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História de pequenos investigadores 11 a 12 anos Leitura 22 min.

O mistério da flâmula vermelha no square

Nilo, um lápis detetive, e seus amigos do estojo investigam o misterioso desaparecimento da Flâmula do square seguindo pistas como fiapos, pegadas e um recado assinado “PIN”.

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Personagem principal: Nilo, lápis amarelo magro e brilhante, olhos negros redondos, expressão determinada e doce, segurando delicadamente uma pequena flâmula vermelha enquanto a recoloca no banco. Personagens secundários: Pipa, borracha rosa redonda e sorridente/inquieta, à esquerda do lápis rolando na borda do banco e olhando a flâmula; Fio, afiador metálico pequeno e áspero, com ar rabugento mas aliviado, junto ao pé do banco observando; Lila, régua transparente, direita e orgulhosa, encostada no encosto observando com seriedade; Bina, caneta azul tímida e envergonhada, mãos juntas à frente do banco segurando um remendo de tecido vermelho; Pin, clipe dourado pequeno e constrangido, preso na borda do banco com um bilhete “desculpe”. Local: um pequeno parque ensolarado com piso de paralelepípedos, banco de madeira gasto, coreto e passarela ao fundo, areia, folhas verdes e escorregador amarelo visíveis. Situação: momento caloroso de amizade em fim de tarde, os amigos consertam e devolvem a flâmula ao banco com gestos precisos (nó reforçado, remendo costurado), expressões de alívio, luz suave e paleta de cores quente, composição centrada no banco com os personagens em semicírculo. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Sumiço no Parapeito

O Lápis Nilo acordou com a ponta a formigar. Era assim que ele sentia que o dia ia pedir rabiscos importantes. Morava num estojo azul, junto de uma Borracha redondinha chamada Pipa, um Apontador de metal chamado Fio e uma Régua transparente, a Lila, que se gabava de ser “a mais reta de todas”.

Naquela manhã, o estojo estava aberto, virado para o teto, e uma luz branca atravessava tudo. Nilo piscou—sim, lápis também piscam, só que por dentro—e ouviu um som que não combinava com a calma do lugar: um “tic-tic-tic” nervoso.

Era Fio, o apontador, batendo a tampinha.

—Sumiu —disse ele, com a voz fina de metal impaciente. —Sumiu de novo!

Pipa rolou até a beirada do estojo.

—O que sumiu? Meu bom humor? Porque eu tinha um pedacinho guardado…

—A Flâmula do Square! —sussurrou Lila, dramática. —A fitinha vermelha que a gente amarra no banco do nosso cantinho, pra marcar ponto de encontro.

Nilo endireitou o corpo comprido.

—Sem a Flâmula, a gente pode se perder. E… —ele baixou a voz— sem ela, alguém pode estar aprontando.

No parapeito ao lado do estojo, havia um recadinho desenhado num papel quadriculado. Um desenho simples: um círculo com um sorriso e, embaixo, três riscos, como pegadas. Ao lado, três letras tortas: “P-I-N”.

Pipa mordeu o ar.

“PIN”? Isso é o quê? Um pinguim? Um pino? Um… pepino?

Lila aproximou a face transparente.

—É assinatura. Quem fez isso quer ser notado.

Nilo respirou fundo, como quem inspira coragem.

—Então vamos fazer o que eu faço melhor: investigar. Sem pressa, sem pânico. Primeiro: pistas. Segundo: perguntas. Terceiro: deduções. E vocês vão ajudar. Combinado?

—Combinado —disse Pipa, tentando soar séria, mas escorregando num risinho.

Nilo olhou para o mundo lá fora. O caminho até o square começava logo adiante, onde o chão mudava de liso para pedrinhas. A Flâmula do Square não podia ter ido longe… a não ser que alguém a tivesse levado.

E Nilo não gostava de “a não ser”.

Capítulo 2 — Pegadas de Vento

No caminho, o grupo se manteve atento. Nilo riscava mentalmente um mapa: curvas, cantos, sombras. Lila media tudo com o olhar.

—Dois passos e meio até a borda da calçada. Depois, quatro até o portão baixo. Facílimo.

Fio resmungou:

—Nada é facílimo quando tem mistério.

