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História de Aniversário 11 a 12 anos Leitura 24 min.

A caixa dos elogios honestos

No dia do seu aniversário, Tomás cria uma caixa de elogios que, ao receber notas sinceras, desencadeia pequenas magias e aproxima as pessoas, enquanto ele e os amigos descobrem o poder da verdade dita com ternura.

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Um menino de 12 anos, visage rond com sardas e cabelo castanho-claro desgrenhado, olhos maravilhados, glissa um bilhete dobrado numa caixa azul com estrelas douradas que brilha levemente; à direita, a irmã de ~16 anos, cabelos castanhos longos, sorriso divertido e terno, braços cruzados junto ao sofá; à esquerda, uma amiga de ~12 anos de jaqueta cáqui e bolsa grande aplaudindo delicadamente junto a um prato de docinhos; um primo de ~10 anos de cabelo curto e óculos, agachado e surpreendido, quase tocando um balão flutuante; a mãe adulta de avental pastel, mãos na mesa, olhar caloroso inclinada para a caixa; cenário: sala familiar iluminada ao crepúsculo com paredes creme, guirlandas de balões, mesa de madeira clara com migalhas e presentes empilhados, cortinas às riscas e janela com céu alaranjado; atmosfera íntima e mágica de aniversário, cores quentes e pequenos doodles de estrelas, corações e notas musicais sobrepostos. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A caixa que brilhava baixinho

No dia em que fez onze anos, o Tomás acordou com um sorriso quieto, daqueles que ficam no canto da boca mesmo antes de abrir os olhos. Da cozinha vinha um cheiro a pão torrado, e do corredor vinha a voz da irmã mais velha, a Leonor, a cantar uma canção inventada só para o irritar.

— Parabéns, ó rei do sono! — gritou ela, empurrando a porta com o pé. — Já tens idade para… para… bem, para não deixar meias no sofá!

— Isso é calúnia — disse o Tomás, com uma paciência treinada por anos de “não, agora não” e “depois a mãe vê”. Sentou-se na cama e esticou os braços. — Eu deixo meias em sítios criativos. É arte.

A mãe apareceu à porta com um prato e uma vela espetada num panquecão torto.

— Hoje o pequeno-almoço vem com fogo — anunciou ela, séria, como se fosse uma notícia de televisão.

O Tomás soprou a vela, mas antes fez um desejo. Não um daqueles complicados, tipo “quero um dragão”, porque ele sabia que dragões dão trabalho e provavelmente sujam muito. O desejo dele era mais estranho: queria que, naquele aniversário, toda a gente dissesse coisas verdadeiras e boas uns aos outros. Verdadeiras mesmo.

Depois do pequeno-almoço, ele foi ao quarto e abriu a gaveta das coisas “para fazer mais tarde”. Tinha cartões, fitas, autocolantes e uma caixa de sapatos vazia. Pegou nela e decidiu: naquele dia ia criar uma caixa de elogios. Uma caixa a sério, com tampa, ranhura e tudo.

Cobriu a caixa com papel azul escuro e colou estrelas douradas que tinham sobrado de um projeto antigo. Mas quando colou a última estrela, aconteceu uma coisa esquisita: a estrela piscou. Um piscadinho minúsculo, como quem diz “vi-te”.

— Leonor! — chamou ele. — Viste isto?

A Leonor apareceu, mastigando uma maçã.

— Vi o quê? A tua obsessão por purpurinas?

O Tomás apontou para a caixa. A estrela piscou outra vez. Só que agora, além de piscar, fez um som: “plim”.

A Leonor arregalou os olhos.

— Ok… isso foi… novo.

A mãe veio ver e, quando a estrela piscou pela terceira vez, ela ficou com aquela cara de “há coisas que não se explicam, mas também não se estragam”.

— Talvez seja a caixa a ficar contente — disse a mãe, encolhendo os ombros. — Hoje é aniversário. Até as caixas podem festejar.

O Tomás riu-se. E com uma calma quase solene, escreveu o primeiro papelinho: “Gosto do teu sorriso, Tomás. Faz a casa parecer mais clara.” Dobrou o papel e pôs lá dentro.

