Capítulo 1 — O “PLOP” que mudou a tarde
Lia e Bia tinham 11 anos, o mesmo tamanho de riso e a mesma capacidade misteriosa de meter o nariz onde não deviam. Naquele sábado, estavam na sala da casa da Bia, a lutar uma batalha épica contra o tédio.
— Se eu ouvir o relógio fazer “tic-tac” mais uma vez, vou começar a responder “sim, senhor” — queixou-se a Lia, esticada no tapete como uma panqueca humana.
— O relógio nem fala contigo — respondeu a Bia, a equilibrar uma bolacha na testa. — Olha, eu consigo ficar séria por… dois segundos.
A bolacha caiu imediatamente. “PLOP.”
E foi aí. Exatamente aí. Como se o “PLOP” fosse uma palavra mágica, o sofá soltou um suspiro de espuma, a almofada grande inchou como um pão no forno e a manta do braço da poltrona começou a deslizar sozinha.
— Estás a ver isto? — Lia sentou-se tão depressa que o tapete fez um “uff”.
— Estou… e juro que não fui eu — Bia levantou as mãos, como se o sofá a estivesse a acusar.
As almofadas, uma a uma, começaram a saltar do sofá e a empilhar-se no meio da sala. Não era uma pilha normal. Era uma construção com intenção. Com… arquitectura.
— Parece… um iglu — murmurou Lia, com os olhos a brilhar.
— Um iglu de almofadas — completou Bia, num tom meio fascinado, meio “isto vai dar problema”.
A entrada abriu-se sozinha, redondinha, como boca de peixe a fazer “ó”. E de lá de dentro veio um cheirinho a lavanderia e a pipocas, uma combinação impossível mas estranhamente confortável.
— Vamos? — perguntou Bia, já com um pé dentro.
— Vamos — disse Lia. — Mas se uma almofada tentar conversar comigo, eu vou fingir que não sei português.
Entraram. E a sala, lá fora, ficou mais longe do que devia. O iglu parecia maior por dentro, como se alguém tivesse dobrado o espaço com a mesma vontade com que se dobra uma folha para fazer um avião.
No centro, espetado no chão de almofadas, estava um guarda-chuva fechado. Preto, sério, com ar de quem sabe segredos.
Ao lado, numa plaquinha feita de uma fronha, lia-se: “PROMETE ABRIR.”
Bia engoliu em seco, mas a Lia, que era do tipo confiável e gostava de cumprir coisas (até as mais esquisitas), endireitou os ombros.
— Eu prometo. Vou abrir o guarda-chuva fechado.
O iglu pareceu “contentar-se”. As almofadas deram um mini-aplauso: “puf, puf, puf”.
— Pronto — disse a Bia. — Agora é só… abrir.
A Lia pegou no cabo. Rodou. Puxou. Nada.
O guarda-chuva continuou fechado, teimoso como uma tampa de frasco.
E, atrás delas, a entrada do iglu fez “flup” e encolheu.
— Hum… — Bia tocou na abertura com um dedo. — A nossa porta acabou de fazer dieta.
Capítulo 2 — O iglu tem regras… e almofadas com opinião
— Ok, sem pânico — disse Lia, num tom calmo que ela usava quando a professora perguntava “quem quer ir ao quadro?”. — Vamos pensar.
— Eu estou a pensar. Estou a pensar que a saída virou um botão — respondeu Bia. — E eu não trouxe baterias.
A Lia puxou o fecho do guarda-chuva outra vez. O tecido nem sequer mexeu, como se estivesse colado por um feitiço de preguiça.
— Talvez tenha um truque — disse Lia. — Tipo… palavras mágicas.
— “Por favorzinho”? — sugeriu Bia, com voz doce demais para ser natural. — Guarda-chuva querido, abre-te, sim?
O guarda-chuva fez um som minúsculo, um “nhé”, como quem diz “não me apetece”.
As almofadas à volta ondularam. Uma almofada listrada, com uma mancha que parecia uma sobrancelha, inclinou-se para a frente. Não falava com boca, mas o iglu inteiro parecia traduzir os seus pensamentos num sussurro.
— Regra um — soprou o iglu. — Promessa é promessa.
— Nós sabemos! — disse Lia. — Eu vou cumprir.
