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História de pequenos investigadores 11 a 12 anos Leitura 17 min. (2)

O mistério do caderno azul e das migalhas de canela

Tomás investiga o desaparecimento do caderno azul da biblioteca seguindo pistas como pegadas e migalhas de canela, e descobre segredos e personagens pelo caminho.

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Um menino de 12 anos, rosto redondo, cabelo castanho desgrenhado, olhos avelã e expressão aliviada e tímida, segura um caderno azul contra o peito junto a um balcão de madeira; atrás dele, Bia, cerca de 12 anos, com trança longa e sorriso encorajador, mãos na cintura, veste jaqueta vermelha; ao lado, Davi, cerca de 11 anos, cabelo preto suado e olhar culpado porém aliviado, aperta os punhos e está um pouco retraído, com um tênis; Dona Lídia, cerca de 60 anos, cabelo grisalho preso, óculos redondos e mãos sobre o caderno, tem expressão doce e firme e está atrás do balcão sob uma lâmpada quente; a biblioteca tem estantes altas de madeira com livros coloridos, cartazes infantis, um raio de sol com poeira visível, uma pequena planta no balcão e uma caixa de biscoitos meio aberta com migalhas de canela; cena de devolução — personagens reunidos, luz suave, gestos de perdão e conforto, foco no caderno azul e nas migalhas de canela. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O sumiço na biblioteca

Tomás tinha 12 anos, joelhos sempre arranhados e um jeito calmo de olhar as coisas como se fossem pistas. Nessa tarde, ele estava na biblioteca do bairro, onde o ar cheirava a papel e cola, e as cadeiras faziam “criic” quando alguém se mexia.

Dona Lídia, a bibliotecária, caminhava de um lado para o outro com a testa franzida.

— Sumiu. Sumiu mesmo — ela repetia, como se a frase pudesse trazer o objeto de volta.

— O quê? — Tomás perguntou, baixinho, para não acordar o silêncio.

— O caderno de devoluções. O azul. Aquele onde eu anoto quem leva livros raros. — Ela apontou para a mesa. — Estava aqui de manhã. Agora… nada.

Tomás aproximou-se. A mesa tinha um retângulo mais claro onde algo ficou muito tempo. O pó, fininho, fazia uma moldura.

— Quem esteve aqui? — ele quis saber.

— Muita gente. Turma da escola, um senhor que lê jornal, duas meninas que riem demais… e o carteiro, que deixou encomendas.

Tomás observou o chão. Perto da mesa havia marcas de sapato, suaves, como sombras sobre o piso encerado. Algumas eram maiores, com sola grossa. Outras, pequenas, com risquinhos em zigue-zague.

Ele tirou do bolso um bloquinho e um lápis. Não era uma lupa de detetive de filme, mas servia.

— Posso ajudar a procurar? — perguntou.

Dona Lídia suspirou, com um sorriso cansado.

— Tomás, você é persistente. E cuidadoso. Só… não faça bagunça.

— Prometo. Vou comparar as marcas. Se o caderno saiu daqui, ele saiu com alguém. E alguém deixou sinais.

Na janela, uma gaivota gritou, como se desse o sinal de partida.

Capítulo 2 — Pegadas e cheiros de canela

Tomás começou pelo óbvio: a gaveta da mesa. Vazia. Depois, debaixo da mesa. Só poeira e uma moeda antiga.

Ele se agachou e olhou melhor as marcas no chão. Uma pegada grande tinha um detalhe: um triângulo na ponta da sola, como um pequeno dente. Outra pegada, menor, parecia de tênis com desenhos em ondas.

— Dona Lídia, o chão foi limpo hoje? — ele perguntou.

— Sim. O senhor Arnaldo, o zelador, encerou de manhã. Por isso essas marcas aparecem.

Ótimo, Tomás pensou. Marcas frescas são como frases recém-escritas.

Ele seguiu as pegadas grandes. Iam da mesa até perto do balcão e depois… sumiam na área das estantes. Já as pegadas menores davam voltas, como se a pessoa tivesse hesitado.

Entre as estantes, Tomás parou. Havia um cheiro doce no ar.

Canela.

Ele viu, no chão, uma migalha de bolacha quebrada. Pegou com cuidado e cheirou. Canela, certeza.

— Alguém comeu bolacha aqui dentro — murmurou, mais para si mesmo do que para o mundo.

— Ei! — sussurrou uma voz. — Você é o Tomás, né?

Era Bia, colega da escola, com uma trança apertada e olhos curiosos.

— Sou. Você viu o caderno azul?

