Parte 1: O Caso do Lápis Desaparecido
Na sala do 1.º ano, havia cheirinho a lápis de cor e a cola branca. O sol entrava pela janela e fazia desenhos no chão.
Bia, Tomás e Dinis tinham 6 anos e eram uma banda inseparável. Eles gostavam de jogos, de histórias… e de mistérios.
A professora Lúcia bateu palmas.
— Hora do desenho! Hoje vamos desenhar o nosso lugar favorito.
Bia tirou o estojo cor-de-rosa. Tomás puxou um caderno com dinossauros. Dinis abriu a caixa dos lápis bem devagar, como se fosse um baú de tesouro.
De repente, Tomás parou.
— O meu lápis verde… não está aqui!
Ele revirou o estojo. Sacudiu. Olhou dentro outra vez, com a testa toda enrugada.
— Eu tinha-o ontem! — disse ele, quase a sussurrar.
Bia inclinou-se para a frente.
— Isso é um caso. Um caso mesmo sério.
Dinis fez voz de detetive:
— Caso do Lápis Verde Desaparecido!
Tomás cruzou os braços.
— Não quero que pensem que eu perdi. Eu… eu guardei.
Bia pousou a mão no ombro dele.
— Nós acreditamos em ti. Vamos investigar. Com calma.
Ela tinha um jeito especial de reparar nos sentimentos dos outros. Quando alguém ficava triste, ela via logo, como se tivesse uma lupa para emoções.
— Primeiro passo — disse Bia —: sem pânico. Segundo passo: pistas.
Os três ajoelharam no chão perto da mesa do Tomás. Bia apontou.
— Olhem… migalhinhas de borracha.
Dinis aproximou o nariz.
— Cheira a borracha! Alguém apagou muito aqui.
Tomás olhou para o caderno.
— Eu apaguei um monte. Tentei desenhar uma árvore e ficou torta.
Bia sorriu.
— Isso é normal. Árvores tortas são árvores felizes.
Eles procuraram em volta: debaixo da cadeira, dentro da mochila, no bolso do casaco.
Nada.
Então, um mini-acontecimento: a sala ficou barulhenta. Alguém deixou cair uma caixa de lápis, e os lápis rolaram como caracóis apressados.
Tomás assustou-se.
— E se… alguém pegou?
Dinis levantou o dedo.
— Não acusamos sem prova. Detetives procuram primeiro. Depois falam.
Bia olhou para o quadro de avisos. Havia desenhos pendurados, e uma folha voou um bocadinho com o vento da janela aberta.
— Se o lápis saiu daqui… talvez tenha caído pelo caminho. — Ela olhou para Tomás. — Onde estiveste antes de entrar na sala?
Tomás pensou.
— Eu estive no recreio. E depois fui beber água. E… ah! Eu passei pelo corredor e vi o carrinho das limpezas.
Dinis abriu os olhos.
— Carrinho! Rodas! Ele pode ter rolado!
Bia fez um plano.
— Vamos perguntar. Mas com educação. E com cuidado. Porque aqui também queremos reparar, não estragar.
Eles aproximaram-se da professora Lúcia.
— Professora — disse Bia —, podemos fazer uma investigação pequenina? O Tomás perdeu um lápis, e queremos encontrar.
A professora sorriu.
— Detetives tão pequenos? Claro. Mas uma regra: nada de correr dentro da escola.
— Prometido! — disseram os três.
Eles saíram para o corredor.
No chão, perto da porta, havia uma coisinha dobrada: um avião de papel. Estava amassado, como se tivesse levado uma chuva de cotovelos.
Dinis apanhou-o.
— Olhem! Um avião de papel!
Bia pegou com cuidado.
— Está todo dobrado ao contrário… Dá para abrir.
Ela desdobrou o avião devagar. As dobras faziam linhas como um mapa. E, no meio, havia um rabisco a lápis: uma setinha e a palavra “TRILHO”.
