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História de pequenos investigadores 11 a 12 anos Leitura 26 min.

O mistério do envelope amarelo na biblioteca

Tomás investiga o desaparecimento de um envelope com fotografias do Clube de Ciências e, junto de colegas, segue pistas pela escola para descobrir o que aconteceu, aprendendo sobre responsabilidade e honestidade.

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Tomás, 12 anos, concentrado e sereno, rosto redondo com sardas e cabelo castanho curto, ajoelha-se para tirar um pequeno envelope amarelo amassado preso entre a parede e um vaso; Dina, 12 anos, aliviada e preocupada, cabelo castanho preso em coque, está atrás dele com a mão na boca, mochila verde e jaqueta clara; Rui, cerca de 12 anos, envergonhado e com as bochechas coradas, veste um grande casaco preto com um cadarço fluorescente à mostra, mantém-se recuado olhando para o chão; Dona Lurdes, bibliotecária de ~50 anos, rosto meigo e cabelo grisalho preso, braços abertos em alívio perto do balcão; Senhor Azevedo, diretor adjunto na casa dos cinquenta, terno simples e gravata um pouco desalinhada, observa calmo ao fundo com as mãos nos bolsos; corredor de escola iluminado com chão de azulejo bege, paredes creme e rodapés marrons, planta grande ao lado da porta “2B”, cartazes e cacifes ao fundo e marcas de lama junto à entrada; cena centrada na descoberta do envelope amarelo junto à planta, atmosfera de tensão dissipada, luz suave do fim de tarde, composiçao em diagonal dirigida ao envelope, estilo claro com linhas nítidas e cores vivas que ressaltam cooperação e honestidade. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O sumiço na biblioteca

O Tomás tinha 12 anos e um talento estranho: reparava em coisas pequenas, como a ponta de um atacador desatado ou uma migalha fora do lugar. Naquela tarde de sexta-feira, ele estava na biblioteca da escola a devolver um livro quando ouviu um “ai!” abafado atrás do balcão.

A dona Lurdes, a bibliotecária, segurava uma caixa vazia com as duas mãos, como se fosse um ninho sem ovos.

— Tomás… desapareceu.

— O quê? — ele aproximou-se, já com o cérebro a ligar luzes.

— O envelope com as fotografias do Clube de Ciências. Íamos usar na reunião de hoje para escolher a capa do jornal da escola. Eu deixei aqui, nesta gaveta. E agora… puff.

O Tomás olhou para a gaveta aberta. Dentro, só havia elásticos, carimbos e um lápis mastigado.

— Tem a certeza de que estava aqui?

— Certeza absoluta. E só eu e mais duas pessoas temos a chave desta gaveta: eu, o diretor adjunto e a Dina, a responsável do Clube.

A dona Lurdes respirou fundo, tentando não dramatizar. Mas os olhos dela tremiam de preocupação.

O Tomás sentiu aquele impulso de ajudar. Não por se achar detetive, mas porque odiava ver alguém aflito por algo que tinha responsabilidade de cuidar.

— Quem mais esteve aqui hoje?

— De manhã, a Dina veio buscar a chave da sala de reunião. À hora do almoço, o diretor adjunto passou para pegar uns papéis. E… mais ninguém.

Tomás inclinou-se, como se cheirasse mistérios no ar. No balcão, havia uma marca de pó limpa em forma de meia-lua, como se alguém tivesse arrastado algo.

— Posso fazer umas perguntas? — ele disse, com cuidado.

— Por favor.

Ele pegou num caderno pequeno do bolso. Não era para parecer importante; era para não se esquecer.

— O envelope era como?

— Amarelo, com uma etiqueta: “CLUBE DE CIÊNCIAS — NÃO DOBRAR”.

— E tinha alguma coisa especial?

A dona Lurdes hesitou.

— A Dina disse que havia… uma fotografia “sensível”. Nada de proibido! Só uma imagem desfocada de alguém a mexer no laboratório fora de horas. Eles queriam descobrir quem foi.

