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História de pequenos investigadores 11 a 12 anos Leitura 28 min.

O mistério da carteira vermelha no estúdio de fotografia

Tomás, um rapaz atento, investiga o desaparecimento da carteira de Marta ao seguir pistas encontradas na cantina e no estúdio da escola, envolvendo colegas, segredos e decisões difíceis.

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Um menino de 12 anos, cabelo castanho curto, rosto concentrado e olhos vivos, segura delicadamente uma pequena carteira vermelha aberta com expressão curiosa e alívio; à sua direita, uma menina de 11 anos, cabelo castanho preso em rabo de cavalo, aliviada mas desconfiada, aperta um chaveiro em forma de gato contra o peito; atrás deles, um menino de 11 anos com boné na mão e capuz preto nos ombros parece envergonhado e arrependido, olhando para baixo; uma menina de 13 anos, responsável pelo clube de fotografia, de cabelo curto e óculos, braços cruzados, observa atenta perto de uma mesa com caixas plásticas e cartões de memória; cena num pequeno estúdio fotográfico escolar com fundo branco, dois refletores, uma caixa aberta de adereços coloridos e uma faixa de luz entrando por uma janela alta, mostrando o momento da descoberta da carteira vermelha entre os chapéus, com emoções misturadas (alívio, constrangimento), composições claras e cores vivas para leitura imediata por crianças. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O sumiço na cantina

Tomás tinha 11 anos e uma mania que a mãe chamava de “mania bonita”: reparar em tudo. O que parecia detalhe para os outros, para ele era pista. O barulho diferente de um passo no corredor. A caneta com tampa mordida. A mochila pousada num lugar estranho.

Na terça-feira, a aventura começou com uma coisa simples: um ticket de cantina.

Depois do almoço, na fila para devolver as bandejas, a colega Marta aproximou-se com o rosto meio aflito, meio envergonhado.

— Tomás… tu viste a minha carteira?

— A vermelha, com autocolante de um gato? — Tomás perguntou sem pensar.

— Essa. Tinha lá dentro o meu cartão de biblioteca… e o dinheiro do autocarro.

O coração de Tomás deu um salto pequeno, daqueles que parecem dizer “mistério!”. Ele olhou à volta. A cantina cheirava a sopa e a pão quente. As mesas ainda tinham migalhas. O ruído de talheres ia diminuindo.

— Quando foi a última vez que a viste? — perguntou ele, sério, como se estivesse num filme policial… mas de escola.

— Aqui. Na mesa do canto. Eu fui buscar água e… puff.

Tomás aproximou-se da mesa do canto. Havia uma marca de copo no tampo e, ao lado, um pedaço de papel dobrado.

Ele apanhou o papel com cuidado. Era um ticket de cantina, daqueles com linhas de números e um carimbo azul. O nome impresso no topo fez Tomás franzir a testa.

Não era “Marta”. Era “Mário”.

Mário era do 7.º B, um rapaz alto, sempre apressado, que usava um casaco de capuz mesmo quando fazia calor.

Tomás virou o ticket ao contrário. Do lado de trás, alguém tinha rabiscado a lápis: “12:40 — estúdio”.

— Estúdio? — Marta repetiu, confusa. — Que estúdio?

Tomás já tinha uma ideia. Na escola havia um pequeno estúdio fotográfico, usado pelo clube de fotografia. Ficava no corredor ao lado da sala de Educação Visual, com uma porta preta e uma janela tapada por papel opaco.

Ele meteu o ticket no bolso, como se fosse uma prova importante.

— Marta, não vamos acusar ninguém. Vamos observar. E vamos seguir as pistas.

Marta engoliu em seco e depois assentiu.

— Está bem. Mas… eu odeio mistérios. Faz-me cócegas na barriga.

— Eu gosto — disse Tomás. — É como um puzzle. Só que às vezes o puzzle está a mexer-se.