— Regra dois — continuou o sussurro. — Não se abre com força, abre-se com… jeito.
Bia cruzou os braços.
— Jeito eu tenho. O problema é que o guarda-chuva tem teimosia.
A Lia olhou em volta. O chão era um mosaico de almofadas: umas de veludo, outras com desenhos de gatos, outras com cheirinho a amaciador. Havia até uma em forma de donut.
— Talvez precise de… uma razão para abrir — disse Lia.
— Uma motivação — concordou Bia. — Tipo eu quando prometo arrumar o quarto: só acontece se houver gelado depois.
Ao fundo do iglu, surgiu uma coisa que definitivamente não deveria estar ali: um cabideiro com casacos que pareciam feitos de toalhas. E por baixo, um cesto com objetos aleatórios: uma colher de pau, um apito, um par de meias desencontradas e… uma mini-lanterna que piscava como vaga-lume com sono.
— Ah! — Bia pegou na lanterna. — Pelo menos não vamos ficar às escuras.
A lanterna acendeu e, na luz, apareceu outra frase numa almofada branca: “ABRE PARA FAZER SOMBRA.”
Lia arregalou os olhos.
— Sombra? Aqui dentro?
Bia apontou a luz para cima. O teto de almofadas tinha uma pequena clarabóia feita de tecido fino, como uma janela de tenda. Por lá entrava um raio de sol.
— Então se abrirmos o guarda-chuva debaixo do raio… fazemos sombra — disse Bia. — Isso parece lógico o suficiente para um iglu de almofadas.
— Lógico e completamente maluco — completou Lia, satisfeita. — Vamos experimentar com… jeito.
As duas caminharam até ao raio de sol, que parecia uma fita dourada. Lia segurou o guarda-chuva com cuidado, como se fosse um gato que não gosta de festas.
— Ok, guarda-chuva — disse ela. — Eu prometi. E… eu preciso de ti para fazer sombra. Uma sombra bonita. Uma sombra com personalidade.
Bia sussurrou:
— Uma sombra que não morde.
Lia puxou o mecanismo, devagarinho.
O guarda-chuva mexeu um milímetro. Só um. Mas foi um milímetro heróico.
— Ele ouviu! — Bia quase dançou.
— Não grites, ele pode fechar-se de vergonha — avisou Lia, e tentou outra vez, ainda mais suave.
“Cli-ck.”
Uma vareta abriu. Depois outra. O guarda-chuva ainda estava meio fechado, parecendo uma flor que acorda a reclamar.
De repente, o iglu soltou um “puf” animado e a entrada cresceu um bocadinho.
— Viste? — disse Bia. — A porta engordou!
— Então estamos no caminho certo — concluiu Lia. — Vamos abrir por etapas. Como uma sandes: camada por camada.
Capítulo 3 — Aulas de etiqueta para um guarda-chuva tímido
A cada “cli-ck” que o guarda-chuva fazia, uma almofada mudava de lugar, como se o iglu estivesse a reorganizar o seu próprio humor. Algumas almofadas pareciam impacientes, abanando-se. Outras encostavam-se como avós orgulhosas.
— Se isto fosse um videojogo, já tínhamos ganho pontos por “gentileza” — disse Bia.
— E pontos por “não gritar com objectos” — acrescentou Lia, que agora falava com o guarda-chuva como quem fala com um bebé: — Muito bem, guarda-chuva… isso… abre só mais um bocadinho… lindo…
— Lindo? Ele é preto e parece um morcego de férias — comentou Bia.
O guarda-chuva abriu mais um pouco, como se estivesse a provar que sabia ser elegante. A sombra começou a formar-se no chão: uma mancha redonda que tremia com a luz.
— Está a funcionar! — disse Lia. — A sombra apareceu!
A sombra, no entanto, tinha um detalhe estranho: no meio dela surgiu uma pequena bolinha de sombra que saltitava sozinha, como se fosse um coelho feito de escuridão.
— Eh lá — Bia agachou-se. — Olha para isto. É uma… sombra com vida própria?
A bolinha de sombra fez um “plim” silencioso e rolou até ao cesto de objetos, parando ao lado do apito. Depois rolou de volta, como se dissesse “isto, isto!”
— Acho que ela quer que usemos o apito — disse Lia.
