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História de pequenos investigadores 11 a 12 anos Leitura 17 min.

O papagaio, o sino e a muda escondida

Lico, um jovem curioso, descobre que a jasmim-estrela azul do viveiro da Dona Inês desapareceu devido a um mistério envolvendo etiquetas trocadas e um papagaio travesso chamado Verde. Junto com seus amigos, ele decide investigar e encontrar a solução antes da Feira da Primavera.

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Lico, um garoto curioso com cabelos desgrenhados e óculos redondos, está agachado perto de uma prateleira de plantas, seu rosto iluminado pela excitação e concentração. Ele segura um lápis e um caderno, observando atentamente um rótulo de planta, seus olhos brilhando de determinação. Ao lado dele, Gordo, um gato tigre gordo com olhos verdes brilhantes, está sentado em uma prateleira, com uma expressão travessa, olhando para Lico com um sorriso de lado. Mais longe, Verde, um papagaio com penas verdejantes, está empoleirado em um galho, seu olhar curioso fixo no garoto, pronto para voar. A cena ocorre em uma estufa iluminada, cheia de vasos de flores coloridas, folhas verdes luxuriantes e raios de sol filtrando através das janelas, criando sombras dançantes no chão de terra batida. Lico está resolvendo um mistério: ele procura uma planta rara desaparecida, cercado pelo movimento das folhas e os murmúrios da água corrente, enquanto o vento faz vibrar um pequeno sininho preso a um rótulo. reportar um problema com esta imagem

O Chamado do Viveiro

Lico acordou com um arrepio de ponta. Era assim que a curiosidade nele fazia cócegas. Da janela da mochila, viu o sol batendo numa estufa de vidro. O ar cheirava a terra molhada e folhas novas. O Viveiro da Dona Inês fervilhava de manhã.

— Lico, você veio em boa hora — disse Dona Inês, ajeitando o chapéu de palha. — As etiquetas das plantas estão trocadas. E sumiu minha muda rara, a jasmim-estrela azul. A Feira da Primavera é amanhã!

Lico escorregou do estojo, sacudiu a borracha como quem espreguiça, e respirou fundo. Adorava um enigma que dava a volta no quarteirão e voltava com cara de novidade.

— Vamos devagar — falou, sério, mas com brilho nos olhos. — Um mistério é como um desenho: começa com traços leves e ganha forma com os detalhes.

Ele entrou no corredor das mudas. Filas de vasos, placas brancas espetadas na terra, fitilhos coloridos, tudo parecia certo, mas não estava. Tomates com etiqueta de alecrim, manjericão com nome de roseira. E a prateleira alta, onde deveria estar a jasmim-estrela azul, vazia.

— Quem mexeu nisso? — murmurou, passando a ponta pelo ar, como se sentisse pistas invisíveis.

Um miado comprido respondeu. Gordo, o gato do viveiro, espreguiçou-se sobre uma telha ao sol. Com bigodes confiantes e patas sujas de barro, examinava tudo com um olhar de quem sabe mais do que conta.

— Sem fofoca, Gordo — disse Lico, sorrindo. — Ainda nem comecei.

A estufa sussurrava. Lá fora, um sino de vento tilintava, leve. Lico reparou no sino e no relógio verde do temporizador de irrigação, perto das mangueiras. A luz piscava de tempos em tempos, prometendo água na hora certa.

— Jornada dupla — pensou Lico. — Quem quiser aprontar, deve esperar o sinal da casa.

Pistas na Terra e no Papel

Lico começou a ronda. A estufa era um mapa aberto, e cada canto guardava um segredo.

Primeiro, as etiquetas. Algumas estavam borradas, a tinta escorrida feito lágrima. Outras, escritas com traço seco, continuavam legíveis. Lico encostou a ponta numa placa borrada e cheirou.

— Tinta de caneta — disse. — Gosta de dançar na chuva.

Pegou outra placa, escrita com traço cinza firme.

— E esta aqui foi escrita com grafite. A água não mandou nela.

Ele anotou na cabeça: água. Virou-se e notou um fio azul, fininho, preso num espinho do limoeiro. Parecia ter sido arrancado à pressa.

— Fitilho — constatou, guardando no pensamento. — Alguém puxou forte.

Mais adiante, perto das prateleiras altas, havia marquinhas miúdas no plástico de uma etiqueta caída. Pontinhos repetidos, quase uma serrinha.

— Mordidinhas? — Lico franziu a borracha. — Não parecem dentes de gato. Isso aqui tem cara de bico.