O Tomás sentiu um friozinho de curiosidade. Uma foto desfocada era como um puzzle a pedir solução.

— Então vamos encontrar esse envelope antes da reunião — disse ele. — E sem culpar ninguém à toa.

A dona Lurdes assentiu, aliviada.

— Obrigada, Tomás. Só… tenta ser discreto.

Discreto não era bem a palavra que combinava com a mente do Tomás quando entrava em modo investigação. Mas ele tentou.

Capítulo 2 — Três chaves e um papel dobrado

Tomás começou pelo mais simples: o lugar. Uma investigação, ele pensava, começa com o que está na frente do nariz.

— Dona Lurdes, posso ver a outra gaveta? — perguntou.

— Essa está só com fichas.

Ele puxou devagar. Nada. Depois olhou o chão atrás do balcão. Havia um clipe brilhante e… um papel dobrado, bem escondido junto ao rodapé.

— Isto é seu? — Tomás apanhou o papel.

A dona Lurdes franziu a testa.

— Não. Parece um recado.

Tomás abriu. Era um rascunho com letras apressadas:

“Reunião 16h — Sala 2B. Levar projetor. Não esquecer a pasta.”

E havia um pequeno desenho no canto: um olho com sobrancelha grossa, tipo caricatura.

— Quem desenha assim? — Tomás perguntou mais para si.

— O diretor adjunto costuma rabiscar enquanto fala ao telefone — disse a dona Lurdes.

Uma pista. Talvez o recado tivesse caído do bolso dele. Mas isso não provava nada sobre o envelope.

Tomás anotou: recado do diretor adjunto? sala 2B, projetor, pasta.

— A senhora disse que a Dina veio buscar a chave da sala de reunião. Que sala?

— Sala 2B. A sala de reunião dos clubes. Fica no corredor do segundo piso.

Tomás imaginou: envelope na gaveta. Dina passa. Diretor passa. Reunião na 2B. Alguém leva uma pasta. Se alguém confundiu envelope com pasta? Ou guardou junto?

Ele decidiu falar com a Dina primeiro. Era mais fácil começar com alguém do Clube, e não com um adulto que podia achar que um miúdo estava a “inventar casos”.

A Dina estava no pátio, com uma mochila enorme e um cabelo preso num coque que parecia aguentar o mundo.

— Dina! — Tomás acenou.

Ela virou-se, olhos atentos.

— Tomás? Estás pronto para a reunião? Ainda falta meia hora.

Tomás foi direto, mas gentil.

— O envelope das fotos… sumiu. A dona Lurdes está preocupada.

A Dina ficou imóvel por um segundo, como se alguém tivesse desligado o som.

— O quê? Mas eu preciso daquelas fotos! E… a outra.

— A desfocada?

Ela mordeu o lábio.

— Sim. Alguém entrou no laboratório na semana passada. A câmera de segurança falhou, mas um colega tirou uma foto pelo vidro da porta. Ficou tremida. Dá para ver só uma mancha com casaco escuro.

Tomás tentou acalmar.

— Vamos pensar. Quando foi a última vez que viste o envelope?

— Ontem, no meu armário do clube. Eu trouxe para a biblioteca hoje de manhã, para a dona Lurdes guardar até à reunião. Entreguei-lhe. Vi ela colocar na gaveta e fechar com chave. Depois fui buscar a chave da sala 2B e fui para a aula.

— Tocaste na gaveta depois?

— Não. Nem cheguei perto do balcão.

Tomás anotou mentalmente: Dina entrega, dona Lurdes guarda, Dina vai embora. Diretor passa ao almoço.

— Quem mais sabia da foto desfocada? — Tomás perguntou.

— Quase ninguém. Eu contei ao Rui e à Salomé, porque são do clube. E… o diretor adjunto, porque ele é responsável pelo laboratório.

