Parte 1: A noite que cheirava a canela
Na véspera de Natal, a casa do Tomás, do Leo e do Martim brilhava como uma estrela. Havia luzinhas na janela, meias vermelhas na lareira e um cheiro doce de canela e bolo no ar.
Os três amigos tinham mais ou menos cinco anos e estavam cheios de energia, como pipocas a saltar. Corriam pela sala, a rir, a apontar para a árvore de Natal que parecia um pinheiro com joias: bolas douradas, fitas prateadas e um anjo a sorrir lá no alto.
— Devagar! — disse a mãe, com voz macia. — A árvore é delicada.
— Nós somos delicados! — respondeu o Martim, e tentou andar em bicos de pés… por dois segundos.
Depois do jantar, os meninos vestiram pijamas quentinhos. O pai contou uma história curtinha, com renas e nuvens de açúcar. As pálpebras ficaram pesadas.
— Boa noite… — murmurou o Leo.
— Boa noite… — suspirou o Tomás.
— Boa noite… — bocejou o Martim.
A casa ficou quieta, como se prendesse a respiração.
Mas lá fora, no céu escuro, a lua parecia um prato de prata. E lá dentro, bem perto da árvore, uma sombra pequenina mexeu-se.
Plim.
Era um lutin farceur de Natal, pequeno como um boneco, com gorro pontudo e botas de feltro. Tinha olhos vivos e um sorriso que dizia: “Vou fazer uma traquinice… mas uma traquinice boa.”
Ele desceu da prateleira com cuidado, como um gato. Depois, pegou num bonbon papier: um rebuçado embrulhado num papel brilhante que fazia “crac-crac” ao tocar.
— Hehe… — riu baixinho.
O lutin olhou à volta. Viu a corbeille à fruits, a fruteira da cozinha, com maçãs vermelhas, bananas amarelas e uma pera verde, gordinha.
— O esconderijo perfeito.
Com um saltinho, ele entrou na cozinha e, com muito jeitinho, enfiou o rebuçado lá no meio, por baixo de duas maçãs.
— Ninguém vai descobrir… ou talvez descubra! — sussurrou.
E, antes de voltar para a sua prateleira, ele ainda deixou um fiozinho de purpurina no chão, como um rasto de estrela.
Parte 2: O rebuçado misterioso e a primeira guirlanda
De manhã cedo, os três meninos acordaram como se tivessem molas nos pés.
— É Natal! — gritou o Tomás.
— Presentes! — disse o Leo.
— Chocolate! — completou o Martim.
Correram para a sala. Havia caixas embrulhadas, papel brilhante e laços enormes. Abriram, riram, abraçaram. Depois, a mãe chamou:
— Venham tomar o pequeno-almoço.
Na mesa havia leite, pão, manteiga… e, no meio, a fruteira.
O Martim esticou a mão para uma banana. E então viu um brilho diferente, escondido entre as maçãs.
— Olhem! — disse ele, com olhos muito redondos.
O Tomás aproximou-se.
— Um rebuçado!
O Leo pegou nele e leu o papel, muito devagar, juntando as letras como quem junta peças de um puzzle. Mas antes que conseguisse, o papel abriu-se sozinho com um “pfff”, como se tivesse um sopro escondido.
Caiu um bilhetinho pequenino.
O Tomás leu em voz alta, porque já conhecia muitas palavras:
— “Bom dia, meninos! Eu sou o Lutin Farceur. Fiz uma pequena partida. Se querem que eu pare, façam um acordo comigo: uma partida colocada = uma guirlanda fixada. Assinado: o que ri baixinho.”
— Uma partida… colocada? — perguntou o Leo, confuso.
Nesse instante, ouviram um “tlim!” vindo da sala. Correram.
A guirlanda verde que estava pendurada na parede… estava no chão, enrolada como uma cobra a dormir.
— Foi ele! — disse o Martim, com um misto de susto e riso.
O Tomás pegou na guirlanda e sentiu o coração bater rápido. Ele queria que a casa ficasse bonita. Mas também achou aquilo… um bocadinho divertido.
— O bilhete disse: uma partida colocada, uma guirlanda fixada — repetiu o Leo. — Quer dizer… ele faz uma partida… e nós arrumamos?
— Parece um jogo — disse o Martim.
Nessa hora, uma risadinha muito baixinha ecoou, como vento a passar por sinos.
— Hi-hi-hi…
Os três olharam para a árvore. E lá, sentadinho num ramo baixo, estava o lutin. A balançar as pernas, com ar de quem não fez nada.