Ao entrar no square, o ar ficou diferente. Cheirava a terra molhada e folhas amassadas. Havia um escorrega amarelo, uma gangorra que rangia sozinha e um banco de madeira, o Banco Zeca, com tábuas antigas e marcas de sol.

E lá estava o lugar onde a Flâmula costumava dançar: o canto do banco, perto do parafuso torto.

Agora… vazio.

No chão, Nilo viu três coisas ao mesmo tempo:

1) Um fiapo vermelho preso numa lasca de madeira.

2) Um rastro de grãozinhos de areia formando uma linha até uma moita.

3) Uma pena cinza, pequena, como se alguém tivesse deixado cair um pensamento leve.

Nilo virou-se para você, como se você estivesse ali ao lado, com olhos de detetive.

—Qual dessas pistas parece mais importante pra seguir primeiro?

Pipa não esperou.

—O fiapo vermelho! Isso é a Flâmula gritando baixinho.

Lila apontou com a ponta, elegante.

—A linha de areia é um caminho. Caminho é convite.

Fio girou, irritado.

—E a pena? Pode ser disfarce. Quem deixa uma pena pode querer que a gente pense em alguém… e não em outra pessoa.

Nilo sorriu, satisfeito. Três ideias. Três possibilidades.

—Vamos por ordem de certeza —decidiu. —O fiapo confirma que a Flâmula esteve aqui. A linha de areia indica direção. E a pena… guardamos como peça do quebra-cabeça.

Ele puxou o fiapo vermelho com cuidado. Não rasgou, mas veio com um nó minúsculo, diferente do nó simples que eles usavam.

—Viram isso? —Nilo mostrou. —O nó é duplo. Quem amarrou sabe fazer nós melhores do que nós.

Pipa arregalou o olhinho.

—Então o ladrão… é um expert em nós?

—Ou alguém que gosta de amarrar coisas —disse Nilo. —Vamos seguir a areia.

A linha de grãos levou até a moita. Dentro dela, algo brilhou. Fio se enfiou primeiro, corajoso do seu jeito rabugento.

—Achei um… clipe! Um clipe dourado!

Nilo pegou o clipe. Tinha uma dobra diferente, como se tivesse segurado um papel grosso. E havia uma marquinha de tinta azul.

Lila estreitou o olhar.

—Tinta azul… como a do nosso estojo.

Pipa rolou para trás.

—Espera. Alguém mexeu no estojo e veio até aqui?

Nilo guardou o clipe na memória e, se pudesse, também no bolso.

—Alguém esteve perto de nós antes de sumir com a Flâmula. Agora, a pergunta é: quem, no square, gosta de grãos de areia, faz nó duplo e usa clipe?

O silêncio respondeu com um rangido da gangorra. Parecia risada.

Capítulo 3 — A Entrevista com o Banco Zeca

Nilo sempre dizia que, num caso, tudo fala. Até o que não tem boca. Então ele foi até o Banco Zeca e encostou de leve, como quem cumprimenta um velho conhecido.

—Banco Zeca —disse Nilo. —Você viu algo ontem à tarde?

O Banco Zeca rangeu, orgulhoso. A voz dele era de madeira velha, cheia de “crac”.

—Eu vejo tudo. Só não corro atrás.

Pipa cochichou:

—Ainda bem. Imagina um banco correndo… eu ia me borrar toda.

Zeca ignorou, com dignidade.

—Ontem, quando o sol estava baixinho, três visitantes passaram por aqui. Um veio saltitando, outro veio arrastando algo, e um terceiro veio… bem… veio devagar, olhando pros lados.

Lila, toda metódica, perguntou:

—Consegue descrever melhor? Algum detalhe?

—O saltitante deixou areia por onde passou —disse Zeca. —O que arrastava algo fez um som de “raspa-raspa”. E o devagarinho… tinha um brilho, como se carregasse coisa de metal.

Nilo pensou rápido.

—Areia, raspa-raspa, metal… E a Flâmula sumiu. Banco Zeca, qual deles chegou mais perto do meu cantinho?

—O saltitante —respondeu Zeca. —Ele subiu no banco e ficou brincando com o parafuso torto. Depois amarrou alguma coisa ali.

Fio estalou.

—Nó duplo! Então o saltitante fez isso.