Tomás sentiu o mistério crescer, mas sem ameaças. Um mistério “doce”, daqueles que dão cócegas no cérebro.

— Dina, uma coisa: na reunião vamos usar projetor, certo?

— Sim. Para ver as fotos na tela.

— Ótimo. Talvez o envelope tenha sido levado por engano com o projetor ou uma pasta. Vamos para a sala 2B mais cedo e procurar com calma.

A Dina assentiu, já a recuperar a energia.

— Vou contigo. E prometo: nada de acusações sem prova.

Tomás sorriu. Gostava quando as pessoas entendiam a regra mais importante: responsabilidade não é culpar; é resolver.

Capítulo 3 — A sala de reunião e o silêncio que fala

A sala 2B era uma sala comum, mas naquele momento parecia um cenário de filme: cadeiras em círculo, mesa comprida ao centro, um quadro branco com marcas de caneta antiga, e uma janela grande que deixava entrar luz de fim de tarde.

O Tomás entrou devagar, como se o chão pudesse contar segredos.

— Olha ali — disse a Dina.

No canto, havia um carrinho com o projetor, uma extensão e uma pasta preta em cima.

— A pasta! — Tomás aproximou-se.

A pasta tinha um elástico e um autocolante: “DOCUMENTOS — DIREÇÃO”.

— Não mexe ainda — Dina sussurrou, como se a pasta pudesse fugir.

Tomás olhou em volta primeiro. Na mesa, um copo de papel vazio. No chão, perto da porta, uma mancha de barro seco em forma de meia-bota.

— Alguém entrou aqui com sapatos sujos — comentou.

— Hoje choveu de manhã — Dina respondeu. — O pátio estava um lamaçal.

Tomás abriu a pasta com cuidado. Lá dentro, havia folhas, um mapa da escola e… nada de envelope amarelo.

— Pelo menos já sabemos que não está aqui — disse ele.

Dina suspirou.

— E agora?

Tomás apontou para o projetor.

— Vamos ligar. Às vezes, as coisas deixam pistas onde ninguém olha.

— O projetor?

— Sim. Se alguém ia apresentar as fotos, podia ter guardado o envelope junto ao equipamento. Vamos verificar o carrinho, a gaveta, a caixa de cabos.

Eles revistaram com método: primeiro a prateleira de cima, depois a de baixo, depois a caixa de cabos. Encontraram um comando remoto, pilhas soltas e… um pequeno pano de limpar lentes.

— Isso é do laboratório — Dina disse. — Tem o símbolo do Clube.

Tomás sentiu um clique na cabeça.

— Então alguém do clube mexeu aqui antes.

— Ou alguém pegou no pano por engano.

— Ou… usou para limpar algo.

Tomás voltou-se para a janela. No vidro, bem perto do puxador, havia uma marca gordurosa de dedo, como se alguém tivesse espreitado ansioso.

— Dina, quem costuma ficar nervoso em reuniões? — ele perguntou, meio brincando.

— Toda a gente quando tem de apresentar. Mas o Rui fica… hiperativo. Ele toca em tudo.

— O Rui tem casaco escuro? — Tomás lembrou da foto.

— Quase sempre. Um casaco preto enorme, parece que engoliu o Rui.

Tomás decidiu não concluir cedo demais. Um bom detetive, mesmo improvisado, sabe que coincidências adoram enganar.

A Dina olhou para o relógio.

— Faltam vinte minutos. O pessoal vai chegar.

Tomás pegou no caderno e falou baixo:

— Vamos organizar o que sabemos. Ajuda-me a listar?

Dina assentiu.

Tomás escreveu no quadro branco, com caneta azul:

1) Envelope amarelo “NÃO DOBRAR” desapareceu da gaveta trancada da biblioteca.

2) Só três chaves: dona Lurdes, diretor adjunto, Dina.

3) Recado encontrado perto do balcão sobre reunião 16h e “pasta”.

4) Pano do laboratório no carrinho do projetor.