Capítulo 2 — O ticket como lupa

No recreio, Tomás sentou-se num banco ao sol e estendeu o ticket na palma da mão. Marta ficou ao lado, a roer a unha do polegar.

— O que é que isso diz? — perguntou ela.

Tomás leu em voz baixa, como quem decifra um código:

“Menu: massa, fruta. Hora: 12:18. Caixa 2.” E tem um carimbo… meio borrado.

Ele aproximou o ticket dos olhos. Não tinha lupa, mas tinha atenção. O carimbo azul estava manchado para a direita, como se tivesse sido pressionado com pressa. E havia uma mancha pequena, castanha, perto do canto.

— Chocolate? — arriscou Marta.

— Ou molho. Ou café. Mas na cantina, café não é para nós — disse Tomás, com um sorriso rápido.

Ele virou o ticket e apontou o rabisco:

“12:40 — estúdio”. Quem escreveu isto queria lembrar-se de ir ao estúdio às 12:40. E o ticket do Mário apareceu na tua mesa.

Marta cruzou os braços.

— Então o Mário roubou a minha carteira?

Tomás abanou a cabeça.

— Não sei. Pode ser que ele tenha perdido o ticket e outra pessoa o tenha apanhado. Ou pode ser que o ticket tenha caído na tua mesa por engano. Primeiro: factos.

Ele começou a listar, com dedos:

— Um: a tua carteira desapareceu. Dois: o ticket do Mário estava na tua mesa. Três: há uma nota sobre o estúdio. Quatro: o estúdio é perto daqui.

Marta respirou fundo.

— E cinco: eu quero o meu cartão de biblioteca de volta. A senhora da biblioteca olha para mim como se eu fosse uma página dobrada.

Tomás riu-se.

— Vamos ao estúdio. Mas com calma. E com olhos abertos.

No caminho, passaram por um painel de trabalhos de artes. Ali estava o professor Duarte, de bata manchada de tinta, a pendurar desenhos.

— Professor, o estúdio está aberto hoje? — perguntou Tomás, com a voz mais natural que conseguiu.

O professor Duarte ajeitou os óculos.

— O clube de fotografia tem sessão às 12:40. Estão a preparar retratos para o jornal da escola. Porquê?

Tomás mostrou o ticket apenas um pouco, sem entregar.

— Só curiosidade. Gosto de… organização.

O professor soltou um “hum-hum” desconfiado, mas voltou aos desenhos.

Marta sussurrou:

“Gosto de organização”? Pareces um robô simpático.

— Eu prefiro “detetive metódico” — respondeu Tomás.

Chegaram à porta preta do estúdio. Um cartaz dizia: “Luz! Câmara! Silêncio!” com um desenho de uma máquina fotográfica a sorrir.

Tomás estendeu a mão para a maçaneta.

— Espera — disse Marta. — E se estiver lá dentro… o ladrão?

Tomás pensou um segundo.

— Então vamos fazer o que qualquer detetive faz: entrar como se fôssemos parte do cenário.

E empurrou a porta.

Capítulo 3 — Luzes, sombras e um casaco de capuz

O estúdio era pequeno, mas parecia maior por causa das luzes. Havia dois focos em tripés, um fundo branco pendurado e uma mesa com cabos, cartões de memória e uma caixa cheia de acessórios: chapéus, óculos falsos, gravatas coloridas.

O ar cheirava a plástico quente e pó de tecido.

Atrás de uma câmara num tripé, estava a Inês, do 8.º ano, que mandava no clube de fotografia como se fosse realizadora de cinema.

— Ei! — disse ela. — Isto não é passeio turístico.

Tomás levantou as mãos, como quem se rende.

— Desculpa. Só… vimos a porta aberta.

— Está fechada agora — respondeu Inês, seca.

Tomás reparou numa coisa: ao lado da mesa havia um cabide com um casaco de capuz. Preto. Com um fecho metálico prateado. Muito parecido com o do Mário.

Marta também viu e apertou o braço de Tomás.

— Está aqui — sussurrou ela, com os olhos arregalados.

