dele já estava a preparar um espirro traiçoeiro.
No primeiro lance, tudo correu bem. No segundo, ouviram uma coisa terrível: um miar lá em cima.
Um gato apareceu no patamar, exatamente no centro do caminho, sentado como um rei preguiçoso.
E olhou para o tarte.
Léo sussurrou sem som, só com os lábios: “Não. Es. Prei. Tar.”
Tomás, em pânico, quase falou, mas mordeu a língua a tempo.
O gato levantou-se e começou a descer… na direção deles.
Nuno sentiu o espirro crescer, como um balão.
Rui, rápido, tirou um elástico do bolso e esticou-o devagar, fazendo um “plim” quase mudo.
O gato parou, curioso.
Rui repetiu, e o gato, convencido de que era um espetáculo privado, seguiu o som para o lado, afastando-se do centro.
Léo fez sinal de “avançar”.
Tomás avançou.
Nuno avançou… com o espirro preso na garganta, a lutar como um peixe num balde.
No terceiro lance, o espirro explodiu.
Nuno virou o cotovelo para o chão, como ninja, e fez:
— HNFF!
O som foi tão estranho que parecia um pneu a desinflar com vergonha. Mas funcionou: ninguém ouviu muito, e o tarte apenas tremelicou um milímetro.
Tomás arregalou os olhos, impressionado.
— (Sem som) Bravo — disse ele, só com a boca.
E continuaram a subir, com o coração aos saltos e o tarte a manter-se… teimosamente inteiro.
Capítulo 4 — O Patamar das Armadilhas Ridículas
No quarto andar, o patamar estava cheio de coisas que não deviam estar num patamar: um tapete enrolado, um saco de lixo bem cheio e um carrinho de compras abandonado, como se tivesse decidido morar ali.
— Isto é uma pista de obstáculos — murmurou Rui, sem som nenhum, só mexendo os lábios.
Léo apontou para a “Regra número dois” imaginária: não tremer.
Tomás fez uma careta. O tarte parecia mais pesado agora, talvez por saber que estava a ser observado.
Eles tentaram passar pelo tapete enrolado. O “Suporte Anti-Tremeliques” quase encostou no saco do lixo.
E o saco do lixo… mexeu.
Todos congelaram. Nuno ficou tão quieto que um mosquito poderia ter estacionado na testa dele.
De dentro do saco, ouviu-se um “crac-crac”, como se alguém estivesse a comer batatas fritas com muita convicção.
O saco abriu um bocadinho… e apareceu um ouriço-cacheiro. Um ouriço! Com um pedaço de bolacha na boca e cara de “não fui eu”.
Tomás quase soltou um grito. Quase. O grito ficou preso no peito e virou um suspiro dramático.
Léo aproximou-se devagar e fez sinal com a mão, como quem dirige um animalzinho numa travessia.
O ouriço, ofendido, enrolou-se numa bola e… começou a rolar.
Rolou para a frente.
Diretinho para o carrinho de compras.
O carrinho, ao sentir o choque leve, começou a andar sozinho, devagar, com as rodinhas a fazer “cóc-cóc-cóc”.
E adivinhem? O carrinho foi na direção deles.
Rui abriu muito os olhos. Tomás deu um passo para trás. Léo tentou calcular uma saída. Nuno, em desespero, apontou para a bandeja: “não deixem cair!”
Nesse segundo, Rui teve uma ideia tão simples que parecia parva — portanto, perfeita.
Pegou no sino de bicicleta que Tomás tinha no bolso (Tomás levava o sino para tudo, como se fosse um amuleto) e tocou bem baixinho:
trin…
O carrinho parou. Como se estivesse a ouvir.
Rui tocou outra vez, agora fazendo o sino deslizar para o lado, como um “chama” para carrinhos.
trin… trin…
O carrinho seguiu o som, desviando-se deles e encostando à parede.
Léo olhou para Rui com respeito.
— (Sem som) Tu… falas… carrinhês.
Rui encolheu os ombros. “É só ouvir o ritmo”, respondeu com um gesto.
O ouriço, já desenrolado, cheirou o ar, sentiu o perfume do tarte, fez um “snif” exagerado e… decidiu que tinha assuntos importantes noutro lugar. Desapareceu por uma fresta.
Eles passaram, finalmente, e chegaram ao quinto andar.
A parte “impossível” estava quase a acabar.
Ou era isso… que o prédio queria que eles pensassem.
Capítulo 5 — A Porta do Senhor Artur e o Quiproquó do Século
No quinto andar, o corredor parecia mais comprido. As lâmpadas piscavam como se estivessem a contar uma piada má.
Chegaram à porta do quinto esquerdo. A placa dizia “Artur”. A campainha parecia um botão de nave espacial.
Tomás ia carregar, mas Léo agarrou-lhe o pulso.
— Lembra-te: sem falar alto. O senhor Artur precisa de descanso.
Tomás assentiu e carregou com a delicadeza de quem toca num pudim.