Gordo apareceu e esfregou-se em suas pernas.

— Miau.

— Você alcança a prateleira de cima, Gordo? — perguntou Lico.

O gato bocejou, mostrou os caninos e se sentou muito digno. A prateleira de cima era alta demais. Os pelos nas patas de Gordo estavam molhados, sim, mas misturados com pedrinhas, como se tivesse passeado no canteiro. Perto dali, um rastro de gotinhas de água formava um caminho até a parede onde o temporizador descansava.

— Água que espirra, etiqueta que borra, fitilho que some, marquinha de bico e prateleira alta — resumia Lico, como quem une peças. — Isso dá um desenho.

Ele tirou do bolso um amigo de capa dura.

— Cadu, abre a página — disse.

Cadu, a caderneta, abriu-se todo orgulhoso.

— Lista de suspeitos? — perguntou, animado.

— Lista de possibilidades — corrigiu Lico, enquanto escrevia. — Gordo, vento, irrigação, alguém distraído, um visitante que goste de fitilhos e que voa.

— Voa? — Cadu arregalou as linhas. — Isso ficou interessante.

— Pensa comigo — Lico encostou a ponta no ar. — Quem gosta de puxar coisinhas coloridas? Quem alcança o alto? Quem deixa marquinhas de bico?

Cadu chiou a mola.

— Eu, se fosse você, olhava pro céu e também pro relógio.

No canto, as folhas de uma samambaia tremiam. O sino de vento soou mais uma vez: “tlim… tlim…”. Lico sentiu o caso ganhando ritmo.

Suspeitos ao Vento

Dona Inês voltou com uma bacia de mudas.

— Descobriu algo? — perguntou, ansiosa.

— Alguns até falam, outros só fazem barulho — disse Lico, voltando-se a ela. — A irrigação borraria tinta. O vento derrubaria placas, mas não arrancaria fitilhos com jeito de quem coleciona laços. O Gordo não alcança o alto. E… tem o Verde.

Dona Inês riu.

— O papagaio do Seu Alberto? Ele vive por aqui. Quando o sino de vento canta, ele responde com “bom di-aaa!”. Adora fitilhos. Eu já peguei o danado levando roupa do varal. Mas juro que não vi ele aqui dentro.

— Ele entra só quando a estufa abre ou quando alguém não fecha a porta direito — disse Lico. — E aposto que ele gosta de barulhos certos. Sinos, cliques, psss de água.

Nessa hora, Zeca passou de bicicleta na rua, com uma sacola de pães.

— Dona Inês! Olha o pão! — gritou, freando. — E olha o Verde no poste, repetindo “bom di-aaa” às três da tarde!

O papagaio, verde brilhante, balançou a cabeça e imitou o freio da bicicleta: “criic”. Depois, deu uma risadinha que parecia uma espirrada.

Gordo miou enciumado.

— Se o Verde gosta do sino e dos fitilhos, e a irrigação ajuda a bagunça, temos um time — disse Lico. — A jasmim-estrela azul pode ter sido levada? Ou escorregado com a vibração da água? Preciso de um teste. E vou esperar o sinal certo.

— Que sinal? — perguntou Dona Inês.

Lico apontou com a ponta para o temporizador.

— Às seis, a luz verde pisca, o motor faz “tec” e o aspersor sussurra “psss”. O sino de vento costuma tocar com a brisa da tarde. Se eu fosse um papagaio caçador de fitilhos, esse trio seria a música perfeita.

Cadu vibrou a mola.

— Plano?

— Plano — disse Lico. — Vamos preparar uma etiqueta com fitilho azul e um sininho preso. Se alguém puxar, o sino acusa. Eu me escondo. Espero o sinal.

— Eu fecho a estufa e fico de olho na porta — disse Dona Inês.

— E eu… — Gordo miou.

— Você faz cara de guarda — completou Lico. — Mas sem dormir.

O Sinal na Hora Certa

O fim de tarde pintou a estufa de laranja. A etiqueta-armadilha foi colocada na prateleira alta, mesmo lugar da muda rara. Um sininho mínimo pendia do fitilho azul, discreto, curioso.

Dona Inês varreu a entrada, fechou a porta de vidro, mas deixou a janela de cima entreaberta para o ar. Gordo sentou como esfinge perto da mangueira. Cadu encolheu-se atrás de um vaso. Lico se escondeu sob uma folha de bananeira, que parecia guarda-chuva de gigante.

O mundo, por um instante, prendeu a respiração. Lico sentia o coração bater até na borracha.

