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História sobre a ecologia 11 a 12 anos Leitura 18 min.

Os binóculos da Marta e o talude das flores

Marta e os amigos descobrem um talude florido no parque, aprendem a observar a natureza com paciência e decidem agir para proteger o lugar e reduzir o lixo.

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Menina de 12 anos, rosto redondo e olhos brilhantes, cabelo castanho claro preso em rabo de cavalo, com binóculos no pescoço, luvas verdes e um pequeno saco de reciclagem, sorri e aponta para uma nova lixeira seletiva; à sua direita, um menino de 12 anos, cabelo preto bagunçado, admira e toca o metal da lixeira; perto do talude florido, uma menina de 6–7 anos de tranças, surpresa e contente, segura uma bola; o parque é um talude suave coberto de pequenas flores amarelas, violetas e brancas, com gramado, um caminho de terra e uma plaquinha “Zona amiga dos polinizadores”; há um contentor de triagem de três compartimentos coloridos (azul, amarelo, verde) à beira do caminho, abelhas, uma joaninha vermelha com pontos pretos e um pássaro marrom observam a cena; esquema de cores vivas e suaves, traços arredondados e contornos grossos, luz quente de fim de tarde, atmosfera calma e otimista em estilo chibi kawaii, com composição centrada nos personagens e na lixeira. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1

A Marta tinha 11 anos e um riso que aparecia depressa, como quando se acende uma lanterna num quarto escuro. Era sociável: falava com a vizinha do terceiro, com o senhor da mercearia, com as amigas da escola e até com a senhora que passeava o cão sempre à mesma hora.

Nessa tarde de sábado, o sol estava morno e o vento cheirava a relva cortada. A Marta atravessou o pátio do prédio com uma mochila leve e umas binóculos pendurados ao pescoço. Parecia uma exploradora, mas sem mapa do tesouro — só com curiosidade.

— Vais aonde, Marta? — perguntou o Tomás, do 6.º B, que aparecia muitas vezes de trotinete, sempre com uma energia a mais.

— Ao parque. Quero ver os pássaros na zona do talude. A mãe disse que há lá um sítio cheio de flores para os insetos.

— Posso ir? — ele travou com um guincho curto. — Prometo que não faço barulho… muito.

— Podes, mas com uma condição: paciência — disse a Marta, levantando um dedo, séria como uma professora. — A observação é uma coisa que se faz devagar.

O Tomás fez uma cara dramática.

— Paciência? Isso dá para aprender?

— Dá. E começa hoje.

Foram a pé, pela rua tranquila, desviando-se de pequenas poças da rega. A Marta sentia o peso confortável dos binóculos, como se fossem um segredo ao alcance dos olhos. Quando chegaram ao parque, ouviram logo um coro de sons: crianças ao longe, folhas a sussurrar, e um “tchic-tchic” rápido vindo das árvores.

— Ouves? — a Marta sussurrou.

— Ouço tudo — respondeu o Tomás, também em sussurro, como se a voz baixa fosse uma capa invisível.

Ela sorriu. A aventura não precisava de perigos. Bastava prestar atenção.

Capítulo 2

O talude ficava perto de um caminho de terra batida, numa parte do parque onde quase ninguém parava. Era uma encosta suave, coberta de flores pequenas e resistentes: malmequeres, trevos roxos, umas flores amarelas que pareciam gotas de sol, e outras brancas como botões de camisa. Havia placas de madeira a dizer: “Zona amiga dos polinizadores — não pisar”.

— Uau… — o Tomás aproximou-se e depois lembrou-se da placa. Parou a tempo, como se a palavra “não” tivesse virado uma cerca. — Então isto é tipo um restaurante de insetos?

— Mais ou menos — disse a Marta. — As abelhas e as borboletas vêm cá buscar néctar. E, ao ajudarem as flores, ajudam as plantas a fazer sementes. É um ciclo.

O ar ali parecia diferente: mais doce, mais vivo. Uma abelha passou com um zumbido determinado, como uma pessoa atrasada para uma reunião importante. Uma borboleta pousou numa flor roxa e fechou as asas devagar, como quem dobra uma carta com cuidado.

— Olha! — a Marta apontou, mas sem esticar demasiado o braço. — Vês aquela borboleta? Tem uma mancha azul.

O Tomás tentou acompanhar com o dedo e quase se inclinou demais.

— Estou a ver… acho. Ela não para quieta.

