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História de Aniversário 11 a 12 anos Leitura 27 min.

O mapa que virou festa

Tomás, um menino curioso, recebe pistas para uma surpresa de aniversário que seus amigos prepararam, levando-o a uma emocionante aventura pelo bairro. Com cada descoberta, ele percebe o valor da amizade e da colaboração para fazer um dia especial.

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Há 4 crianças: - Tomás: um garoto de 10 anos, com cabelos castanhos bagunçados e óculos redondos. Ele usa uma camiseta azul com um desenho de bola de futebol e um short jeans. Ele está no centro, sorrindo, com um bolo de aniversário à sua frente. - Miguel: um garoto de 11 anos, com cabelos negros e olhos brilhantes. Ele usa uma camisa quadriculada vermelha e uma calça bege. Ele está à esquerda de Tomás, levantando os braços para celebrar. - Léo: um garoto de 10 anos, com cabelos loiros e óculos de sol na testa. Ele usa uma camiseta verde e um short preto. Ele está à direita de Tomás, segurando um ukulele e pronto para tocar uma canção alegre. - Rafa: um garoto de 10 anos, com cabelos castanho-claros e um sorriso travesso. Ele usa uma camiseta laranja e um short. Ele está atrás de Tomás, segurando um balão de festa que está subindo ao céu. O local é um parque ensolarado, com um grande coreto branco no centro, decorado com guirlandas coloridas e balões flutuantes. Árvores verdes cercam a cena, e crianças brincam ao fundo, enquanto mesas estão arrumadas com pratos de bolos e doces. A cena principal mostra Tomás, cercado por seus amigos, soprando as velas do seu bolo de aniversário, com risadas e sorrisos radiantes, enquanto confetes voam pelo ar, criando uma atmosfera festiva e alegre. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — Sábado de Planos Secretos

O sábado começou com cheiro a pão quente e planos secretos. O sol subia devagar por detrás dos telhados, pintando as janelas de ouro. Na rua dos Jacarandás, três rapazes caminhavam lado a lado, com mochilas leves e passos ansiosos. Miguel ia à frente, sempre com ideias a saltitar; Léo seguia atento, com um caderno dobrado no bolso; Rafa vinha atrás, a brincar com um fio de festa enrolado nos dedos.

O bairro ainda espreguiçava. Um gato espantado atravessou a estrada com a elegância de quem não tem pressa. A dona do café varria o passeio, e o cheiro de croissants derretia qualquer vontade de adiar o mundo. Só havia um pequeno grande detalhe: Tomás, o quarto da banda, ainda dormia, sem saber que o dia o ia levar por um atalho de espanto.

Miguel parou junto ao portão do jardim da escola, chamou os outros com um assobio e abriu a mochila. Lá dentro, um mapa desenhado à mão, colorido com lápis de cera e gotas de entusiasmo. As ruas viravam rios, as praças eram ilhas, e em cada esquina havia um pequeno X.

— Está tudo pronto — disse Miguel, com um sorriso que parecia uma mola a empurrar o dia para a frente.

— Só falta a parte mais difícil: parecer fácil — respondeu Léo, ajeitando os óculos de sol que lhe escorregavam.

— Fácil é o meu segundo nome — brincou Rafa, ajeitando o fio de festa na orelha como se fosse um brinco de pirata.

Riram-se baixo, como quem sussurra um segredo ao vento. O plano tinha nascido meses antes, numa conversa que começou por “um aniversário diferente” e cresceu até se tornar numa festa com pernas, braços e coração. A ideia era simples e gigante: transformar o bairro numa pista de celebração, onde cada memória era uma etapa e cada pessoa amiga, uma cúmplice.

A primeira missão do trio passou pelo número 23, prédio onde morava a avó de Tomás. Bateram à porta com um ritmo conhecido. Dona Laurinda abriu, de sorriso farto, avental florido e olhos que riam sempre dois segundos antes da boca.

— O meu neto ainda não sabe, pois não? — perguntou, piscando.

— Nem desconfia. — Miguel pousou uma pequena caixa na mesa da sala. — É para ele encontrar quando vier buscar o pão.

— E quando abrir, vê a primeira pista — explicou Léo, apontando para o bilhete com caligrafia caprichada: “O dia começou e contigo vai brilhar. Procura onde o pão te faz lembrar o verão.”