A caixa fez “plim” de novo, como se tivesse engolido um segredo delicioso.

Capítulo 2 — Bilhetes honestos, magia inesperada

Ao meio-dia, chegaram os avós, o primo Dinis e a melhor amiga do Tomás, a Sara, que trazia uma mochila tão grande que parecia ter engolido uma biblioteca.

— Trouxe jogos, lanterna, corda, e um pacote de bolachas para emergências — informou ela, prática.

— Emergências de bolacha são as piores — concordou o Tomás, muito sério.

Na sala, o pai pendurava balões, mas um deles teimava em fugir para o teto, como se quisesse morar no lustre.

— Este balão tem espírito aventureiro — disse o pai, aos saltinhos, tentando alcançá-lo.

O Tomás pousou a caixa de elogios em cima da mesa.

— Hoje, quem quiser, escreve um elogio verdadeiro para alguém. Pode ser pequeno. Pode ser engraçado. Mas tem de ser honesto.

O avô António ajustou os óculos.

— Honesto? Então posso dizer que o teu pai ainda pendura balões como se estivesse a lutar com polvos?

— Isso é mais observação científica do que elogio — disse a avó Lurdes, a rir.

A Sara já tinha tirado um bloco.

— Elogio honesto número um: Tomás, tu és a pessoa mais paciente que eu conheço. Quando eu demoro três horas a escolher uma música, tu não atiras o telemóvel pela janela.

— Eu só atiro mentalmente — brincou o Tomás.

Ela escreveu, dobrou o papel e colocou na caixa.

“Plim.”

Mas desta vez o som não ficou só no ar. Um balão cor-de-laranja, que estava meio murcho, começou a encher sozinho, como se tivesse respirado fundo. A fita esticou-se e ele subiu, elegante, até ficar a flutuar direitinho.

— Viram?! — sussurrou o Dinis, com os olhos redondos.

A mãe pousou uma travessa de salgadinhos na mesa, sem derramar uma migalha.

— Vimos — disse ela. — E ninguém grita. Regras da casa.

O pai aproximou-se, com as mãos no ar.

— Ok, caixa mágica. Estamos a perceber a mensagem. Elogios honestos fazem… coisas.

O Tomás sentiu o coração bater mais rápido, não de medo, mas daquela alegria que dá quando a vida parece uma aventura que começou sem avisar. Ele pôs outro bilhete dentro: “Pai, gosto de como tu tentas sempre fazer toda a gente rir, mesmo quando estás cansado.”

“Plim.”

Desta vez, o balão que fugia do lustre desceu devagarinho, como se tivesse decidido obedecer por livre vontade. Parou ao lado do pai, com ar de “pronto, está bem”.

— Isto é inacreditável — murmurou o pai. — Eu sempre disse que o humor tem poder.

A Sara encostou-se ao Tomás.

— Achas que a caixa faz magia só com elogios?

O Tomás olhou para a ranhura da tampa, estreita como um sorriso.

— Acho que faz magia com verdade. E a verdade, às vezes, é a coisa mais difícil de dizer.

Capítulo 3 — A missão do Parque dos Pinheiros

Quando foram cantar os parabéns, as velas do bolo acenderam-se sozinhas, todas ao mesmo tempo, como se alguém invisível tivesse batido palmas. A avó Lurdes cruzou-se com a mãe num olhar que dizia “não pergunto se tu não perguntares”.

Depois de comerem bolo, a Sara puxou o Tomás para o corredor.

— Plano — disse ela, baixinho. — Vamos testar os limites. Sem estragar nada, obviamente. Mas isto é o teu aniversário. Mereces ciência.

O Dinis juntou-se, ofendido.

— Eu também quero ciência. E bolachas de emergência.

O Tomás pegou na caixa.

— Vamos ao Parque dos Pinheiros. Está lá a nossa “fortaleza” — disse ele, referindo-se ao conjunto de árvores onde costumavam esconder-se para contar segredos e inventar histórias. — Se isto é magia, talvez funcione melhor ao ar livre.

