Capítulo 1 — O bilhete no hall
Amanheceu claro e fresco na Rua das Laranjeiras. Sofia calçou as sapatilhas correndo, porque uma nova semana de aulas começou e, principalmente, porque ela era curiosa como um gato e algo a chamava: um bilhete preso ao quadro de avisos do prédio antigo onde morava.
— Olhem! — chamou ela para o vizinho, o senhor Mário, que varria a entrada. — Tem um bilhete com um desenho de coruja.
O senhor Mário ajeitou os óculos e sorriu.
— Deve ser brincadeira dos adolescentes do terceiro andar — disse ele —. Mas você, Sofia, tem o olho de detetive. Vai lá, lê.
Sofia desdobrou o papel. Havia só uma pergunta: "Quem levou a música da sala de ensaio?" Abaixo, um pequeno coração.
Sofia sentiu um friozinho bom. Uma investigação! Ela guardou o bilhete no bolso e decidiu começar ali mesmo, no prédio antigo que cheirava a madeira e a jasmim. Os corredores tinham quadros com molduras douradas e tapetes que amorteciam passos — perfeito para um mistério digno de audição.
Capítulo 2 — A sala de ensaio e os suspeitos
A sala de ensaio ficava no primeiro andar, atrás da porta com vidro fosco. Havia cartazes de concertos e um piano encostado no fundo. Hoje estava mais silenciosa que o habitual.
Sofia bateu, entrou e encontrou três pessoas: Carla, a professora de música; Tomás, o baterista do clube de jovens; e Lúcia, que tocava violino. Todos pareciam preocupados.
— A partitura de hoje desapareceu — explicou Carla, nervosa. — Era a única cópia que tínhamos antes do recital.
Sofia examinou a mesa. Havia uma caneca com pegadas de café, uma bolsa aberta e um estojo de lápis. Em cima do piano, um lenço azul dobrado com um fio de lã enroscado. No chão, um pequeno papel rasgado com notas musicais desenhadas.
— Quem entrou aqui depois do ensaio ontem? — perguntou Sofia.
— Eu saí por volta das oito — disse Tomás. — Deixei meu metrônomo no armário.
— Eu fiquei até mais tarde para ajudar a professora — contou Lúcia. — Mas não toquei na partitura.
Sofia pediu para olhar os bolsos de cada um (com permissão). Nada. Ela colocou a mão no queixo e virou o lenço azul no ar. Havia um cheirinho suave de camomila. "Isso é estranho", pensou.
— Vamos resolver por partes — disse Sofia. — Primeiro, olhemos a sala com calma. Cada pista importa.
Capítulo 3 — A inspeção da sala
Sofia movimentou-se como um pequeno repórter. Abriu o armário dos instrumentos, olhou debaixo dos tapetes, verificou a lousa e a estante de partituras. Pediu para os outros não mexerem.
No armário, um estojo de violoncelo com uma etiqueta do antigo conservatório. Embaixo do piano, um rascunho com a assinatura de alguém chamado "Rita". Nas janelas, marcas de dedos que levavam para o lado do corredor onde ficavam as caixas de som.
Ela notou também um fio de lã solto preso ao puxador de uma gaveta. O fio era do mesmo azul do lenço. Sofia segurou o fio e puxou com cuidado: a gaveta abriu e uma pequena chave caiu. A chave tinha um brasão em forma de nota musical.
— Boa! — exclamou Carla. — Essa chave abre nosso armário de partituras trancado.
— Ou será que alguém a colocou ali para nos confundir? — sugeriu Lúcia.
Sofia olhou os rostos. Cada um parecia sincero. Mas havia algo que encaixava: a camomila no lenço, o cheiro de chá no corrimão do prédio e a pequena chave com a nota. Havia um padrão calmo, nada de passos apressados. "Quem gosta de chá?" pensou Sofia.
Ela virou-se para os leitores — porque envolvê-los era seu costume — e perguntou em voz alta, como se todos estivessem ali: — Se você fosse eu, por onde começaria? Procuraria quem costuma tomar chá na sala? Ou examinaria as câmeras do hall?
(há duas opções a considerar: 1) interrogar vizinhos que ouviram barulhos; 2) checar a sala ao lado, que costuma ser usada para aulas de canto. Sofia decidiu… )
Sofia decidiu primeiro pedir a ajuda do senhor Mário para checar se alguém tinha passado pelo hall de madrugada. Enquanto isso, ela pediu a Tomás para verificar o armário trancado com a chave encontrada.
Capítulo 4 — Segredos no corredor
O senhor Mário fez seu serviço de vigia com alegria. Ele lembrava de passos, vozes e de um pacote entregue tarde da noite por uma jovem de casaco verde. Disse também que sentiu um cheiro de chá quando passou perto da sala pela manhã.