Tomás piscou.
— Trilho? Que trilho?
Bia sentiu um friozinho de mistério na barriga, mas manteve a voz doce.
— Pode ser um trilho no parque atrás da escola… aquele com árvores.
Dinis saltitou.
— O trilho do bosque! Eu adoro porque tem pinhas!
Tomás olhou para o rabisco.
— Será que… o meu lápis foi parar lá?
Bia dobrou o avião de novo, mas desta vez com carinho, arrumando as pontas.
— Guardamos esta pista. E vamos continuar a procurar aqui primeiro. Depois, se for preciso, seguimos o “TRILHO”.
Parte 2: Pistas no Corredor e uma Pequena Viragem
No corredor, eles viram o carrinho das limpezas parado. Ao lado, estava a senhora Dina, com uma vassoura enorme.
Bia falou primeiro, com o seu jeito calmo.
— Bom dia, senhora Dina. Desculpe… estamos a procurar um lápis verde do Tomás. Viu algum lápis no chão?
A senhora Dina apoiou-se na vassoura.
— Um lápis verde? Hmm… vi muitos lápis ontem, mas hoje… — Ela apontou para um baldinho. — Encontrei isto de manhã: uma borracha e uma tampa de caneta.
Dinis perguntou:
— E lápis?
— Lápis, não. Mas… — Ela sorriu — vi um avião de papel a voar pelo corredor! Quase me acertou no chapéu.
Tomás arregalou os olhos.
— Um avião?
Bia mostrou o deles.
— Encontrámos este aqui.
A senhora Dina riu-se.
— Então era este que me perseguiu! A escola está cheia de aviões hoje.
Dinis pôs as mãos na cintura.
— Há mais aviões? Isso é suspeito.
Bia não riu dele. Apenas pensou. E depois perguntou:
— Senhora Dina, para onde vai o lixo do corredor?
— Vai para o contentor lá fora, perto do portão. Mas hoje ainda não levei nada.
Tomás suspirou de alívio.
— Ainda bem.
Eles olharam à volta. No quadro de cortiça do corredor, havia um cartaz: “Passeio ao Trilho do Bosque — Sexta-feira”. Tinha desenhos de folhas e um esquilo sorridente.
Dinis apontou.
— Trilho! Está escrito aqui!
Bia juntou as coisas.
— Pista do avião: “TRILHO”. Cartaz: “Trilho do Bosque”. Talvez alguém escreveu isso por causa do passeio.
Tomás mordeu o lábio.
— Mas o meu lápis… continua desaparecido.
Então apareceu uma nova pista: uma risquinha verde no chão, bem pequenina, como uma marca de giz.
Bia ajoelhou-se.
— Vejam. Verde.
Dinis aproximou-se.
— Pode ser do lápis!
Tomás ficou animado.
— O meu lápis faz esse verde mesmo!
A risquinha seguia em direção à porta que dava para o pátio.
Bia endireitou-se.
— Vamos seguir, devagar. Se for do lápis, ele deixou um rasto.
Eles caminharam, contando passos para ser divertido.
— Um, dois, três… — disse Dinis.
— Quatro, cinco, seis… — completou Tomás.
No pátio, o vento cheirava a terra e a relva cortada. Lá ao fundo, depois do muro baixo, começava o parque com o sentierzinho de terra: o trilho do bosque.
Mas antes de ir, Bia parou.
— Detetives não deixam bagunça. Se vamos procurar, temos de reparar qualquer coisa que estragarmos.
Tomás acenou.
— Eu prometo. Se eu derrubar alguma coisa, eu arrumo.
Dinis também.
— Se eu pisar uma planta… eu peço desculpa.
Bia sorriu.
— Isso é ser um bom detetive.
Eles seguiram para o portão com a senhora Lúcia a observar de longe, confiando neles. Ela tinha dito que podiam ir até ao início do parque, onde os adultos viam.
