Capítulo 1: O Guarda-chuva que Sussurra
Era uma manhã de quarta-feira que prometia ser como todas as outras no pacato bairro de Vila Cacto. Mas logo se percebeu que algo esquisitíssimo estava prestes a acontecer. Sofia, uma rapariga de onze anos, adorava passar pelo parque a caminho da escola, porque era ali que encontrava os objetos mais estranhos e esquecidos que alguém poderia imaginar. Havia sempre, inexplicavelmente, um novo chinelo, uma colher de pau semi-roída ou, certa vez, uma caixa de dentaduras de plástico.
Mas, naquela manhã, Sofia parou em frente a um guarda-chuva aberto e enterrado de ponta-cabeça na relva. O céu estava azulão, o sol brilhava sem vergonha e, mesmo assim, o guarda-chuva parecia ter sido deixado ali de propósito. Parecia chamar por ela. Aproximou-se, curiosa.
— Olá, posso saber quem te esqueceu aqui? — perguntou a Sofia, rindo consigo mesma.
Para seu espanto, o guarda-chuva respondeu, num sussurro rouco:
— Chiu! Não fales tão alto! Os rabanetes podem ouvir!
Sofia soltou uma gargalhada. Certamente estava a sonhar. Mas o guarda-chuva voltou a falar:
— Se me levas contigo, prometo uma aventura de deixar os cabelos em pé. Mas só se trouxeres mais três amigas.
Sofia, que nunca dizia não a uma boa brincadeira, apanhou o guarda-chuva e correu para encontrar as suas amigas: Madalena, Leonor e Beatriz.
Capítulo 2: O Clube das Aventuras Absurdas
No recreio, Sofia contou tudo às amigas entre risos, caretas e saltos de alegria.
— Um guarda-chuva falante? — exclamou Madalena, sempre a mais desconfiada. — E o que é que ele quer?
— Nem eu sei, mas ele falou de rabanetes espiões! — respondeu Sofia, sacudindo o objeto esquisito.
Leonor, que adorava coisas fora do comum, já estava convencida:
— Vamos! Se há rabanetes, deve haver coelhos gigantes também! Ou cenouras cantoras!
Beatriz, a mais imaginativa do grupo, sugeriu logo um nome para o clube:
— Somos oficialmente o Clube das Aventuras Absurdas! E a nossa primeira missão é descobrir para onde este guarda-chuva quer levar-nos.
O guarda-chuva pareceu vibrar de entusiasmo.
— Apertem bem os cintos... quer dizer, segurem bem nos cabos! — sussurrou ele, com voz misteriosa.
Assim que as quatro agarraram o guarda-chuva, uma ventania impossível levantou-as do chão e atirou-as, numa revoada de riso e espanto, por cima dos telhados, dos gatos e até das velhinhas que regavam as plantas. O mundo girava e girava, entre nuvens de algodão-doce e passarinhos que usavam óculos de sol.
Capítulo 3: A Cidade dos Objetos Perdidos
Quando aterraram (com uma aterragem que mais parecia um tropeção coletivo), deram por si numa cidade estranha, onde tudo era feito de coisas perdidas: meias desirmanadas, lápis mastigados, peúgas voadoras e patinhos de borracha que saltitavam pelas ruas. Um polícia gorducho, de chapéu feito de tampa de panela, aproximou-se a marchar, com grande cerimónia.
— Bem-vindas à Cidade dos Objetos Perdidos! — anunciou ele, com voz solene, mesmo enquanto tentava apanhar um avião de papel fugitivo. — Por aqui, tudo o que desaparece no vosso mundo, vem parar aqui!
As raparigas estavam boquiabertas. Madalena logo se lembrou de um brinco que perdera no verão anterior.
— Querem ver que está aqui também?
Ao longe, ouviram um grupo de rabanetes de fato e gravata, muito apressados, a cochichar e a olhar desconfiados para elas.
— Acho que são os espiões... — sussurrou Sofia, com ar conspirativo.
— E têm cara de quem não brinca em serviço! — acrescentou Leonor, tentando não rir dos bigodes postiços que alguns rabanetes usavam.
O polícia de tampa de panela piscou-lhes o olho.
— Cuidado com eles, meninas. Dizem que andam à procura de um guarda-chuva mágico que pode mudar tudo aqui...
O guarda-chuva sussurrou-lhes baixinho:
— Somos nós! Quer dizer, sou eu...
Capítulo 4: O Desafio das Meias e das Palavras
De repente, um megafone feito de funil anunciou:
— Atenção, atenção! Concurso de dança das meias solitárias vai começar! Quem vencer recebe o Passe Dourado para atravessar a cidade sem ser interrogado pelos rabanetes!
As raparigas trocaram olhares cúmplices. Era a oportunidade perfeita para fugir à atenção dos rabanetes. Formaram um grupo, cada uma calçando uma meia diferente (afinal, não havia pares na cidade) e lançaram-se para a pista de dança, onde as meias pulavam, rodopiavam e até faziam piruetas no ar!
Madalena, com uma meia azul de bolinhas, inventou um passo chamado “o salta-canguru desajeitado”. Leonor, com uma meia cor-de-laranja fluorescente, girava como um pião. Beatriz e Sofia, por sua vez, fizeram uma coreografia hilária chamada “o polvo desorientado”.
O público delirava! Até os rabanetes dançavam, meio contrariados, meio entusiasmados. No final, as raparigas venceram o concurso, com direito a medalhas feitas de tampas de iogurte e um Passe Dourado reluzente.