— Depois daí, vai à padaria do senhor Basílio, e o senhor Basílio dá-lhe a segunda pista, mais uma estrela de papel — disse Rafa, já a imaginar a cara do amigo.

Trataram de distribuir os pequenos envelopes pela manhã, como quem planta sorrisos. Na biblioteca, a bibliotecária guardou uma fita azul na estante dos mapas. No campo de futebol, o treinador escondeu uma vogal de madeira junto às chuteiras emprestadas. Na loja das flores, um ramo de girassóis esperava com um cartão que dizia “Segue o sol”.

Ao mesmo tempo, desenharam o destino final: o coreto do parque, o coração da surpresa. Balões seriam nuvens, mesas seriam ilhas, e o bolo... o bolo seria um meteoro de chocolate e morangos. Precisavam ainda de fitas, de uma coluna para a música e de um plano B, no caso de o céu inventar chuva.

— E se chover, a gente canta mais alto — disse Rafa, com a leveza de quem sabe que nem a água apaga fogo bom.

— E levamos toldos emprestados do senhor Guilherme, o do armazém — acrescentou Léo, prático.

— Combinado. Hoje o bairro é um coro, e Tomás é a canção — decidiu Miguel, já a sentir o dia aberto como um campo de futebol depois de férias.

Atravessaram outra vez a rua, cada um com uma missão. Havia tanto para fazer, mas nada parecia difícil quando a amizade arrumava as coisas na prateleira certa. A manhã, agora mais clara, parecia dizer-lhes “anda”. E eles foram, com o mapa na cabeça e o coração a bater a ritmo de festa.

Capítulo 2 — O Dia de Tomás Começa a Brilhar

Tomás acordou com o som do correio a cair no chão do corredor e um aroma doce a pão torrado. Espreguiçou-se com o cuidado de quem sabe que o sábado é um presente embrulhado em horas livres. Olhou o telemóvel: algumas mensagens de bom dia, um emoji perdido que parecia uma semente de riso. O quarto tinha cartazes de equipas de futebol, um globo com ilhas riscadas e um relógio que falava por ti se prestasses atenção: tic-tac, tic-tac “apressa-te a viver”.

Na cozinha, a mãe cantarolava uma canção antiga. Havia um copo de sumo de laranja e uma fatia de pão com manteiga em forma de estrela. A mãe fingiu normalidade, mas os olhos brilhavam como se tivessem recebido sol por dentro.

— Dormiste bem, capitão? — perguntou ela, boquiaberta de alegria.

— Dormi. Cheira a aventura — disse Tomás, ainda a meio caminho do riso.

— Vai ao correio buscar o jornal. E repara se o mundo hoje está diferente — a mãe piscou, quase invisivelmente.

Tomás abriu a porta e viu, no tapete, um envelope de papel reciclado, com o seu nome escrito a cores. Lá dentro, um bilhete e um pequeno crachá em forma de bússola. O bilhete dizia: “O dia começou e contigo vai brilhar. Procura onde o pão te faz lembrar o verão.” O coração deu-lhe um salto que não doeu. Ele gostava de charadas; aquilo tinha cheiro a missão desenhada por mãos que conhecia.

— Mãe, isto é... — começou, com um sorriso a nascer.

— Segue o cheiro do verão — respondeu a mãe, dando-lhe uma mordida invisível no ar.

Tomás saiu à rua com o casaco aberto e a curiosidade a servir de vento. Na padaria do senhor Basílio, a campainha da porta tilintou como um acorde feliz. O padeiro, com farinha nas sobrancelhas, sorriu antes de o ver.

— Bom dia, Tomás. Chegas a tempo de uma rabanada de sábado — disse, pousando um saco de papel no balcão.

— Acho que venho procurar qualquer coisa que se escondeu por aqui — respondeu Tomás, testando as palavras como se fossem peças de Lego.

— Talvez procures isto — o senhor Basílio levantou um pano e, debaixo dele, uma segunda pista: um guardanapo com uma estrela de papel colada e uma frase: “As histórias mostram caminhos. Vai onde os mapas falam baixinho.”

Tomás agradeceu e saiu, já a adivinhar o próximo passo. A biblioteca ficava a três quarteirões, e a manhã estava verde como a copa das árvores. Pelo caminho, cumprimentou a dona dos canários, que varria folhas sem pressa, e um carteiro que parecia coreografar passos com as cartas.