A risquinha verde desapareceu no chão de cimento. Mas o avião de papel parecia pesado na mão da Bia, como se dissesse: “para lá”.
No início do trilho, as árvores faziam sombra. Havia folhas secas no chão, e uma pedra com musgo verde, verdinho como… lápis.
Dinis deu um passo e ouviu um “crac”.
— Ups… — Ele olhou para baixo. — Pisei uma pinha.
Tomás riu-se.
— A pinha não se importou.
Bia brincou:
— Vamos reparar a pinha com… um elogio.
Dinis aproximou-se da pinha amassada.
— Pinha, tu foste muito corajosa.
Eles riram baixinho, para não assustar passarinhos.
O trilho tinha curvas pequenas. E, numa das curvas, encontraram algo: um pedacinho de papel verde preso num galhinho.
Tomás agarrou com cuidado.
— Isso é… do meu lápis?
Bia olhou melhor.
— Não. É papel de embrulho. Mas é verde. Pode ser outra pista.
Dinis apontou para o chão.
— Ali! Mais uma marca verde!
Desta vez, era uma linha, como se alguém tivesse arrastado um lápis mesmo ali.
Tomás ficou com o coração a bater rápido.
— Estamos perto!
E aí veio o mini-rebondissement: ouviram um “atchim!” atrás de um arbusto.
Os três pararam, imóveis.
— Quem está aí? — perguntou Bia, com voz firme mas gentil.
O arbusto mexeu. Devagar, apareceu uma menina da turma ao lado, a Leonor, também de 6 anos. Ela tinha folhas no cabelo e um ar meio envergonhado.
— Eu… eu só estava a ver formigas.
Dinis franziu o nariz.
— Estavas escondida?
Leonor abanou a cabeça.
— Não. Eu espirrei e caí aqui sentada. E depois tive vergonha de sair.
Tomás perguntou, direto:
— Leonor, viste um lápis verde?
Leonor pensou.
— Vi um lápis… sim! Um lápis verde rolou no recreio. Eu pensei que era da caixa de “achados”. Então eu peguei e pus… — ela apontou para uma bolsa pequena — aqui. Para entregar depois.
Tomás abriu a boca.
— Então está contigo?
Leonor abriu a bolsa, mas… lá dentro havia um lápis amarelo.
— Oh! — disse ela. — Eu trouxe o amarelo. O verde… acho que caiu quando eu vim para o trilho. Eu corri porque estava atrasada.
Tomás suspirou, mas Bia não deixou a tristeza crescer.
— Não faz mal. Agora temos um lugar e um momento. Isso ajuda.
Bia perguntou com calma:
— Leonor, consegues mostrar por onde vieste?
Leonor assentiu, aliviada por ninguém estar a gritar.
— Eu vim por aqui… e tropecei ali perto daquela pedra grande.
Eles foram até à pedra grande. Havia um tronco caído, como um banco de madeira.
E ali, meio escondido numa rachinha do tronco, brilhava uma pontinha verde.
Dinis apontou como se fosse um sinal de trânsito.
— Ali! Ali! Verde!
Tomás aproximou-se e puxou devagar.
Era o lápis verde. Um pouco sujo de terra, mas inteiro.
Tomás segurou-o com as duas mãos.
— O meu lápis!
Bia respirou fundo, feliz.
— Mistério quase resolvido. Falta a parte importante: reparar.
Parte 3: Reparar, Pedir Desculpa e o Bilhete Final
Tomás olhou para Leonor. Ela olhou para o chão.
— Desculpa… — disse Leonor. — Eu não queria pegar no teu lápis. Eu só queria ajudar. Mas depois… eu fiquei confusa e com vergonha.
Tomás apertou o lápis.
Ele ainda estava um bocadinho chateado… mas Bia observou a cara dele. Viu que ele também estava aliviado.
Bia falou baixinho para ele:
— Ela não quis fazer mal. E ela está a tentar reparar. O que o teu coração quer dizer?