Tomás não respondeu. Olhou para o chão. Perto da mesa, havia um pequeno brilho: um cartão de plástico? Não. Era um porta-chaves com um gato.

Marta soltou um som que foi meio suspiro, meio “ah!”.

— O meu gato!

Antes que ela se atirasse ao objeto, Tomás puxou-a pelo pulso e falou para a Inês, com calma:

— Inês, encontrámos isto no chão. Pode ter caído de alguém.

Ele apanhou o porta-chaves com cuidado. Não havia carteira. Só o porta-chaves.

Inês aproximou-se, inclinou-se e franziu o nariz.

— Isso não é nosso. Aqui ninguém tem gatos. Aqui só temos… — ela pegou num par de óculos gigantes de plástico — glamor.

Marta tentou sorrir, mas saiu-lhe uma cara de pânico.

— A minha carteira tinha isso preso… então esteve aqui.

Tomás apontou para o cabide.

— De quem é aquele casaco?

Inês encolheu os ombros.

— Deve ser do Mário. Ele veio cá há pouco deixar umas coisas. Disse que voltava.

— Que coisas? — perguntou Tomás.

— Um cartão de memória. E uma caixa pequena. — Inês abriu uma gaveta e mostrou uma caixinha transparente com etiquetas. — Isto. Para guardar fotos.

Tomás observou a caixa. Havia etiquetas com nomes: “Retratos”, “Evento”, “Turma”. E uma etiqueta nova, escrita à pressa: “Achados”.

“Achados”? — Tomás repetiu.

Inês fez cara de quem não quer conversa.

— Coisas que aparecem por aí e ninguém reclama. Às vezes a malta deixa tudo largado.

Tomás ficou com a palavra “achados” a ecoar. Achados era uma palavra bonita para “coisas perdidas”. Mas também podia ser uma palavra útil para esconder o que não é nosso.

Marta apontou para o chão.

— A minha carteira… pode estar nessa caixa?

Inês abriu a caixa “Achados”. Dentro havia: uma mola de cabelo, um lápis curto, um crachá antigo e… um cartão de biblioteca. Com o nome “Marta Silva”.

Marta prendeu a respiração.

— É meu! Então ele mexeu…

Tomás não deixou a Marta agarrar no cartão de imediato.

— Inês, quem colocou isso aqui?

Inês ficou mais séria.

— Eu não fui. Eu estava a montar as luzes. O Mário entrou, pousou coisas e saiu. Disse: “Se alguém perguntar, não vi nada.” Eu achei que era piada. Ele faz sempre cara de segredo.

Tomás sentiu a pele dos braços arrepiar. “Se alguém perguntar, não vi nada” não era frase de piada. Era frase de problema.

Ele pegou no cartão da Marta e devolveu-lho.

— Obrigado. Mas falta a carteira. E falta o dinheiro do autocarro.

Marta apertou o cartão contra o peito.

— Tomás… e se alguém estiver a usar o estúdio para esconder coisas?

Tomás olhou para as luzes, para os fundos pendurados, para as sombras nos cantos.

— Vamos procurar. Mas sem mexer em tudo. Só com os olhos. Como verdadeiros detetives.

E nesse instante, ouviu-se um “clac” no corredor. Passos rápidos. A maçaneta mexeu.

A porta abriu-se de repente.

Mário entrou, ofegante, com o cabelo todo desalinhado.

— O que é que vocês estão a fazer aqui? — disparou ele, olhando para o casaco no cabide como se estivesse a conferir se ainda existia.

Tomás manteve a voz firme.

— Estamos a procurar uma carteira desaparecida. E encontrámos o teu ticket na mesa da Marta.

Mário empalideceu, mas depois fez uma expressão irritada.

— Eu não roubei nada! Perdi esse ticket. Deve ter voado.

Tomás inclinou a cabeça.

— E a nota “12:40 — estúdio”? Também voou?

Mário abriu a boca, fechou, e depois disse, num tom mais baixo:

— Eu… eu só vim cá buscar uma coisa.