— Nem nós devemos correr atrás. Espera. — A Marta ajoelhou-se, colocando a mochila no chão com delicadeza. — A paciência é isto: dar tempo às coisas para acontecerem perto de nós.

O Tomás respirou fundo, exagerado.

— Está bem. Estou a ser um monge do talude.

A Marta riu baixinho, para não assustar ninguém — nem insetos, nem pássaros, nem a própria paz daquele lugar. Ela levantou os binóculos e começou a procurar com os olhos, como se o mundo fosse um livro e ela estivesse a tentar encontrar uma frase escondida.

Ao longe, num ramo fino, um passarinho castanho deu um salto curto. Outro, com o peito mais claro, virou a cabeça de lado, curioso.

— Vê por aqui — disse a Marta, passando os binóculos ao Tomás.

Ele pegou neles como se fossem um objeto frágil e valioso.

— Uau… isto aproxima tudo! — os olhos dele ficaram redondos. — Parece que o pássaro está a dizer “olá”.

— Talvez esteja — respondeu a Marta. — Mas nós é que temos de saber dizer “olá” sem incomodar.

Ficaram ali, quietos, a aprender uma linguagem feita de silêncio e atenção.

Capítulo 3

Passaram alguns minutos que pareceram longos e curtos ao mesmo tempo. Longos porque o Tomás mexia o pé de vez em quando, como se o chão fosse uma cadeira desconfortável. Curtos porque, de repente, a Marta encontrou o que procurava.

— Ali! — sussurrou, entusiasmada, mas com controlo. — No topo daquela árvore. Vês o pássaro com a cabeça preta?

O Tomás ajustou os binóculos, com as mãos menos tremidas do que antes.

— Vejo! Ele está a… a bater as asas, mas não voa.

— Está a ajeitar as penas — explicou a Marta. — Como quando tu penteias o cabelo depois do banho.

— Então os pássaros também têm vaidade.

— Ou só higiene — ela respondeu, a brincar.

De repente, um som de plástico a arrastar chamou a atenção deles. Perto do caminho, havia uma lata amassada e um saco de batatas fritas preso num arbusto baixo. O saco tremia ao vento como uma bandeira triste.

A Marta franziu o nariz.

— Isto não devia estar aqui.

— Podemos apanhar? — perguntou o Tomás, já a dar um passo.

— Podemos, mas com cuidado. E sem entrar na zona das flores.

A Marta tirou da mochila um par de luvas finas que a mãe lhe dava sempre “para emergências”. Pareciam exagero até deixarem de ser.

Apanharam a lata e o saco, usando as luvas e procurando não tocar nas plantas. A Marta observou, com atenção, um caracol que atravessava uma pedra, lento e brilhante, como se carregasse uma gota de chuva nas costas.

— Ele demora imenso — comentou o Tomás.

— E chega na mesma — disse a Marta. — Isso também é paciência.

— Gostava de ser caracol antes dos testes de matemática.

A Marta riu. Guardaram o lixo num saco que ela trazia dobrado, sempre preparado.

— E agora, onde pomos isto? — perguntou o Tomás, olhando em volta. Havia um caixote comum perto dos baloiços, mas era longe e não tinha divisão.

A Marta suspirou.

— Queria que houvesse um ponto de reciclagem aqui. Com separação, mesmo. Papel, plástico, vidro…

— Tipo uma poubelle de tri — disse o Tomás, usando a palavra que tinha ouvido num vídeo.

— Sim, uma dessas. — A Marta olhou para o talude florido e sentiu uma vontade firme, como raiz a agarrar a terra. — Se o parque pode ter uma zona para insetos, também pode ter uma zona para separar o lixo.

— E se pedíssemos? — o Tomás perguntou, com um brilho novo. — A sério.

A Marta ficou a olhar para ele, surpresa e contente.

— A sério.

Capítulo 4

No dia seguinte, a Marta levou a ideia para a escola. Era segunda-feira, e o corredor cheirava a livros e a casacos molhados, porque tinha chovido de manhã. Na sala, ela falou com a professora Clara, que tinha uma voz calma e um hábito de escutar até ao fim.

— Professora, no parque perto do talude das flores, há lixo às vezes. Nós apanhámos, mas… não há caixote de reciclagem. Só um caixote normal, longe.

A professora Clara cruzou as mãos, pensativa.

— Isso é uma observação importante. E o que achas que podemos fazer?