5) Marca de barro perto da porta da sala 2B.

Ele virou-se para a Dina.

— Agora a parte mais importante: perguntas para o leitor… digo, para nós. Quem teve oportunidade? Quem tinha motivo? E o que foi por engano?

Dina arqueou a sobrancelha.

— Estás a falar sozinho?

— Um bocadinho — Tomás riu. — Ajuda a pensar.

No corredor, ouviu-se passos e vozes. A reunião ia começar, com ou sem envelope. Mas o Tomás sentia que a solução estava ali, escondida num detalhe.

Capítulo 4 — A foto desfocada começa a ganhar forma

Chegaram o Rui e a Salomé, mais dois alunos do clube, e também o diretor adjunto, o senhor Azevedo, com uma gravata que parecia sempre apertada demais.

— Boa tarde — disse o senhor Azevedo, pousando uma garrafa de água na mesa. — Já temos tudo pronto?

A Dina tentou sorrir, mas falhou.

— Quase. Falta o envelope com as fotos. Desapareceu da biblioteca.

O senhor Azevedo ficou sério, mas não gritou. Só ajeitou a gravata.

— Isso é… inconveniente. Dona Lurdes está a par?

— Sim — Tomás respondeu. — Estamos a tentar encontrar sem confusão.

O Rui abriu os olhos como se aquilo fosse o melhor episódio do ano.

— Uau. Um mistério real!

— Mistério com responsabilidade — Salomé corrigiu, cruzando os braços. — Não é para fazer drama.

Tomás apontou para o quadro com a lista de pistas.

— Vamos ser rápidos. Temos pouco tempo. Eu proponho uma coisa: cada um diz onde esteve entre a hora em que a Dina deixou o envelope e agora. E qualquer detalhe: pastas, chaves, barro, o que for.

O senhor Azevedo assentiu, surpreendentemente.

— Muito bem. Vamos cooperar.

A Dina começou:

— Eu deixei o envelope com a dona Lurdes às 9h. Depois fui para a aula. Às 10h peguei a chave da sala 2B e devolvi. Não voltei à biblioteca. Almocei com a Salomé.

Salomé confirmou.

— Eu estive com a Dina. Depois fomos ao laboratório buscar materiais. A porta estava fechada.

Rui levantou a mão.

— Eu fui à biblioteca depois do almoço para imprimir uma coisa. Vi o senhor Azevedo lá dentro, perto do balcão. Eu não mexi em gavetas, juro. Só usei o computador.

O senhor Azevedo pigarreou.

— Fui buscar uns documentos e… sim, posso ter deixado cair um recado. Eu tinha pressa. Mas não vi envelope nenhum.

Tomás olhou para o recado mentalmente. “Levar projetor. Não esquecer a pasta.” Era isso.

— Senhor Azevedo, o senhor levou alguma pasta da biblioteca?

— Levei a minha pasta preta, como sempre. Estava vazia e agora tem papéis.

Tomás apontou para a pasta em cima do carrinho.

— É esta?

O senhor Azevedo olhou.

— Sim.

Tomás respirou fundo. Hora de uma experiência, não uma acusação.

— Posso sugerir um teste? Se o envelope tem “NÃO DOBRAR”, alguém poderia ter tentado colocá-lo dentro da pasta e… ele ficou preso nalguma dobra, ou caiu no caminho.

— Ou ficou no carrinho — Rui interrompeu, já em modo filme.

— Ou foi escondido — Salomé disse, desconfiada.

Tomás levantou a mão, como um maestro a pedir silêncio.

— Vamos com método. Primeiro: verificamos a pasta com calma, folha por folha. Depois: caminho da biblioteca até aqui, procurando um envelope amarelo.

A Dina concordou.

— E sem correr. Correr faz perder coisas.

Eles abriram a pasta. O senhor Azevedo tirou os papéis um a um. Tomás observava as bordas, como quem procura uma asa de pássaro presa entre folhas. Nada.