— Que coisa? — perguntou Marta, com a coragem a crescer devagar.

Mário olhou para a Inês, depois para o chão, e por fim soltou:

— Uma fotografia.

Tomás sentiu que estava perto do centro do mistério, como quando se chega ao último nível de um jogo e a música muda.

— Então vamos falar — disse ele. — Mas com a verdade. Porque a verdade deixa menos pegadas.

Capítulo 4 — Perguntas certas, respostas tortas

Mário coçou o pescoço, nervoso.

— Não posso — murmurou.

Tomás apontou para a caixa “Achados”.

— O cartão de biblioteca da Marta estava aí. E o porta-chaves dela estava no chão. Isso não aparece do nada.

Mário fechou os punhos.

— Eu encontrei uma carteira no corredor. Juro. Eu ia entregar à secretaria, mas… vi a Inês aqui e pensei… pensei que era melhor deixar num sítio seguro.

Marta deu um passo à frente.

— Seguro? Sem me dizer nada? E o dinheiro?

Mário levantou as mãos.

— Eu não mexi no dinheiro!

Tomás observou-o. Não parecia alguém a inventar por maldade. Parecia alguém a tentar sair de uma confusão sem saber como.

— Mário — disse Tomás, mais suave —, quando tu mentes, tu olhas para o chão. Agora estás a olhar para mim. Isso é bom sinal. Mas falta uma peça.

Mário engoliu em seco.

— A carteira… eu deixei-a aqui. Atrás do fundo branco. Mas quando voltei… já não estava.

Inês arregalou os olhos.

— Eu não toquei em carteiras! Eu só toquei em luzes e… chapéus ridículos.

Marta apontou para a caixa.

— Então alguém veio aqui depois e levou.

Tomás sentiu o cérebro a acelerar, como uma bicicleta numa descida.

— Quem tem acesso ao estúdio?

Inês contou nos dedos.

— Eu. O Mário porque ajuda a carregar equipamento. O professor Rui, de TIC, porque empresta o tripé. E às vezes o senhor Jorge, o funcionário, porque vem arranjar a fechadura que emperra.

— A fechadura emperra? — Tomás repetiu.

Inês fez que sim.

— Se não deres um jeitinho para cima, a porta fica mal fechada. E qualquer corrente de ar… puf, abre.

Tomás lembrou-se do final do almoço: uma corrente de ar vinda do corredor, papel a mexer, o ticket dobrado na mesa.

Ele tirou o ticket do bolso.

— Vamos fazer um exercício. Tu, leitor, podes ajudar também: olha para as horas.

Tomás apontou:

— O ticket foi registado às 12:18. A nota diz 12:40 no estúdio. Entre essas horas, muita coisa pode acontecer. Quem estava onde?

Marta respondeu:

— Eu estava na cantina até às 12:25. Depois fui beber água. Voltei e a carteira sumiu.

Mário falou depressa:

— Eu saí da cantina logo depois de pagar. Fui ao cacifo buscar o cartão de memória. E vim ao estúdio deixar. Deve ter sido às… 12:35.

Inês cruzou os braços.

— Eu entrei no estúdio às 12:30 para montar. A porta estava encostada.

Tomás fez outra pergunta:

— Quem viu a carteira pela última vez, com certeza?

Marta respirou fundo.

— Eu. Na mesa. Quando comecei a comer.

Tomás olhou para o porta-chaves do gato. A argola estava ligeiramente aberta, como se tivesse prendido em alguma coisa e puxado.

— Isto ficou preso em algo — disse Tomás. — E soltou.

— No meu bolso não prende — disse Marta. — Mas na rede da minha mochila… prende.

Tomás virou-se para a mochila de Marta. A rede lateral tinha um fio solto, como um anzol pequenino.

— Então talvez a carteira não foi tirada da mesa — concluiu Tomás. — Talvez caiu quando tu te levantaste para ir buscar água. E alguém apanhou.