Pipa apontou para o chão.

—E ele deixou a trilha de areia! É o nosso suspeito número um!

Nilo levantou a ponta, pedindo calma.

—Suspeito não é culpado. A trilha pode ser involuntária. E alguém pode ter deixado areia de propósito pra nos enganar.

Lila ficou ainda mais reta.

—Como descobrimos se é armadilha?

Nilo respondeu com outra pergunta, do jeito dele:

—O que a areia nos leva a encontrar? Um clipe com tinta azul. Isso parece uma armadilha… ou um acidente?

Pipa franziu.

—Se fosse armadilha, o clipe estaria bem no meio do caminho, bem óbvio. Mas estava escondido na moita.

Fio concordou, sem querer dar o braço a torcer.

—Então foi acidente.

Nilo assentiu.

—Bom. Agora precisamos identificar os três visitantes. O saltitante… pode ser alguém que pula muito. O que arrastava algo… talvez carregasse um carrinho, ou puxasse uma tampa… E o devagar com brilho de metal… pode ter sido quem deixou o clipe.

O Banco Zeca soltou um “crac” pensativo.

—Ah, e tem mais. Ouvi uma frase. Alguém disse: “No Coreto é mais seguro”.

Nilo sentiu um arrepio de tinta.

—O coreto.

No centro do square havia um coreto pequeno, com degraus e uma cobertura redonda. Era onde os sons ecoavam e os segredos gostavam de se esconder.

Nilo olhou para você de novo.

—Se você fosse o detetive, iria direto ao coreto… ou procuraria primeiro quem salta e deixa areia?

Pipa já estava rolando na direção do coreto.

—Coreto! Mistério gosta de eco!

Lila fez uma linha imaginária.

—Coreto é o ponto central. Central significa… boa chance.

Fio resmungou, mas seguiu.

—Só não me façam entrar em teia de aranha. Eu enrosco.

Nilo foi por último, observando o chão. Porque, às vezes, o culpado não está à frente. Está nas pequenas coisas que ficaram para trás.

Capítulo 4 — O Coreto e o Som “Raspa-Raspa”

Os degraus do coreto estavam frios. No primeiro, havia marcas de arrasto: riscos claros, como se algo duro tivesse sido puxado com pressa. “Raspa-raspa”, exatamente.

Nilo se agachou o máximo que um lápis consegue.

—Isso foi feito por algo com borda. Talvez uma caixa. Talvez uma tampa.

No canto, sob a sombra, havia uma folha de papel dobrada em triângulo. Não era um aviãozinho. Era… uma mensagem.

Nilo desdobrou com cuidado. Tinha um desenho de um nó duplo e, ao lado, uma seta apontando para um desenho de ponte. Embaixo, uma frase escrita com letra caprichada:

“Quem procura bandeiras, encontra histórias. Perto da PONTE.”

Pipa deu uma voltinha de nervoso.

—Ponte? Que ponte? Aqui tem ponte?

Lila apontou para a parte mais distante do square, onde um caminho passava por cima de um canteiro, com duas tábuas arqueadas: a Ponte das Duas Tábuas. Pequena, mas famosa. Quem atravessava sentia que estava indo para um “outro lado”, mesmo sendo só o outro lado do canteiro.

Fio cutucou o papel.

—Letra caprichada… Isso não parece do saltitante. Saltitante costuma… pular, não caprichar.

Nilo concordou.

—E o desenho do nó duplo confirma que quem escreveu sabe de nós. Está nos guiando.

—Guiando ou brincando com a nossa cara —disse Pipa, tentando fazer cara brava. Saiu fofinha.

Eles desceram do coreto. No caminho, Nilo parou ao lado da gangorra rangente. No metal de um dos apoios, havia uma mancha azul, do mesmo azul do estojo.

Nilo apontou.

—Tinta azul de novo.

Lila aproximou-se.

—Pode ser marca de alguém que encostou aqui com algo pintado.

Fio soprou, como se o sopro pudesse limpar a dúvida.

—Ou alguém que quis deixar marca.

Nilo decidiu testar uma ideia.

—Se o clipe tinha tinta azul, e a gangorra também… talvez alguém com tinta azul esteja andando por aqui, encostando em coisas.

