Parte 1: A Noite Pisca-Pisca
A noite de Natal tinha um cheiro bom a pinheiro e canela. Na sala, as luzinhas da árvore piscavam como se estivessem a contar segredos. No sofá, duas meninas de cinco anos, a Inês e a Lara, usavam pijamas fofos e meias com renas.
— Amanhã é o dia! — sussurrou a Lara, com os olhos bem abertos.
— Shhh… se o Pai Natal ouve, ele faz cócegas nas chaminés! — respondeu a Inês, muito séria… e depois riu-se.
As duas tinham prometido ficar acordadas “só um bocadinho”. Um bocadinho virou um grande bocadinho. E, quando as pálpebras começaram a pesar, ouviram um som pequenino, como um “plim!” de sininho a rir.
Plim. Plim-plim.
A Inês sentou-se logo.
— Ouviste?
— Foi a árvore? — a Lara apontou para uma bola vermelha.
Então, um embrulho em cima da mesa mexeu. Sim, mexeu mesmo! As fitas tremelicaram, o papel fez “crac-crac”, e de trás do embrulho saltou uma figura pequena, com um gorro verde torto e sapatos com pompons.
— Olá, olá, olá! — disse ele, com voz fina e alegre. — Eu sou o Lutin Farceur de Natal! E esta casa… hummm… cheira a desafios!
A Lara engoliu em seco, mas sorriu.
— Um lutin? A sério?
— Tão a sério que tenho poeira de estrelas no cotovelo! — Ele esfregou o braço e, por acaso, soltou um brilhinho.
A Inês aproximou-se devagar, como quem vai ver um caracol.
— Tu és… bom?
O lutin levou a mão ao peito, ofendido de brincadeira.
— Bom? Eu sou… divertido! Faço trapalhadas simpáticas. Dou sustos que acabam em gargalhadas. E hoje… — ele levantou um dedo — eu venho anunciar um desafio simples.
As meninas inclinaram-se para a frente.
— Qual? — perguntaram as duas ao mesmo tempo.
O lutin deu uma cambalhota em cima do tapete, parou de cabeça para baixo e falou assim, todo orgulhoso:
— Desafio do Natal: “Encontra o caminho da calma no meio da confusão.” Fácil, não é?
A Inês franziu a testa.
— Parece difícil.
— Só parece! — disse o lutin, endireitando-se. — Eu vou semear uma pequena… mini… micro… bagunça. Vocês vão resolver sem se zangar. E no fim… trégua! Sentamos, conversamos e bebemos chocolate quente.
— Chocolate quente? — a Lara brilhou como uma luzinha da árvore.
— Com espuma! — acrescentou o lutin. — E talvez canela. Mas primeiro… — ele piscou um olho — a primeira farpa… digo, farpa não… a primeira FARSA.
Antes que as meninas perguntassem, o lutin soprou para a mesa. As bolachas deixadas para o Pai Natal… começaram a deslizar sozinhas, em fila, como um comboio de biscoitos.
— Ei! Voltem! — a Inês correu.
As bolachas deram a volta ao prato e esconderam-se… dentro do sapatinho da boneca da Lara.
— Ah! — Lara pôs as mãos na cabeça. — A minha boneca vai cheirar a bolacha!
O lutin riu, mas não era um riso mau. Era um riso de quem faz cócegas no ar.
— Primeira regra do desafio: nada de gritos de dragão.
A Inês respirou fundo.
— Eu não vou gritar. Vou… pensar.
A Lara também tentou.
— Eu também. Mas posso fazer uma cara zangada só por dentro?
— Pode! — disse o lutin. — Cara zangada por dentro é permitida. Agora, segunda regra: trabalhem em equipa.
As duas olharam uma para a outra e assentiram.
— Vamos tirar as bolachas — disse a Inês, com cuidado.
— E depois limpamos o sapatinho — completou a Lara.
Fizeram isso com jeitinho. A boneca ficou salva. As bolachas voltaram ao prato. O lutin bateu palmas tão rápido que parecia um passarinho.
— Muito bem! Não se zangaram. Mas… — ele ergueu as sobrancelhas — a bagunça tem pernas hoje.
