O Duende Travesso
Era véspera de Natal e a rua cheirava a canela e madeira queimada. Na casa amarela da esquina, quatro crianças arrumavam as coisas para a festa. Sofia, Miguel e Lucas tinham quase seis anos. A Beatriz tinha cinco, mas pulava tão alto como os outros.
— Olhem as luzes! — disse Sofia, com os olhos brilhando.
— Quero pendurar a estrela — disse Miguel, já com a escada nas mãos.
— Eu ponho as bolas vermelhas — disse Lucas.
— E eu as fitas — falou Beatriz, soprando uma mecha de cabelo do rosto.
Eles abriram uma grande caixa de papelão. Dentro, havia enfeites, meias de lã, sinos e um pacotão de biscoitos de gengibre escondido numa caixa menor. A caixa menor estava bem cheia. Cheia de cheiros doces e promessas de merenda.
Mas naquela casa também morava alguém que só aparecia quando as luzes pisca-pisca começavam a dançar: o Duende Travesso de Natal. Tinha orelhas pontudas, sapatos com guizos e um sorriso de travessura. Morava no sótão entre meias e papéis coloridos.
Quando ouviu as risadas, desceu num fio de luz como quem escorrega numa cachoeira de estrelas. Sentou-se em cima da caixa grande e olhou para a caixa cheia de biscoitos.
— Hmmm — murmurou o duende. — Fechar uma caixa cheia é minha tarefa de hoje!
Ele gostava de fechar caixas. Era um segredo seu. Fechar uma caixa fazia um clique mágico que soltava risadinhas pelo ar. Mas o duende também gostava de brincar, e às vezes suas travessuras eram como bolinhas de neve que crescem rolando.
Antes que as crianças percebesse, o duende empurrou o pacote de biscoitos para dentro da caixa menor e puxou a tampa com um pulo. A tampa bateu forte e a caixa... não abriu mais.
— Ei! — gritou Sofia. — A caixa de biscoitos fechou-se sozinha!
Miguel tentou levantar a tampa. Lucas puxou. Beatriz deu uma boa sacudida. A tampa travou e fez um som de "clac" bem alto.
Do sótão, o duende estalou os dedos e escondeu-se atrás de uma guirlanda com careta orgulhosa. Lá no chão, as crianças se entreolharam. Estavam desapontadas, mas também curiosas.
— Vamos pedir ajuda aos pais — disse Lucas.
— Ainda não é hora do lanche — explicou Beatriz com sabedoria. — Mas nós podemos consertar!
Os quatro juntaram as cabeças. A caixa era pesada. A tampa estava bem presa. Parecia que um trancador invisível fazia cócegas nas suas mãos.
— Talvez seja magia — sugeriu Miguel, com voz baixa.
— Ou um duende travesso — sussurrou Sofia, lembrando-se de histórias do avô.
Do lado de fora da janela, uma estrela piscou mais forte, como se também estivesse ouvindo. Dentro, o duende ria baixinho: era tão engraçado ver as crianças a tentar. Ele queria fechar a caixa cheia, e agora era claro: ele queria que ninguém a abrisse.
A Caixa que Não Ficava Fechada
A noite caiu suave. As crianças decidiram fazer um plano. Se alguém tinha fechado a caixa, era justo que alguém tentasse abrir com jeitinho, sem raiva. Seguraram-se pelas mãos e sentiram o calor um do outro.
— Vamos bater palmas — sugeriu Sofia. — Talvez outra risada abra!
Eles bateram palmas uma, duas, três vezes. Feitas as palmas, Miguel falou um truque que ouviu num livro: — Vamos dizer "por favor" bem alto!
— Por favor, caixa, abra! — pediram juntos. A caixa quis que todos tivessem voz. Nada. Nem um suspiro.
Então Lucas teve uma ideia: — Vamos fingir que já é hora do lanche e cantar uma canção de Natal!
Eles cantaram torto, mas cantaram com o coração: "Lu-ces no céu, sinos a tocar..." E a tampa apenas se mexeu um pouquinho, como se a caixa estivesse dançando. Beatriz bateu mais uma vez nas pernas da caixa e falou com ela como se fosse um amigo:
— Está tudo bem, caixa? Não queremos te magoar. Só queremos partilhar.
A caixa respondeu com um estalo como se dissesse: "Não confio em todo mundo." Era uma caixa cheia, mas também parecia cheia de expectativas. O duende, do seu esconderijo, sentiu os olhos das crianças cheios de ternura. A dúvida deu lugar a uma vontade de ver o que havia dentro. Ele não tinha pensado nisso.
De repente, algo curioso aconteceu. Um dos enfeites caiu e rolou até o canto. O guizo do sapato do duende fez "tilim" e soltou-se, caindo pela beirada da guirlanda. O duende, ao tentar apanhar o guizo, arrancou um pedacinho do papel que segurava a caixa. A fita soltou-se. A tampa abriu só um pouquinho.
— Já! — exclamou Miguel. — Está a abrir!
Mas quando abriram um pouco mais, a caixa soltou uma nuvem de pó de neve artificial que fez todos tossirem. O pó brilhava como poeira de fada e começou a formar pequenos círculos no ar. As crianças tossiram, mas riram também, porque o pó fazia cócegas no nariz.
— Aô! — disse Beatriz, tapando o nariz. — Está soltando um feitiço de cócegas!