Na biblioteca, a senhora Teresa, guardiã dos silêncios, apontou para a estante dos atlas sem dizer palavra. Tomás encontrou uma fita azul a espreitar entre páginas da África. Puxou-a e uma pequena carta caiu. “Colhe o sol onde ele decide crescer.” Olhou pela janela: a florista da esquina arrumava girassóis como quem alinha sorrisos.

— Uma última pergunta, senhora Teresa: o sol gosta de girar? — arriscou Tomás, a meter a carta no bolso.

— Gosta de ser seguido — respondeu a bibliotecária, com um sorriso que não fazia barulho.

Tomás saiu quase a correr, num passo largo que sabia guardar prudência. O coração estava entusiasmado, mas a cabeça arrumava o caminho por prioridades: olhar antes de atravessar, dizer bom dia, agradecer com vontade. E assim, a aventura começou a ser tão segura quanto um abraço que já conhecemos. O dia, esse, estava mesmo a brilhar.

Capítulo 3 — O Parque que Vira Festa

Enquanto Tomás percorria a rota invisível, Miguel, Léo e Rafa desembaraçavam o parque como quem monta um palco. O coreto, com as colunas brancas e o teto redondo, parecia um lugar que tinha nascido para a música. Em volta, árvores altas, bancos de madeira e um lago com patos que queriam participar.

Estenderam cordas, desenrolaram fitas, amarraram balões. A cada nó, um sopro; a cada sopro, um riso. A caixa do bolo foi pousada a salvo, ao lado de uma pilha de pratos de papel e guardanapos coloridos. Léo desenhou um cartaz com canetas de feltro: “Hoje o Parque é Aniversário.”

De repente, um balão escapou das mãos de Rafa e subiu, decidido, como quem se lembra de uma viagem. Rafa correu atrás com os braços no ar, que eram asas por um segundo. Parou, riu e respirou: mais vale partir alguns do que partir a surpresa.

— Eu disse que sou leve, mas não era para os balões me imitarem — brincou ele, de mãos na cintura.

— O teu humor pesa zero, é difícil competir — respondeu Miguel, a endireitar a fita que fazia uma curva de arco-íris.

— Já confirmaste com o senhor Guilherme os toldos? — perguntou Léo, num gesto de prudência.

— Confirmado e a caminho — disse Miguel. — E o bolo?

— O bolo está seguro como um segredo a dois. Mas... precisa de uma base mais firme — Léo empilhou duas bases de cartão, apanhadas na reciclagem limpa.

A dona do quiosque aproximou-se com uma caixa de laranjas e um sorriso de quem sabe ver festa nos olhos dos outros.

— Miúdos, precisam de gelo? Tenho uma arca que hoje decidiu ser simpática — ofereceu, já a partilhar as laranjas.

— Precisamos e agradecemos — respondeu Miguel, aceitando. — Hoje o parque vai ganhar memórias novas.

— Só cuidado com o vento. Ele é convidado, mas às vezes gosta de brincar demais — avisou a dona do quiosque, piscando-lhes os olhos.

Miguel verificou o mapa mais uma vez. Cada etapa tinha um tempo, e o relógio apressava uma música que não assustava, só guiava. Os amigos que iam chegar sabiam quando e onde, e tinham-se comprometido a trazer contribuições: um prato salgado, uma história breve, um truque de magia.

— Se o vento implicar, a gente faz paz com ele — disse Rafa, abrindo os braços como quem abraça o próprio ar.

— O segredo é a cooperação. A gente junta as peças e a coisa aparece — afirmou Léo, orgulhoso do cartaz agora preso com corda.

— Bora dar uma última volta e testar tudo — sugeriu Miguel, sacudindo as mãos de papelinhos.

Caminharam pelo parque como pequenos diretores de orquestra. Verificaram a música, ensaiaram o momento das velas sem acendê-las, combinaram o sinal de “chegou o aniversariante”: duas palmas, uma pausa, três palmas, riso. Ao longe, nuvens lentas brincavam de formar animais. Uma parecia um dragão bom a dormir; outra, um bolo enfeitado. E o dia seguia, redondo, a caminho de se abrir em festa.