— Bom dia! — disse ele, com voz fina e alegre. — Gostaram do meu rebuçado escondido?
— Tu deitaste a guirlanda! — acusou o Tomás, mas sem raiva.
— Foi só um “pum” gentil — respondeu o lutin, piscando um olho. — E agora… o acordo!
O Leo respirou fundo.
— Está bem. Nós fixamos a guirlanda.
Eles pegaram na fita adesiva e nos ganchinhos. A mãe ajudou um pouco, sorrindo, como se soubesse mais do que dizia. Os meninos esticaram a guirlanda, alisaram, colaram. Ficou bonita outra vez.
O lutin bateu palmas pequeninas.
— Muito bem! Uma guirlanda fixada! E agora… atenção para a próxima partida!
Parte 3: Partidas doces, casa a brilhar e a paciência a crescer
A primeira partida parecia um aviso. A segunda veio como uma surpresa.
Quando o Tomás foi buscar o seu carrinho novo, encontrou-o em cima do sofá, com um cachecol de boneca e um chapéu de cozinha.
— O meu carro virou cozinheiro! — disse ele, e começou a rir.
— Partida colocada! — cantou o lutin, aparecendo atrás de uma almofada.
— Então… guirlanda fixada! — respondeu o Leo, com um suspiro engraçado.
Mas que guirlanda? Eles olharam à volta. E viram que uma das guirlandas da árvore estava meio solta, a cair como uma fita cansada.
— Eu arranjo! — disse o Martim, decidido.
O Martim levantou os braços, mas era baixinho. Ficou na pontinha dos pés. A guirlanda parecia sempre um bocadinho longe.
— Eu seguro na tua mão — ofereceu o Tomás.
— Eu trago a cadeira pequena — disse o Leo.
Trabalharam juntos. O Martim subiu com cuidado, o Tomás segurou a cadeira, o Leo segurou a guirlanda. Prenderam-na direitinha.
— Conseguimos! — disseram os três, ao mesmo tempo.
O lutin sorriu, e a sua voz ficou um pouco mais suave, como uma canção.
— Viram? Quando a casa se mexe, vocês conseguem ficar calmos. Isso é coragem quietinha.
O dia foi passando com mais partidas, sempre pequeninas, sempre gentis.
Uma vez, o lutin trocou as colheres por lápis na gaveta. A mãe abriu e ficou a rir.
— Que engraçado… — disse ela. — Quem foi?
O lutin fez uma vénia atrás do pote do açúcar.
Outra vez, ele colocou três meias de Natal… na cabeça do boneco de neve de pano.
— Parece um rei! — gritou o Leo, a rir tanto que quase caiu sentado.
E cada vez que havia uma partida, os meninos lembravam-se do acordo.
— Partida colocada… — dizia o Tomás.
— … guirlanda fixada! — completava o Martim.
Às vezes era uma guirlanda na parede. Às vezes era uma fita na árvore. Às vezes era só arrumar os enfeites que tinham ficado tortos.
Mas houve um momento em que não foi tão fácil.
O lutin decidiu fazer uma partida bem silenciosa. Ele pegou num punhado de bolinhas douradas (não de vidro, de plástico leve) e espalhou-as pelo corredor, como se fossem pequenas luas a rolar.
Quando o Tomás viu aquilo, parou.
— Oh não… vai fazer barulho… vai alguém escorregar…
O Leo sentiu o peito apertar.
— Eu não gosto quando a confusão fica grande.
O Martim franziu a testa e quase ia dizer “pára!”, bem alto.
O lutin apareceu, mas desta vez não ria tanto. Olhava para eles como se esperasse uma coisa.
O Tomás respirou. Lembrou-se do que o lutin tinha dito: coragem quietinha.
— Meninos… vamos devagar — disse ele. — Um de cada vez.
O Leo acenou com a cabeça.
— Eu apanho as bolinhas do lado esquerdo.
— Eu apanho do lado direito — disse o Martim.
E o Tomás ficou no meio, a juntar as bolinhas num cesto pequeno.
Não correram. Não empurraram. Fizeram “ploc, ploc”, colocando bolinha atrás de bolinha. A confusão começou a virar ordem, como magia ao contrário.
Quando terminaram, o corredor ficou limpo e seguro.
O lutin bateu palmas lentamente.
— Bravo. Vocês fizeram a coisa mais difícil: terem paciência quando tudo parece agitado.