O duende, agora visível, tentou escapar. Ele pensava: fechei a caixa! Missão cumprida! Mas as crianças o viram e não gritaram. Olharam-no com olhos grandes e perguntaram:
— Por que fechaste a caixa?
O duende coçou a cabeça. Era pequeno e vulnerável. Não era malvado. Só se sentia importante quando fazia coisas secretas.
— Eu queria fechar porque gosto de fechar caixas — sussurrou ele. — E também porque achei que assim guardaria uma surpresa para depois. Mas não queria magoar ninguém.
Sofia aproximou a mão devagar.
— Tu queres ficar com o segredo? — perguntou ela. — Ou tu queres brincar connosco?
O duende hesitou. Nunca tinha sido convidado assim. Seus olhos ficaram molhados de silêncio. Então sorriu e fez um pulo que derrubou um pouco de neve artificial na barba.
— Brincar! — disse ele, com voz miúda. — Mas eu sei fechar bem. Posso mostrar, se prometem partilhar.
Os quatro trocaram sorrisos rápidos e concordaram. Afinal, promessa era coisa séria, mesmo feita por crianças de quase seis anos.
Agora começaram a trabalhar juntos. O duende ensinou a colocar a fita com um nó que fazia um som "pop". As crianças mostraram como usar dois dedos para abrir sem forcejar. Sentiuse como um jogo de encaixe: cada mão tinha seu lugar.
Havia mini-reviravoltas: a fita arrebentava, uma bola caía, o gato da vizinha pulava na janela e quase roubava um laço. Mas a cada problema, riam mais alto. O duende, que antes fechava para ter poder, aprendeu que ajudar era mais divertido.
Quando finalmente a tampinha se abriu do jeito certo, a caixa menor ficou só semicoberta. Dentro, os biscoitos de gengibre brilhavam com açúcar. Havia também uma carta enrolada em papel vermelho. As crianças olharam e o duende fez reverência.
— Abre tu, Miguel — disse Sofia. — És o mais velho da turma.
Miguel desenrolou a carta. Ela dizia, com letras redondas: "Para os queridos que sabem partilhar. Um lanche de Natal é feito para unir."
— É uma mensagem — falou Beatriz, tão feliz que quase dançou. — Alguém quis que fossemos amigos.
O duende segurou um dos biscoitos com cuidado. Não o comeu. Sorriu e ofereceu ao grupo.
— Primeiro partilhemos — sugeriu ele.
O Lanche de Natal
Assim começou o lanche. Puseram uma toalha no chão, sopraram um pouco de pó de neve para fazer efeito brilhante e colocaram os biscoitos sobre um prato. Missões de travessura transformaram-se em pequenos gestos de carinho: Sofia partiu um biscoito ao meio, Miguel molhou um pouco num copinho de chocolate quente, Lucas fez caretas para divertir Beatriz e o duende contou uma história sobre como aprendeu a fechar caixas, mas não sobre como não dividir.
Eles provaram um biscoito. Depois outro. Riram das migalhas que pareciam mini-nevascas nas mãos. O duende contou histórias de outras caixas que fechou e de sinos que ele colocou nas janelas sem que ninguém visse. As crianças ouviram com olhos arregalados.
— E quando eu fecho uma caixa, eu penso no que ela guarda — disse o duende. — Às vezes são brinquedos, outras vezes são lembranças. Hoje aprendi que o importante é abrir com quem a gente gosta.
Sofia abraçou o duende. Miguel deu-lhe um pedaço de chocolate quente. Lucas desenhou com um palito um rostinho no açúcar que parecia sorrir. E Beatriz, com a doçura de cinco anos, colocou um guizo do sapato do duende na borda da caixa como se fosse um enfeite novo.
Lá fora, as luzes piscavam como se estivessem aplaudindo. A estrela da janela olhava contente. A casa cheirava a canela e a biscoitos e a amizade. Ninguém lembrava mais do susto da tampa travada nem das risadinhas escondidas.
Antes de irem dormir, o duende fez uma última travessura: deixou um bilhete em cima do prato. Nele, escreveu com caligrafia miúda:
"Prometo fechar só quando for preciso. Prometo partilhar sempre um biscoito. Volto na próxima luz."
As crianças riram e prometeram também. Prometeram cuidar do duende, partilhar lanches e fechar caixas juntas. Eram quase seis anos e já sabiam que promessas pequenas aquecem corações.
Quando a noite ficou mais quieta, cada criança foi para a sua cama com a boca ainda doce. O duende subiu ao sótão, mas antes de se deitar nas meias, escutou uma vozinha:
— A festa foi mais bonita porque estavas connosco.
Ele sorriu. Fechou os olhos. E pela primeira vez fez uma travessura que não era para atrapalhar, mas para arrumar: colocou um laço no próprio chapéu e dormiu com o riso guardado no bolso.
Na manhã de Natal, os quatro amigos encontraram um pequeno presente perto da caixa: um guizo e um bilhete que dizia apenas "Obrigado por partilhar". E um novo laço na tampa da caixa, bem arrumado, como quando termina um conto bem contado.
Assim, o Duende Travesso aprendeu que fechar caixas é divertido, mas que abrir o coração e dividir um lanche é ainda melhor. E a merenda de Natal ficou guardada nas lembranças como um calor pequenino que dura muito tempo.