Capítulo 4 — Rota de Memórias e Sorrisos

Depois da biblioteca e da florista, Tomás continuou a sua viagem pelos lugares que conhecia desde que as pernas aprenderam a confiar. Na florista, recebeu um pequeno laço amarelo e um cartão que dizia “Segue o riso mais perto”. O riso mais perto era quase sempre o de Rafa, mas naquele momento o som vinha de um grupo de crianças junto ao campo de futebol. O treinador, de boné virado ao contrário, acenou-lhe como se esperasse um golo.

— Hoje jogas outra coisa, Tomás — disse o treinador, estendendo-lhe uma pequena vogal de madeira: o “A” do seu nome.

— O “A” de avançar — respondeu Tomás, muito certo de que as palavras também têm pernas.

— E o “A” de amizade, que marca os melhores golos — retorquiu o treinador, batendo-lhe no ombro com orgulho.

No campo, pediram-lhe uma missão rápida: dar três toques com a bola sem deixar cair, para “aquecer o destino”. Tomás cumpriu, sorriu para o sol e sentiu que o coração corria sem transpirar. A viagem estava montada nos pequenos gestos, e cada gesto parecia uma mão ao lado da sua.

Segue depois à loja de instrumentos do senhor Abel, onde a vitrine tinha um ukulele que parecia rir, e uma bateria que dormia com fones. Outra pista, um post-it colado a uma flauta, dizia: “A música sabe o caminho que os pés vão fazer.” O senhor Abel entregou-lhe um apito dourado, mais um objecto para a colecção que pendia do cordão do pescoço. Em breve, aquilo já parecia um colar de aventuras.

Praça adiante, Tomás ajudou dona Irene a regar as plantas. As gotas dançavam sobre as folhas como se soubessem coreografia. Em troca, mais uma pista: “Quando o vento chamar, responde com um papagaio.” Ele sabia: a casa do senhor Orlando, um velho pescador de estórias, emprestava papagaios de papel coloridos às crianças sempre que o céu ficava azul por mais de uma hora.

— Estavas a ver que não chegavas — disse o senhor Orlando, com um papagaio amarelo na mão.

— O vento chama, eu respondo — disse Tomás, aceitando o fio entre os dedos.

— És tu que voas com ele ou ele que voa contigo? — perguntou o senhor Orlando, a rir do próprio enigma.

Deixou o papagaio levantar, só um bocadinho, o suficiente para o fio ficar tenso como o início de uma canção. Depois, enrolou-o com cuidado. No bilhete que o senhor Orlando entregou, lia-se: “O lugar onde tudo se junta canta do alto.” Tomás ergueu os olhos: o coreto do parque desenhava-se no horizonte, uma pequena coroa branca por cima das árvores.

No caminho, cruzou-se com Miguel de bicicleta, que fez de conta que não o conhecia mas piscou-lhe um olho que era um foguete mudo. Por segundos, Tomás imaginou que a surpresa ganhava contornos de festa. Não era difícil: havia balões a condizer com o vento, havia sorrisos que vinham rápido e iam devagar. O mundo parecia alinhado, e ele, sem pressa, acelerou só o suficiente para sentir que estava a chegar.

— O coreto canta do alto — murmurou, guardando a última pista no bolso, como se a guardasse no peito.

A certa altura, uma nuvem mais espessa brincou de tapar o sol, mas o ar continuou morno, e as folhas fizeram barulho de palmas. Ali, quase a virar a esquina para o parque, Tomás respirou fundo. Não era ansiedade; era uma alegria que queria sair aos saltos e, por educação, pedia licença. Ele sorriu para o vento, que lhe respondeu com frescura. O dia continuava a brilhar, agora com a certeza de que cada pista tinha sido uma mão estendida. E as mãos, quando se juntam, fazem ponte.

Capítulo 5 — O Coreto Desvenda a Festa

Ao ver o coreto, Tomás sentiu que o mundo ficava um pouco mais nítido, como quando se limpa uma janela por dentro. As fitas coloridas balançavam, os balões faziam nuvens, e de trás das colunas uma risadinha escapou, como um segredo cansado de se esconder. Ele subiu os degraus devagar, com a atenção de quem sobe para um palco que não tem público, mas tem história.

De repente, duas palmas, uma pausa, três palmas, e a plenos pulmões, uma explosão de vozes: “Surpresa!” Amigos surgiram de todos os lados, como se tivessem estado ali o tempo todo a crescer. Miguel, Léo e Rafa vieram à frente, de braços abertos para um abraço que não precisa de explicar nada. Sobre a mesa principal, um bolo castanho e brilhante parecia um planeta doce onde a gravidade era o apetite.