— Mas porquê tantas partidas? — perguntou o Leo, com voz baixinha. — Tu queres mesmo baralhar a casa?
O lutin sentou-se no chão, com as pernas cruzadas. Os seus olhos brilhavam como luzinhas pequenas.
— Eu sou farceur, sim. Eu adoro risos. Mas eu também gosto de ver uma coisa: quando vocês conseguem esperar, arrumar e ajudar, sem zangar. É como acender uma vela dentro do coração.
O Martim olhou para as mãos.
— Eu quase fiquei zangado…
— E mesmo assim escolheste ser calmo — disse o lutin. — Isso é crescer.
O Tomás sorriu.
— Então o acordo é… para treinarmos?
— É um jogo de Natal — respondeu o lutin. — Um jogo de paciência. E vocês estão a ganhar.
Parte 4: A última guirlanda e o presente invisível
A noite voltou a cair, e a casa ficou outra vez com luz suave. Depois do banho, os meninos vestiram pijamas. A mãe trouxe chocolate quente. O pai acendeu uma luz pequenina perto da árvore.
Lá fora, o vento cantava baixinho.
O lutin subiu para a prateleira, mas antes olhou para os três amigos.
— Hoje fizemos muitas coisas — disse ele. — Agora falta a última.
— Mais uma partida? — perguntou o Martim, já meio a sorrir.
— Uma pequena. Muito pequena — respondeu o lutin. — E depois… uma última guirlanda fixada.
Ele saltou e tocou com o dedo na ponta do nariz do Tomás.
Plim!
De repente, o gorro do Tomás ficou com uma campainha invisível que só fazia som quando ele dava um passo. Não era alto, era só “tlim… tlim…”, como um sininho de fada.
O Tomás parou, surpreendido. Deu outro passo.
— Tlim!
O Leo riu.
— Tu és um Pai Natal pequenino!
O Martim também riu, mas o Tomás fez uma cara pensativa.
— Isto vai acordar toda a gente?
O lutin abanou a cabeça.
— Só toca quando tu corres. Se andares devagar… quase não se ouve.
O Tomás olhou para os amigos. Depois para a árvore. Depois para o chão, onde uma guirlanda pequenina estava caída, bem perto do rodapé.
— Está ali a última guirlanda — disse ele.
O Leo ia correr para a apanhar, mas parou a meio, lembrando-se do sino invisível.
— Se corrermos, faz “tlim-tlim” forte.
O Martim mordeu o lábio, a pensar.
— Então andamos como… tartarugas de Natal!
Eles avançaram devagarinho, pé ante pé. O Tomás ia à frente. “Tlim” quase não se ouviu. O Leo segurava um gancho. O Martim segurava a fita.
Chegaram à guirlanda, apanharam-na com cuidado, e prenderam-na direitinha. Sem pressa. Sem confusão.
Quando acabaram, a sala pareceu ainda mais bonita. Não só por causa das luzes, mas porque havia calma.
O lutin desceu e fez uma reverência.
— Vocês cumpriram o acordo até ao fim.
— E tu vais parar com as partidas? — perguntou o Martim, com um pouco de pena.
O lutin sorriu.
— Vou fazer só uma última coisa.
Ele tirou do bolso um brilho muito pequenino, como pó de estrela, e soprou para cima dos três.
— Isto é um presente invisível — disse ele. — Chama-se “paciência”. Não se embrulha. Não se come. Mas ajuda quando há barulho, quando há espera, quando as coisas não saem logo.
O Leo fechou os olhos.
— Eu sinto… como um cobertor quentinho por dentro.
O Tomás apertou a mão dos amigos.
— Eu sinto que consigo respirar devagar.
O Martim endireitou as costas.
— Eu sinto que consigo tentar outra vez.
O lutin acenou.
— É isso mesmo.
Naquela noite, antes de dormirem, os três meninos olharam para a fruteira. Entre as maçãs, o papel do rebuçado ainda brilhava um bocadinho.
— Foi assim que começou — disse o Tomás.
— Um rebuçado escondido — disse o Leo.
— E acabou com a casa toda bonita — disse o Martim.
Lá fora, no céu, as estrelas pareciam rir de mansinho. E dentro da casa, a árvore piscava luzes como olhos a sonhar.
O lutin, já na sua prateleira, sussurrou:
— Quando tudo se agita… a paciência é a melhor guirlanda.
E os três adormeceram com sorrisos pequenos, num Natal cheio de ternura, risos e calma.