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História de pequenos investigadores 11 a 12 anos Leitura 23 min.

O cartaz que virou aventura

Na escola, o cartaz do “Concurso de Reciclagem Criativa” desaparece, e Lara e Inês investigam pistas — fitas, fios e manchas — para descobrir o que aconteceu.

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Uma menina de 12 anos, olhar atento e sorridente, cabelos castanhos médios em trança solta, veste suéter cor mostarda e jeans, segura um caderno e um lápis inclinada sobre um grande cartaz colorido que ajuda a colar na parede; Inês, cerca de 12 anos, expressão animada e brincalhona, cabelos pretos curtos, usa vestido de bolinhas e segura um pote de cola à direita; Matilde, cerca de 12 anos, tímida e corada, cachecol de lã vermelho e mãos com manchas de tinta, passa tiras de lã vermelha à esquerda; Gonçalo, cerca de 13 anos, cabelo despenteado, camiseta manchada de azul, aliviado e envergonhado, segura um pincel e repõe uma parte recortada do desenho; sala de Artes Plásticas com mesas de madeira manchadas de tinta, potes de pincéis desordenados, tesouras, rolos de papel branco, armário metálico aberto com fitas e carretéis e luz quente de janela alta; cena principal: o grupo monta e reconstrói um grande cartaz mostrando uma garrafa alada e o título Reciclagem Criativa, com gestos cooperativos e atmosfera de reparo alegre, texturas de papel amassado, colagens visíveis e marcas de tinta seca no chão; estilo gráfico de linhas claras, cores saturadas, expressões marcantes e enquadramento médio próximo ao grupo. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O cartaz que desapareceu

Na segunda-feira, a escola parecia normal: o cheiro de desinfetante no corredor, o sino apressado, mochilas a bater nas pernas. Mas, à porta da sala de Artes Plásticas, havia um buraco no ar.

Lara, 12 anos, reparou primeiro porque tinha esse tipo de olhar: calmo, atento, como se o mundo fosse um puzzle simpático.

Na parede, ao lado do quadro de avisos, faltava o cartaz do “Concurso de Reciclagem Criativa”. Em vez das letras coloridas e do desenho de uma garrafa com asas, só restavam quatro pedaços de fita-cola e uma marca mais clara onde o papel tinha protegido a tinta.

O professor Artur coçou a barba, confuso.

— Isto é estranho… Eu pendurei o cartaz na sexta. Alguém tirou.

A Inês, colega de Lara, arregalou os olhos.

— Se tiraram, como é que vamos saber as regras? E o prazo?

Um grupo de alunos juntou-se, falando ao mesmo tempo. “Foi vandalismo!” “Foi uma partida!” “Foi o vento!”

Lara respirou fundo. “O vento não descola fita-cola direitinha”, pensou. E outra coisa: na ponta de uma das fitas havia um fio brilhante, curto, como um cabelo… mas não era cabelo. Parecia um fio de lã.

— Professor Artur — disse Lara, numa voz tranquila — posso olhar mais de perto?

— Claro, Lara. Mas nada de transformar isto num drama. É só um cartaz.

— É só um cartaz — repetiu ela. — Até descobrirmos o que aconteceu.

Ela aproximou-se, sem tocar. Observou a marca na parede, as fitas, o fio de lã. Depois olhou para o chão: havia pó de giz, um pedaço de papel rasgado minúsculo e… uma mancha de tinta azul, seca, do tamanho de uma unha.

Inês inclinou-se para ver.

— Isso é pista de polícia?

— É pista de escola — corrigiu Lara. — E é suficiente.

Lara tirou do bolso um pequeno bloco e um lápis. Não era para “ser detective”, era porque gostava de organizar ideias. Dúvidas incluídas.

Escreveu:

1) Fita-cola arrancada com cuidado.

2) Fio de lã vermelha preso.

3) Mancha de tinta azul no chão.

4) Pedaço de papel rasgado.

— Então… quem fez? — sussurrou Inês, excitada.

