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História sobre a ecologia 11 a 12 anos Leitura 16 min.

O mapa dos pequenos gestos no Parque do Miradouro

Um grupo de crianças, guiado pelo professor André, organiza uma ação para limpar o parque e cria ideias criativas para reduzir o lixo, aprendendo que pequenos gestos podem mudar a relação com a natureza.

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Um menino de 12 anos, rosto rondo, cabelo castanho curto salpicado de sol, expressão aliviada e concentrada, segura uma pinça metálica e um saco de tecido bege com uma árvore pintada; ao lado, Inês, cerca de 12 anos, rabo de cavalo preto e sorriso vivo, agacha-se e aponta para um canudo de plástico parcialmente enterrado; Rafa, também cerca de 12 anos, cabelo cacheado e sorriso malicioso, segura um saco já meio cheio e olha para o observador, em pé um pouco atrás; Laila, cerca de 12 anos, cabelos loiros trançados, segura um balão murcho preso a um galho, perto de um arbusto à esquerda; o professor André, homem de 35–40 anos com gorro azul e saco de tecido no ombro, observa benevolente de um banco de madeira; cenário em parque urbano ensolarado com relva aparada, grande carvalho à direita, caminho de pedras cinzentas, alguns bancos e uma lixeira metálica verde ao fundo; cena de recolha de lixo com folhas e papéis ao vento e uma garrafa plástica meio enterrada, gestos calmos e organizados, atmosfera de cooperação; paleta quente e natural, pinceladas visíveis, textura acrílica espessa e luz do final da tarde filtrando pelas folhas. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O parque depois da escola

Naquela sexta-feira, o céu estava limpo, com nuvens fininhas, como se alguém tivesse passado um pincel branco bem de leve. Tomás, de doze anos, caminhou até ao Parque do Miradouro com a mochila a bater nas costas e um nó pequenino no peito. Ele gostava de gente, mas às vezes o barulho do mundo parecia alto demais.

Ao entrar, ouviu logo o som das folhas: um sussurro verde a mexer-se com o vento. Cheirava a terra morna e a relva cortada. Por um instante, Tomás respirou fundo, como se o ar do parque soubesse exatamente o que dizer.

— Tomás! — chamou a Inês, acenando perto do banco de madeira. — Estás pronto?

Perto dela estavam o Rafa e a Laila. O professor André, com um boné azul e um saco de pano enorme, segurava também umas luvas.

— Hoje é a nossa “Missão Parque Limpo” — anunciou ele. — Simples: apanhar lixo e aprender a evitar mais lixo. Sem pressas, sem heroísmos. Só atenção.

Tomás olhou em volta. Parecia tudo tão bonito… e mesmo assim viu, entre a relva, um papel de rebuçado, brilhante como uma escama de peixe.

— Isso estraga o parque — murmurou, mais para si do que para os outros.

A Laila ouviu e sorriu:

— Também estraga o nosso humor.

O Rafa abriu o saco de pano como quem abre a boca de um dragão simpático.

— Bora alimentar o dragão com lixo!

Tomás soltou uma risadinha. O nó no peito afrouxou.

O professor distribuiu pinças, luvas e sacos mais pequenos.

— Trabalhem em dupla. E, se encontrarem algo perigoso, avisem-me.

Tomás ficou com a Inês. Ela era rápida a falar e rápida a reparar nas coisas.

— Olha ali — disse ela, apontando para debaixo de um arbusto. — Um copo de plástico… e uma palhinha.

Tomás agachou-se. A palhinha estava meio enterrada, como uma minhoca que não devia estar ali.

— É tão leve… e fica tanto tempo — disse ele, sentindo uma pontada de tristeza.

— Então a gente tira — respondeu a Inês, prática. — E depois pensa numa forma de não aparecer outra.

Tomás apanhou a palhinha com a pinça e colocou-a no saco. O saco fez um som seco, como um “ploc” de promessa.

Capítulo 2 — O mapa dos pequenos gestos

À medida que avançavam pelo parque, o saco de Tomás ficava mais pesado. Encontraram tampas, guardanapos amassados, um pacote de batatas fritas que ainda cheirava a sal, e até um balão murchinho preso num ramo.

