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História sobre a ecologia 11 a 12 anos Leitura 23 min.

A torneira que pingava e o balcão cheio de verde

Lia e os amigos investigam uma torneira que não para de pingar no prédio e, com a ajuda de um vizinho, descobrem como pequenos gestos — desde consertos simples a hortas no balcão — podem cuidar da água e unir a comunidade.

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Uma menina de 12 anos, emotiva e determinada, sorri suavemente com as mãos cheias de terra enquanto planta pequenas sementes de rúcula num vaso de plástico reciclado; à esquerda, Inês, também de 12 anos, alegre e curiosa, segura um regador colorido e observa com olhos brilhantes; à direita, Amir, 12 anos, calmo e atento, ajoelhado, coloca uma etiqueta manuscrita "rúcula" num vaso; ao fundo, o senhor Álvaro, cerca de 70 anos, bondoso e enrugado, observa no limiar da porta com as mãos na terra e um sorriso terno; local: uma varanda estreita e luminosa com grades metálicas, fileira de vasos feitos de garrafas cortadas e caixas de madeira, etiquetas coloridas e uma pequena caixa de composto com folhas verdes brilhantes; situação: as três crianças plantam e regam no sol da manhã, gotas microscópicas cintilam, poeira de terra nos dedos, uma joaninha vermelha numa folha, atmosfera calorosa e colaborativa; paleta: verdes vivos, terra marrom profunda, toques de amarelo e azul céu, textura aquarela suave com contornos leves tipo doodle. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O som que ninguém via

Lia tinha 11 anos e um ouvido atento para coisas pequenas. No apartamento dela, as coisas pequenas eram um elevador que gemia, um pombo que batia as asas na janela e, sobretudo, um som que parecia uma gota a cair dentro da cabeça: plim… plim… plim…

— Mãe, o lavatório está a pingar outra vez — avisou ela, já a meio do corredor.

A mãe apareceu com o cabelo preso à pressa e uma caneca de chá na mão.

— Ainda? Eu fechei bem… — Ela aproximou-se, rodou a torneira com força e fez uma careta. — Pronto.

Lia ficou a olhar. Não por teimosia, mas por cuidado. Quando uma torneira pingava, parecia que a casa estava a esquecer-se de respirar com calma.

— Sabes que isso gasta água, não sabes? — disse Lia, num tom que não era de ralhete, era de pedido.

O pai, que estava a calçar os sapatos, riu-se.

— A nossa fiscal da água!

— Não é ser fiscal — respondeu Lia, cruzando os braços. — É… é que eu imagino um rio a perder-se em gotas. Parece bobo, mas eu imagino mesmo.

O irmão mais velho, o Tomás, enfiou a cabeça pela porta da cozinha.

— Se tu imaginas rios, eu imagino séries. E eu também odeio quando a internet pinga.

Lia fez uma careta e depois riu-se. A conversa era leve, mas o assunto não desaparecia. Ela sabia que não era “o fim do mundo” uma torneira a pingar, mas também sabia que os pequenos desperdícios se somavam, como migalhas que acabam por encher o chão.

Antes de sair para a escola, pegou num caderno de capa verde — onde escrevia ideias, frases e desenhos de folhas — e escreveu uma linha:

“Se a água fala, ela pede silêncio.”

Na escola, a professora Helena anunciou uma atividade para a turma do 6.º ano:

— Este mês vamos fazer um pequeno projeto: “Gestos simples, planeta feliz”. Em grupos, vão observar um lugar do dia a dia e pensar em maneiras de o tornar mais amigo do ambiente. Pode ser a escola, a rua, a vossa casa, o prédio… E o mais importante: tem de ser realista.

Lia sentiu um calor bom no peito. Realista era a palavra dela.

No intervalo, a amiga Inês aproximou-se com a mochila às costas.

— Lia, queres fazer comigo? — perguntou, mordendo uma maçã. — Eu tenho ideias, mas tu tens… como é que se diz… radar de torneiras.

— Tenho ouvidos de gota — respondeu Lia, divertida. — Sim, faço contigo.

Perto delas, o Amir, colega novo, hesitou com um papel na mão. Ele tinha chegado há pouco tempo ao bairro e ainda falava português com um sotaque que deixava as palavras mais redondas.

— Eu posso… entrar no grupo? — perguntou, com cuidado. — Eu gosto de plantas. No prédio onde eu morava antes, tinha uma varanda com tomates.

Inês sorriu logo.

— Claro! Quanto mais, melhor.

Lia fez um gesto para ele se juntar, sentindo que aquilo era exatamente o que a professora queria: um grupo que cabia todo no mesmo banco sem empurrões.