Bia mordeu o lábio.

— Eu vi o carteiro falando com a Dona Lídia. Ele estava com uma sacola. E… eu vi uma coisa azul passando perto da porta, mas pode ter sido uma pasta.

— O carteiro usa sapatos de sola grossa? — Tomás perguntou.

— Usa. E sempre pisa forte. Faz “toc toc”.

Tomás anotou: “carteiro / sola grossa / possível azul”.

Quando voltou ao balcão, viu o senhor Arnaldo, o zelador, com um pano no ombro.

— Oi, Tomás. Investigando? — ele disse, num tom brincalhão.

— Só… olhando — Tomás respondeu, educado. — O senhor viu alguém com um caderno azul?

Arnaldo coçou o queixo.

— Azul, azul… vi uma capa azul perto da caixa de doações. Pensei que fosse revista velha.

A caixa de doações ficava nos fundos, perto da porta que dava para a rua… e para o caminho da jetée.

Tomás sentiu um friozinho bom no estômago. Mistério com saída.

Capítulo 3 — Um mapa de marcas até a jetée

Nos fundos da biblioteca, a caixa de doações estava cheia de revistas, um livro sem capa e um urso de pelúcia com um olho faltando. Nada de caderno.

Mas no chão, perto da porta, havia marcas de algo arrastado. E uma mancha pequena, brilhante, como se tivesse caído verniz… ou gotas de chuva.

Tomás encostou o dedo: estava frio e cheirava a mar. Sal.

— Quem saiu por aqui? — ele perguntou para Dona Lídia, que o acompanhava agora, inquieta.

— Só o senhor Arnaldo, para levar lixo… e o carteiro, que foi embora pela frente.

Tomás olhou para a rua. O vento vinha do porto. Se alguém correu até a jetée, as marcas poderiam continuar no calçadão, principalmente se o piso ainda estivesse úmido.

— Dona Lídia, posso ir até a jetée? É perto. Se eu encontrar o caderno, trago de volta.

Ela hesitou. Depois assentiu.

— Vá, mas não suba em lugares perigosos. E… volte antes de escurecer.

Tomás chamou Bia, que insistiu em ir junto.

— Você é minha assistente de comparação de pistas — ele disse.

— Eu prefiro “agente especial” — ela respondeu, com um sorriso.

No calçadão, o chão tinha placas de pedra. Algumas ainda úmidas. As pegadas grandes apareciam de novo, indo em direção ao porto. Tomás apontou.

— Vê? A sola grossa com triângulo. E aqui, uma pegada menor, de tênis.

— Então tem mais de uma pessoa — Bia concluiu.

— Ou alguém mudou de sapato — Tomás falou. — Mas isso é difícil no meio da rua.

Eles seguiram. Ao longe, a jetée se esticava para dentro do mar, com postes e cordas, e o som das ondas batendo fazia um “chlap chlap” constante, como palmas lentas.

No caminho, passaram por uma banca de doces. Um homem vendia bolachas de canela em saquinhos transparentes.

Tomás parou.

— Essas bolachas… são famosas, né?

— São. E deixam migalhas em todo lugar — o vendedor respondeu, rindo. — Principalmente quando o vento ajuda.

Tomás comprou um saquinho, mais por educação do que por fome, e guardou uma bolacha inteira como “amostra”. Bia ergueu uma sobrancelha.

— Você vai comer a evidência?

— Vou comparar — ele disse. — E depois, talvez, comer. Ciência primeiro.

Na entrada da jetée, as pegadas grandes viravam para a direita, perto de uma pilha de redes de pesca. As menores seguiam atrás.

— Estamos perto — Tomás sussurrou.

E então viram algo azul.

Não era o caderno. Era um lenço azul preso numa corda, balançando ao vento como bandeira.

— Pista ou distração? — Bia perguntou.

Tomás respirou fundo. Mistérios gostam de brincar.

Capítulo 4 — Redes, risos e um triângulo na sola

Tomás se aproximou das redes. Havia cheiro forte de peixe e algas. Um pescador arrumava boias, assobiando.

— Boa tarde — Tomás disse. — O senhor viu alguém passar correndo por aqui?

O pescador olhou os dois, avaliando.

— Vi um menino… mais ou menos da tua idade. Tinha um tênis claro. E estava com pressa. Quase derrubou meu balde.

Bia arregalou os olhos.

— Um menino? Então não era o carteiro.

— E o caderno? — Tomás perguntou. — Ele carregava algo azul?