Tomás pensou, e depois disse:
— Leonor… obrigado por tentares levar para os achados. Mas da próxima vez pergunta, está bem?
Leonor assentiu rápido.
— Está bem. Eu prometo.
Dinis teve uma ideia.
— E para reparar mesmo, vamos limpar o lápis! E o tronco ficou com terra… vamos tirar o lixo do trilho!
Eles procuraram à volta e encontraram dois papéis no chão: um guardanapo e uma embalagem pequena. Colocaram num saquinho que a Bia tinha na mochila, para o lanche.
— Pronto — disse Bia. — O trilho fica melhor do que estava.
Tomás esfregou o lápis na manga, com cuidado.
— Está quase novo.
Leonor sorriu.
— Eu posso fazer outra coisa para reparar?
Bia acenou.
— Podes. Podes escrever um bilhete ao Tomás a dizer que sentes muito e que queres ser amiga.
Leonor endireitou-se.
— Eu quero!
Dinis olhou para o avião de papel.
— E aquele avião? Por que dizia “TRILHO”?
Bia abriu o avião de papel de novo, alisando as dobras.
— Talvez alguém fez o avião e ele veio parar ao corredor. O “TRILHO” pode ser do cartaz do passeio. Ou… — ela fez uma pausa — pode ser de alguém a brincar aos detetives também.
Tomás riu-se.
— Então o avião ajudou sem querer.
Dinis fingiu falar com o avião:
— Senhor Avião, obrigado pela pista.
O vento mexeu no papel e pareceu que o avião fazia uma vénia.
Eles voltaram para a escola com passos calmos. A professora Lúcia estava no portão.
— Encontraram? — perguntou ela.
Tomás levantou o lápis verde.
— Encontrámos!
— E como resolveram? — perguntou a professora, curiosa.
Bia explicou, com frases curtas e claras: as marcas verdes, o trilho, o tronco, e a Leonor.
A professora Lúcia olhou para Leonor com gentileza.
— Obrigada por dizer a verdade. Isso também é coragem.
Leonor sorriu pequenino.
Na sala, todos voltaram aos desenhos. Tomás desenhou uma árvore. Desta vez, ainda estava um pouco torta. E ele achou linda.
Bia desenhou um trilho com folhas laranja. Dinis desenhou uma pinha “corajosa” com capa de super-herói.
No final do dia, a professora Lúcia trouxe um monte de postais coloridos.
— A escola recebeu postais de vários lugares. Cada um pode escolher um e escrever para alguém.
Tomás escolheu um postal com um bosque e um caminho de terra. Era quase igual ao trilho que tinham visitado.
Ele escreveu com a ajuda da professora, com letras grandes e cuidadosas. Depois, pediu à Bia e ao Dinis para assinarem também. Leonor pediu para escrever uma frase.
No postal, ficou assim:
“Olá! Hoje fomos detetives. O meu lápis verde desapareceu e nós seguimos pistas: marcas verdes, um avião de papel e o trilho do bosque. Encontrámos o lápis num tronco. Aprendemos a perguntar antes de pegar e a reparar: limpámos o lápis e apanhámos lixo do trilho. A Leonor pediu desculpa e nós fizemos as pazes. Se tiveres um mistério, respira, procura pistas e fala com calma. Adeus!
Do Tomás, da Bia, do Dinis e da Leonor.”
Tomás leu em voz alta. A turma aplaudiu baixinho, como se fosse segredo de detetives.
Bia pegou no avião de papel e colocou-o na caixa dos “achados”, com um bilhetinho: “Se for teu, vem buscar. Obrigado pela ajuda.”
Dinis olhou para os amigos.
— Amanhã… outro caso?
Tomás sorriu, com o lápis verde bem guardado.
— Sim. Mas hoje… caso encerrado.
E, enquanto o sol se punha, o postal ficou pronto para viajar, levando o mistério doce e a alegria de reparar para bem longe.