— Temos de atravessar rapidamente, antes que os rabanetes mudem de ideias! — exclamou Beatriz, já puxando as amigas para a próxima etapa.
Capítulo 5: O Enigma da Ponte dos Sorrisos
Para sair da cidade, era preciso atravessar a Ponte dos Sorrisos, uma ponte feita de escovas de dentes e ganchos de cabelo, que só se abria perante uma piada realmente boa.
Diante da ponte, um boneco de neve de cartão, com voz de apresentador de televisão, anunciou:
— Quem quiser passar, tem de contar a piada mais disparatada e fazer-me rir até a barriga me doer!
As quatro hesitaram. Qual seria a piada ideal? Madalena tentou com:
— Qual é o animal mais esquecido? O rinoceronte, porque tem “rino” no nome e nunca se lembra onde pôs o “ceronte”!
O boneco sorriu, mas não abriu a ponte.
Leonor arriscou:
— Por que é que a banana foi ao médico? Porque não estava a descascar bem!
Beatriz tentou em seguida:
— O que diz uma panela para outra? — Estou a ferver de curiosidade!
Mas só quando Sofia, com um brilho nos olhos, declarou:
— Por que é que o lápis foi à aula de música? Para aprender a fazer notas!
O boneco de neve de cartão desatou a rir, tão forte que quase se desmontava.
— Ahahah! Podem passar! Mas cuidado: não deixem cair o Passe Dourado, senão a ponte transforma-se num escorrega gigante!
As raparigas atravessaram a ponte, equilibrando-se como malabaristas em circo, e por pouco não caíram quando uma escova de dentes começou a cantar ópera.
Capítulo 6: O Esconderijo dos Rabanetes Espiões
Do outro lado da ponte, entraram numa floresta onde tudo crescia ao contrário: árvores com raízes nos galhos, flores que voavam e, claro, rabanetes que espreitavam atrás de cada folha.
Subitamente, o chão abriu-se debaixo dos pés das quatro amigas e caíram (de novo!) para dentro de uma sala cheia de mapas desenhados em papel higiénico, binóculos feitos de rolos de fita-cola e um computador gigante com teclas de gelatina. Era o quartel-general dos rabanetes espiões!
— Apanhamo-las! — exclamou o chefe dos rabanetes, torcendo o bigode postiço. — Agora vão dizer-nos o segredo do guarda-chuva mágico!
As raparigas olharam umas para as outras e resolveram ser mais loucas do que nunca.
Sofia falou primeiro:
— O segredo é... dançarem a valsa dos polvos às avessas!
Leonor acrescentou:
— E depois, têm de cantar o hino das meias perdidas!
Beatriz completou:
— Só assim o guarda-chuva revela a sua magia especial!
Os rabanetes, que nunca tinham ouvido nada tão disparatado, começaram a tentar: dançaram, cantaram, tropeçaram uns nos outros e acabaram todos enrolados numa corda gigante feita de linguados de sapateira (não perguntem como...).
Aproveitando a confusão, as quatro escaparam sorrateiramente, rindo até às lágrimas.
Capítulo 7: O Regresso Surpreendente
Quando finalmente acharam que estavam perdidas para sempre naquele mundo absurdo, o guarda-chuva sussurrou-lhes:
— Fechem os olhos e pensem no sítio onde gostariam de estar agora.
As quatro fecharam os olhos. Cada uma imaginou a sua sala, o cheiro do pequeno-almoço, o som dos pais, o toque do despertador. Num instante, sentiram um rodopio de vento, e abriram os olhos...
... estavam novamente no parque, com o guarda-chuva pousado aos pés delas.
Leonor olhou em volta, desconfiada:
— Foi tudo um sonho? Ou temos mesmo medalhas de tampas de iogurte e meias desirmanadas nos sapatos?
Beatriz apontou para as sapatilhas: lá estavam as meias, cada uma diferente.
— Acho que foi real! — exclamou, rindo.
Madalena ergueu a medalha e gritou:
— Viva ao Clube das Aventuras Absurdas!
Naquele momento, uma senhora idosa aproximou-se:
— Meninas, por acaso viram o meu guarda-chuva? Tinha um sussurro esquisito...
As quatro entreolharam-se, sorriram e levantaram o guarda-chuva, que piscou um olho só para elas.
Capítulo 8: Celebração e Promessa de Novas Aventuras
Ao regressarem a casa, as quatro amigas não conseguiam parar de rir com tudo o que tinha acontecido.
— Aposto que até os rabanetes, agora, acham que somos completamente malucas! — disse Sofia, tentando imitar o bigode postiço do chefe dos espiões.
— E eu espero que sim! — respondeu Madalena. — Ser normal é aborrecido.
Na tarde seguinte, encontraram-se de novo no parque, onde enterraram uma caixa cheia de objetos improváveis: a meia azul, a medalha de tampa de iogurte, um pedaço de papel higiénico com um mapa e, claro, uma foto delas com o guarda-chuva mágico.
Leonor, com um sorriso malandro, declarou:
— Se um dia a realidade ficar demasiado monótona, sabemos exatamente onde procurar por mais uma aventura absurda.
Beatriz acrescentou:
— Ou talvez ela venha ter connosco, a qualquer momento. Afinal, já sabemos que por aqui tudo é possível!
E assim, debaixo do céu azul, no parque onde começa tudo o que é estranho, as quatro raparigas celebraram a sua amizade e as suas travessuras, prontas para o próximo capítulo do Clube das Aventuras Absurdas. Porque, afinal, o mundo pode ser muito mais divertido quando se olha para ele de pernas para o ar.