— Coitado — disse Tomás, ao libertar o balão com cuidado. — Parece um peixe fora de água… só que de borracha.

— É um peixe triste — concordou a Inês. — Mas hoje a gente salva o ramo.

O professor André aproximou-se e tirou do bolso um caderno.

— Quero que cada dupla faça um “mapa dos pequenos gestos”. Não é um mapa com ruas. É um mapa com ideias. Cada vez que apanharem um tipo de lixo, escrevam uma ideia para evitar aquilo no futuro.

O Rafa ouviu e riu:

— Um mapa para não nos perdermos… no lixo?

— Exatamente — disse o professor. — E, se tiverem ideias criativas, melhor.

Tomás pegou numa caneta e o caderno pareceu-lhe um lugar seguro, como se as palavras pudessem arrumar o mundo.

Encontraram uma garrafa de plástico meio escondida numa poça.

— Garrafa — disse a Inês.

Tomás escreveu: “Levar cantil. Encher na escola. Decorar com autocolantes para ter vontade de usar.”

— Decorar? — perguntou a Inês, com as sobrancelhas levantadas.

— Sim — respondeu Tomás, encolhendo os ombros. — Se for bonito, a gente lembra. E se lembrar, usa.

A Inês fez um “hmm” de aprovação.

— Gostei. A criatividade também protege.

Mais à frente, acharam um monte de recibos e panfletos, espalhados como folhas falsas.

— Estes voam por todo o lado — disse Tomás, juntando-os.

No caderno escreveu: “Dizer ‘não' a panfletos. Usar bilhete digital quando der. Fazer um quadro em casa para recados, em vez de papéis soltos.”

O Rafa passou correndo, com o saco a balançar:

— Encontrei um tesouro! — gritou ele.

— Se for uma casca de banana, não é tesouro — respondeu a Laila.

— É uma… colher de plástico! — disse o Rafa, triunfante, como se fosse uma espada.

O professor André levantou o dedo:

— Boa descoberta. E agora a pergunta: como evitar colheres descartáveis?

Tomás pensou na mochila, no estojo, nos bolsos cheios de coisas pequenas.

— Podemos levar um kit — disse ele. — Tipo… uma colher e um garfo reutilizáveis, daqueles de metal. Ou bambu.

— E guardar numa bolsinha — completou a Inês. — A minha avó cose. Posso pedir para ela ensinar.

A Laila sorriu:

— Kit de sobrevivência… para sobreviver às cantinas!

Todos riram. E o parque, com os seus cheiros e sombras, parecia rir também, balançando as folhas.

Capítulo 3 — A visita ao supermercado e o olhar nos embrulhos

Quando os sacos já estavam bem cheios, o professor André reuniu o grupo.

— Bom trabalho. Agora vamos fazer uma pequena paragem no supermercado ali ao lado. Sem comprar muita coisa. A ideia é observar.

Tomás estranhou.

— Observar o quê?

— Os embrulhos — respondeu o professor. — Às vezes a solução começa antes do lixo existir.

O supermercado era iluminado e frio, com um cheiro misturado de pão, fruta e detergente. As prateleiras brilhavam, cheias de cores e plásticos que faziam “crac” só de olhar.

— Uau… aqui tem lixo antes de ser lixo — sussurrou o Rafa, como se estivesse num museu estranho.

O professor André guiou-os até à secção das bolachas.

— Comparem estas duas — disse ele, mostrando uma caixa de cartão e um pacote todo de plástico. — O que notam?

A Inês apontou:

— A caixa de cartão parece mais fácil de reciclar.

— Mas às vezes tem plástico dentro — lembrou a Laila, espiando pela abertura.

Tomás pegou na caixa com cuidado, como quem segura um animal pequeno.

— Se tiver plástico dentro, vira “duas camadas” de lixo — disse ele. — Uma coisa dentro da outra, como aquelas bonecas.

O professor sorriu.

— Boa imagem. E o que podemos fazer?

Tomás olhou para as opções e sentiu a cabeça a trabalhar devagar, mas firme.

— Escolher o que tem menos camadas — disse. — E comprar em maior quantidade quando fizer sentido… para evitar muitos pacotinhos.

O Rafa fez uma careta:

— Mas eu gosto de pacotinhos. São fofos.