Marta corou.

— Eu… eu posso ser desastrada.

— Ser desastrada não é crime — disse Tomás. — Mas esconder é.

Ele apontou para Mário:

— Tu apanhaste?

Mário assentiu, sem coragem.

— Sim. Eu vi cair perto das bandejas. Eu apalpei para ver um nome, para devolver. Vi o cartão de biblioteca. Ia entregar depois. Mas… eu vi o dinheiro e… eu pensei no bilhete para o jogo de sábado. Foi só um segundo de estupidez.

Marta ficou de boca aberta.

— Então foste tu!

Mário sacudiu a cabeça depressa.

— Eu não tirei o dinheiro! Eu juro. Eu só vi. Fiquei com vergonha e trouxe a carteira para aqui, para devolver depois. Mas quando voltei, já não estava. E eu entrei em pânico. E disse à Inês aquela frase idiota.

Inês bateu com a mão na testa.

“Se alguém perguntar, não vi nada”… Mário!

Tomás não gritou. Só pensou. Se Mário não tirou o dinheiro e a carteira desapareceu do estúdio… então há outra pessoa. E essa pessoa levou a carteira e, provavelmente, o dinheiro.

Ele olhou para a porta. Para a fechadura que “emperra”. Para a ideia de uma porta que pode ficar meio aberta.

— Precisamos de descobrir quem entrou aqui depois — disse Tomás. — E por onde.

Marta apertou os lábios.

— Eu quero recuperar a carteira. E… eu também quero que o Mário peça desculpa em modo completo, com pontos finais.

Mário baixou a cabeça.

— Eu peço. Eu peço já. Desculpa, Marta. Eu fui… burro.

Marta bufou.

— Ainda não acabou.

Tomás levantou o ticket outra vez e apontou para a mancha castanha.

— E isto? Esta mancha. Quem comeu chocolate hoje?

Inês sorriu sem querer.

— O senhor Jorge. Ele anda sempre com um pão com chocolate na mão. Parece que tem um contrato vitalício com a pastelaria.

Tomás fixou a mente nessa imagem: o funcionário, o pão com chocolate, a porta que emperra, o corredor.

— Vamos falar com o senhor Jorge — disse Tomás. — E depois… vamos verificar a porta. Pistas não se queixam. Só esperam.

Capítulo 5 — O funcionário, a câmara e a janela

Encontraram o senhor Jorge no corredor, com um molho de chaves preso ao cinto e, como previsto, uma mancha de chocolate no canto da boca.

— Meninos, o que foi agora? — perguntou ele, desconfiado, mas com olhos simpáticos.

Tomás foi direto, mas educado:

— Senhor Jorge, alguém perdeu uma carteira. Pode ter passado por aqui. O senhor esteve perto do estúdio depois das 12:40?

O senhor Jorge limpou a boca com o dorso da mão, como se aquilo apagasse qualquer suspeita.

— Eu? Passei, sim. A fechadura estava a fazer das dela. Dei-lhe um jeitinho.

— Entrou? — perguntou Marta, rápida.

— Só abri para ver se estava bem fechada. — Ele franziu a testa. — Mas estava escuro. Não vi ninguém. E eu tinha de ir buscar um candeeiro para a sala 12. Porquê?

Tomás reparou noutra coisa: no bolso do colete do senhor Jorge havia um papel dobrado, com o mesmo formato de um ticket.

Tomás tentou não parecer um radar humano.

— O senhor não viu uma carteira vermelha?

O senhor Jorge abanou a cabeça.

— Carteira não. Mas vi um miúdo a correr com pressa, ali na curva do corredor. Quase bateu em mim. Foi… o Bruno, do 7.º A. O que tem sempre fones pendurados no pescoço.

Marta olhou para Tomás.

— O Bruno senta-se perto da nossa mesa na cantina.

Tomás juntou as peças. O Bruno podia ter visto a carteira cair. Podia ter seguido o Mário ou apenas aproveitado a porta mal fechada.