A mãe deixou, com uma condição:

— Levem telemóveis e voltem antes de escurecer. E nada de “vamos só ver o que acontece se…” — ela fez aspas com os dedos. — Porque eu conheço essa frase.

No caminho, a caixa parecia mais pesada e mais leve ao mesmo tempo, como se carregasse ideias. O sol batia no papel azul e as estrelas douradas brilhavam como olhos curiosos.

No parque, sentaram-se num banco. Um homem passeava um cão enorme que parecia um sofá com pernas. Uma criança mais pequena choramingava porque tinha deixado cair o gelado. Um grupo de adolescentes passava a rir alto, com música a sair do telemóvel.

— Ok — disse a Sara. — Objetivo: fazer algo bom e ver a magia ajudar.

O Tomás observou a criança do gelado. O pai dela tentava limpar a mão pegajosa com guardanapos, mas a cara da criança parecia um temporal.

O Tomás aproximou-se, com aquele sorriso calmo que ele usava quando não queria assustar ninguém.

— Olá. Desculpa… o teu gelado caiu?

A criança assentiu, fungando.

— Eu tinha o melhor sabor… e agora é… chão.

O Tomás ajoelhou-se, mantendo uma distância respeitosa.

— O chão é um péssimo prato — disse ele. — Mas sabes uma coisa? Eu vi como tu tentaste segurar. Foste rápido. Isso é… coragem de gelado.

A criança piscou, confusa, e depois soltou um risinho.

A mãe da criança olhou para o Tomás.

— Obrigada. Foi… querido.

O Tomás voltou para o banco e escreveu um bilhete: “Tu foste corajoso quando o gelado caiu.” Dobrou e colocou na caixa.

“Plim.”

No mesmo instante, um carrinho de gelados, que estava parado do outro lado do parque, começou a tocar uma musiquinha e aproximou-se, como se o próprio parque tivesse chamado por ele. O homem do carrinho parou perto da criança e disse:

— Hoje estou com promoção surpresa. Um gelado pequenino grátis para quem tiver tido um dia difícil.

A criança abriu a boca, chocada, e apontou para si, como quem pergunta “eu?”. O homem acenou. O choro virou gargalhada.

A Sara tapou a boca com as duas mãos.

— Ok. Isto é… muito melhor do que ciência.

O Dinis cochichou:

— Caixa, eu adoro-te.

O Tomás sentiu uma alegria quente no peito, mas também uma responsabilidade. A caixa não era um brinquedo. Era como um megafone para coisas boas, desde que fossem verdade.

— Vamos continuar — disse ele. — Mas com cuidado. Só elogios honestos. Sem mentiras, sem exageros.

A Sara levantou uma sobrancelha.

— Então não posso dizer que tu és o melhor cantor do universo?

— Não — respondeu ele, sem ofender. — Porque isso seria falso e perigoso para os ouvidos do universo.

Eles riram e seguiram pela alameda dos pinheiros, onde o vento cheirava a resina e a aventura.

Capítulo 4 — O elogio que não queria sair

Na “fortaleza” de árvores, havia uma clareira pequena onde a luz caía em manchas, como se o sol estivesse a jogar às escondidas. O Tomás pousou a caixa no chão e os três ficaram a olhar para ela, como se fosse um animalzinho raro.

— Agora — disse o Dinis — podemos resolver o problema do mundo: a Dona Odete, a vizinha do terceiro andar, que nunca sorri.

A Sara concordou com a cabeça.

— Ela olha para as pessoas como se toda a gente estivesse prestes a entornar sopa.

O Tomás hesitou. Ele conhecia a Dona Odete: era seca, sim, mas também deixava às vezes uma taça de uvas à porta quando a mãe dele estava doente. Só que ninguém falava disso, porque a Dona Odete fazia de conta que não tinha feito.

— Ela não é má — disse o Tomás. — Só… é fechada.

— Então vamos dar-lhe um elogio — insistiu a Sara. — Um elogio que abra uma fresta.