Lara olhou para os colegas que estavam ali: o Tiago, que mexia no telemóvel; a Joana, com as mãos sujas de pastel; o Rui, que tinha sempre tesouras no estojo; e a Matilde, que usava um cachecol de lã vermelha mesmo dentro da escola.

Lara sorriu, mas sem acusar ninguém.

— Não sei. Ainda. E vou duvidar de todas as respostas fáceis, até das minhas.

Capítulo 2 — A sala de Artes e o som das tesouras

A sala de Artes Plásticas era um mundo à parte: mesas manchadas de tinta, frascos com pincéis como flores desgrenhadas, cartolinas empilhadas, cola branca com cheiro doce. No canto, um armário alto guardava tesouras grandes e rolos de fita.

O professor Artur precisava de preparar a aula, mas deixou Lara e Inês ficarem um pouco.

— Vejam o que conseguirem. Só não façam bagunça. A bagunça já existe por natureza nesta sala.

Inês soltou uma risadinha.

— Aqui a bagunça é património histórico.

Lara caminhou devagar, como quem ouve o chão. A mancha azul que vira no corredor podia ter vindo daqui. Azul era a cor mais usada: tinta guache, canetas de feltro, até o carimbo do clube de arte.

— Vamos procurar o resto do cartaz? — perguntou Inês.

— Sim. E vamos pensar: quem iria querer tirar um cartaz? Para atrasar o concurso? Para esconder algo? Ou para usar o papel?

Inês fez uma careta.

— Usar papel? Há toneladas de papel aqui.

— Nem todo papel é igual — disse Lara. — Cartazes são grandes, lisos, bons para recortar.

A palavra “recortar” ficou no ar, brilhante. Lara lembrou-se: durante o intervalo, ela própria tinha de cortar um artigo do jornal da escola para um trabalho de Cidadania — um texto sobre desperdício. Tinha combinado com a bibliotecária pegar num exemplar velho e recortar. Tesouras iam ser importantes hoje, de um jeito ou de outro.

Na mesa mais próxima da janela, Lara viu um estilete. Ao lado, pequenos triângulos de papel branco.

— Olha — murmurou ela. — Alguém andou a cortar coisas aqui.

Inês apontou para um cesto de lixo meio cheio. Entre guardanapos e restos de fita, havia pedaços de papel colorido. Lara puxou uns com cuidado. Um deles tinha uma letra grande em tinta verde: parecia metade de um “R”.

— Do cartaz? — Inês quase gritou.

Lara aproximou o pedaço do bloco e tentou imaginar o desenho.

— Pode ser. Mas também pode ser de qualquer cartaz antigo.

— Então como saber?

Lara olhou em volta, pensando em perguntas melhores do que respostas.

— Procurando algo que só o cartaz desaparecido tinha.

Inês franziu a testa.

— O desenho da garrafa com asas.

— E as regras. Palavras específicas. “Reciclagem Criativa”, “prazo”, “entrega”.

Lara virou mais pedaços. Num deles, encontrou uma parte de palavra: “...trega”. As letras eram pretas, bem impressas.

Inês tapou a boca com a mão.

— Isso parece “entrega”!

— Parece — confirmou Lara. — Mas “parecer” não é “ser”. Vamos procurar mais.

Nesse instante, ouviu-se um “clic-clic” rápido. Alguém fechava uma tesoura grande.

Rui estava perto do armário, com as costas meio viradas, a guardar algo no estojo.

— O que fazem aqui? — perguntou ele, com a voz normal demais.

Lara respondeu com naturalidade.

— Estamos a procurar pistas do cartaz. Tu viste alguém mexer nele?

Rui encolheu os ombros.

— Não. Eu só vim buscar tesouras. Tenho um… projeto.

Inês olhou para as mãos dele. Tinham uma manchinha azul no dedo indicador, como se tivesse tocado em tinta seca.

Lara notou também. Mas não disse “apanhei-te”. Apenas registou, como quem guarda uma peça de puzzle.

— Que projeto?

Rui hesitou um segundo.