— Combinado — disse Lia. — Vamos observar… o nosso prédio. Tem muitas coisas para melhorar.

Quando voltou para casa, no fim do dia, o som do lavatório estava quieto. Mas, ao passar pelo corredor, Lia ouviu outra coisa: uma torneira a pingar no apartamento de baixo, através da caixa de escadas, como se o prédio inteiro fosse um grande ouvido.

Ela parou, a mão no corrimão.

— Não pode ser… — sussurrou, mais para si do que para alguém.

E foi aí que a aventura começou, não com um mapa do tesouro, mas com um som teimoso e uma vontade de cuidar.

Capítulo 2 — O vizinho das varandas verdes

No dia seguinte, Lia desceu as escadas com a Inês e o Amir para “observar o prédio”, como se fossem exploradores com pranchetas invisíveis. O prédio cheirava a detergente e a pão quente vindo de algum apartamento. No patamar do 3.º andar, havia sempre um vaso meio triste com uma planta a tentar sobreviver.

— Isto podia ser mais bonito — comentou Inês, apontando para o vaso. — E mais… vivo.

— Olhem ali — disse Amir, inclinando-se sobre o corrimão. — Há uma varanda com muitas plantas.

Lia seguiu o dedo dele e viu, no 2.º andar, um balcão cheio de verde: manjericão, alfaces, pequenos vasos com etiquetas feitas à mão. Parecia uma mini-floresta organizada.

— É do senhor Álvaro — explicou Lia. — Ele mora aqui desde sempre. Dizem que conversa com as plantas.

— Eu converso com o meu gato e ele não responde — disse Inês. — Plantas ao menos não julgam.

Riram os três. Mas, quando passaram perto da porta do senhor Álvaro, Lia ouviu de novo: plim… plim… plim… A torneira a pingar não era ali. Era mais abaixo, talvez no rés-do-chão. Mesmo assim, o som atravessava a escada como um fio de água invisível.

Lia respirou fundo e tocou à campainha do vizinho do balcão verde. Talvez ele soubesse algo. Ou talvez apenas pudesse ensinar gestos simples.

A porta abriu-se devagar. O senhor Álvaro tinha cabelos brancos despenteados e uma camisola com manchas de terra, como se a jardinagem o tivesse abraçado.

— Boa tarde, miúdos. O que vos traz aqui? — A voz dele era tranquila, como sombra num dia quente.

— Estamos a fazer um projeto da escola sobre ecologia — disse Lia. — E… eu reparei no seu balcão. É incrível.

O senhor Álvaro sorriu, orgulhoso sem ser exibido.

— Incrível é uma palavra grande para um punhado de vasos, mas eu aceito. Querem ver?

Os três entraram com cuidado, como se estivessem a visitar um museu vivo. O balcão cheirava a folhas esmagadas e a terra húmida. Havia garrafas de plástico cortadas a servir de vasos e uma caixa com cascas de legumes a secar.

— Isto é compostagem — explicou ele, ao notar os olhos curiosos. — Os restos viram comida para a terra. A terra agradece e dá-nos folhas novas. É como um ciclo, percebem?

Amir inclinou-se para cheirar o manjericão.

— Cheira a pizza.

— É o perfume mais honesto do mundo — disse o senhor Álvaro, piscando o olho. — Querem plantar alguma coisa?

Inês arregalou os olhos.

— Nós podemos?

— Aqui ninguém precisa de licença para pôr uma semente na terra — respondeu ele.

Lia sentiu-se acolhida. E, ao mesmo tempo, lembrou-se da torneira.

— Senhor Álvaro… o senhor já ouviu uma torneira a pingar no prédio? Parece que está sempre a gastar água, mas eu não sei de onde vem.

O vizinho coçou o queixo.

— Ah, o “plim” misterioso. Eu ouço, sim. Às vezes vem do rés-do-chão, perto da arrecadação. Acho que é uma torneira velha de serviço. Ninguém liga, porque não está dentro de casa… e o que não se vê, esquece-se.

Lia olhou para os amigos. A Inês fez um “ah!” de quem encontra uma pista. Amir assentiu, sério.

— Podemos ver? — perguntou Lia.

— Podem, mas com cuidado. E, já agora… levem isto — disse o senhor Álvaro, oferecendo-lhes três sementes pequenas em papel dobrado. — São de rúcula. Crescem depressa e são teimosas, como… — Ele olhou para Lia. — como quem não gosta de torneiras a pingar.

Lia corou e riu.

— Obrigada. Vamos cuidar bem delas.