— Carregava uma pasta ou caderno. Azul, sim. Apertado no peito, como se fosse segredo.

Tomás olhou para o chão da jetée. A madeira tinha marcas de areia úmida. Lá estava: pegadas de tênis em ondas. E, ao lado, marcas grandes com o triângulo.

— O carteiro também esteve aqui — Tomás murmurou. — Ou alguém com sapatos parecidos.

Eles seguiram até a parte mais longa da jetée, onde as pessoas costumavam pescar e tirar fotos. Um senhor com boné fotografava gaivotas. Perto dele, um cachorro tentava roubar um pedaço de pão.

Tomás observou o cachorro: patas pequenas. Mas as marcas grandes eram de sapato humano, sem dúvida.

— Ei! — Bia cutucou o braço de Tomás. — Olha ali.

Perto de um banco, havia um saquinho transparente amassado. Dentro, migalhas.

Tomás pegou o saquinho. Cheiro de canela.

— Mesma bolacha da biblioteca — ele disse. — Agora, pensa comigo: quem come bolacha de canela e corre com um caderno azul?

Bia fez uma careta pensativa.

— Alguém que estava com fome. Ou alguém nervoso.

— Ou alguém que não queria ser reconhecido e tentou parecer casual comendo — Tomás acrescentou.

Ao lado do banco, um pedaço de fita adesiva estava colado na madeira, como se tivesse segurado algo. Tomás puxou com cuidado. A fita tinha fios de papel presos, azulados.

— O caderno pode ter ficado aqui… e depois foi levado de novo — ele concluiu.

O senhor do boné se aproximou, curioso.

— Vocês perderam alguma coisa?

— Um caderno azul da biblioteca — Tomás explicou. — O senhor viu alguém mexendo por aqui?

O senhor apontou para o fim da jetée, onde havia um quiosque pequeno de manutenção, quase sempre fechado.

— Vi um homem alto, com sapatos pesados, falando com um rapazinho. O homem parecia… apressado. Depois entrou ali e saiu com algo debaixo do braço.

Tomás sentiu o cérebro encaixar peças, como um quebra-cabeça.

— Homem alto. Sapatos pesados. Triângulo na sola. Isso combina com o carteiro… ou com o senhor Arnaldo — Bia disse, baixinho.

Tomás não respondeu de imediato. Preferiu comparar.

— Vamos ao quiosque — ele decidiu. — Mas com calma. Detetive não corre sem pensar.

Capítulo 5 — O quiosque e a dedução mais simples

O quiosque tinha uma porta de metal com manchas de ferrugem. Ao lado, uma caixa de ferramentas. E no chão… marcas de sapato com triângulo, bem nítidas, como um carimbo.

Tomás bateu na porta.

— Olá? Tem alguém aí?

Nada.

Bia encostou o ouvido.

— Silêncio total. Tipo filme… mas sem música assustadora.

Tomás tentou a maçaneta. Estava destrancada. Ele abriu só um pouco, o suficiente para ver: vassouras, baldes, cordas… e um brilho azul atrás de uma prateleira.

— É ele — Tomás sussurrou.

Ele entrou, devagar. Pegou o caderno azul. Estava intacto, mas com uma marca de dedo sujo na capa, como uma impressão digital infantil.

Bia apontou para o canto.

— Olha isso.

Havia um par de sapatos pesados encostados na parede. E, ao lado, um tênis claro, pequeno, com desenhos em ondas. Um tênis só.

Tomás franziu a testa.

— Quem deixa um tênis aqui?

A resposta veio com um espirro.

Atrás de um balde, apareceu um menino magro, cabelo grudado na testa, olhos assustados. Ele parecia ter uns 10 ou 11 anos.

— Eu não roubei pra… pra sempre — ele disse, de uma vez. — Eu só… peguei emprestado.

Tomás não levantou a voz. Seu jeito doce fazia as pessoas respirarem melhor.

— Como você se chama?

— Davi.

— Davi, por que pegou o caderno?

Davi olhou para o chão.

— Minha irmã pegou um livro raro e perdeu. A Dona Lídia ficou chateada. Eu queria ver o caderno pra descobrir quanto a gente devia… e… talvez escrever meu nome no lugar dela, pra ela não levar bronca.

Bia cruzou os braços.

— Isso é… meio heróico e meio atrapalhado.

Davi corou.

— Eu sei. Eu vi o caderno na mesa e… peguei. Comi bolacha pra parecer normal. Aí fiquei com medo e vim pra jetée. Eu gosto daqui. O mar me acalma.

Tomás olhou o tênis único.

