Capítulo 1 — Fantasias, listas e um desejo esquisito
A tarde cheirava a castanhas assadas e a folhas secas. No quarto da Lia, quatro meninas quase com dez anos rodopiavam entre capas, chapéus e fitas brilhantes.
Lia era a mais minuciosa do grupo. Tinha uma prancheta de cartão (que ela chamava “painel de missões”) e uma lista com quadradinhos para assinalar.
— Fantasia? — perguntou ela, com o lápis apontado como se fosse um microfone.
— Bruxa elegante! — disse a Bia, ajeitando um chapéu que insistia em cair para um lado, como se tivesse sono.
— Fantasma desastrado! — anunciou a Cacau, enrolando-se num lençol com dois buracos tortos para os olhos. — Eu sou um fantasma moderno. Vejo o mundo… meio torto.
— Detetive do medo! — disse a Joana, com uma lupa e um casaco grande demais. — Vou investigar qualquer coisa que faça “buu”. E também qualquer coisa que faça “puf”, “plim” e “ai, pisei num lego”.
Lia sorriu. Ela própria ia de vampira, mas uma vampira organizada: capa preta passada a ferro, colar vermelho alinhado, e uns dentes falsos guardados numa caixinha.
— Tudo pronto — disse ela, a assinalar três quadradinhos. — Agora falta o meu desejo de Halloween.
As outras olharam, curiosas.
— Um doce gigante? Uma vassoura a jato? Um caldeirão de chocolate?
Lia respirou fundo, como se fosse revelar um segredo importantíssimo.
— Quero encontrar um morcego de papel.
Silêncio.
— Um morcego… de papel? — repetiu Bia, como quem tenta perceber se aquilo se come.
— Sim — confirmou Lia. — Vi um pendurado numa montra. Era preto, com asas dobradas, e parecia que sorria. Mas quando voltei com a minha mãe, já não estava. Então… esta noite eu quero achar um.
Cacau levantou o lençol um bocadinho e sussurrou:
— Talvez tenha voado. Digo… deslizado. Digo… escapado.
Joana aproximou a lupa do rosto de Lia.
— Um objeto desaparecido em noite de Halloween. Caso perfeito. Onde foi visto pela última vez?
Lia apontou para a janela.
— Na rua das Laranjeiras, perto da biblioteca. E eu tenho um plano.
Ela virou a prancheta: “Missão Morcego de Papel — sem gritos exagerados, com coragem, e com paragens para rebuçados”.
Bia endireitou o chapéu, finalmente.
— Se é para procurar um morcego… vamos. Mas se ele for um morcego verdadeiro, eu aviso já: eu corro em ziguezague.
— Não vai ser verdadeiro — garantiu Lia, mas o coração dela fez um “tum” animado. Mistério era bom. Um bocadinho de arrepio também.
Capítulo 2 — A rua das Laranjeiras e o primeiro arrepio
A rua estava enfeitada com abóboras, teias de aranha de algodão e luzes alaranjadas. As meninas começaram o “doce ou travessura” com energia, e em cada porta alguém dizia: “Que fantasias tão assustadoras!” — mas com um sorriso.
Lia caminhava como se estivesse a medir o chão. A cada casa, conferia a lista: “1) Dizer obrigado. 2) Não comer todos os chocolates antes de chegar a casa. 3) Procurar sinais do morcego.”
Na biblioteca, as janelas estavam decoradas com silhuetas pretas: gatos, corvos… e nada de morcego.
— Talvez ele esteja lá dentro, a ler — brincou Cacau. — Um morcego intelectual.
Joana apontou a lupa para a porta. Havia um bilhete colado:
“NOITE DE HISTÓRIAS ASSUSTADORAS (MAS NÃO MUITO) — Entrada pela porta dos fundos.”
Bia engoliu em seco.
— Porta dos fundos… isso soa a filme.
— Filme infantil — corrigiu Lia, firme. — Com mantas e bolachas.
Deram a volta ao prédio. O corredor dos fundos era estreito e tinha um cheiro a papel velho e chuva. Uma lâmpada piscava devagar, como se estivesse a piscar o olho.
De repente, algo roçou no ombro de Lia.
Ela deu um salto tão pequeno que quase pareceu educado.
— O que foi isso?!
Uma folha seca caiu do cabelo dela e pousou no chão, fazendo “crac”.
Cacau riu-se por baixo do lençol.