— Fofos… e multiplicadores — respondeu a Laila, rindo.

Passaram pelas frutas. Havia bananas sem nada, mas também maçãs em bandejas de esferovite embrulhadas em plástico.

— Isto é… roupa para fruta — disse Tomás, com um humor meio indignado.

A Inês encostou a testa ao carrinho vazio:

— A maçã já tem casaco: a casca.

O professor André pediu:

— Cada um escolhe uma coisa do supermercado e inventa uma alternativa mais amiga do planeta. Criativa, mas possível.

Tomás parou diante de um expositor de iogurtes, todos em copinhos individuais.

Pensou em casa, no frigorífico, na mãe a separar o lixo com paciência.

— E se existisse iogurte em frasco retornável? — disse ele. — A gente devolvia e eles lavavam.

— Isso já existe em alguns sítios — respondeu o professor. — Ótimo, Tomás. Ideias assim ajudam a mudar hábitos.

A Inês escolheu as garrafas de sumo:

— Eu queria uma fonte de sumo na escola, para encher a garrafa — disse ela, empolgada. — Tipo aquelas de água.

O Rafa apontou para um saco enorme de batatas:

— E se as batatas viessem em sacos de papel resistentes, com um desenho que dava para recortar e fazer um jogo?

A Laila bateu palmas devagar:

— Um embrulho que vira brincadeira. Isso é genial.

Tomás sentiu um calor bom no peito. Não era só “não fazer”. Era inventar.

Antes de saírem, o professor comprou apenas dois itens: um saco de maçãs sem embalagem e um pão colocado num saco de pano que ele trazia.

— Pequenas escolhas — disse ele — somam-se.

Tomás olhou para o saco de pano e decidiu que queria um também. Talvez pudesse desenhar nele uma árvore grande, com raízes que pareciam linhas de um mapa.

Capítulo 4 — A oficina das ideias e o saco que fala

No dia seguinte, encontraram-se na escola, na sala de artes. As janelas estavam abertas e entrava um vento com cheiro de chuva distante.

O professor André colocou os sacos de lixo recolhidos no parque num canto, bem fechados.

— Hoje não vamos mexer neles — explicou. — Hoje vamos mexer nas ideias.

Em cima das mesas, havia restos de tecido, canetas de pintar, linhas, botões, tesouras sem ponta e jornais velhos.

— Vamos criar coisas úteis — disse ele. — E vamos escrever no “mapa dos pequenos gestos” o que cada um vai tentar fazer esta semana.

Tomás escolheu um pedaço de tecido cru. Ao tocar nele, sentiu-o áspero e firme, como uma promessa que aguenta o dia inteiro.

— Posso fazer um saco? — perguntou.

— Claro — respondeu a Inês. — A minha avó trouxe uma máquina de costura emprestada para a turma. Ela disse que é uma máquina “que não se queixa”.

— Máquina de costura que não se queixa? — o Rafa arregalou os olhos. — A minha caneta queixa-se sempre quando eu escrevo muito.

Tomás riu e começou a desenhar no tecido com lápis: uma árvore enorme, copa redonda, tronco cheio de linhas. Nas raízes, desenhou pequenos objetos: um cantil, um garfo, uma caixa de lanche. Era como se a árvore guardasse hábitos bons.

A Laila passou e comentou:

— Parece que a árvore está a segurar o mundo.

— Ou a ensinar — disse Tomás, concentrado. — Tipo… “eu fico de pé, vocês também conseguem”.

Enquanto costuravam, conversavam sobre coisas simples: levar lanche em caixa, recusar palhinhas, usar guardanapo de pano, pedir para desligar luzes desnecessárias.

O Rafa levantou um porta-lápis feito de uma lata:

— Olhem! Antes era uma lata de milho. Agora é a minha casa para canetas.

— Casa de canetas — repetiu Tomás. — Gostei disso. As coisas também merecem uma segunda vida.

No fim, Tomás segurou o saco pronto. Tinha a árvore desenhada e, no canto, uma frase pequena: “Levo comigo o que quero ver no mundo.”

A Inês leu e assobiou, impressionada:

— Uau. Isso é quase… poesia.

Tomás corou um pouco.

— Eu só… pensei.