Ao saírem, o senhor Álvaro ainda acrescentou:

— E lembrem-se: ecologia não é só plantas. É também pessoas. Se forem falar com alguém sobre a torneira, falem com respeito. Ninguém gosta de ser chamado de desperdiçador.

Lia guardou essa frase como quem guarda uma folha dentro de um livro.

Capítulo 3 — A torneira do rés-do-chão

Na tarde de sexta-feira, depois das aulas, Lia desceu com o pai. Ela tinha pedido ajuda, porque sabia que mexer em canos não era tarefa para pré-adolescentes, por mais determinadas que fossem.

— Tens certeza de que é aqui? — perguntou o pai, segurando a lanterna do telemóvel.

— O senhor Álvaro disse que sim. E eu… eu ouço — respondeu Lia, guiando-o.

No rés-do-chão, perto da porta da arrecadação, havia um pequeno lavatório de serviço. A torneira estava fechada… mas pingava. Não era um pingar tímido. Era um pingar insistente, como alguém a bater à porta.

Plim. Plim. Plim.

Lia sentiu um aperto no estômago, mas também uma alegria estranha: finalmente tinha um lugar concreto para o som.

— Coitadinha — murmurou ela, olhando para a torneira como se fosse um animal ferido.

O pai aproximou-se, tocou na torneira, rodou, testou.

— A borracha está gasta. Isto não fecha bem. E olha… — apontou para uma mancha escura no chão. — A água escorre e fica aqui. Pode até estragar o chão.

Nessa hora, a dona Lurdes, a vizinha do 1.º esquerdo, passou com sacos de compras.

— O que se passa aqui? — perguntou, desconfiada.

Lia endireitou as costas. Lembrou-se do conselho do senhor Álvaro.

— Boa tarde, dona Lurdes. Encontrámos a torneira que está a pingar. Achamos que está a desperdiçar água e a estragar o chão. Queremos ajudar a resolver, se puder.

Dona Lurdes olhou para a torneira, depois para Lia, e suspirou.

— Eu ouço isso há meses. Mas achei que era “da responsabilidade de alguém”. E esse alguém nunca aparece, não é?

O pai de Lia sorriu, com jeito de quem quer acalmar.

— Pode ser responsabilidade do condomínio. Eu posso falar com o administrador. Para já, vou tentar trocar a borracha e apertar. É uma coisa simples.

Amir e Inês chegaram nesse momento, com um bloco de notas para o projeto.

— Uau, encontraram mesmo! — exclamou Inês, baixinho, como se fosse um segredo.

Amir ajoelhou-se para olhar a poça.

— Uma torneira pequena pode fazer uma poça grande com o tempo — disse ele, com ar pensativo.

Enquanto o pai trabalhava, Lia teve uma ideia.

— Inês, anota: “verificar torneiras comuns do prédio”. E também… “colocar um aviso simpático para as pessoas fecharem bem”.

— Um aviso simpático, não um cartaz mandão — concordou Inês.

— E podemos sugerir um “dia do conserto” — acrescentou Amir. — Cada um pode ver em casa se há fugas. Quem não souber, pede ajuda.

Dona Lurdes abriu um sorriso surpreendido.

— Vocês são organizados. E… gosto de ver miúdos a cuidar do prédio. Às vezes, a gente acha que só adulto resolve.

Lia sentiu o rosto aquecer de orgulho, mas não daquele que cresce e empurra os outros para baixo. Era um orgulho que dá vontade de dividir.

O pai endireitou-se.

— Pronto. Agora vamos testar.

Ele fechou a torneira. Todos ficaram em silêncio, como numa cena de suspense.

Nada.

Passaram-se dois segundos. Três.

O silêncio parecia um cobertor leve.

— Parou! — sussurrou Lia, como se não quisesse assustar a torneira.

Inês fez uma reverência exagerada.

— Senhor Pai da Lia, consertador oficial do reino!

Todos riram, até dona Lurdes.

Lia anotou no caderno verde: “Às vezes, salvar água é só trocar uma borracha.”

E o prédio, por um instante, pareceu respirar melhor.

Capítulo 4 — Sementes no balcão e vozes no mesmo vaso

No sábado de manhã, Lia foi ao balcão do senhor Álvaro com as sementes de rúcula. Inês e Amir apareceram logo depois, cada um com um objeto: Inês trouxe um regador pequeno; Amir, uma garrafa vazia para fazer de vaso.

O senhor Álvaro abriu a porta com uma expressão divertida.

— Ora, a equipa das pequenas mudanças. Entrem.

No balcão, o sol fazia brilhar gotinhas de água nas folhas. O ar cheirava a hortelã e a início de dia.