Pipa pensou alto:

—Quem aqui teria tinta azul? Um… marcador? Uma caneta?

Nilo sorriu de canto.

—Boa. E quem costuma usar clipes?

Lila respondeu rápido:

—Quem prende papéis. Quem gosta de recados.

Nilo guardou isso como se guardasse um segredo no grafite.

—Vamos à Ponte das Duas Tábuas. Mas com olhos abertos. Se alguém está nos guiando, quer ser seguido. E quando alguém quer ser seguido, tem um motivo.

O vento passou e fez as folhas baterem palmas bem baixinho. Quase como um aviso.

Capítulo 5 — A Ponte das Duas Tábuas e o “PIN”

A ponte era pequena, mas parecia maior naquele momento. As duas tábuas arqueadas rangiam de leve. Embaixo, o canteiro tinha terra escura e pedacinhos de casca.

No começo da ponte, Nilo viu uma marca: três riscos no pó, iguais aos do recado do parapeito. As “pegadas” do “PIN”.

Pipa apontou, animada:

—Olha! O PIN passou por aqui!

Fio torceu o corpo.

—Ou alguém quer que a gente pense isso.

Nilo concordou.

—Exato. Vamos verificar.

No meio da ponte, preso por baixo, havia algo vermelho balançando. Nilo esticou o corpo e, com ajuda de Lila como apoio, conseguiu ver melhor.

Não era a Flâmula inteira. Era um pedaço dela, cortado com cuidado, como se alguém tivesse feito uma amostra.

—Isso virou caça ao tesouro —murmurou Nilo.

Lila analisou a ponta cortada.

—Corte limpo. Feito com lâmina ou tesoura.

Pipa engoliu em seco.

—Quem anda por aí com tesoura?

Nilo pensou em quem poderia ter “brilho de metal” e “letra caprichada”. Tesoura brilha. Clipe brilha. E uma letra caprichada…

De repente, um “toc-toc” veio do alto, como um bico batendo em madeira. Uma voz aguda, curiosa, falou:

—Estão procurando o vermelho?

Eles olharam para cima. No corrimão da ponte, equilibrado com uma elegância exibida, estava o Grampo Quico, um prendedor de roupa de madeira com uma mola brilhante. Quico adorava se pendurar onde ninguém se pendurava e viver dizendo que era “radical”.

—Quico! —disse Pipa. —Você viu a Flâmula?

Quico abriu e fechou a boca de grampo, fazendo “clac”.

—Vi uma coisa vermelha. Vi também areia. E vi um tal de PIN desenhando no chão. Mas não me meto. Sou só um grampo livre.

Nilo manteve a voz calma.

—Quico, você falou “PIN” como se conhecesse. Quem é?

Quico inclinou a cabeça.

—É… o apelido de um que adora prender bilhetes. Vive com um clipe, entende? “Pin” de prender. Ele mesmo inventou. Meio convencido.

Fio vibrou.

—Clipe! Então “PIN” tem clipe. E tinta azul, talvez.

Nilo fez outra pergunta, bem simples:

—Quico, pra onde ele foi com a coisa vermelha?

Quico apontou com a ponta.

—Para o velho quiosque de areia. Aquele canto onde fica a caixa de brinquedos esquecidos. Ele foi devagar, olhando pros lados. E arrastava alguma coisa… “raspa-raspa”.

Lila sussurrou:

—Três visitantes… Um só pode ter feito tudo.

Pipa ficou confusa.

—Mas o Banco Zeca falou de três!

Nilo explicou, baixinho, para você acompanhar:

—Às vezes, o mesmo suspeito pode parecer três, se fizer coisas diferentes. Saltar em um momento, arrastar em outro, andar devagar depois. Mas ainda precisamos confirmar. Nada de acusar no escuro.

Ele olhou para o pedaço da Flâmula preso sob a ponte.

—Quem deixou isso queria nos garantir que não estávamos perdidos. Isso pode ser maldade… ou pode ser um pedido de ajuda.

E, de repente, o mistério ficou menos assustador e mais… intrigante.

—Vamos ao quiosque de areia —decidiu Nilo. —E desta vez, vamos observar tudo: o chão, as marcas, e principalmente… as razões.