— Achaste mesmo que íamos deixar o teu dia passar sem invenção? — disse Miguel, com a alegria a espumar.

— A cidade inteira cantou contigo — acrescentou Léo, orgulhoso da coreografia invisível.

— E eu só fugi de um balão — riu Rafa, a apontar para o céu que levava um pequeno ponto colorido.

Nesse momento, uma nuvem generosa decidiu treinar dança moderna por cima do parque. Caíram três pingos, depois quatro, um susto de água que não quis assustar de verdade. A dona do quiosque acenou, e o senhor Guilherme chegou com dois toldos dobrados, heróis de lona, prontos para a missão. Em cinco movimentos, protegeram a mesa do bolo e os retratos improvisados.

— O céu quis dar-te parabéns à maneira dele — comentou Léo, enquanto estendia um toldo com calma.

— Só molhou a primeira fila — disse Miguel, sacudindo duas gotas do cabelo.

— E eu gosto de chuva sincera — respondeu Tomás, que sentia as pernas a sorrir.

Os pais de Tomás chegaram com taças de gelatina que tremiam do mesmo jeito que os risos. Dona Laurinda trouxe rissóis, o senhor Abel afinou o ukulele, e a biblioteca emprestou uma toalha com mapas impressos, porque aquele dia navegava com nomes de ruas e gestos de gente. O parque, que de manhã era espera, agora era acontecimento.

Jogaram jogos inventados na hora, com regras que queriam sobretudo incluir. Concorreram a “quem consegue fazer a cara mais séria com um bolo em frente” e ninguém ganhou porque a gargalhada era a árbitra. Lançaram o papagaio, que voou um bocadinho a partir do coreto, só porque as velas ainda não estavam acesas e o vento pediu atenção. Cada amigo trazia uma história pequena sobre o Tomás: a vez em que ele partilhou o guarda-chuva, a tarde em que arranjou a corrente da bicicleta do Rafa, os passes bem medidos quando o jogo precisava de cabeça.

— O teu mapa era isto: pessoas — disse Miguel, numa pausa em que o som do parque parecia respirar.

— E os lugares lembram-se da gente — respondeu Tomás, olhando à volta como quem vê melhor por dentro.

— Vá, senhor aniversariante, assopra quando estiveres pronto — avisou Rafa, já a preparar a música.

O apito dourado que Tomás trouxera foi colocado ao lado do bolo, como um talismã que tinha encontrado morada. A vogal “A” ficou encostada a uma jarra de girassóis. E, de tanto juntar peças, a festa parecia um puzzle completo. O coreto, que observava tudo de cima, parecia sorrir com as colunas.

Capítulo 6 — Velas, Desejos e Promessas de Amizade

O momento das velas chegou quando o sol voltou a rachar a nuvem em pedaços, servindo luz a copo. As chamas pequenas ergueram-se, cada uma com um tremor feliz, como quem se reconhece no brilho dos olhos dos outros. A música começou baixinha, uma melodia que cabia no peito. Tomás, de frente para o bolo, respirou como se estivesse a preparar um mergulho num lago de chocolate.

Ele pensou no caminho que fizera naquele dia: os croissants, a estante dos atlas, o apito dourado, as vozes que o guiavam sem o empurrarem. Pensou que crescer era isso: colecionar pistas, falhar algumas setas, acertar em surpresas que nos esperam em coretos improváveis. Fechou os olhos por um segundo, não para fugir, mas para ver melhor o que não se vê.

— Pronto? — perguntou Miguel, com os dedos levantados como maestro.

— Pronto — respondeu Tomás, sentindo a palavra pousar nos ombros como um casaco bom.

— Faz um desejo que tenha lugar para muitos — sugeriu Léo, com a ternura de quem sabe que os desejos gostam de companhia.

— E que não envolva mais balões a fugirem — acrescentou Rafa, só meio a brincar.

Tomás soprou. As chamas dançaram, hesitaram, e depois deram um pequeno salto de desaparecimento. Aplausos, assobios, o apito dourado tocado uma vez, o suficiente para dizer “obrigado”. O bolo foi cortado em fatias que não sabiam ser gulosas, só sabiam ser partilha. As primeiras colheradas tinham sabor a morango e a promessa.