— Hoje vamos plantar e também pensar no projeto — disse Lia, sentindo-se estranhamente adulta por estar a organizar.

O senhor Álvaro entregou-lhes terra solta, escura e macia.

— Terra boa é como um bom amigo — comentou ele. — Segura-te sem te prender.

Inês olhou para a terra nas mãos.

— Isso foi… profundo — disse ela, tentando não rir.

— Às vezes eu falo assim sem querer — respondeu o vizinho, fingindo ser muito sério. — É culpa das minhocas.

Amir fez um buraco na terra com o dedo.

— No meu país, a minha avó dizia que cada planta é uma história que cresce.

Lia gostou da frase.

— Então vamos escrever histórias no balcão — disse ela.

Plantaram as sementes com cuidado, como quem coloca pequenos segredos no chão. Depois, regaram pouco, só o suficiente.

— Economizar água também é regar bem, não regar muito — explicou o senhor Álvaro. — Melhor regar de manhã cedo ou ao fim da tarde, para não evaporar tanto.

Inês anotou tudo, mas também parou para observar uma joaninha numa folha.

— Ela está a passear, olha! — disse, baixinho.

Lia aproximou-se. A joaninha caminhava devagar, como se medisse o mundo com as patas.

— Pequena e importante — murmurou Lia.

Ali, com as mãos sujas de terra e o vento a mexer nas plantas, ela sentiu vontade de escrever. O poema sobre a planeta que andava a crescer dentro dela desde a linha no caderno.

Sentou-se num banco baixo e abriu o caderno verde. A caneta deslizou, e as palavras vieram como água… mas sem desperdício.

Inês espreitou.

— Estás a fazer o poema?

Lia assentiu.

— Para o projeto. E para mim.

Amir sentou-se ao lado, respeitando o silêncio. O senhor Álvaro fingiu que ia “conversar com as alfaces”, mas na verdade estava a dar espaço.

Lia escreveu:

“Planeta, casa redonda,

de rios que cantam baixinho,

de folhas que fazem sombra

e de ar que enche o caminho.

Se eu fecho bem a torneira,

se apago a luz sem demora,

é como dizer, de leve:

‘Eu cuido de ti, agora.'

E se eu planto uma semente

num balcão de um prédio velho,

nasce um verde pequenino

a lembrar: somos espelho.

Cabe toda a gente aqui,

com sotaque, com história,

mãos diferentes na terra,

um futuro na memória.”

Quando acabou, Lia sentiu os ombros mais leves.

— Está lindo — disse Inês, com sinceridade.

Amir leu a última parte de novo.

“Cabe toda a gente aqui.” Eu gosto disso. Às vezes eu sinto que… ainda estou a tentar caber.

Lia fechou o caderno devagar.

— Tu já cabes — disse ela. — O grupo é nosso. E as plantas não perguntam de onde a gente vem, só pedem cuidado.

O senhor Álvaro aproximou-se, ouvindo o final.

— É essa a inclusão mais simples: fazer espaço e chamar pelo nome — comentou ele. — E vocês fizeram.

No fim da manhã, combinaram colar no prédio um aviso com humor e gentileza: “Ouvidos sensíveis procuram silêncio: feche bem as torneiras. A água agradece.”

E também decidiram partilhar o balcão do senhor Álvaro como parte do projeto: um exemplo real de como reutilizar recipientes, fazer compostagem e cultivar comida em poucos metros.

— Um balcão pode ser um mundo — concluiu Inês, abanando o regador como se fosse um microfone.

— E um mundo pode caber num gesto — respondeu Lia, guardando o poema no caderno.

Capítulo 5 — O projeto e a esperança em voz alta

Na semana seguinte, a turma apresentou os projetos. Lia, Inês e Amir levaram fotografias do lavatório do rés-do-chão (antes e depois), um pequeno gráfico com “gotas poupadas” (estimadas, como a professora ensinara), e um saquinho com folhas de manjericão oferecidas pelo senhor Álvaro — “para cheirar e lembrar”, como ele disse.

Quando chegou a vez deles, Lia sentiu um frio na barriga. Mas olhou para Inês e Amir e lembrou-se: “Cabe toda a gente aqui.”

— Nós observámos o nosso prédio — começou Lia. — E descobrimos uma torneira a pingar no rés-do-chão. Parecia pouca coisa, mas era constante. Consertámos com ajuda de um adulto e avisámos o condomínio.

Inês mostrou o cartaz simpático.

— Também fizemos um aviso para lembrar as pessoas de fechar bem as torneiras. Sem culpa. Só um lembrete.

Amir falou do balcão.