— Uma coisa para… surpreender. Para o concurso.

— Boa sorte — disse Lara, e sorriu. — Surpresas às vezes correm bem. Às vezes correm… suspeitas.

Rui saiu depressa.

Inês puxou Lara pelo braço.

— Ele está metido nisto! Tinta azul, tesouras…

Lara abanou a cabeça.

— Talvez. Ou talvez ele só tenha aulas de Artes como nós. O problema das pistas é que elas gostam de ter mais do que um significado.

Capítulo 3 — O recorte do artigo e uma ideia teimosa

Na hora do almoço, Lara foi à biblioteca. Entre prateleiras quietas e mesas com luz suave, a bibliotecária, dona Sílvia, tinha sempre um ar de quem sabia mais histórias do que todos os livros juntos.

— Vim buscar um jornal velho para recortar um artigo — disse Lara.

— Ah, a missão do dia — respondeu dona Sílvia, tirando uma pilha de exemplares do “Gazeta da Escola”. — Podes recortar à vontade. Só não cortes a mesa, por favor. Esta mesa tem mais anos do que eu… e eu não sou nova.

Lara riu. Sentou-se, escolheu o artigo sobre desperdício e pegou numa tesoura pequena. O som do papel a ser cortado era satisfatório, como um “shhh” organizado. Enquanto recortava, o pensamento dela ia e vinha ao cartaz.

Por que alguém tiraria o cartaz, mas deixaria a fita-cola? Por que havia um fio de lã vermelho preso? Por que a mancha azul?

Lara colou o artigo recortado no caderno com uma cola em bastão. Depois, no verso da página, desenhou um esquema simples:

Hipótese A: Alguém roubou o cartaz para impedir o concurso.

Hipótese B: Alguém levou o cartaz para usar o papel numa criação.

Hipótese C: Alguém tirou por engano, confundindo com outro aviso.

Ao lado, escreveu: “O que eu sei? O que eu acho? O que eu suponho?”

Dona Sílvia passou por ela e espreitou.

— Isso parece um mapa do tesouro.

— É um mapa das minhas dúvidas — disse Lara. — Ajuda-me a não acreditar na primeira ideia que aparece.

— Dúvida construtiva — aprovou a bibliotecária, com um aceno solene. — O melhor tipo. A dúvida que faz perguntas e não só barulho.

Lara guardou o caderno e reparou numa coisa: no caixote de reciclagem de papel da biblioteca havia tiras compridas, verdes e brancas, como sobras de um cartaz cortado em franjas.

Ela ajoelhou-se e puxou uma tira. Tinha parte de uma frase: “Entrega até…”

O coração dela deu um salto, mas ela segurou-o com calma.

— Dona Sílvia… alguém deitou isto fora agora há pouco?

— Hmm… vi a Matilde aqui de manhã, a procurar revistas para colagens. E o Rui também passou, a pedir fita-cola… Porquê?

Matilde. Cachecol de lã vermelha. O fio na fita-cola.

Lara não concluiu. Apenas ligou as pontas.

— Obrigada.

Quando Inês apareceu na biblioteca, Lara mostrou-lhe a tira.

“Entrega até…” É do cartaz. Quase certeza.

Inês estalou os dedos.

— Então foi a Matilde! Cachecol vermelho! Pista resolvida!

Lara levantou uma sobrancelha.

— Ou foi alguém que pegou no cachecol dela. Ou ela passou perto e o fio ficou preso por acaso. Ou o fio é de outra coisa vermelha: um pompom, uma luva, um enfeite.

Inês suspirou.

— Tu és impossível.

— Eu sou cuidadosa — corrigiu Lara. — E a verdade costuma gostar de cuidado.

Capítulo 4 — Interrogatórios com sumo e bolachas

Depois das aulas, Lara e Inês sentaram-se no pátio, com um sumo e duas bolachas. Lara dizia que era “para pensar melhor”. Inês dizia que era “para sobreviver ao suspense”.

— Vamos falar com a Matilde — decidiu Lara. — Sem acusar. Só perguntas claras.