Depois das velas, houve um momento de contação de estórias. Dona Laurinda contou como Tomás, aos sete anos, tentara cozinhar panquecas e fizera nuvens de farinha pela casa. O senhor Abel tocou o ukulele, e o treinador do campo improvisou uma letra sobre amizade que rimava “passe” com “abraço”. Os miúdos mais novos dançaram numa linha que serpenteava entre os bancos, inventando coreografia como se as pernas pensassem.

— Obrigado por terem dado ao meu dia a forma do meu bairro — disse Tomás, de pé no coreto, a voz firme como um nó bem dado.

— Hoje o bairro só mostrou o que via em ti — respondeu Miguel, coçando a nuca sem graça.

— O melhor dos aniversários é que toda a gente fica um bocadinho mais velha junto — disse Léo, sempre a arrumar ideias com cuidado.

— E mais leve — completou Rafa, que nesse instante conseguiu segurar um balão sem o perder.

O sol já não estava no alto, mas também não se despedia. A tarde escorregou para o princípio de noite com a educação de quem sabe dizer “até já”. As luzinhas de corda acesas ao redor do coreto tremeluziam como pequenos vaga-lumes urbanos. A coluna tocava uma lista de músicas que parecia ter sido feita por um vento DJ: um pouco de tudo, nada a mais.

Passaram-se mais jogos, mais gargalhadas, uma demonstração de truque de cartas que falhou e, por isso mesmo, acertou no riso. A chuva decidira ir abençoar outra festa noutro bairro, e o céu guardou só uma brisa boa. Às tantas, os quatro — Tomás, Miguel, Léo e Rafa — sentaram-se no degrau do coreto, lado a lado, com os pés a desenhar um compasso invisível na madeira.

— Sabem o que mais gostei? — perguntou Tomás, a olhar os próprios ténis, sujos de parque.

— Das pistas? — arriscou Miguel, curioso.

— De tudo ser feito por muita gente. De sentir que, quando a gente quer, o mundo responde devagar, mas responde. E que o nosso mapa prefere ruas com nomes de pessoas.

— É por isso que o nosso código secreto é “cooperar” — disse Léo, ajeitando o cabelo.

— E “comer bolo” — rematou Rafa, que nunca abandonava a missão principal.

Ainda ajudaram a arrumar, porque festa boa também é a que deixa o lugar limpo e com um riso guardado nas coisas. Embalaram os restos, reciclaram o que era para reciclar, agradeceram a todos e a cada um. O coreto ficou novamente calmo, como um livro fechado depois de uma boa história, sabendo que pode ser aberto outra vez.

No caminho de casa, Tomás sentiu a cidade diferente. Não porque as fachadas tivessem mudado, mas porque agora cada esquina tinha uma lembrança nova presa com fita adesiva invisível. Por dentro, ele estava um centímetro mais alto — não medido com régua, mas com aquele metro que se chama “coragem para fazer coisas juntos”.

Ao despedirem-se na esquina onde os caminhos se bifurcavam, combinaram uma coisa simples e grande: que os dias importantes iam continuar a ter chão aberto, onde cada um fosse ponte para o outro.

— Amanhã, mesmo lugar, para jogar bola? — perguntou Miguel, já a planear.

— Amanhã, jogamos bola e inventamos a próxima aventura — respondeu Tomás, com o sorriso que fica depois das velas.

— Ainda há metade do bolo — avisou Léo, prático como sempre.

— E eu prometo não perder mais nenhum balão — disse Rafa, cruzando os dedos atrás das costas.

Voltaram a casa com o corpo satisfeito e a cabeça a acender ideias a conta-gotas, numa espécie de céu estrelado particular. O sábado fechou as cortinas de luz devagarinho, e, quando a noite finalmente chegou, trouxe um silêncio que não era vazio: era o descanso de quem celebrou o melhor dos aniversários — aquele em que toda a gente sai a ganhar, porque a amizade, quando acende, ilumina em volta, como uma cidade vista de longe. E o coração, esse, guardou a certeza de que o próximo ano traz novas pistas, novos mapas e o mesmo segredo: juntos, tudo encontra o seu lugar.

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Pistas
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Festa
Celebração que reúne pessoas para se divertir, geralmente com comida e música.
Coreto
Uma estrutura em parques ou praças, geralmente aberta, onde se costumam realizar concertos ou apresentações.
Padeiro
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