A Marta já tinha ensaiado a coragem.

— Podíamos escrever uma carta à Junta. Ou à Câmara. A pedir uma poubelle de tri. E explicar porquê.

O Tomás, sentado duas mesas atrás, levantou logo o braço como se estivesse numa competição.

— E podemos juntar assinaturas! E fazer um cartaz! E… e… — ele engasgou-se um pouco com a própria pressa.

A professora Clara sorriu.

— Uma coisa de cada vez, Tomás. Isso também é ecologia: não gastar energia à toa. — Depois olhou para a Marta. — Queres liderar o grupo?

A Marta sentiu o coração bater mais rápido, mas não era medo. Era aquela sensação boa de responsabilidade.

— Quero.

Nessa semana, juntaram um pequeno grupo: a Inês, que desenhava muito bem; o Hassan, que adorava números e queria calcular “quantas embalagens se deitam fora por dia”; e a Leonor, que era ótima a falar sem ficar nervosa.

Trabalharam no texto da carta durante vários intervalos. A Marta queria que fosse respeitosa e clara. A professora Clara ajudou a escolher as palavras certas, sem complicar.

“Somos alunos do 6.º ano e frequentamos o parque… Observámos… Acreditamos que um ponto de separação de resíduos ajudaria…” A Marta escreveu, apagou, voltou a escrever.

— Estás a demorar — resmungou o Tomás, abanando a perna.

— Estou a afinar — respondeu a Marta. — Uma carta é como fazer pão: precisa de tempo para ficar boa.

— Eu pensei que o pão se fazia na padaria.

— E na padaria também se espera — disse ela, com um olhar divertido.

No fim, anexaram fotos do local (sem pessoas, só o caminho, o talude e o caixote distante), e um desenho da Inês com três compartimentos coloridos. O Hassan acrescentou um parágrafo com números estimados, prudentes, “aproximados”, como a professora insistiu.

— A paciência não é só esperar — disse a professora Clara, ao entregar-lhes o envelope. — É fazer bem, sem desistir a meio.

A Marta segurou o envelope como se fosse uma semente.

Capítulo 5

Enviar a carta foi fácil. Esperar pela resposta foi o desafio.

Os dias passaram, e a Marta voltou várias vezes ao parque com os binóculos. Às vezes ia com o Tomás, outras com o pai, que gostava de caminhar em silêncio. A Marta descobriu que o silêncio ao lado de alguém também pode ser uma conversa.

Numa tarde de céu limpo, ela e o Tomás sentaram-se num banco de madeira com vista para o talude florido. O ar tinha um cheiro verde, como se as folhas tivessem acabado de acordar.

— Aposto que eles vão ignorar — disse o Tomás, a atirar pedrinhas para um sítio onde não havia flores.

— Talvez demore — respondeu a Marta. — Mas não é a mesma coisa.

Ela levantou os binóculos. Um pássaro pequeno, com uma barriga amarela, pousou num ramo e cantou três notas, como se estivesse a testar uma flauta.

— Quem és tu? — a Marta sussurrou.

— O quê? Ele não vai responder — disse o Tomás, mas sem gozo, só com curiosidade.

— Não com palavras. Mas ele responde ficando. Se nós cuidarmos do lugar, eles ficam.

Mais abaixo, no talude, uma joaninha caminhava numa haste fina, equilibrando-se como num circo. A Marta observou o seu passo minúsculo e sentiu uma tranquilidade nova: as coisas importantes nem sempre acontecem em grandes explosões. Muitas vezes acontecem em passos pequenos.

— Sabes, às vezes eu queria fazer tudo rápido — confessou o Tomás, olhando para as flores. — Tipo, resolver o problema do lixo num dia.

— Eu também — admitiu a Marta. — Mas a natureza não trabalha assim. Uma árvore não cresce porque alguém tem pressa.

O Tomás ficou um instante calado, como se estivesse a tentar imaginar uma árvore a levar um “empurrão” para crescer mais depressa.

— Então… o que fazemos enquanto esperamos?

A Marta apontou para o saco na mochila.

— Continuamos a apanhar o que encontramos. E a ensinar, sem ralhar. Um gesto de cada vez.

Nesse momento, viram uma criança mais pequena a aproximar-se do talude, com a bola quase a rolar para dentro da zona protegida. A Marta levantou-se devagar.