— Uma sombra que dá ordens. Isto é novo — Bia pegou no apito e soprou.
“PÍÍÍ!”
As almofadas tremeram como gelatina surpreendida. O guarda-chuva deu um salto mínimo, quase indignado, e abriu mais uma vareta sozinho.
— Afinal ele reage a som — percebeu Lia. — Mas não a gritos. A… comandos.
Bia sorriu com ar maroto.
— Então vamos criar uma orquestra de coisas ridículas.
Elas pegaram na colher de pau e bateram levemente numa almofada-donut: “tum”. Depois, Bia soprou o apito outra vez: “píí”. Lia estalou os dedos: “tac”. Fizeram uma sequência, a rir.
— Tum-píí-tac! — cantou Bia.
— Tum-píí-tac! — repetiu Lia, e puxou o mecanismo com o ritmo.
“Cli-ck, clack, cliiiick.”
O guarda-chuva abriu-se mais, agora com menos resistência, como se estivesse a entrar na dança. A sombra no chão ficou maior e mais definida.
E então aconteceu a coisa mais absurda e, ao mesmo tempo, mais lógica dentro daquele iglu: a sombra transformou-se num mapa.
Linhas escuras desenharam setas. Um pontinho piscou onde elas estavam. E uma seta apontou para uma parede de almofadas com um desenho de gatos.
— Um mapa de sombra — disse Lia, boquiaberta. — Isso é… genial?
— Isso é… “o quê?” — Bia tocou na sombra-mapa e a sombra fez cócegas no dedo, como se fosse fumo divertido. — Ok, isso é definitivamente cócegas.
Seguindo a seta, elas foram até à parede dos gatos. Ao aproximarem-se, um gato bordado parecia olhar para elas com ar de “vocês demoraram”.
A almofada-gato tinha um bolso escondido. Bia enfiou a mão e tirou de lá… uma etiqueta pendurada, como as de roupa nova.
Na etiqueta, lia-se: “RECEITA DE ABERTURA.”
Lia pegou e leu em voz alta:
— “Ingredientes: um raio de sol, um sopro de apito, uma promessa bem cumprida e uma gargalhada por cima.” — Ela levantou os olhos. — Estamos quase lá.
Bia cruzou os braços, teatral:
— Falta a gargalhada por cima. Eu tenho gargalhadas, mas “por cima” é novo.
A clarabóia de tecido deixava passar o raio. O guarda-chuva estava quase aberto. O apito existia. A promessa… estava a meio.
— “Por cima” deve ser literalmente por cima — disse Lia. — Precisamos de rir em cima do guarda-chuva.
Bia olhou para o guarda-chuva, depois para Lia.
— Tu queres que eu suba para cima de um guarda-chuva meio aberto, dentro de um iglu de almofadas, e ria?
— Quando dizes assim, parece perigoso — admitiu Lia. — Mas como é tudo almofadas… o máximo que acontece é ficarmos com cara de pão.
Bia respirou fundo.
— Ok. Se eu cair, tu prometes que me apanhas com uma almofada-donut.
— Prometo — disse Lia, muito séria.
Bia subiu cuidadosamente para uma pilha de almofadas ao lado, inclinou-se sobre o guarda-chuva e fez a gargalhada mais exagerada que conseguiu.
— MUÁ-HA-HA-HA!
Nada.
Ela tentou outra, mais natural.
— Ha! Ha! Ha!
O guarda-chuva abriu mais um bocadinho, como se preferisse gargalhadas honestas.
— Ele é exigente — comentou Lia. — Gosta de risos verdadeiros.
Bia soltou um riso normal, daqueles que escapam quando algo é mesmo divertido, e a Lia, ao ver a cara dela em modo “vilã falhada”, começou a rir também. As duas riram juntas, em cima e ao lado do guarda-chuva, e o iglu parecia vibrar com alegria.
“CLAC!”
O guarda-chuva abriu quase todo. A entrada do iglu cresceu mais um pouco, como uma boca a preparar-se para dizer “podem ir”.
— Só falta o último “clac” — disse Lia, com o coração leve e as mãos firmes. — Eu vou cumprir.