— Obrigado, senhor Jorge — disse Tomás. — Podemos só… ver a fechadura?

O senhor Jorge suspirou, como quem já conhece a novela.

— Vão lá. Mas não mexam em nada, senão a Inês dá-me outro discurso.

Voltaram ao estúdio. Inês abriu a porta e mostrou o truque: levantar a maçaneta um pouco e empurrar.

— Se não fizeres isto, fica assim — disse ela, fechando sem o “jeitinho”.

Tomás empurrou levemente. A porta abriu um dedo, com um “crec” suave.

— Ou seja… alguém podia entrar sem chave — concluiu Tomás.

Dentro do estúdio, Tomás olhou para os cantos com mais atenção. Reparou num detalhe novo: o fundo branco estava ligeiramente fora do sítio, como se tivesse sido puxado e reposto à pressa. E no chão havia uma pequena marca de sola, com riscas em ziguezague.

Marta apontou:

— O Bruno tem ténis com sola assim. Eu lembro-me porque ele arrasta os pés e faz aquele barulho, tipo “shhh-shhh”.

Tomás aproximou-se do fundo e levantou-o com cuidado. Atrás, havia uma prateleira baixa. Nada.

— Se eu fosse esconder algo, onde escondia? — murmurou ele.

Inês respondeu com ironia:

— Eu escondia no sítio mais óbvio, porque ninguém olha. Tipo… dentro da caixa dos chapéus ridículos.

Tomás olhou para a caixa de acessórios. Um chapéu de cowboy, uma boina, um capacete de plástico.

E entre eles, uma carteira vermelha.

Marta soltou um “ah!” tão alto que até o fundo branco pareceu estremecer.

— A minha!

Tomás pegou na carteira e abriu-a com cuidado. O cartão de biblioteca já estava com a Marta. Faltava o dinheiro. E havia outra coisa: um papel pequeno, dobrado, com um rabisco: “Jornal da escola — fotos — hoje”.

— Isto não é meu — disse Marta.

Inês aproximou-se e pegou no papel.

— Isso parece um lembrete do Bruno. Ele vive a tentar aparecer em todas as fotos do jornal.

Mário passou a mão pelo cabelo.

— Então foi ele…

Tomás respirou fundo. A carteira estava ali, escondida. Quem escondeu quis voltar depois para tirar o dinheiro com calma… ou já tirou e não quis ser apanhado com a carteira.

— Vamos atrás do Bruno — disse Tomás. — Mas sem caça às bruxas. Só perguntas certas.

Marta fechou a carteira com força.

— Perguntas certas… e respostas completas, com pontos finais.

Mário levantou a mão timidamente.

— Eu vou convosco. Eu… eu estraguei isto.

Tomás assentiu.

— Ok. Mas agora, atenção aos detalhes. O Bruno correu para onde?

Inês apontou para a janela alta do estúdio, que dava para o pátio interior.

— Ele podia ter saído por ali. A janela às vezes fica destrancada para ventilar, porque as luzes aquecem muito.

Tomás sentiu um friozinho de pista na nuca.

— Vamos ao pátio.

Capítulo 6 — A dedução final

No pátio interior, o vento fazia rodar folhas secas. O som da escola era mais distante, como se alguém tivesse baixado o volume.

Tomás olhou para a fachada do estúdio. A janela alta estava mesmo acima de uma caixa de plástico azul, daquelas de arrumação, encostada à parede. Parecia um degrau improvisado.

— Alguém usou isso para subir — disse Tomás.

Marta apontou para o chão.

— Pegadas de sola em ziguezague… outra vez.

Mário engoliu em seco.

— O Bruno.

Tomás aproximou-se da janela. Estava entreaberta. E no caixilho havia preso… um fio vermelho.

Tomás puxou com delicadeza. Era uma fibra do tecido da carteira. Ficou ali quando alguém passou apressado.

— Ele entrou pela janela — disse Tomás. — Ou saiu. E escondeu a carteira na caixa dos acessórios. Depois planeou voltar.

