Preparativos de Halloween
Na véspera de Halloween, a rua da minha casa cheirava a bolo de abóbora e folhas húmidas. Marta e Lucas tinham nove anos e um plano tão brilhante quanto as luzes da janela da padaria: naquela noite iriam contar todas as estrelas phosphorescentes que apareciam no centro da cidade. Não eram estrelas normais — diziam que brilhavam como pedaços de luar que alguém esquecera de devolver.
Marta escolheu um traje de feiticeira com capas que faziam barulho de papel quando ela andava; a sua varinha era uma colher de pau pintada de dourado. Lucas queria parecer um explorador espacial, com uma mochila que imitava um pequeno foguete e uma lanterna presa ao peito. Riram quando Lucas tentou ligar o foguete e ele só soltou uma nuvem de papel colorido.
Os pais deram-lhes um mapa desenhado à mão, uma lanterna extra e biscoitos embrulhados. "Vão juntos e voltem antes das onze", disse a vizinha, com os olhos a cintilar, como se ela também guardasse um segredo de Halloween. Marta segurou a mão de Lucas, e ele pôs a mão sobre a sua varinha. Era um gesto simples, mas aqueceu-lhes o peito como um cobertor.
Antes de saírem, decidiram uma regra: cada estrela deveria ser comprovada com um desenho. Um traço por estrela, num caderno pequeno que Marta trouxe. Se encontrassem algo assustador, iam procurar um adulto. Se encontrassem algo divertido, iam rir até as lanternas piscarem. Com isso, saíram pela rua forrada de abóboras sorridentes, prontos para uma aventura luminosa.
A Caçada às Estrelas
A cidade parecia diferente à noite. As sombras das árvores alongavam-se como dedos de papel e a lua aparecia redonda como uma moeda. As estrelas phosphorescentes brilhavam timidamente entre os prédios, como se fossem coleiras de vagalumes presas ao céu. Marta e Lucas seguiram o mapa: primeiro a praça com o carvalho antigo, depois a rampa da biblioteca, por fim a fonte que cantava baixinho.
No carvalho, encontraram a primeira estrela: pequena, pegajosa e pendurada numa folha. Brilhava azul, e deixava um rastro ténue nas mãos. Lucas fez um desenho rápido, o traço tremia de excitação. "Uma!" disse ele, e Marta desenhou o número com um coração ao lado.
Quando chegaram à biblioteca, a porta estava aberta, e de dentro vinha um sussurro de páginas. Num dos cantos, uma estrela grande estava colada ao vidro, como se quisesse entrar para ouvir histórias. Marta aproximou a varinha com cuidado e a estrela acendeu um pouco mais, como se respondesse ao toque. Havia um friozinho — não do medo, mas daquela sensação bonita que vem quando se ganha um segredo.
Por um momento pensaram ter visto sombras a dançar entre as prateleiras. Mas eram só as folhas de um livro antigo movidas pelo vento. Riram baixinho. Lucas tropeçou numa pilha de folhetos e espalhou papéis pelo chão; Marta ajudou-o a levantar e, juntos, riram do frio que lhes subiu pela barriga — o tipo de frio bom, que faz rir em vez de chorar. A contagem subia: três, quatro, cinco. Cada estrela parecia sorrir ao ser descoberta.
O Mistério na Praça
Quando chegaram à fonte, ouviram um som estranho — um piar muito suave que parecia uma mistura de canto de coruja e campainha. Perto da água, algo se movia: uma pequena figura, translúcida, com olhos grandes e uma boca pequenina. Não era um fantasma de filme; tinha um ar curioso e envergonhado. Na cabeça, um chapéu de festa torto.
Marta apertou a mão de Lucas. "Olá", sussurrou. "Quem és tu?" A figura sorriu e mostrou uma pata. À sua volta, pequeníssimas estrelas phosphorescentes rodopiavam, como se o encontro as tivesse chamado. Descobriram que era uma gatinha fantasmagórica que tinha perdido o seu laço brilhante. A gatinha não assustava; esfregou-se nas pernas de Marta como se pedisse ajuda.
Sem pensar duas vezes, Lucas pegou no seu papel e desenhou o laço perdido. Marta enfileirou bolotas como se fossem presentes e ofereceu uma para a gatinha. A comunidade de estrelas parecia agradecer: uma onda de brilho passou pela praça inteira. A gatinha, feliz, deixou cair um fio de luz que se transformou numa pequena estrela que eles puderam contar.
Chegou então a senhora Helga, a velhinha que alimentava pombos na manhã. Ela sorria, amparando-se no seu guarda-chuva com desenhos de morcegos. "Vocês encontraram a Lucinda!" disse, como se já soubesse tudo. Contou que, há muitos anos, crianças de Halloween cuidavam das estrelas e que as ajudavam quando estas perdiam o caminho. Marta e Lucas entenderam que ajudar a gatinha fazia parte da missão: a contagem não era só sobre números, era sobre cuidar.
Contando as Estrelas e Abraços
Com a gatinha a seguir-lhes como uma sombra brilhante, foram ao último lugar do mapa: o miradouro da colina, onde as luzes da cidade pareciam pequenas fichas de jogo. Subiram devagar, ofegando um pouco, mas felizes. No topo, a brisa trouxe um cheiro de canela e risos de outras crianças distantes.
Lá em cima, encontraram o maior aglomerado de estrelas phosphorescentes: coladas aos ramos, flutuando acima do chão e, até, uma ou duas a pousar nas costas das cadeiras. Marta abriu o caderno e começaram a contar em voz baixa, como se a noite estivesse a ouvir: seis, sete, oito... Cada número era um pequeno coração desenhado ao lado do traço, lembrando que contavam para fazer companhia às estrelas.
Quando chegaram ao final, houve um flash suave: as estrelas juntaram-se formando uma espiral de luz que lhes fez cócegas na pele. A gatinha pulou entre os joelhos, ronronando feito um motorzinho luminoso. De repente, a senhora Helga apareceu com chá quente em canecas decoradas. "Para os pequenos guardiões das estrelas", disse ela, entregando-lhes o líquido cheiroso.
Sentados na colina, com as mãos quentes e os cadernos preenchidos, Marta e Lucas olharam um para o outro e sorriram. Não só contaram as estrelas, como ajudaram uma gatinha perdida, riram de tropeços e dividiram biscoitos. Era um bom balanço.
Antes de voltar para casa, trocaram um último olhar com a cidade brilhante. "Prometemos cuidar delas no próximo Halloween", disse Marta. "E no outro, e no outro..." completou Lucas. Deram um abraço apertado, sentindo que a coragem é mais fácil quando se tem um amigo ao lado.
Na rua, as abóboras piscavam como pequenos faróis, e as estrelas phosphorescentes continuavam a brilhar, seguras, como se soubessem que tinham quem as contasse e cuidasse. A noite teve frissons suaves, risos e uma paz morna, como um cobertor. Marta e Lucas voltaram para casa, com o caderno cheio e corações quentes, prontos para sonhar com estrelas que, no dia seguinte, talvez parecessem apenas pins no céu — mas na memória deles brilhariam para sempre.