De repente, as luzinhas da árvore apagaram-se. A sala ficou com um escuro macio, só com a luz da lua a entrar pela janela.
— Oh não… — Lara agarrou a mão da Inês.
— Eu tenho uma ideia — disse a Inês, baixinho. — Vamos procurar a tomada. Sem correr, para não tropeçar.
O lutin assobiou, satisfeito.
— A calma é como um cachecol: aquece o coração e não se perde se segurarmos bem.
As meninas caminharam devagar. A Lara sussurrou:
— Está aqui… acho eu… ai!
Ela tocou em algo fofinho.
— O que é isso?
A Inês apalpou também.
— É… algodão? Neve?
O lutin apareceu do nada, sentado no candeeiro (como se isso fosse normal).
— Neve de almofada! Eu esvaziei uma almofada só um bocadinho. Só um bocadinho enorme.
E era verdade: havia “neve” branca espalhada pelo chão.
A Lara quis rir e chorar ao mesmo tempo.
— Parece que a almofada explodiu!
— Explodiu de alegria! — disse o lutin.
A Inês olhou para a Lara e levantou o queixo.
— Vamos fazer uma coisa: primeiro, ligamos as luzes. Depois, apanhamos a neve com calma. Sem brigas.
— Combinado — disse a Lara, e fez um aperto de mão de “equipa secreta”.
Encontraram a tomada e ligaram. A árvore voltou a piscar, como se também estivesse a rir. Depois, as duas começaram a apanhar o algodão para um saco. O lutin, por momentos, ficou quieto. Só por momentos.
— Vocês são rápidas — murmurou ele, como quem não queria admitir.
— Porque somos duas — disse a Lara. — E porque a Inês faz planos.
— E tu fazes coragem — respondeu a Inês.
O lutin coçou o nariz.
— Muito bonito. Quase me dá vontade de… fazer outra.
Parte 2: O Mapa das Trapalhadas
Quando o chão ficou limpo, as meninas pensaram que tinham vencido. Mas o lutin tirou do bolso um papel enrolado, com desenhos a lápis e manchas de chocolate.
— Um mapa! — anunciou ele. — O Mapa das Trapalhadas. Para completarem o desafio, têm de seguir três pistas. No fim, eu prometo uma trégua para conversar com chocolate quente. Palavra de lutin!
— E se tu mentires? — perguntou a Inês, desconfiada.
O lutin pôs a mão no coração outra vez.
— Se eu mentir, o meu gorro começa a espirrar purpurina para sempre. E isso é muito inconveniente.
A Lara riu.
— Então vamos!
O mapa mostrava a sala, a cozinha e o corredor. Na primeira pista, um desenho de uma meia com uma estrela.
— Meias! — disse a Lara. — Estão na lareira.
As duas correram… mas sem fazer barulho demais. E encontraram algo estranho: as meias de Natal estavam todas trocadas, penduradas ao contrário, e uma delas estava com uma colher de pau lá dentro, como se fosse uma perna.
— A colher está a fingir que é um pé! — Lara deu uma gargalhada.
O lutin apareceu atrás da cortina.
— Chama-se “moda de cozinha”. Muito elegante.
A Inês pegou na meia com a colher.
— Isto é uma brincadeira, mas não é perigoso. Vamos só pôr tudo no sítio certo.
O lutin inclinou a cabeça.
— Vejam só. Vocês arrumam e não ralham comigo. Isso faz cócegas na minha consciência.
A Lara piscou.
— Tu tens consciência?
— Tenho, sim! Ela mora aqui — disse ele, batendo na testa. — É pequenina, mas faz barulho.
Arrumaram as meias. A estrela no mapa brilhava mais, como se aprovasse. A segunda pista tinha um desenho de uma caneca a fumar.
— A cozinha! — disse a Inês. — Deve ser sobre o chocolate quente!
Foram até à cozinha e viram um cenário tão engraçado que a Lara quase caiu sentada: o chão estava cheio de colheres alinhadas, como soldados, e no meio havia uma caneca vazia com um bigode desenhado em chocolate.