— Olá! — disse, com um sorriso. — Sabes que estas flores são a casa das abelhas? Se a bola entrar aí, podemos ir buscá-la juntos, com cuidado.

A criança parou, surpresa, e depois segurou a bola com as duas mãos.

— Desculpa… eu não sabia.

— Não faz mal — respondeu a Marta. — Agora já sabes.

Voltou ao banco com uma sensação quente no peito. O Tomás fez um gesto como se tirasse um chapéu invisível.

— Senhora Embaixadora do Talude — brincou ele.

— Senhor Aprendiz de Paciência — devolveu ela.

E os dois ficaram a observar, como se o parque fosse um filme tranquilo que vale a pena ver sem avançar.

Capítulo 6

Numa sexta-feira, quando a Marta chegou a casa, encontrou a mãe com uma carta na mão e um sorriso nos olhos.

— Marta, veio resposta.

A Marta largou a mochila no chão e aproximou-se, tentando não parecer desesperada.

— E então?

A mãe leu em voz alta. A Junta agradecia a iniciativa, dizia que tinha avaliado o pedido e que iria instalar uma nova poubelle de tri junto ao caminho principal do parque, perto da zona amiga dos polinizadores. Também pediam que os alunos ajudassem a divulgar o uso correto.

A Marta sentiu um salto por dentro, como um pássaro a abrir as asas.

— Conseguimos! — disse ela, e a voz saiu numa mistura de alegria e alívio.

No dia da instalação, a turma foi ao parque com a professora Clara. Estava um dia luminoso, e o talude parecia ainda mais colorido, como se as flores também estivessem em festa.

Os funcionários colocaram o novo contentor de tri: três compartimentos bem visíveis, com cores e símbolos. Perto dele, uma pequena placa dizia: “Obrigado por separar. Pequenos gestos, grande cuidado.”

O Tomás chegou ofegante, como se tivesse corrido até ali só para ver a realidade com os próprios olhos.

— É mesmo verdade! — disse, passando a mão pelo metal novo. — Isto é… isto é tipo um final feliz, mas real!

A Marta riu.

— Não é o fim. É um começo melhor.

A professora Clara juntou a turma e pediu silêncio por um minuto. Não era um silêncio pesado. Era um silêncio de atenção, como quando se ouve um pássaro ao longe.

— Hoje vocês viram uma coisa importante — disse a professora. — Vocês observaram, agiram com respeito e tiveram paciência. A mudança veio, devagar, mas veio.

A Marta olhou para o talude. Uma abelha pousou numa flor amarela. Um pássaro atravessou o céu, riscando o azul com a sua pressa natural. E, ali ao lado, a nova poubelle de tri brilhava discretamente, pronta para ajudar.

A Inês colou um cartaz que tinha desenhado: “Separa aqui. Protege ali.” O Hassan explicou a um senhor curioso como cada compartimento funcionava. A Leonor mostrou a duas crianças onde pôr uma garrafa vazia. Tudo parecia simples, possível.

O Tomás aproximou-se da Marta e falou mais baixo.

— Afinal, paciência é tipo… não desistir enquanto as coisas estão a caminho.

A Marta ajustou os binóculos ao pescoço.

— Sim. E também é reparar que, enquanto esperamos, ainda podemos cuidar.

Antes de irem embora, ela levantou os binóculos uma última vez. No ramo alto da árvore, o passarinho de cabeça preta estava lá outra vez, firme, atento, como se também aprovasse.

A Marta sorriu para ele, sem pressa nenhuma, e depois olhou para o parque inteiro: as flores, os insetos, as pessoas, o novo contentor de tri.

Era um lugar comum, do dia a dia. E, mesmo assim, parecia um pouco mais bonito — porque agora havia mais cuidado dentro dele.

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Talude
Uma encosta ou colina suave, coberta de plantas e flores.
Polinizadores
Animais que ajudam as flores a criar sementes, como abelhas e borboletas.
Néctar
Líquido doce dentro das flores que alimenta abelhas e borboletas.
Binóculos
Instrumento que aproxima objetos distantes para vermos melhor.
Compartimentos
Espaços separados dentro de algo, usados para pôr coisas diferentes.
Resíduos
Restos e lixo que as pessoas deixam depois de usar algo.
Contentor de tri
Recipiente com separações para colocar lixo já separado por tipo.
Poubelle de tri
Expressão em francês para um caixote onde se separa o lixo por tipos.

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