— Ataque feroz… da Folha Assassina!
Lia respirou e soltou uma gargalhada curta, aliviada.
— Coragem, equipe — disse Joana, a endireitar o “casaco de detetive”. — Vamos investigar.
A porta dos fundos estava entreaberta. Lá dentro, ouvia-se um murmúrio de vozes e o virar de páginas, como asas suaves.
As quatro entraram, juntas, com passos cuidadosos.
No salão da biblioteca, havia almofadas no chão e uma senhora a contar uma história com uma lanterna a iluminar o rosto por baixo. Não era assustador demais — era do tipo “ui” e depois “ahah”.
Mas Lia estava concentrada noutra coisa: no canto, pendurado numa linha, havia um móbile de figuras de papel. Havia uma abóbora, uma estrela… e um morcego.
O coração dela saltou.
Só que, quando ela se aproximou, viu que aquele morcego tinha um rasgão numa asa, como se alguém o tivesse agarrado à pressa.
— Este não é o da montra — sussurrou Lia. — Mas é um sinal.
Joana pôs a lupa bem perto.
— Rasgo recente. Alguém mexeu.
Bia olhou à volta.
— E se o morcego de papel está a fugir de nós?
Cacau levantou os braços do lençol, dramática:
— Talvez ele escolha a sua dona pela coragem.
Lia engoliu. Coragem. Certo. Ela marcou mentalmente um quadradinho invisível: “Não desistir”.
Capítulo 3 — O sussurro no jardim e a pista pegajosa
Quando a sessão de histórias terminou, as meninas saíram com mais dois rebuçados cada uma (a biblioteca era o único lugar do mundo onde se ganhavam doces por ouvir com atenção). A noite estava mais escura, mas a rua brilhava com janelas iluminadas.
— Vamos à montra onde viste o morcego — decidiu Joana. — Voltar ao local do desaparecimento é regra número um dos detetives. Regra número dois é… não tropeçar.
Ela tropeçou numa raiz. Nada grave, mas foi tão certinho que todas riram.
A loja da montra era uma papelaria. As portas estavam fechadas, mas a montra ainda tinha recortes de Halloween. Havia aranhas simpáticas e esqueletos a dançar com gravatas.
Lia encostou o nariz ao vidro.
— Aqui — disse ela. — Era mesmo aqui que ele estava, pendurado numa estrela de papel.
Bia apontou para o chão, junto ao caixilho.
— Olhem! Uma coisinha preta.
Era um pedacinho de papel dobrado, em forma de triângulo. Lia pegou com todo o cuidado, como se fosse um tesouro.
— Parece… uma ponta de asa — murmurou ela.
Cacau aproximou-se.
— Ou um chapéu minúsculo para um rato.
Joana cheirou o pedacinho (com cara séria de cientista, apesar de não ser nada científico cheirar papel).
— Hm. Cheira a cola.
Lia sentiu os olhos brilharem.
— Cola! Isso quer dizer que alguém está a fazer morcegos de papel. Talvez… a dona da papelaria?
Nesse momento, um sussurro veio do lado de trás da loja, do pequeno jardim que ficava entre a papelaria e o prédio ao lado.
“Shhh… shhh… shhh…”
As quatro congelaram. Até o fantasma desastrado ficou quieto, o que era raro.
Bia apertou a manga da capa de Lia.
— O que é isso? Um… vassouro? Um… aspirador fantasma?
Joana levantou a lupa como se fosse um escudo.
— Mantenham a calma. Medo é só o cérebro a fazer barulho.
Lia engoliu em seco, mas deu um passo em frente.
— Vamos ver. Devagar.
Entraram no jardinzinho. Havia arbustos baixos, um banco molhado e uma árvore com fitas penduradas. O sussurro vinha de baixo do banco.
Cacau, com o lençol preso no joelho (como sempre), abaixou-se e levantou a ponta do tecido, corajosa à sua maneira.
— Olá? Se és um monstro, por favor… sê um monstro educado.
Debaixo do banco estava… um gato. Um gato preto com olhos enormes, a lamber uma pata. Ao lado, uma coisa brilhante e pegajosa: fita-cola.
O gato soltou um “miau” que parecia dizer: “Assustei-vos? Pois, eu sou muito bom nisso.”
Bia pôs a mão no peito.
— Era só um gato! Um gato de Halloween profissional!