— Não está — o senhor Azevedo disse, com um suspiro tenso. — E eu não peguei envelope nenhum. Tenho de acreditar em mim, não é?

Tomás percebeu um detalhe: o senhor Azevedo tinha barro seco na sola dos sapatos. A mesma forma de meia-bota? Quase.

Mas era normal: choveu, todo mundo pisaria barro. Ele não queria cair na armadilha do “parece”.

— Vamos ao corredor — Tomás decidiu. — Em linha, olhando para o chão e para os cantos. Um envelope amarelo não é invisível.

Saíram. A luz do corredor era branca e fazia os objetos parecerem mais nítidos, como se a escola estivesse em modo “examinar”.

E então o Tomás viu: perto de uma planta em vaso, entre a parede e o rodapé, havia um pedaço amarelo.

— Ali!

Ele ajoelhou-se e puxou. Era um envelope… mas amassado e meio rasgado, como se alguém o tivesse enfiado à força num sítio apertado.

A Dina levou a mão à boca.

— É ele!

Tomás olhou em volta.

— Estava escondido, ou caiu e alguém empurrou para o canto?

Salomé apontou para o vaso.

— A planta fica na entrada da sala 2B. Se alguém passou com pressa e deixou cair, o envelope podia deslizar. E depois, um pé… puxa para o canto sem querer.

O senhor Azevedo pareceu aliviado, mas ainda preocupado.

— Vamos ver se as fotos estão intactas.

Tomás segurou no envelope como se fosse um segredo frágil.

— Com cuidado. Responsabilidade, lembram?

Voltaram para a sala de reunião e fecharam a porta. O barulho do corredor ficou longe, como se o mistério pedisse silêncio para se resolver.

Dentro, havia um pequeno cartão de memória e algumas fotos impressas. Algumas estavam um pouco amarrotadas, mas legíveis.

— E a foto desfocada? — Rui perguntou, quase a saltar.

A Dina tirou uma fotografia mais escura. Nela, uma figura borrada perto da porta do laboratório. Uma mancha preta, um braço levantado, e um brilho no chão.

— Isto não chega — Dina disse. — Continua desfocado.

Tomás aproximou a foto do projetor.

— Vamos projetar. Às vezes, ampliando e ajustando, dá para “desfocar ao contrário”.

— Isso existe? — Rui perguntou.

— Não faz milagres — Tomás respondeu. — Mas pode ajudar a ver contornos.

Ele ligou o projetor. A imagem apareceu grande na parede: um borrão gigante.

Tomás pediu:

— Rui, apaga a luz. Salomé, segura a foto bem reta.

A sala escureceu. O Tomás ajustou foco, brilho e contraste com os botões, devagar, como quem abre uma fechadura.

A mancha começou a ganhar forma. Ainda turva, mas agora havia pistas: uma mochila com um patch claro, e… um tênis com cadarço fluorescente.

Tomás ficou muito quieto. Aquele tipo de cadarço ele tinha visto hoje. E não era do Rui.

Era… dele mesmo? Não. O dele era azul normal.

Ele olhou para os pés da Dina. Os cadarços dela eram brancos.

Olhou para a Salomé. Ela usava botas.

E então viu: o Rui tinha um cadarço fluorescente… mas só num dos tênis, porque ele dizia que “dava sorte”.

Rui percebeu o olhar e engoliu em seco.

— O que foi?

Tomás não acusou. Fez perguntas.

— Rui, tu tens um cadarço fluorescente, certo?

— Tenho… sim. Mas isso não prova nada. Muita gente pode ter.

— Verdade. Então vamos continuar. O patch na mochila… como é?

A imagem mostrava um círculo claro, talvez um desenho.

Dina franziu a testa.

— Parece o símbolo do Clube de Robótica. O círculo com um raio.

Rui arregalou os olhos.

— Eu… eu ajudo às vezes a Robótica.

O Tomás sentiu que estava perto, mas ainda faltava a parte mais importante: a explicação que fosse calma, justa e responsável.