Marta apertou a carteira contra o peito, como se fosse um tesouro recuperado.

— E o dinheiro?

Tomás pensou no lembrete: “Jornal da escola — fotos — hoje”. Bruno queria aparecer. E dinheiro do autocarro podia ser dinheiro para… a máquina de snacks, ou para comprar uma pulseira da feira, ou qualquer coisa rápida. Mas isso era suposição.

— Vamos encontrá-lo e perguntar — disse Tomás. — Sem gritar. A verdade costuma aparecer quando não tem onde se esconder.

Como se o pátio estivesse a colaborar, ouviram uma voz do outro lado do muro baixo:

— Eu juro que não fui eu!

Bruno estava ali, sentado no banco, com os fones ao pescoço e um ar de quem tinha visto um fantasma… ou um diretor.

Tomás aproximou-se com calma.

— Bruno, ninguém te acusou ainda. Só queremos entender. A carteira da Marta esteve no estúdio. Foi encontrada na caixa dos acessórios. E há pegadas com a tua sola. E a janela do estúdio está aberta.

Bruno ficou branco, depois vermelho, depois branco outra vez, como um semáforo confuso.

— Eu… eu só vi a carteira cair. Eu pensei… pensei que era um teste. Tipo aqueles vídeos de “vamos ver se és honesto”.

Marta pôs as mãos na cintura.

— Na nossa escola? Com sopa de legumes e testes de honestidade?

Bruno baixou os olhos.

— Eu peguei. Queria devolver. Mas depois vi o Mário a levar para o estúdio e… eu achei que ele ia roubar. Eu fui atrás para “apanhá-lo”. Só que ele saiu e eu entrei pela janela porque a porta estava… sei lá… meio fechada. Eu vi a carteira e escondi para provar.

Tomás franziu a testa.

— Provar o quê?

Bruno falou mais depressa:

— Que eu estava certo! Que ele tinha roubado! E… eu tirei o dinheiro. Para… para comprar um cartão para o jogo online. Eu sei. É péssimo. Eu ia devolver depois. Eu ia!

Mário deu um passo à frente, magoado.

— Tu nem perguntaste.

Bruno encolheu os ombros, quase a chorar.

— Eu achei que ia ser herói. Fui só… parvo.

Tomás respirou fundo. O mistério tinha solução, mas não precisava acabar com gritos. Precisava acabar com aprendizagem.

— Ok — disse Tomás. — Então vamos fazer o certo agora. Devolves o dinheiro. Pedes desculpa à Marta. E nós vamos falar com um adulto, porque isto envolve confiança. Mas também envolve reparar nas coisas antes de inventar histórias na cabeça.

Bruno tirou do bolso umas notas dobradas e moedas e estendeu à Marta com a mão a tremer.

— Desculpa. A sério.

Marta pegou no dinheiro, mas não sorriu logo.

— Obrigada por devolver. E agora, ponto final: não mexes nas coisas dos outros. Nem para “ser herói”.

Bruno assentiu, com os olhos brilhantes.

Mário olhou para Tomás.

— E eu… eu também peço desculpa. Eu escondi e menti. Eu fiquei com medo.

Tomás assentiu.

— O medo faz-nos fazer coisas tontas. Mas a observação ajuda-nos a sair delas.

Marta soltou um riso pequenino.

— O Tomás vai escrever um livro: “Como ser detetive e não ser um drama”.

Tomás sorriu, aliviado.

Voltaram ao estúdio para entregar a situação à Inês e chamar o professor. Quando chegaram, a janela lá em cima continuava aberta, deixando entrar uma faixa de luz e um vento fresco que fazia o fundo branco ondular como uma vela.

Tomás olhou para a janela aberta e pensou: às vezes, uma coisa simples — uma janela, um ticket amarrotado, uma mancha de chocolate — é o que abre o caminho para a verdade.

E, dessa vez, a verdade entrou sem bater.

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