— E o outro?

Davi apontou, sem jeito, para os sapatos pesados.

— O senhor Arnaldo me achou na entrada do porto. Eu deixei cair um tênis na água quando escorreguei. Ele me deu carona até aqui e me deixou usar esses sapatos velhos dele pra eu não voltar descalço. Disse que ia buscar meu tênis depois, com uma rede.

Então era isso: duas pegadas diferentes, mas uma só pessoa mudando de calçado.

Tomás respirou aliviado. Uma dedução simples, baseada em comparação de marcas, e o mistério se desamarrava.

— O senhor Arnaldo sabe que o caderno está aqui? — Tomás perguntou.

Davi balançou a cabeça.

— Não. Ele só quis ajudar. Ele é bom.

Tomás assentiu.

— Então vamos fazer do jeito certo. Vamos devolver o caderno e explicar tudo. Com coragem. Persistência também é isso: continuar, mesmo quando dá vergonha.

Davi apertou os olhos, como quem segura um choro.

— Eu vou.

Bia deu um empurrãozinho leve no ombro dele.

— E eu vou junto, agente especial. Ninguém enfrenta bronca sozinho.

Capítulo 6 — De volta, com verdade e uma pista de futuro

Na biblioteca, Dona Lídia levantou-se tão rápido que a cadeira quase protestou.

— O caderno! — ela disse, pegando-o com cuidado, como se fosse um pássaro.

Tomás explicou tudo, sem exageros. Falou das pegadas, das migalhas de canela, do lenço azul, do quiosque. Davi completou, com a voz tremendo, mas firme.

Dona Lídia ouviu em silêncio. No fim, ela fechou o caderno e respirou fundo.

— Davi… você errou ao pegar sem pedir. Mas eu vejo que você quis proteger sua irmã. — Ela olhou por cima dos óculos. — Só que proteger de verdade é ajudar a consertar, não esconder.

Davi assentiu, engolindo em seco.

— Eu posso… eu posso ajudar aqui. Arrumar livros. Limpar mesas. O que precisar.

Dona Lídia pensou um pouco.

— Pode. Aos sábados de manhã. E sua irmã vai vir conversar comigo. Sem pânico. Bibliotecas são feitas de histórias, não de castigos.

Bia soltou o ar, aliviada, como se tivesse segurado um balão dentro do peito.

O senhor Arnaldo apareceu na porta, com um saco de lixo.

— E aí? Resolveram o caso?

Tomás sorriu.

— Resolvermos. E o senhor… foi parte da solução sem saber.

Arnaldo riu.

— Eu só emprestei uns sapatos. Mas gostei desse negócio de detetive. — Ele olhou para Davi. — E meu tênis… digo, seu tênis… eu vou tentar pescar com a rede. Se a gaivota não tiver levado.

Davi abriu um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

Tomás guardou o bloquinho no bolso. Ainda havia uma coisa que ele gostava de fazer depois de cada investigação: deixar um registro, como quem fecha uma porta com cuidado.

Dona Lídia puxou uma gaveta e entregou a Tomás um cartão postal em branco. Tinha uma foto da jetée ao pôr do sol, com o mar laranja e as sombras dos postes.

— Para você. Detetives também merecem lembranças.

Tomás sentou numa mesa, pegou uma caneta e escreveu. Depois, colocou o cartão no balcão, endereçado a si mesmo, como uma promessa de continuar curioso.

“Querido Tomás,

Hoje a jetée parecia um corredor de pistas: pegadas, migalhas de canela e um lenço azul ao vento. Você comparou marcas com paciência e não desistiu quando a história ficou confusa. Descobriu que o mistério não era maldade, era medo e amor atrapalhado. Persistência é isso: continuar procurando e, no fim, escolher a verdade com gentileza.

Assinado: Tomás (detetive do bairro).”

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Devoluções
Registo de quando alguém traz um livro de volta à biblioteca.
Retângulo
Forma comprida com quatro lados, dois maiores e dois menores.
Poeira
Pó fino que fica sobre móveis e livros quando não se limpa.
Migalha
Pedaço pequeno de pão, bolacha ou bolo que cai ao comer.
Zelador
Pessoa que cuida da limpeza e manutenção do lugar.
Encerou
Passou cera no chão para deixá‑lo brilhante e protegido.
Calçadão
Passeio largo junto ao mar onde as pessoas andam e passeiam.
Jetée
Parte do cais que avança sobre o mar, onde as pessoas caminham.
Verniz
Produto que deixa uma superfície brilhante e protege a madeira.
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