Capítulo 4 — O último “clac” e a coisa que ninguém esperava (mas fazia sentido)
Lia posicionou o guarda-chuva bem debaixo do raio de sol. A sombra-mapa no chão reorganizou-se e agora mostrava um círculo grande com uma palavra no centro: “CALMA”.
— Calma? — Bia franziu a testa. — A nossa especialidade é mais… “pressa com barulho”.
— Talvez seja isso — disse Lia. — O guarda-chuva já abriu com jeito. O último passo deve ser… sem pressa.
Bia fechou a boca, como se fosse guardar o riso num bolso. Até o apito ficou quieto na mão dela, finalmente.
Lia respirou fundo. Inspirou como se cheirasse um bolo no forno. Expirou como quem apaga uma vela sem cuspir.
— Guarda-chuva — disse ela, baixinho. — Obrigada por ires abrindo. Agora… abre totalmente. Eu prometi. E eu cumpro.
Ela puxou o mecanismo com uma delicadeza quase musical.
“Clac.”
O guarda-chuva abriu-se inteiro, redondo e firme, como um pequeno céu particular. A sombra espalhou-se pelo chão e, dentro dela, surgiu uma coisa que fez as duas piscarem os olhos ao mesmo tempo.
Uma maçaneta. Sim, uma maçaneta de porta, feita de sombra, com formato de concha.
— Está a gozar comigo — sussurrou Bia. — Uma maçaneta… de sombra.
— É lógico — disse Lia, tentando manter a lógica em pé como uma torre de almofadas. — Se o iglu só abre com sombra… então a saída é uma porta de sombra.
A maçaneta estava ali, pronta, como se sempre tivesse existido e só precisasse do guarda-chuva para ser vista.
Lia estendeu a mão e agarrou-a. A maçaneta era fresca ao toque, como sombra de árvore num dia quente. Ela girou.
A parede de almofadas ao lado da entrada abriu-se sem barulho, revelando… a sala da casa da Bia. A mesma estante, o mesmo tapete, o mesmo relógio a fazer “tic-tac”, agora com um ar muito inocente, como quem não tem culpa de nada.
— Conseguimos! — Bia deixou sair um “yes” baixinho, como se ainda estivesse com medo de assustar o guarda-chuva.
Lia segurou o guarda-chuva aberto com cuidado. O iglu pareceu respirar aliviado. As almofadas arrumaram-se sozinhas, mas devagar, como quem boceja.
Antes de sair, Bia apontou para a plaquinha de fronha, que agora tinha letras novas: “PROMESSA CUMPRIDA. OBRIGADA.”
— Ele agradeceu — disse Bia. — Eu… não estava à espera de educação num iglu maluco.
— Eu estava — respondeu Lia. — Às vezes o impossível só quer boas maneiras.
Elas saíram. Assim que os dois pés estavam na sala, a porta de sombra desapareceu como uma mancha ao sol. Atrás, o iglu virou uma pilha normal de almofadas, comportada e silenciosa, como se nunca tivesse sido uma casa redonda com regras.
Bia olhou para o guarda-chuva aberto na mão da Lia.
— E agora? Fechamos?
Lia pensou no que tinha prometido. Ela tinha prometido abrir. E abriu. Promessa completa. Mesmo assim, segurou o cabo com carinho.
— Agora… podemos fechar — disse ela. — Mas com jeito.
Bia riu baixinho, cansada de rir muito.
— Com jeito, sempre.
Lia fechou o guarda-chuva devagar. “Clac” suave. Nada explodiu. Nenhuma almofada cantou ópera. O relógio continuou o “tic-tac” como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
As duas sentaram-se no sofá, lado a lado. A pilha de almofadas parecia mais fofinha do que antes, como se tivesse guardado um segredo feliz.
— Sabes o que eu aprendi hoje? — perguntou Bia, a voz já mais calma.
— Que apitos não servem para tudo? — sugeriu Lia.
— Não. Que as promessas são como guarda-chuvas: se a gente tenta à bruta, ficam fechadas. Se a gente faz com calma… abrem.
Lia encostou a cabeça na almofada.
— E que às vezes a aventura começa com uma bolacha a cair. PLOP.
Bia soltou um último riso pequenino, um riso que parecia cobertor.
— PLOP.
E o resto da tarde deslizou devagarinho, macio e quieto, como uma almofada a adormecer.