Capítulo 6 — A Caixa de Brinquedos Esquecidos

O quiosque de areia ficava num canto do square, perto de um arbusto alto. Havia um quadrado de madeira cheio de areia, com uma pá torta e um baldinho amassado. Ao lado, uma caixa antiga, de plástico duro, servia de “baú” para coisas deixadas ali.

A tampa estava meio aberta. Era dali que vinha o som “raspa-raspa”: a tampa tinha sido arrastada no chão.

Nilo aproximou-se sem fazer barulho. Pipa, mesmo sendo uma borracha, tentou não rolar demais. Fio, que fazia barulhinhos por natureza, prendeu a respiração. Lila ficou tão reta que parecia uma seta.

Dentro da caixa, uma voz baixinha reclamava:

—Isso não segura nada! Nada! Eu prendo, prendo, e o mundo escapa!

Nilo olhou. Lá estava: uma Caneta Azul, de corpo elegante e tampa brilhante, chamada Bina. Ao lado dela, um Clipe dourado (irmão gêmeo do que acharam na moita) e uma Tesourinha pequena, com pontas arredondadas, chamada Teca.

Bina estava com uma pontinha de tinta no rosto, como se tivesse se sujado de nervoso.

—Ah! —Bina se assustou ao ver o grupo. —Vocês… vocês são do cantinho do Banco Zeca, não são?

Nilo deu um passo à frente.

—Sou Nilo. Estamos procurando a Flâmula do Square. Você sabe onde está.

Bina apertou a tampa.

—Eu sei. Mas… não foi para roubar.

Fio soltou um “hm!” desconfiado, bem metálico.

—Claro. E eu sou uma chaleira.

Pipa cutucou Fio.

—Shhh.

Nilo manteve a voz firme, porém gentil.

—Então por que tirou a Flâmula do banco? E por que deixou pistas?

Bina respirou, como se organizasse uma história.

—Porque eu precisava de ajuda. Eu queria chamar vocês sem assustar. A Flâmula estava desbotando e rasgando no nó antigo. Eu vi ontem. Se continuasse ali, ia cair e sumir de verdade, talvez no meio da sujeira. Eu… eu amarrei um nó duplo pra segurar, mas o tecido já estava fraco. Rasgou um pouco. Aí eu entrei em pânico.

Teca, a tesourinha, levantou a voz fina:

—Eu cortei só um pedacinho, bem certinho, pra fazer remendo! Um remendo não é crime!

Lila perguntou, desconfiada, mas educada:

—E por que esconder na caixa?

Bina abaixou a ponta.

—Porque eu não queria que ninguém achasse que eu estraguei a Flâmula. Eu queria consertar primeiro. E… e eu sou nova no square. Eu ainda não sei como pedir sem parecer… mandona.

Pipa suavizou o rosto.

—Então o “PIN”

O clipe dourado, que até então estava quieto, falou com voz de arame orgulhoso:

—Sou eu. Pin. Eu só queria… ser útil. Prender as coisas. Segurar recados. Mas ninguém me chama. Então eu inventei um mistério. Um mistério chama atenção.

Fio arregalou o olho de metal.

—Você INVENTOU?

Pin se encolheu, sem conseguir se esconder de si mesmo.

—Eu não queria assustar. Só queria que viessem. E vieram. Funciona.

Nilo respirou fundo. Agora vinha a parte importante: resolver sem humilhar.

—Bina —disse Nilo—, onde está a Flâmula inteira?

Bina apontou para dentro da caixa. Embaixo de um paninho, lá estava: a Flâmula vermelha, dobrada com carinho. Ao lado, um pedacinho de tecido vermelho e um remendo já alinhavado com um fio fininho que alguém tinha encontrado.

Nilo analisou o remendo.

—Vocês fizeram um bom trabalho. Mas houve um erro: tirar sem avisar. Mistério por brincadeira pode virar confusão.

Pin baixou a cabeça de arame.

—Desculpa.

Teca abriu e fechou as lâminas arredondadas, nervosa.

—Eu só queria cortar retinho…

Pipa riu, de leve.

—E conseguiu. Isso é… assustadoramente perfeito.

Lila inclinou-se, benevolente:

—Podemos resolver juntos. E do jeito certo.

Nilo olhou para você, como se a próxima decisão fosse sua também.