Ding.
Nada.
Ding.
Ouviram passos arrastados. A porta abriu só uma fresta e apareceu um olho.
— Quem… é? — uma voz fraca.
Tomás abriu a boca, mas lembrou-se do “fecho” imaginário. Apontou para o tarte e fez um sorriso enorme.
A porta abriu mais um pouco, e apareceu o senhor Artur: um homem com ar cansado, mas com um bigode tão perfeito que parecia desenhado com régua.
— Ah… — ele cheirou o ar — …o tarte da Palmira.
Nuno quase desmaiou de alívio.
Então aconteceu o quiproquó.
O senhor Artur olhou para a “cama elástica” de t-shirt e elásticos, viu os quatro a segurar nas pontas, viu o silêncio absoluto… e franziu o sobrolho.
— Vocês… estão a fazer uma serenata? — perguntou, confuso. — Uma… dança do tarte?
Tomás ficou tão surpreendido que quase riu. Segurou a gargalhada com as duas mãos, como se fosse um balde cheio.
Léo, sempre educado, tentou explicar com gestos: apontou para o tarte, apontou para o coração, apontou para a boca fechada. Parecia um mimo a falar de pastelaria.
Rui fez o gesto de “equilíbrio”, como um acrobata invisível.
Nuno, sem querer, fez novamente uma vénia.
O senhor Artur ficou sério por um segundo… e depois começou a rir. A rir baixinho, mas a rir mesmo, com os ombros a sacudir.
— Há dias em que o melhor remédio é isto — disse ele, enxugando uma lágrima. — Um tarte… e quatro rapazes mudos a fazer de mesa.
Tomás, finalmente, deixou escapar uma frase, bem baixinha:
— Entrega especial. Recorde… farfeloso.
— Conseguiram — disse o senhor Artur, agora com voz mais forte. — E fizeram-me ouvir algo que eu não ouvia há dias: risos… sem barulho.
Ele abriu a porta por completo e indicou um aparador.
— Pousem aqui. Devagar.
Os quatro, em perfeita coordenação, baixaram o “Suporte Anti-Tremeliques” e colocaram o tarte no aparador. Inteiro. Brilhante. Triunfante.
Rui soltou o ar.
Léo fez um “check” invisível na lista.
Nuno limpou o suor da testa.
Tomás quis tocar o sino, mas lembrou-se do silêncio e só o levantou no ar, como se fosse um troféu.
O senhor Artur piscou o olho.
— E agora… — disse ele — …vão ouvir uma coisa.
Capítulo 6 — O Segredo, a Lição e a Próxima Loucura
Quando voltaram à cave, Dona Palmira já estava à porta, como se tivesse um radar para tarte entregue com sucesso.
— Então? — perguntou, cruzando os braços.
Tomás tocou o sino com cuidado, agora já podia: trin-trin!
— Recorde cumprido! — anunciou. — Tarte entregue. Sem tremores. Sem falatório. Sem prov… — ele engasgou-se — …sem provar.
Dona Palmira arregalou os olhos, impressionada apesar de tentar não mostrar.
— Muito bem. Sabem qual é o segredo do recorde mais estranho deste prédio?
Os quatro inclinaram-se para a frente.
— O recorde é este: o senhor Artur consegue adivinhar o humor das pessoas… só pelo som dos passos no corredor.
— A sério? — perguntou Nuno.
— A sério — disse Dona Palmira. — E hoje, pelos vossos passos, ele percebeu duas coisas: que vocês estavam nervosos… e que vocês estavam a ouvir. A ouvir as regras. A ouvir o silêncio. A ouvir o que importava.
Léo ficou pensativo.
— Nós queríamos ganhar o recorde… mas tivemos de ouvir para conseguir.
— Exato — disse Dona Palmira. — Às vezes, ouvir é o truque mais inteligente.
Rui levantou um dedo.
— E o segredo… era para nós ou para ele?
— Para os dois — respondeu ela. — E agora, como prometido, aqui vai um extra: amanhã vou precisar de ajuda para outro desafio “impossível”.
Tomás já estava a sorrir.
— Qual?
Dona Palmira apontou para cima, para os andares.
— O senhor Artur perdeu o chapéu favorito. Diz que ele “fugiu” para algum lugar do prédio. Vocês vão ter de o encontrar… seguindo pistas… sem assustar o ouriço… e, de preferência, sem hipnotizar carrinhos de compras.
Nuno arregalou os olhos.
— Eu não hipnotizei nenhum carrinho!
Rui tossiu, tentando esconder um sorriso.
Léo já estava a imaginar uma nova lista.
Tomás ergueu o sino como se fosse uma espada.
— Clube dos Recordes Farfelosos — declarou — aceita!
E, no silêncio breve que veio depois, todos ouviram uma coisa lá ao longe no corredor: passos lentos… e um “trin” muito baixinho, como se o prédio também quisesse entrar no clube.