A luz do temporizador piscou uma vez. “Tic.” Depois, “tec”. Por fim, o cochicho da água correu pelos canos. “Pssss.” O aspersor começou a desenhar gotas no ar.

Do lado de fora, o sino de vento balançou: “tlim… tlim… tlim…”.

— É o sinal — sussurrou Lico, firme. — Agora, silêncio.

Houve um arrulho e um flash de verde no alto. Verde entrou pelo vão da janela, pousou no topo da prateleira e inclinou a cabeça, curioso, olhos redondos como duas contas.

— Bom di-aaa… — disse baixinho, como se fosse segredo.

Ele viu o fitilho azul. Abriu o bico. Com carinho de quem desamarra presente, começou a puxar. O sininho quase não tocou… quase. “Tlim!”

Lico saltou da sombra, ágil como um risco bem dado.

— Flagra! — gritou.

Verde deu um pulo, o sininho tocou “tli-li-lim!”, o papagaio riu: “flagra! flagra!”, e ficou imóvel, o fitilho ainda no bico.

Na mesma hora, Lico ouviu outro som, suave, mas teimoso: “crrr…”. Um vaso, lá no canto, vibrava por causa do jato do aspersor e escorregava milímetro a milímetro, empurrado pela água. “Crrr.” E pronto: sumiu atrás de um saco de terra, como quem se esconde.

— A jasmim! — exclamou Lico. — Não foi roubada, foi empurrada.

Ele correu, contornou os vasos, entrou na faixa de água fria que o molhou todo. Com esforço, escorou-se no saco de terra e empurrou o vaso de volta, usando o corpo como alavanca. Cadu, corajoso, aproximou-se e serviu de rampa. Gordo, com dignidade, encostou a pata e ajudou a segurar.

— Um, dois, três! — contou Lico.

O vaso surgiu, intacto, com pequenas estrelas verdes brotando. Jasmim-estrela azul, dormindo na terra escura, sem saber que era rara.

Verde, preso no flagra, soltou o fitilho e olhou para Lico. Bateu o bico no ar, meio sem graça.

— Cul-pa… — disse, baixo.

— Calma, Verde — falou Lico, gentil. — Você gosta de fitilhos e sinos. Mas etiqueta não é enfeite de poleiro.

O papagaio inclinou a cabeça, como quem entende. O sino de vento tocou de novo, uma risadinha do céu.

Quem Trocou as Etiquetas?

Dona Inês entrou, apressada.

— E então?

Lico apontou para a cena: o papagaio envergonhado, a etiqueta com o sininho, o vaso resgatado.

— Começa assim — disse, didático. — A irrigação borrava as etiquetas escritas com tinta. A água também fazia as prateleiras vibrarem. A jasmim escorregou para trás do saco de terra. Enquanto isso, o Verde, chamado pelo sino e pelo “psss” da água, entrava pela janela e puxava fitilhos. Algumas etiquetas caíam. Outras ele levava, para brincar.

— Bom di-aaa… — arriscou o papagaio, tímido.

— Bom di-aaa, só que é de noite — resmungou Gordo, fingindo bravura.

— O vento entrava pelas frestas e também ajudava a confusão. Quando uma etiqueta caía, alguém recolocava no lugar errado sem perceber. Resultado: tomates viravam alecrim, manjericão virava roseira.

— E as marquinhas nas placas? — perguntou Cadu, curioso.

— Bico — disse Lico. — O Verde pega de leve, mas marca o plástico, como serrinha.

— E as pegadas de barro? — perguntou Dona Inês, agora sorridente.

— Do Gordo, que gosta de passear. Mas ele não alcança a prateleira de cima — explicou Lico. — Então, temos culpados simpáticos: água, vento e um papagaio colecionador de fitilhos.

Verde levantou uma asa, como quem pede desculpa.

— Cul-pa… não mais — disse, firmando.

— Não mais mesmo — concordou Lico. — Vamos ajustar o viveiro.

Ele foi pontuando, com calma:

— Nova regra um: escrever as etiquetas com grafite e passar verniz por cima. Assim, a água não borra. Nova regra dois: amarrar fitilhos com barbante simples, sem brilho, e com um nó que não solta fácil. Nova regra três: colocar rede fina nas janelas durante a irrigação, para o Verde não entrar nesse horário. Nova regra quatro: colocar um batente nas prateleiras para os vasos não deslizarem. E nova regra cinco: fechar a porta sempre que o sino cantar.

“Fechar a porta quando o sino cantar” até vira música — sorriu Dona Inês.