—O que vocês acham que devemos fazer agora? Voltar e acusar? Ou voltar e explicar, pra que o square aprenda algo com isso?

Fio respondeu primeiro, surpreendendo todo mundo:

—Explicar. Mas sem enrolar. Eu odeio enrolação. Principalmente em nós.

Nilo assentiu.

—Então vamos.

Capítulo 7 — O Nó Certo e o Aplauso Final

O grupo voltou ao Banco Zeca levando a Flâmula com cuidado, como se carregasse um pedacinho do próprio square. O caminho pareceu mais curto, talvez porque agora a dúvida tinha nome e a solução tinha forma.

No banco, Nilo subiu com ajuda de Lila, que serviu de rampa. Bina aproximou-se, tremendo um pouco de vergonha.

—Banco Zeca… eu… eu mexi na sua Flâmula.

O banco rangeu, sério.

—Eu não me movo, mas eu sinto falta.

Nilo entrou no meio, com calma.

—A Flâmula estava rasgando. Bina tentou consertar e chamou a gente com pistas. Pin exagerou na “dramatização”.

Pipa cochichou:

—Dramatização é uma palavra chique pra “bagunça”.

Pin fez um “tin” baixinho, envergonhado.

—Eu queria ser notado.

Nilo falou, com voz clara, para todos ali—até para as folhas, o escorrega e a gangorra.

—Ser notado é normal. Mas o melhor jeito é pedir. Mistérios são divertidos quando todo mundo topa brincar. Quando não, viram preocupação.

Bina estendeu a Flâmula.

—Posso amarrar de volta? Do jeito certo?

Nilo observou o tecido, o remendo, o fio alinhado.

—Pode. Mas vamos fazer juntos. Assim ninguém aprende sozinho e ninguém fica com o peso todo.

Lila orientou:

—Duas voltas, cruzar, apertar, laço. Sem forçar o tecido.

Teca ajudou só no final, aparando uma pontinha solta com delicadeza. Pin prendeu o recadinho “Desculpa” num pedacinho de papel, mas desta vez deixou bem visível, sem esconder em moita nenhuma.

Quando a Flâmula voltou a dançar no canto do Banco Zeca, o square pareceu respirar. O vermelho brilhou como se tivesse recuperado a coragem.

Pipa deu um pulinho.

—Olha! Está perfeita!

Fio analisou o nó.

—Hum. Não está ruim. Quer dizer… está bom. Muito bom.

Bina soltou uma risadinha aliviada.

—Obrigada por não gritarem comigo.

Nilo respondeu:

—Curiosidade serve pra descobrir. E também pra entender. Hoje a gente descobriu duas coisas: como seguir pistas e como pedir ajuda.

A gangorra rangiu, desta vez como um “bravo” divertido. O escorrega pareceu mais amarelo. Até o vento passou fazendo “fuu” como se assobiasse parabéns.

E então, como se o próprio square tivesse mãos invisíveis, veio um aplauso: folhas batendo umas nas outras, tábuas do banco estalando contente, a ponte rangendo em ritmo, e os quatro amigos—Nilo, Pipa, Fio e Lila—batendo de leve uns nos outros, cada um do seu jeito.

Clap, clap, clap.

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Parapeito
Parte baixa junto à janela onde se pode apoiar objetos ou olhar lá fora.
Formigar
Sentir um leve formigueiro ou cócegas no corpo, como um pinicão pequeno.
Flâmula
Pequena bandeira de tecido usada para marcar um lugar ou decorar.
Fiapo
Fio muito fino que sai de um tecido ou pedaço de pano.
Moita
Grupo de arbustos ou plantas mais baixas, onde coisas podem se esconder.
Clipe
Peça de metal em forma de laço para prender papéis juntos.
Coreto
Pequeno palco ao ar livre, geralmente redondo, para música ou encontros.
Raspa-raspa
Som de algo sendo arrastado com fricção, como uma caixa riscando o chão.
Nó duplo
Tipo de amarração feita com dois voltas, mais firme que um nó simples.
Trilha de areia
Caminho feito por grãos de areia que mostram por onde alguém passou.
Pegadas
Marcas deixadas no chão pelos pés de alguém ou de um animal.
Parafuso
Peça de metal com rosca que serve para prender madeira ou metal.

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