Capítulo 5 — A verdade sem gritos

Tomás desligou o projetor por um momento e acendeu a luz. Mistérios resolvidos à força deixam as pessoas partidas. Ele não queria isso.

— Rui — disse ele, numa voz normal — a gente não vai fazer julgamento. Só queremos entender. Se foste tu na foto, por quê?

Rui ficou vermelho até às orelhas. Olhou para a Dina, depois para o chão.

— Eu… eu não estava a “invadir”. Juro. Eu só…

Salomé encostou-se à mesa.

— Só o quê?

Rui respirou como quem se prepara para mergulhar.

— Eu tinha esquecido o meu caderno no laboratório de Ciências. Tinha anotações para a feira. E eu sabia que a porta às vezes não fecha direito quando alguém não puxa com força. Então… eu tentei, e abriu. Entrei rápido, peguei o caderno e saí.

Dina levou a mão à cabeça.

— Rui! Isso é entrar fora de horas. Mesmo que seja para pegar algo, tens de pedir autorização.

— Eu sei — Rui disse, com a voz a falhar. — Eu fiquei com vergonha de dizer que fui descuidado e deixei lá. Pensei: “ninguém vai notar”. Só que… alguém tirou uma foto.

Tomás acenou, entendendo a peça que faltava.

— E o envelope?

Rui mordeu o lábio de novo.

— Eu fui à biblioteca imprimir. Vi a dona Lurdes atender uma professora e deixar a gaveta meio aberta por um segundo. Eu vi a etiqueta “Clube de Ciências — NÃO DOBRAR” e… eu entrei em pânico. Pensei que iam descobrir que era eu na foto e que iam achar que eu estava a roubar coisas.

Salomé soltou um “ah” bem baixinho.

Rui continuou, atropelando palavras.

— Então eu puxei o envelope e pensei em… apagar a foto ou rasgar. Mas eu não consegui. Eu sou medricas. Aí eu ouvi passos, enfiei o envelope debaixo do casaco e corri. No corredor, ele escorregou. Eu tentei esconder perto da planta, para voltar depois. Só que… eu esqueci. E depois fiquei com medo de perguntar.

Dina fechou os olhos por um segundo, depois abriu.

— Rui… isto foi irresponsável. Mas… obrigado por dizeres a verdade agora.

O senhor Azevedo, que tinha ficado calado, aproximou-se com calma.

— Rui, entrar no laboratório sem autorização é sério. Mas o mais importante é o que fazemos a seguir. Vais assumir o erro. E vamos reparar o que der para reparar.

Rui assentiu, envergonhado.

— Eu aceito. E eu peço desculpa à dona Lurdes também. Ela confiou na chave e na gaveta.

Tomás sentiu um alívio quente no peito. Não era “pegar um culpado”. Era transformar um erro numa lição que não esmagasse ninguém.

— Temos uma ideia — Tomás disse, voltando ao modo resolução. — A foto desfocada… não precisa ser usada para humilhar ninguém. Pode servir para falar de regras e segurança, sem mostrar a cara.

Dina concordou.

— E na apresentação podemos incluir um slide: “Se precisares de algo fora de horas, pede ajuda a um adulto.” Isso é responsabilidade.

Salomé sorriu de lado.

— E também: “Não resolvas medo com mais medo”. Isso só piora.

Rui soltou um riso nervoso.

— Ok… eu mereço essa frase numa camiseta.

O Tomás pegou no envelope e alisou-o sobre a mesa.

— Primeiro, vamos devolver à dona Lurdes e explicar que o envelope foi encontrado. Depois, Rui, tu vais com a Dina falar com ela. Eu vou junto, se quiserem.

O senhor Azevedo assentiu.

— Eu também vou. E depois voltamos e fazemos a reunião. Sem suspense extra.

Rui olhou para o Tomás, agradecido.

— Tomás… por não gritares comigo.