— A caneca tem bigode! — Lara apontou. — É o “Senhor Caneco”.
— Ele manda nas colheres — explicou o lutin, muito sério. — Exige respeito.
A Inês olhou para as colheres no chão.
— Se pisarmos, podemos cair. Vamos tirar as colheres e pôr na gaveta.
O lutin fez uma carinha de quem ia protestar… mas não protestou. Só disse:
— Vocês escolhem segurança. Boa escolha. Mas… falta a terceira pista. A mais importante.
No mapa, a última pista era um coração desenhado ao lado de uma nuvem.
— Um coração e uma nuvem? — Lara inclinou a cabeça. — Isso é tipo… carinho no céu?
O lutin bateu com o pé.
— É “palavras de trégua”. A terceira pista não é um objeto. É uma frase. Vocês têm de me dizer uma frase que acalme um lutin farceur quando ele fica… muito brincalhão.
A Inês pensou. A Lara também. O silêncio ficou quentinho, como um cobertor.
— Podemos dizer… “Pára, por favor”? — tentou a Lara.
O lutin fez uma careta.
— Hmm. Isso é educado, mas falta música.
A Inês aproximou-se dele, sem medo.
— E se for: “Vamos conversar. Tu podes contar o que sentes. E depois fazemos uma pausa com chocolate quente”?
O lutin piscou, surpreendido.
— Uau. Isso tem… nuvem e coração.
A Lara juntou-se.
— E podemos rir, mas sem fazer coisas que estragam.
O lutin ficou muito quieto. O gorro dele deixou de cair para o lado, como se também estivesse a escutar. Por um segundo, a sala pareceu ainda mais brilhante.
— Vocês descobriram a chave — disse ele, baixinho. — A chave não abre uma porta. Abre um jeito de estar.
— Então… trégua? — perguntou a Inês.
O lutin respirou fundo, como quem cheira um bolo no forno.
— Trégua. Trégua oficial, assinada com… — ele tirou um lápis minúsculo — um rabisco mágico.
Ele desenhou no ar e apareceu uma pequena mesa redonda, duas cadeiras pequenas e uma cadeira ainda mais pequena para ele. Em cima, uma panela começou a cantar “blub-blub”, e um cheiro delicioso de chocolate quente encheu a cozinha.
— Eu sabia! — Lara bateu palmas. — Chocolate!
Parte 3: Chocolate Quente e Escolhas Calmas
As meninas sentaram-se, com as mãos a aquecer a caneca. O lutin soprou para a espuma e fez um desenho de estrela.
— Agora, conversa — disse ele. — Eu prometi.
A Inês olhou para ele com cuidado.
— Por que fazes tanta bagunça?
O lutin mexeu a caneca com uma colher que parecia uma varinha.
— Porque é divertido ver as coisas mexerem. E porque… — ele baixou a voz — às vezes, eu quero ver se as pessoas conseguem escolher a calma quando algo sai do lugar.
A Lara bebeu um golinho e ficou com um bigodinho de chocolate.
— Tipo… quando a gente se zanga?
— Sim — disse o lutin. — A zanga é como uma bola de neve: começa pequena, mas pode crescer e… PUF! cair em cima da cabeça.
A Inês limpou o bigode da Lara com um guardanapo, a rir.
— Então tu não queres estragar o Natal?
O lutin abanou a cabeça tão depressa que o gorro quase voou.
— Não! Eu adoro o Natal. Eu adoro risos, músicas e… meias quentinhas. Mas eu também sei que, quando há muita excitação, às vezes as pessoas gritam, empurram, choram. Eu faço uma travessura e espero… que alguém diga: “Vamos parar e falar.”
A Lara colocou a caneca na mesa.
— Tu queres que a gente seja… sábia?
O lutin arregalou os olhos.
— “Sábia” é uma palavra enorme para uma menina de cinco anos!
— Eu sou pequena, mas a palavra cabe — disse a Lara, e mostrou a língua de chocolate.
A Inês riu.
— E tu, lutin, és pequeno, mas fazes um barulho grande.
O lutin fez um cumprimento.
— Obrigado. Eu treino.