Lia riu, sentindo a coragem a voltar como uma luz acesa.
— Olha a fita-cola — disse Joana. — E… isto.
Ela puxou com cuidado um fio fino preso na fita. No fim do fio, havia uma estrelinha de papel amassada.
— Alguém andou a pendurar enfeites aqui — concluiu Joana.
Lia olhou para a árvore com fitas.
— Talvez o morcego tenha ficado preso e… escapou.
O gato bocejou, como quem aprova a teoria.
Cacau apontou para o portãozinho do jardim, que dava para um corredor lateral.
— Se eu fosse um morcego de papel com espírito de aventura, eu iria por ali.
Lia endireitou a capa.
— Então vamos. Com calma. E com coragem.
Capítulo 4 — A casa das luzes baixas e o segredo da senhora Aurora
O corredor lateral levava a uma rua menor, mais silenciosa. As casas tinham lanternas em formato de abóbora e, num portão, um letreiro dizia: “Cuidado com o cão”. O cão, no entanto, era um chihuahua com um casaco de esqueleto e um latido que parecia um espirro.
— Atchim! — imitou Cacau, e o chihuahua abanou o rabo, ofendido e feliz ao mesmo tempo.
No fim da rua, havia uma casa com as luzes muito suaves. Na varanda, pendiam guirlandas apagadas, como se estivessem a descansar. E na porta, um enfeite enorme de papel: uma lua sorridente.
Lia sentiu um arrepio bom, daqueles de “estamos perto”.
Joana encontrou uma pista: no degrau, havia restos de recortes pretos, como confetes.
Bia sussurrou:
— Quem mora aqui faz artesanato.
Lia respirou fundo e bateu à porta, três toques certinhos, como na sua lista imaginária.
A porta abriu-se devagar. Apareceu uma senhora de cabelo prateado, com um avental cheio de pequenos pedaços de papel colados, como se tivesse abraçado uma tempestade de confetes.
— Boa noite, pequenas assombrações — disse ela, com voz macia. — Que lindas fantasias.
— Boa noite — disse Lia, educada. — Nós… estamos à procura de um morcego de papel.
A senhora piscou, surpresa.
— Ah. Então era isso.
Cacau inclinou-se para a frente.
— A senhora… conhece um morcego de papel aventureiro?
A senhora riu-se baixinho.
— Chamo-me Aurora. E sim, eu conheço. Porque eu faço morcegos de papel para enfeitar a rua. Este ano quis fazer um especial, com asas dobráveis. Mas… o meu gato, o Sombra, decidiu que era um brinquedo.
— O gato do jardim! — disse Bia. — Ele tem cara de quem rouba com estilo.
Aurora assentiu.
— O Sombra levou o morcego para todo o lado. Eu tentei apanhá-lo, mas ele é rápido e… muito convencido. Hoje de manhã, o morcego desapareceu. E eu fiquei triste, porque era para a festa de logo à noite.
Lia sentiu uma pontada no peito. Ela queria muito o morcego… mas não queria que alguém ficasse triste.
Joana pousou a lupa.
— Talvez possamos ajudar a encontrar. E devolvemos à senhora Aurora. Certo?
Lia hesitou só um segundo. Depois, endireitou os ombros.
— Certo. Nós ajudamos.
Aurora abriu mais a porta, revelando a sala: havia tesouras sem ponta, papel colorido, e uma caixa com guirlandas de luzes.
— Se o encontrarem — disse ela —, a festa vai ficar completa. E eu prometo uma coisa: guirlandas a piscar em modo suave, como vaga-lumes a bocejar.
Cacau suspirou.
— Isso é a coisa mais confortável que já ouvi.
Aurora entregou-lhes uma pequena lanterna e um recorte de morcego, para reconhecerem o modelo.
— Procurem por este sorriso — explicou ela. — Eu juro que fiz o morcego a sorrir.
Bia arregalou os olhos.
— Um morcego sorridente. Isso é muito suspeito.
— Suspeito e fofo — corrigiu Lia, a sentir-se mais corajosa. — Vamos encontrá-lo.
Capítulo 5 — O morcego sorridente e as guirlandas que piscam baixinho
As meninas voltaram ao jardinzinho e chamaram pelo gato.
— Sombraaa! — chamou Cacau, com voz de quem chama um rei preguiçoso.