— Música para o Verde também — completou Lico. — Você ganha uma campainha no seu poleiro, combinamos um horário só seu, e você puxa fitilhos velhos para brincar, que tal?

Verde abriu o bico num sorriso e repetiu:

— Só eu! Horário! Fitilho velho!

Todos riram. Gordo fingiu não achar graça, mas seu rabo abanou sem querer.

Com paciência, recolocaram as etiquetas certas. Dona Inês verificou nome por nome. Lico checou os detalhes. A jasmim-estrela azul voltou ao seu lugar, no alto, com um batente salvador.

— Caso resolvido — disse Lico, limpando uma gota de água da borracha. — E antes da Feira da Primavera.

— Você é um craque — disse Dona Inês. — Amanhã conto isso para todo mundo.

— Melhor — respondeu Lico. — Amanhã, cada um leva essa história para casa.

Uma História para Levar para Casa

À noite, a rua ficou mansa. Lâmpadas de varanda acenderam, gente jantando, cheiros de sopa e pão na manteiga. Lico voltou para a mochila e se ajeitou num canto macio. Mara, sua amiga, deitou-se na cama com o pijama de estrelas e abriu o estojo.

— Oi, Lico. Você parece feliz. — Ela sorriu. — Conta.

Lico contou. Falou da estufa que respira, das etiquetas confusas, do sino de vento que dava o ritmo, da água que borrava as letras, do papagaio que amava fitilhos, do vaso que escorregou. Mara ria quando ele imitava o “bom di-aaa” do Verde e fazia “psss” do aspersor. No fim, ela estava com os olhos bem atentos.

— Sabe o que eu mais gostei? — perguntou Mara.

— Do sininho pegando o papagaio no flagra? — arriscou Lico.

— Dos detalhes — disse ela. — Você olhou tudo devagar. Até as marquinhas no plástico.

Lico assentiu, satisfeito.

— Detalhes são como pistas pequenas. Juntas, viram mapa. E às vezes o mistério é manso: não tem vilão, tem vento, água e vontade de brincar.

— Posso contar lá em casa, no almoço de domingo? — Mara sentou-se, empolgada. — Vou dizer: “A jasmim sumiu e o Verde puxava fitilhos, mas um amigo meu esperou o sinal e…”.

— E resolveu com calma — completou Lico. — Conta sim. E pode até deixar um desafio: “Na sua casa, que sons são sinais?” O apito da panela, o sino da escola, o clique da tranca na porta. Quando a gente sabe ouvir, a gente sabe agir.

Mara ficou um tempo quieta, pensando nos barulhos da casa, no celular tocando, no relógio da sala, no vento passando pelo portão.

— Amanhã cedo, quando o sino da escola tocar, eu vou lembrar de você — disse, rindo. — E vou tentar ver detalhes no caminho.

— E eu — prometeu Lico — vou te esperar na mochila, apontado e pronto, porque atenção também se treina.

Lá fora, uma brisa mexeu as cortinas. Lico fechou os olhos, mas ainda ouviu um “tlim” muito leve, como lembrança do viveiro.

Então, com a voz baixa de quem conta história de travesseiro, ele resumiu o caso para ficar fácil de repetir:

— Era uma vez um viveiro onde o vento cantava e a água sussurrava. As etiquetas dançaram, uma muda se escondeu e um papagaio, chamado pelo sino, quis brincar com fitilhos. Um amigo meu esperou o sinal certo, viu as pistas pequenas, e juntos colocamos tudo no lugar. O final? Plantas felizes, papagaio com brinquedo, gato sem culpa e uma Feira da Primavera sorrindo de longe.

Mara sorriu, já decorando as partes principais. Ela sabia contar histórias com brilho nos olhos.

— Amanhã, essa é a minha história para contar em casa — disse.

— E para ouvir em outras casas — respondeu Lico. — Porque quem aprende a olhar bem descobre mistérios em qualquer jardim.

A noite fechou devagar. O bairro dormiu. E no viveiro, talvez, o sino de vento tenha tocado outra vez, baixinho, só para dizer “boa noite” a quem sabe esperar o sinal certo.

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Arrepio
Sensação de frio ou medo que faz o corpo tremer.
Viveiro
Lugar onde se cultivam plantas, especialmente mudas.
Etiquetas
Pequenos pedaços de papel ou plástico que têm informações sobre algo.
Muda
Planta jovem que foi transplantada para começar a crescer.
Aspersor
Dispositivo que espalha água em gotas para irrigar plantas.
Culpa
Sentimento de responsabilidade por algo errado que foi feito.

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