Tomás abriu o armário com a pequena chave. Dentro, onde deveriam estar as partituras, havia só um envelope vazio e um pequeno sachê de chá de camomila. "Alguém queria que achássemos só o sachê", murmurou Carla. "Ou estava dando uma pista."
Sofia pegou o sachê e sentiu o mesmo aroma do lenço. Fechou os olhos um segundo e recordou a assinatura "Rita" no papel. Quem era Rita? Lúcia comentou que, na lista de inscritos para o recital, havia uma aluna que assinava às vezes com apelidos. Sofia pediu para ver a lista.
No fim do corredor, o quadro de avisos revelou uma nota pequena: "Prática extra: RitA — quarta-feira". O nome estava escrito com um R maiúsculo e um a minúsculo. Sofia notou que o A tinha uma volta na letra, um estilo igual ao da assinatura.
— Se Rita é uma pessoa — disse Sofia —, pode ter deixado essa pista de propósito. Quem queria nos conduzir a procurar o sachê? E por quê?
Ela pensou em respeito: alguém podia ter pego a partitura por acidente, achando que era de outra turma. Ou talvez alguém estivesse protegendo um segredo musical. Sofia lembrou de perguntar ao porteiro sobre entregas. O porteiro disse que viu uma jovem de casaco verde entrar com uma partitura sob o braço, sair apressada, e que depois viu o casaco pendurado no varal do terceiro andar.
— Vamos ao terceiro andar — disse Sofia. — Hora de bater em mais portas.
Capítulo 5 — A verdade no apartamento antigo
O terceiro andar tinha portas entalhadas e uma escada de caracol que rangia. O corredor parecia um arquivo vivo de histórias. Chegando ao apartamento indicado pelo varal, Sofia bateu com a mão leve.
— Oi — disse uma voz tímida. — Sou a Rita.
A porta abriu e apareceu uma menina da idade de Sofia, com olhos grandes e um avental manchado de tinta. Havia partituras espalhadas na mesa. Um pequeno rádio tocava uma canção antiga. Em cima do sofá, uma pilha de recortes e um crochê azul — o mesmo tom do lenço.
— Eu não levei a partitura para roubar — explicou Rita, corando. — Eu a achei na praça. Estava molhada de chuva. Queria consertar as notas porque penso que ela pertencia ao avô, que era maestro. Eu ia devolver, mas estava com medo de que ninguém entendesse.
Sofia viu nos olhos de Rita sinceridade misturada com vergonha. Rita mostrou um envelope onde esteva escrita a palavra "Perdão" e um bilhete explicando: "Vou arrumar, depois devolvo." Havia também um recibo de uma cópia de partitura que mostrava que a sala tinha uma única cópia original.
— Mas por que o sachê de camomila e o lenço? — perguntou Sofia.
Rita soltou uma risada baixa.
— Eu sempre tomo chá quando trabalho. E esse lenço é da minha avó. Eu deixei cair sem perceber… depois, percebi que era muito tarde. Não quis atrapalhar.
Sofia pegou a partitura molhada e percebeu que alguém a havia escondido atrás de um quadro na sala de ensaio para secar. E por acaso, o quadro do corredor estava um pouco torto, como se alguém o tivesse manejado.
— Então não houve roubo — disse Sofia, sorrindo. — Houve confusão e um cuidado. Rita tentou consertar. Mas privacidade e confiança eram importantes.
Rita ofereceu a partitura e pediu desculpas. Todos aceitaram, com respeito e compreensão. A professora Carla sugeriu organizar cópias para evitar futuros problemas. Tomás brincou, dizendo que agora todos teriam que dividir a tarefa de xerocar partituras.
Capítulo 6 — Chá compartilhado e lições
Para encerrar, Rita trouxe uma xícara de chá de camomila para cada um. O prédio antigo reverberou com sorrisos. Sofia preparou as xícaras com cuidado e distribuiu. As crianças se sentaram no pequeno pátio atrás da sala de ensaio, onde as folhas das laranjeiras balançavam.
— Saber ouvir e perguntar antes de julgar — disse Sofia, ao levantar a xícara — é uma habilidade de detetive e de amigo.
Eles brindaram com chá. O sabor era morno, calmo, como a conclusão de um quebra-cabeça bem montado. O senhor Mário apareceu com biscoitos e contou uma piada sobre partituras que se escondem quando sentem vergonha. Riram sem maldade, com respeito à vergonha de Rita e à ajuda dela.
Antes de ir embora, Sofia escreveu um bilhete e colou no quadro de avisos: "Se algo desaparecer, procure primeiro quem pode cuidar. E ofereça chá." Era uma regra simples, mas justa.
Sofia caminhou para casa satisfeita. O mistério tinha sido resolvido com curiosidade, escuta e gentileza. E, naquela tarde, o velho prédio parecia um pouco mais unido. O aroma de camomila ficou no corredor, lembrando a todos que respeito e cooperação resolvem muitos enigmas.