O Tomás tirou um papel, mas a caneta ficou parada. Tinha medo de soar falso. E a caixa, ele suspeitava, não perdoava falsidades. Se a magia se alimentava de honestidade, uma mentira podia dar… um resultado estranho. Uma nuvem de sapos? Um semáforo a falar? Ele não queria descobrir.

— Não consigo escrever — admitiu ele, corando um pouco. — Eu não sei o que dizer. Elogiar alguém que nunca quer ser elogiado é difícil.

A Sara sentou-se ao lado dele.

— Então pensa em algo que ela fez. Não no jeito dela. Uma ação.

O Tomás lembrou-se das uvas. Lembrou-se também do dia em que o elevador tinha avariado e a Dona Odete ajudou o avô a subir as escadas, carregando uma sacola pesada sem reclamar.

Ele respirou. A verdade estava ali, só que precisava de coragem para ser dita.

Escreveu: “Dona Odete, obrigado por ajudar sem fazer barulho. A sua bondade é discreta, mas é real.”

Dobrou o papel devagar, como se estivesse a embrulhar uma coisa frágil, e colocou na caixa.

“Plim.”

Mas desta vez a magia não fez aparecer um carrinho de gelados. O que aconteceu foi diferente: o ar na clareira ficou mais fresco, e um cheiro a uvas maduras surgiu, suave. Das árvores, caiu uma pinha, bem no meio do círculo, como se fosse um ponto final.

— Isso foi… simbólico — murmurou o Dinis.

— Talvez seja um convite — disse a Sara. — Para irmos até ela. Entregar o elogio.

O Tomás engoliu em seco.

— Entregar? Tipo… dizer na cara?

— Ler em voz alta — sugeriu a Sara, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Tu querias isso, não querias? Que as pessoas dissessem coisas boas e verdadeiras.

O Tomás olhou para a caixa. Sentiu o peso da promessa. A honestidade, às vezes, dá vergonha. Mas também dá liberdade.

— Está bem — disse ele, com um sorriso pequeno e decidido. — Vamos.

Capítulo 5 — Um prédio, um segredo e gargalhadas contidas

Voltaram para casa ao fim da tarde. O prédio parecia igual, com o mesmo cheiro a detergente no hall e o mesmo tapete que nunca estava direito. Mas o Tomás tinha a sensação de que estava a entrar noutra versão do seu dia, uma versão com portas escondidas.

No terceiro andar, pararam em frente à porta da Dona Odete. O Dinis fez uma careta como se estivesse prestes a ir ao dentista. A Sara endireitou a mochila e fez sinal ao Tomás.

— Tu consegues — sussurrou ela.

O Tomás tocou à campainha. Ouviu passos lentos. A porta abriu-se só um palmo. Apareceu um olho atento e uma sobrancelha desconfiada.

— Sim?

O Tomás respirou fundo.

— Boa tarde, Dona Odete. Eu sou o Tomás, do quinto. Hoje faço anos e… eu fiz uma caixa de elogios. E eu queria ler um para si. É… verdadeiro.

A porta abriu-se um bocadinho mais. A Dona Odete ficou a olhar para ele como se estivesse a tentar ver se aquilo era uma partida.

— Elogio? — repetiu ela, como se a palavra fosse um peixe escorregadio.

— Sim — disse o Tomás, paciente. — Posso?

Houve um silêncio. Depois, a Dona Odete abriu a porta de vez, mas ficou de braços cruzados.

— Leia lá, então. Mas sem drama.

O Tomás tirou o bilhete e leu, com voz clara, sem correr:

“Dona Odete, obrigado por ajudar sem fazer barulho. A sua bondade é discreta, mas é real.”

A Dona Odete ficou imóvel. A ponta do nariz dela avermelhou um pouco, como se a emoção tivesse batido à porta errada. Ela pigarreou.

— Eu… eu só fiz o que era preciso.

— Eu sei — respondeu o Tomás. — E por isso é que é bonito.