Tomás encolheu os ombros.

— Gritos não desfocam fotos. Só desfocam a cabeça.

Salomé riu. Até a Dina soltou um sorriso pequeno.

Capítulo 6 — O lanche do caso encerrado

Na biblioteca, a dona Lurdes estava a organizar livros com uma energia que era claramente “estou a tentar não pensar no envelope”.

Quando viu o grupo entrar, endireitou-se.

— Encontraram?

Tomás levantou o envelope amarelo, agora um pouco amarrotado, mas inteiro.

— Aqui. Estava perto da sala de reunião.

A dona Lurdes fechou os olhos, aliviada.

— Ai, graças… Eu já estava a imaginar que tinha ido para o lixo, ou pior.

Rui deu um passo à frente, a voz baixa.

— Dona Lurdes… fui eu que peguei. Por medo. Eu devolvo e peço desculpa. Eu fui irresponsável.

O silêncio caiu por um segundo. A dona Lurdes olhou para o Rui com um olhar que misturava desapontamento e cuidado.

— Rui, obrigada por dizeres a verdade. Eu fico triste, sim. Porque confiança é como papel: se amassa, dá para alisar, mas fica marca. A tua tarefa agora é aprender com isso.

Rui assentiu, quase sem ar.

O senhor Azevedo falou:

— Vamos registar o que aconteceu e pensar numa forma de melhorar a segurança do laboratório e da biblioteca. Sem caça às bruxas. Com regras claras.

Dina acrescentou:

— E vamos combinar que, se alguém esquecer algo, pede ajuda. Mesmo que dê vergonha.

A dona Lurdes respirou e então fez uma coisa inesperada: abriu uma gaveta diferente e tirou uma bandeja coberta por um pano.

— Eu ia guardar isto para o fim da reunião, mas… acho que hoje faz sentido agora também. Porque resolver um problema com honestidade merece um pequeno lanche.

Ela levantou o pano: havia bolinhos simples, fatias de maçã, sumo e uns biscoitos em forma de lupa (ninguém sabia como ela tinha conseguido biscoitos em forma de lupa, mas era muito apropriado).

Rui abriu um sorriso tímido.

— Isso parece… um prêmio de detetive.

Tomás pegou num biscoito e olhou para ele como se fosse prova.

— Prova número um: a dona Lurdes é a melhor a fazer lanches.

Salomé pegou outro.

— Prova número dois: ninguém resiste a biscoitos.

Dina brindou com o copo de sumo.

— Prova número três: responsabilidade dá trabalho, mas dá paz.

Eles voltaram para a sala de reunião com o envelope e com uma caixa de lanche emprestada pela dona Lurdes. A reunião aconteceu. Escolheram a foto de capa do jornal (uma imagem da feira com foguetes de papel), e a foto desfocada virou um slide discreto sobre regras e confiança.

No fim, sentaram-se em círculo, com migalhas na mesa e risos leves no ar. O mistério estava resolvido. E, mais importante, ninguém saiu dali sem aprender alguma coisa.

Tomás mastigou devagar e pensou que o mundo era cheio de pequenos casos: chaves, recados, corredores, medos. E que, às vezes, a melhor lupa era uma pergunta feita com calma.

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Habilidade ou dom natural para fazer algo bem.
Abafado
Som ou voz que soa fraco, como se estivesse coberto.
Balcão
Mesa alta onde a bibliotecária atende as pessoas.
Gaveta
Caixa que fica dentro de uma mesa para guardar coisas.
Diretor adjunto
Professor que ajuda o diretor da escola nas tarefas.
Sensível
Algo que pode causar preocupação ou precisa de cuidado.
Desfocada
Imagem sem nitidez, onde os detalhes ficam borrados.
Projetor
Aparelho que mostra imagens grandes numa parede.
Laboratório
Sala onde se fazem experiências e trabalhos de ciência.
Responsabilidade
Dever de cuidar bem de algo ou de cumprir uma tarefa.

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