Matilde estava num banco, a desenhar num caderno. O cachecol de lã vermelha estava enrolado no pescoço, apesar do tempo ameno.

Lara sentou-se ao lado.

— Matilde, posso fazer-te umas perguntas rápidas?

Matilde olhou, desconfiada.

— Sobre o quê?

— Sobre o cartaz do concurso. Desapareceu.

Matilde arregalou os olhos.

— A sério? Eu vi na sexta.

Inês inclinou-se.

— Estiveste na sala de Artes hoje cedo?

— Sim — respondeu Matilde. — Fui buscar cartolina. E… revistas. Quero fazer um móbile com asas, tipo a garrafa do cartaz.

Lara apontou para o cachecol.

— O teu cachecol é de lã, certo?

Matilde tocou nele, defensiva.

— É. Porquê? Achas que eu…?

— Não acho — disse Lara, rápida. — Só pergunto. Sabes se ele perdeu fios hoje?

Matilde suspirou, como quem não quer, mas mostra.

— Ele está velho. Solta um bocado. Olha.

Puxou de leve e um fio soltou-se, fininho.

Inês abriu a boca para dizer “apanhámos!”, mas Lara apertou-lhe o braço, discretamente.

— Obrigada — disse Lara. — Outra pergunta: viste alguém perto do cartaz?

Matilde mordeu o lábio.

— Vi o Rui no corredor. E vi também o Gonçalo do 7.º ano a carregar um tubo enorme de papel… daqueles de cartazes.

— Um tubo? — repetiu Lara.

— Sim, parecia um canudo gigante. Ele quase derrubou uma planta.

Lara anotou mentalmente. Tubo de cartaz fazia sentido. Levar um cartaz inteiro sem o amassar.

— Última pergunta — disse Lara. — Foste à biblioteca de manhã?

— Fui. Deitei fora umas tiras de papel. Estava a limpar a mesa de colagens. Não li o que era.

Inês lançou um olhar do tipo “viu?”. Lara manteve a calma.

— Obrigada, Matilde. Se lembraste de mais alguma coisa, diz-nos.

Quando se afastaram, Inês explodiu em sussurro:

— Ela deitou fora o cartaz!

— Ou deitou fora lixo que já estava misturado — respondeu Lara. — Lembras-te do “não sei ainda”?

Inês bufou.

— E o Rui? E o Gonçalo?

— Vamos falar com o Rui primeiro — disse Lara. — Ele estava na sala de Artes, tinha tinta azul, pediu fita-cola na biblioteca… mas isso pode ser só… arte.

Encontraram Rui junto ao ginásio, a tentar equilibrar uma caixa.

— Rui — chamou Lara — posso ver o teu projeto “surpresa”?

Rui ficou vermelho.

— Não está pronto.

Lara foi direta, mas gentil.

— Rui, precisamos saber se tiraste o cartaz. Isto está a atrapalhar toda a gente.

Rui endireitou-se.

— Eu não roubei nada. Eu… eu só copiei as regras.

— Copiaste como? — perguntou Inês.

Rui hesitou, depois abriu a caixa. Lá dentro havia um painel pintado: uma garrafa com asas, muito bem feita, com letras bonitas em cima. Algumas palavras pareciam… impressas, não pintadas.

— Eu recortei as letras de um papel que encontrei no lixo da sala de Artes — confessou Rui. — Achei que era um cartaz velho e ia ficar fixe colar no painel.

Lara aproximou-se.

— As letras dizem “Entrega até…”?

Rui baixou os olhos.

— Dizem.

Inês cruzou os braços.

— Então o cartaz estava no lixo!

— Pelo menos em pedaços — disse Lara. — Alguém o rasgou e deitou fora. Mas quem?

Rui levantou a mão, como na aula.

— Eu vi o Gonçalo com um tubo de cartaz. Mas achei que era para Educação Visual. Ele é do clube de teatro, faz cenários.

Clube de teatro. Tubo. Fita-cola. Cartaz grande. Tudo começava a ter forma.