Atrás dele, a Sara segurava o riso, não por gozo, mas por nervos. O Dinis parecia estar a prender a respiração.

A Dona Odete olhou para a caixa na mão do Tomás.

— Essa caixa… faz barulho? — perguntou, desconfiada.

Como resposta, a caixa fez “plim” sozinha, sem ninguém meter nada. Um “plim” delicado, quase educado.

A Dona Odete deu um pequeno salto.

— Santa paciência… — murmurou ela. E depois, para surpresa de todos, a cara dela amoleceu. Não foi um sorriso enorme, mas foi um sorriso verdadeiro, desses que aparecem como uma lâmpada que acende devagar.

— Parabéns, Tomás — disse ela. — E… obrigada.

Nesse instante, no corredor, a luz que costumava piscar ficou estável. A lâmpada parou de fazer aquele “zzzz” irritante que toda a gente fingia não ouvir há meses.

O Dinis apontou, com os olhos a brilhar.

— A caixa consertou o prédio!

A Dona Odete ergueu o queixo.

— O prédio não estava partido.

A Sara tossiu, tentando não rir.

— Claro que não, Dona Odete. Só estava… a piscar de emoção.

A Dona Odete fechou a porta devagar, mas antes de fechar, disse:

— Tomás. Não deixem essa caixa fazer disparates. A verdade é boa, mas tem de ser bem usada.

O Tomás assentiu, sério.

— Prometo.

E quando desceram as escadas, os três riram baixinho, como quem leva um segredo luminoso no bolso.

Capítulo 6 — A leitura que encheu a sala

À noite, a família e os amigos juntaram-se outra vez na sala. Os balões estavam quietos, como se estivessem a ouvir. O bolo já era só metade e a mesa estava cheia de migalhas felizes.

O Tomás pôs a caixa no centro, como se fosse uma fogueira de acampamento.

— Quero ler alguns elogios em voz alta — anunciou ele. — E também quero que, se alguém tiver coragem, diga um elogio verdadeiro sem escrever. Só com palavras.

O pai sentou-se, exagerando o movimento, como se fosse um rei num trono.

— Preparem-se para o momento mais emocionante da minha carreira de pai.

A Leonor revirou os olhos.

— Ele vai chorar. Aposto dez.

— Apostas em lágrimas são muito feias — disse a avó Lurdes, mas já estava a rir.

O Tomás abriu a tampa. Dentro, os papéis pareciam mexer-se um pouco, como folhas ao vento. Ele tirou um e leu:

“Tomás, tu ouves de verdade. Quando alguém fala contigo, parece que o mundo fica mais calmo.” — Era da Sara.

A Sara corou e encolheu os ombros, tentando fingir que aquilo não era com ela.

O Tomás tirou outro:

“Gosto de como tu pedes desculpa quando te enganas, mesmo que custe.” — Era do avô António.

O Tomás engoliu em seco. Ele lembrou-se de vezes em que não tinha pedido desculpa. E percebeu que aquele elogio era também um convite: continuar a ser honesto, mesmo quando dá vontade de fugir.

Outro papel:

“Leonor, és uma irmã chata… mas és a minha favorita.” — Era do pai.

— Ei! — protestou a Leonor, mas estava a rir.

O pai levantou o dedo.

— O elogio é verdadeiro. E a parte “chata” é uma palavra carinhosa nesta casa.

A caixa fez “plim” com força, como se concordasse alto. E, sem ninguém tocar, os balões começaram a mudar de posição no teto, formando uma espécie de arco colorido por cima do sofá, como uma decoração profissional, só que feita por magia com bom gosto.

— Uau — murmurou a mãe. — Desta vez a caixa superou o teu pai.

— Ninguém supera o meu pai em caos — disse a Leonor. — A caixa é mais organizada.

O Tomás continuou a ler. E cada elogio parecia acrescentar uma coisa invisível ao ar: mais calor, mais calma, mais vontade de estar ali. Era como se a sala ficasse maior por dentro.

Então ele tirou um papel que não reconheceu. A letra era da mãe.