O gato apareceu em cima do muro, como se tivesse estado ali o tempo todo a assistir. Os olhos brilhavam, e ele parecia divertir-se.
Joana tirou do bolso um rebuçado embrulhado e abanou-o.
— Negociação — disse ela. — Um rebuçado em troca de… informação.
O gato inclinou a cabeça, avaliando. Depois saltou para o chão e caminhou devagar, com a cauda no ar, como um guia turístico muito importante.
Ele levou-as até à árvore das fitas. Parou, olhou para cima e soltou um “miau” que parecia uma ordem: “Olhem. E admirem.”
Lá em cima, preso entre dois ramos, estava o morcego de papel. Um pouco amarrotado, mas inteiro. As asas dobráveis estavam abertas, e o sorriso… era real. Um sorriso pequeno, como se o morcego estivesse a achar tudo aquilo uma grande piada.
Lia aproximou-se da árvore. O ramo era alto demais.
Bia pôs as mãos na cintura.
— Eu subo?
Cacau abanou a cabeça, o lençol a esvoaçar.
— Se tu sobes, eu faço som de ambulância de fantasma.
Joana observou o tronco.
— Melhor fazermos isto com segurança. Lia, tu és minuciosa. Tens algum plano?
Lia pensou rápido. Viu o banco, viu a lanterna, viu as fitas.
— Plano: o banco aqui. Eu subo com cuidado. Vocês seguram o banco. E ninguém faz “buu” do nada.
— Prometido — disse Cacau, levantando a mão. — Só faço “buu” com aviso prévio e formulário assinado.
Com as amigas a segurarem o banco, Lia subiu. O coração batia, mas ela respirou fundo, como a senhora Aurora falava nas histórias: “inspira coragem, expira medo”.
Ela esticou o braço. O papel farfalhou. Por um segundo, o morcego pareceu querer escapar outra vez, como se estivesse a brincar às escondidas. Lia pegou nele com delicadeza e soltou um suspiro feliz.
— Encontrei!
Bia aplaudiu baixinho.
— O morcego está… a rir-se de nós.
— Eu também — confessou Lia, descendo. — Mas é um riso bom.
Foram a correr (sem correr demais, para não cair) até à casa da Aurora. Bateram à porta, e a senhora abriu com um sorriso ansioso.
— Conseguiram?
Lia estendeu o morcego de papel, como se oferecesse um troféu.
— Ele estava na árvore. E o Sombra foi o nosso guia.
O gato, que as tinha seguido, sentou-se à porta com ar inocente, como quem diz: “Eu? Eu só passeio.”
Aurora pegou no morcego e alisou-lhe as asas com carinho.
— Perfeito. Vocês foram corajosas e gentis. Obrigada.
Ela pendurou o morcego na varanda, bem ao centro, onde podia ser visto por toda a rua. Depois, abriu a caixa de guirlandas e ligou-as.
As luzes começaram a piscar em modo suave: um brilho manso, cadenciado, como se a casa estivesse a respirar luz. A varanda ficou dourada e acolhedora, e o morcego de papel, sorridente, parecia dançar devagar.
— Uau — murmurou Bia. — Dá vontade de beber chocolate quente só de olhar.
Cacau ajeitou o lençol.
— Eu, como fantasma, declaro esta varanda oficialmente… confortável.
Joana fechou a lupa e sorriu.
— Caso resolvido. Mistério doce. Nenhum susto exagerado.
Lia olhou para o morcego de papel. Ela ainda o desejava para si, mas sentiu uma alegria diferente, maior: a de ter ido até ao fim, mesmo com arrepios, e de ter feito a coisa certa.
Aurora aproximou-se e colocou na mão de Lia um pequeno recorte de papel, dobrado com cuidado.
— Para ti — disse ela. — Um mini-morcego. Para guardares no teu quarto. Este não foge. Acho eu.
Lia abriu o recorte: era um morceguinho sorridente, do tamanho da palma da mão.
— Obrigada — disse ela, com os olhos a brilhar.
As quatro despediram-se e caminharam pela rua iluminada. As guirlandas da varanda da Aurora piscavam ao longe, sempre em modo suave, como vaga-lumes a contar uma história de boa-noite.
E, naquela noite de Halloween, Lia aprendeu que coragem não é não ter medo. Coragem é dar um passo mesmo com o coração a fazer “tum”, especialmente quando se tem amigas por perto… e um gato convencido a apontar o caminho.