O professor André pediu para todos completarem uma frase no caderno:

“Esta semana, eu vou…”

Tomás escreveu devagar: “Esta semana, eu vou levar cantil e talheres reutilizáveis, e vou reparar nas embalagens antes de comprar.”

Ao escrever, sentiu que o nó no peito já não era nó. Era um laço, a prender uma decisão.

Capítulo 5 — Um regresso ao parque e um obrigado silencioso

Na semana seguinte, voltaram ao Parque do Miradouro, desta vez só para passear e ver como estava. Tomás levou o saco de pano novo pendurado no ombro. Dentro, tinha o cantil e uma maçã solta, sem bandeja nem plástico.

O parque estava mais verde do que ele lembrava. Talvez fosse porque agora olhava com atenção. O sol atravessava as folhas e fazia manchas de luz no chão, como moedas espalhadas.

— Olha — disse a Inês, apontando para o relvado — quase não há lixo.

— Quase — respondeu o Rafa, dramatizando. — Ainda vi um papelzinho minúsculo. O inimigo é pequeno, mas nós somos teimosos!

A Laila encontrou o papel e colocou-o no bolso para deitar no caixote mais tarde.

— Teimosia boa — disse ela.

Tomás afastou-se um pouco, até um grupo de árvores altas que faziam sombra fresca. Encostou a mão ao tronco de uma delas. A casca era rugosa, com sulcos como linhas da palma de uma mão muito antiga.

Ele fechou os olhos. Ouviu o vento, os pássaros, e ao longe uma bola a bater no chão. Sentiu o cheiro da madeira e da terra.

Pensou nas embalagens do supermercado, no balão preso ao ramo, na palhinha enterrada. Pensou no saco de pano, nas raízes desenhadas, e no jeito como cada ideia parecia uma semente.

A Inês aproximou-se devagar.

— Estás bem? — perguntou, baixinho.

Tomás abriu os olhos.

— Estou… só a pensar que as árvores fazem tanta coisa sem a gente pedir — disse ele. — Dão sombra, ar, silêncio… e a gente às vezes paga com lixo.

A Inês encostou também a mão no tronco.

— Então vamos pagar com cuidado.

O professor André juntou-se a eles e, por um momento, não disse nada. Apenas olhou para cima, para as folhas a mexerem-se como um mar pequeno.

Tomás respirou fundo e falou, quase como se estivesse a falar com a árvore:

— Obrigado.

Não foi um “obrigado” alto. Foi um “obrigado” que cabia na sombra.

O Rafa, que tinha ouvido, aproximou-se e tentou não fazer piada… mas fez na mesma, baixinho:

— Obrigado, árvores… por não fugirem quando a gente esquece as coisas.

A Laila riu, com doçura:

— E por continuarem aqui, a ensinar.

Tomás olhou para os amigos. Sentiu uma alegria tranquila: a de perceber que cuidar da natureza não era um peso enorme. Era uma coleção de gestos possíveis, um mapa que se desenhava caminhando.

E, enquanto voltavam pelo caminho de pedras, o parque parecia mais leve — não porque estava perfeito, mas porque havia gente a tentar, com criatividade e esperança, ser melhor do que o lixo que deixavam para trás.

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Sussurro
Som muito baixo, quase como quando alguém fala segredando.
Relva
Conjunto de folhas verdes curtas que crescem no chão do campo ou parque.
Palhinha
Canudo fino de plástico ou papel usado para beber líquidos.
Poça
Água parada que fica no chão depois da chuva.
Murchinho
Estado de algo que perdeu ar ou vida, pequeno e sem força.
Esferovite
Material branco e leve usado em embalagens e isolamentos.
Retornável
Algo que se pode devolver para usar outra vez, sem descartar.
Cantil
Recipiente reutilizável para levar água ou bebida pessoal.
Autocolantes
Etiquetas adesivas que se colam para decorar ou identificar coisas.
Raízes
Partes da planta que ficam na terra e seguram ou alimentam a planta.
Sulcos
Ranhuras ou marcas compridas e estreitas numa superfície, como casca.
Promessa
Compromisso que alguém faz de cumprir algo no futuro.
Embrulhos
Materiais usados para proteger ou envolver produtos ou presentes.
Embalagens
Recipientes ou capas que envolvem produtos para vender ou guardar.
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