Ele leu devagar:

“Tomás, a tua honestidade é um abrigo. Quando dizes a verdade com gentileza, eu sinto que estamos seguros.”

O silêncio foi macio. O Tomás sentiu os olhos a arderem um pouco, mas não quis transformar aquilo num drama, como a Dona Odete tinha avisado. Só respirou e sorriu.

— Obrigado, mãe.

A mãe aproximou-se e beijou-lhe a testa.

— Obrigada tu. E agora… alguém quer dizer um elogio em voz alta? Sem papel?

O Dinis levantou a mão, como na escola.

— Eu! Tomás… tu partilhas as bolachas de emergência. Isso é raro e heróico.

A Sara aplaudiu.

— Isso merece uma medalha de chocolate.

A caixa fez um “plim” tão alegre que, por um segundo, pareceu que uma estrelinha dourada da tampa rodopiou. E do nada, um prato de bolachas que estava na cozinha apareceu na mesa, como se tivesse dado um salto mágico para não ficar de fora.

A Leonor arregalou os olhos.

— Ok, eu retiro tudo o que disse sobre meias no sofá. A caixa é oficialmente a melhor convidada.

O Tomás riu, e o riso dele misturou-se com os outros, como música simples e boa.

Capítulo 7 — A tisana e o último “plim”

Quando a festa começou a acalmar, os avós despediram-se, a Sara e o Dinis foram buscar os casacos, e a casa ficou com aquele silêncio satisfeito de fim de dia. O pai começou a recolher copos, a Leonor juntou guardanapos, e o Tomás fechou a caixa com cuidado, como se estivesse a deitar um bichinho para dormir.

A mãe acendeu uma luz mais baixa e foi à cozinha.

— Para acabar bem — disse ela, voltando com canecas — tisana doce. Camomila com um bocadinho de mel.

O Tomás sentou-se à mesa com a caneca quente nas mãos. O vapor subia em fios finos, cheirando a calma. Ele pensou no gelado do parque, na luz do corredor que deixou de piscar, no sorriso pequeno da Dona Odete, e nos elogios que tinham enchido a sala como balões invisíveis.

A Leonor soprou a tisana, impaciente.

— Então, senhor da caixa mágica… o que vais fazer com ela agora?

O Tomás olhou para a tampa estrelada.

— Vou guardar — disse ele. — E vou continuar a usá-la, mas só quando fizer sentido. A magia não é para impressionar. É para aproximar.

O pai levantou a caneca, solene.

— Brindemos à honestidade. E à coragem de dizer coisas boas sem parecer esquisito.

— E às bolachas — acrescentou o Dinis, lá do corredor, antes de fechar a porta. — Nunca esquecer as bolachas.

A mãe riu.

— Às bolachas também.

O Tomás deu um gole. A tisana era doce, suave, e parecia acender uma luz tranquila dentro dele. Nesse instante, a caixa, em cima da mesa, fez um último “plim”. Não alto, não espetaculoso. Um “plim” de boa noite.

E o Tomás, com o sorriso calmo de quem teve uma aventura sem sair do seu mundo, pensou que talvez a melhor magia fosse mesmo essa: dizer a verdade com ternura, e ver o dia ficar mais bonito.

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Sorriso quieto
Um sorriso pequeno e calmo, que aparece sem muito barulho no rosto.
Calúnia
Quando se diz algo falso e maldoso sobre alguém para o prejudicar.
Obsessão
Pensar muito e sempre na mesma coisa, sem conseguir parar.
Solene
Com muita seriedade e respeito, como numa cerimónia importante.
Ranhura
Uma abertura estreita, como um corte na tampa onde se mete papel.
Promoção
Uma oferta especial que torna um produto mais barato ou grátis.
Fortaleza
Lugar forte onde se pode proteger ou esconder-se, real ou imaginado.
Clareira
Espaço aberto numa floresta onde a luz do sol entra facilmente.
Resina
Substância pegajosa que sai de algumas árvores, cheira a madeira.
Honesto
Dizer a verdade e agir de forma justa com os outros.
Emergências
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