— E aprendemos com um vizinho a fazer uma horta no balcão. Reutilizámos garrafas como vasos e aprendemos a regar com menos desperdício. E compostagem… é como transformar restos em terra nova.

A professora Helena sorriu, satisfeita.

— Isso é muito completo. E muito real.

Lia respirou e, por fim, abriu o caderno verde.

— Eu escrevi um poema, porque às vezes a gente entende melhor quando vira palavra.

Ela leu com voz firme. Na sala, até os colegas mais inquietos ficaram quietos por alguns segundos. Quando terminou, ouviu um “uau” sussurrado lá atrás e um bater de palmas que começou tímido e depois cresceu.

No fim, a professora perguntou:

— Qual é a mensagem principal?

Lia pensou na torneira, no balcão, na joaninha, no Amir a dizer que queria caber.

— Que pequenos gestos não são pequenos quando se repetem — respondeu. — E que é mais fácil cuidar quando fazemos juntos… sem deixar ninguém de fora.

Depois da aula, um colega aproximou-se do Amir.

— Ei, tu sabes mesmo de plantas. Podes ajudar-me a salvar a minha? Acho que ela está a desistir de viver.

Amir riu-se.

— Eu posso tentar. Mas ela tem de querer também.

Lia e Inês trocaram um olhar cúmplice. A inclusão às vezes acontecia assim, num pedido simples.

Em casa, nesse dia, a mãe de Lia mostrou-lhe uma conta de água ligeiramente mais baixa.

— Não sei se foi só por causa da torneira… mas olha, já é alguma coisa.

Lia sorriu.

— Mesmo que seja pouco, é um “pouco” que fica.

Antes do jantar, ela passou pelo lavatório e fechou a torneira com cuidado, como quem fecha um livro sem dobrar a página.

Sem plim. Só silêncio.

Capítulo 6 — Um dodo com cheiro a manjericão

Nessa noite, Lia tomou banho rápido, sem deixar a água a correr enquanto procurava o champô. Depois, reaproveitou a água que ficou numa bacia pequena para molhar a planta da sala, como o senhor Álvaro sugerira.

O pai passou pela porta do quarto.

— A nossa fiscal da água está pronta para descansar?

— Não sou fiscal — disse Lia, bocejando. — Sou… amiga da água.

— Então boa noite, amiga — respondeu ele, apagando a luz do corredor.

Lia deitou-se. O caderno verde estava na mesa de cabeceira, aberto no poema. Ao lado, uma folhinha de manjericão dentro de um copo com água, perfumando o ar de um jeito confortável, como cozinha da avó.

Do lado de fora, a cidade fazia os seus barulhos distantes: um carro, um cão, um elevador. Mas, dentro do apartamento, não havia pingos. Só o som macio do lençol quando ela se mexia.

Ela pensou no balcão do senhor Álvaro, nas sementes de rúcula escondidas na terra, a preparar o seu verde secreto. Pensou na dona Lurdes a sorrir, no Amir a ler “Cabe toda a gente aqui”, na Inês a falar com joaninhas como se fossem celebridades.

Lia fechou os olhos e imaginou o planeta como o seu prédio: cheio de portas diferentes, cheiros diferentes, histórias diferentes. E, ainda assim, ligado por canos e escadas invisíveis. Se uma torneira pingava num canto, o som chegava a todos. Se alguém consertava, o silêncio bom também se espalhava.

Antes de adormecer, sussurrou para o quarto, como se o próprio ar pudesse ouvir:

— Eu cuido de ti, agora.

E adormeceu com um dodo tranquilo, embalado por esperança, por folhas verdes e por um silêncio que parecia dizer: obrigado.

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Torneira
Peça que solta ou segura água numa pia ou lavatório.
Arrecadação
Lugar no prédio para guardar coisas e ferramentas.
Compostagem
Processo de transformar restos de comida em terra para plantas.
Ciclo
Série de acontecimentos que se repetem, como a água e as plantas.
Borracha
Pequena peça de vedação que evita fugas numa torneira.
Detergente
Produto que se usa para lavar e limpar louça ou superfícies.
Sotaque
Jeito de falar que mostra de onde uma pessoa vem.
Responsabilidade
Obrigação de cuidar ou resolver algo que é seu ou comum.
Desperdiçador
Pessoa ou ação que usa algo sem cuidado, gastando demais.
Balcão
Parte exterior da casa onde se colocam vasos, na varanda.
Húmida
Que tem água, ligeiramente molhada.
Poça
Pequena acumulação de água no chão.
Administrador
Pessoa que cuida das decisões e problemas do prédio.

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