A Inês ficou séria por um instante, mas com carinho.
— Só que há coisas que não podes fazer. Como espalhar neve de almofada… isso dá trabalho.
O lutin mordeu o lábio.
— Eu sei. Mas vocês resolveram juntas. E não disseram “És mau!”. Disseram “Vamos fazer com calma”. Isso… — ele apontou para o peito — faz o meu coração dar saltinhos.
A Lara inclinou-se para a frente.
— Então faz um desafio mais pequeno. Um que seja só engraçado.
O lutin pensou, com a testa enrugada.
— Está bem. Um último mini-desafio. Sem sujeira. Prometo.
— Qual? — perguntaram as duas.
Ele sorriu como quem guarda um segredo debaixo do travesseiro.
— Eu vou esconder… uma campainha dourada. Vocês têm de a encontrar usando duas coisas: olhos atentos e palavras gentis.
— Palavras gentis? — repetiu a Inês.
— Sim. Quando encontrarem um sítio para procurar, têm de dizer algo bom uma à outra. Assim, a busca fica leve.
A Lara saltou da cadeira.
— Eu começo! Inês, tu és boa a pensar.
A Inês corou.
— Lara, tu és corajosa e engraçada.
O lutin bateu palmas devagar, feliz.
— Isso mesmo. Agora procurem.
As meninas olharam em volta. Em cima do frigorífico? Não. Debaixo do tapete? Não. Dentro da caixa dos guardanapos? Também não.
— E se estiver na árvore? — sugeriu a Lara.
— Boa ideia — disse a Inês. — Lara, tu tens olhos de águia.
— Águia de Natal! — respondeu a Lara.
Foram para a sala e aproximaram-se da árvore. As luzinhas piscavam mais rápido, como se torcessem por elas. A Inês levantou um ramo e viu algo a brilhar.
— Achei!
Era uma campainha pequena, dourada, com um laço vermelho.
A Lara deu um saltinho.
— Tocaaaa!
A Inês tocou. “Trim!” O som foi fino e bonito, como um beijo no ar.
E então aconteceu o mini-rebondismo: da campainha caiu um bilhetinho dobrado. A Lara apanhou e abriu com cuidado.
— Diz aqui… — ela leu com a ajuda da Inês, devagar — “Quando a confusão aparecer, escolhe a calma. Quando a risada chamar, escolhe a gentileza. Feliz Natal.”
A Inês olhou para o lutin.
— Foste tu que escreveste?
O lutin encolheu os ombros, fingindo que não era nada.
— Talvez. Ou talvez a própria noite de Natal tenha escrito. Ela tem boa letra.
As meninas riram. O lutin bocejou de repente, como se a magia lhe desse sono.
— Acho que agora… tenho de ir. Há muitas casas, muitas risadas, e muitos corações a aprender.
A Lara ficou um pouco triste.
— Vais embora já?
O lutin desceu do sofá e deu-lhes um abraço rápido, cheirando a pinheiro e chocolate.
— Eu não vou muito longe. Quando vocês escolherem a calma, eu apareço no pensamento, como um sininho.
A Inês segurou a campainha dourada.
— Prometemos tentar.
— E se falharmos? — perguntou a Lara, baixinho.
O lutin sorriu, macio.
— Então tentam outra vez. O Natal não é um teste. É um abraço.
Ele piscou os olhos e, com um “plim!” suave, transformou-se num pontinho de luz que subiu até à árvore e ficou ali, escondido entre as luzinhas.
A sala voltou a ficar quieta. Quietinha, mas feliz. A Inês e a Lara sentaram-se no sofá, com a campainha entre as duas.
— Achas que o Pai Natal vem mesmo? — sussurrou a Lara, já com sono.
— Vem — disse a Inês. — E se houver confusão… a gente faz trégua e conversa.
— E chocolate quente… — murmurou a Lara.
— Amanhã — disse a Inês, a sorrir.
As luzinhas da árvore piscaram mais uma vez, como se dissessem: “Boa noite.” E as duas meninas adormeceram com o coração quentinho, sabendo que até as travessuras podiam ser um caminho para escolhas calmas e felizes.