— Vamos ao armazém do teatro — disse Lara, com os olhos a brilhar. — E vamos com calma. O mistério não foge… só se enrola.

Capítulo 5 — O tubo misterioso e a pegada de tinta

O armazém do clube de teatro ficava no fundo do corredor dos balneários, onde quase ninguém ia. Cheirava a madeira, a pó e a tinta velha. Havia cenários encostados à parede: uma janela falsa, uma árvore de cartão, uma lua com purpurina que caía em flocos.

Gonçalo estava lá dentro, de joelhos, a pintar um painel. Tinha as mãos cheias de tinta azul.

— Olá — disse Lara, sem entrar de rompante. — Podemos falar?

Gonçalo olhou, surpreso.

— Vocês são do 6.º, não são? O que fazem aqui?

Inês apontou para as mãos dele.

— Tinta azul! Encontrámos tinta azul perto do lugar do cartaz!

Gonçalo revirou os olhos.

— Tinta azul existe em todo o planeta, sabiam? Estou a pintar o céu do cenário.

Lara respirou e fez o que fazia melhor: perguntas simples.

— Gonçalo, tu levaste um tubo de cartaz no corredor hoje de manhã?

Ele coçou a cabeça.

— Levei. Era um tubo vazio que estava na sala de Artes. Uso para enrolar tecidos. Porquê?

Lara olhou para um canto. Lá estava o tal tubo. E ao lado, um rolo de papel grande, branco, com uma ponta a espreitar.

Lara aproximou-se, mas sem tocar.

— Esse papel… é o cartaz do concurso?

Gonçalo seguiu o olhar dela e ficou sério.

— Ah. Isso. Não era para ser “roubo”. Eu achei que era um cartaz repetido.

— Repetido? — Lara inclinou a cabeça.

Gonçalo levantou-se, desconfortável.

— Na sexta, eu estava a ajudar o professor Artur a arrumar coisas. Vi vários papéis grandes. Peguei num e levei para o teatro, para fazer um molde. Só depois reparei que tinha regras do concurso.

Inês abriu os braços.

— Então porque não devolveste logo?

Gonçalo mordeu o lábio.

— Porque… eu já tinha cortado uma parte. E fiquei com vergonha. Pensei: “Se eu devolver, vão ralhar.” Então rasguei mais, para não dar para ler. Idiota, eu sei.

Lara sentiu uma onda de alívio — o mistério tinha uma cara, e não era maldade, era medo. Mas ainda faltava uma peça.

— E a fita-cola na parede? — perguntou ela. — Alguém tirou o cartaz com cuidado. Depois ele foi rasgado. Isso parece duas ações diferentes.

Gonçalo franziu a testa.

— Eu não tirei da parede. Eu peguei no cartaz quando já estava em cima de uma mesa, na sala de Artes. Juro.

Lara e Inês trocaram um olhar. Então alguém tinha tirado o cartaz da parede e deixado na sala de Artes. Quem?

Lara pensou no professor Artur, na arrumação de sexta, no movimento de materiais.

— Gonçalo — disse Lara — quem colocou o cartaz em cima da mesa?

Gonçalo encolheu os ombros.

— Acho que foi a senhora da limpeza. Ela tira papéis das paredes quando vão cair. Vi-a a pôr uns avisos em pilha.

Inês piscou os olhos.

— A senhora Paula?

— Sim — disse Gonçalo. — Ela disse: “Isto está torto, vai cair.” E levou para dentro.

Lara soltou o ar devagar. A sequência fazia sentido:

1) A senhora Paula tirou o cartaz para não cair e deixou na sala de Artes.

2) Gonçalo pegou nele por engano para o teatro.

3) Cortou, depois rasgou de vergonha.

4) Matilde limpou a mesa e deitou tiras fora.

5) Rui apanhou letras do lixo e colou no painel.

Um mistério com muitas mãos, mas sem vilões.

— Gonçalo — disse Lara — vamos resolver isto sem te humilhar. Mas precisas ajudar a reconstruir.

Gonçalo assentiu, aliviado.

— Eu ajudo. A sério. Posso até pintar um cartaz novo.

Lara sorriu.

— Melhor: vamos fazer uma investigação que termina numa solução.

Capítulo 6 — Reconstrução, dúvidas e um clin d'œil

No dia seguinte, a sala de Artes Plásticas parecia um quartel-general. O professor Artur estava lá, com os braços cruzados, a tentar parecer zangado, mas com um canto da boca a tremer.

Lara pediu autorização para falar com todos os envolvidos: a senhora Paula, Gonçalo, Matilde e Rui. Inês ficou ao lado, como “assistente oficial de suspense”.

A senhora Paula, com o balde ao lado, explicou primeiro:

— Eu tirei o cartaz porque a fita estava a descolar. Ia cair na cabeça de alguém. Pus na mesa para o professor prender melhor depois.

O professor Artur levou a mão à testa.

— Eu devia ter visto isso.

Gonçalo deu um passo à frente.

— Eu peguei no cartaz por engano. Depois estraguei. Tive vergonha. Peço desculpa.

Matilde levantou a mão, tímida.

— Eu deitei fora umas tiras sem perceber. Achei que era lixo normal.

Rui, com a caixa do painel, falou rápido:

— Eu recortei letras do lixo. Queria que ficasse bonito. Não sabia que era importante.

O professor Artur suspirou, mas a voz dele saiu mais leve do que o esperado.

— Então ninguém “roubou”. Só houve… uma cadeia de enganos e silêncio.

Lara aproveitou.

— E é aqui que a dúvida construtiva ajuda. Se alguém tivesse perguntado logo “isto é o cartaz certo?” ou “posso usar este papel?”, o problema parava cedo.

Inês acrescentou:

— E se alguém tivesse dito “tenho vergonha”, nós não mordíamos. Nós só… investigávamos.

O professor Artur deixou escapar uma gargalhada.

“Investigávamos”. Vocês dois deviam abrir uma agência.

Lara abriu o caderno e mostrou o recorte do artigo sobre desperdício.

— Eu recortei isto ontem. Fala de como o lixo aumenta quando não prestamos atenção. O cartaz quase virou lixo por falta de atenção… e por medo.

— Bem visto — disse o professor Artur. — Então, solução: fazemos um cartaz novo. Melhor. Maior. E com fita-cola decente.

A aula transformou-se numa operação de reconstrução. Gonçalo desenhou a garrafa com asas. Matilde trouxe lã vermelha — desta vez de propósito — para fazer um contorno em relevo. Rui colou letras, mas agora escritas à mão, com capricho. A senhora Paula apareceu com fita nova, poderosa, que parecia capaz de prender um elefante na parede.

Lara ficou encarregada de rever o texto, linha por linha, para não haver “Entrega até…” cortada a meio.

— Confiram comigo — dizia ela. — Não é desconfiança má. É revisão.

Quando terminaram, o cartaz ficou tão bonito que parecia um convite para uma aventura.

No corredor, ao pendurá-lo, o professor Artur apontou para a fita-cola reforçada.

— Desta vez, nem um tufão.

Inês inclinou-se para Lara e sussurrou:

— Caso encerrado, detective.

Lara olhou para o cartaz, para a marca antiga na parede e para o fio de lã vermelho agora bem colocado, como uma assinatura.

— Caso encerrado… com uma nota — disse ela.

— Qual? — perguntou Inês.

Lara deu um sorriso pequeno, divertido.

— A nota é que, no meio disto tudo, a única coisa que realmente desapareceu foi a minha última bolacha de ontem. E eu tenho uma suspeita muito forte.

Inês engoliu em seco, inocente demais.

— Suspeita… construtiva?

Lara inclinou a cabeça, fingindo analisar.

— Construtiva não. Essa é só… deliciosa.

Inês correu pelo corredor, rindo, e Lara foi atrás, com o caderno de pistas debaixo do braço, pronta para o próximo mistério — de preferência um que não envolvesse tanta fita-cola.

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