Capítulo 1 — O Rei do Corredor
O Tomás tinha 11 anos e uma certeza muito séria: em casa, ele era o responsável oficial por evitar desastres. Não porque os adultos lhe tivessem dado um crachá (infelizmente), mas porque o irmão mais novo, o Dinis, tinha um talento natural para “acidentes criativos”.
Nesse sábado, a mãe saiu para ir buscar a avó e deixou um aviso bem claro, com voz de quem já imaginava o pior:
— Nada de corridas dentro de casa. E nada de… inventos.
Assim que a porta fechou, o Dinis apareceu no corredor com um olhar brilhante, o mesmo olhar que ele fazia quando tinha descoberto que uma colher podia ser um catapulta.
— Tomás… o corredor está a pedir uma pista.
O corredor era comprido, com o chão a brilhar e duas paredes cheias de fotografias tortas da família. Parecia mesmo uma “pista de aeroporto”, como o Tomás dizia quando empurrava o aspirador.
— Nem pensar — respondeu Tomás, cruzando os braços. — Corredor não é autódromo.
— É sim! Chama-se “Corredor das Corridas Loucas”. Eu dei-lhe esse nome agora. Pronto. Está oficial.
Tomás suspirou. Ser o mais velho era isto: tentar ser sério enquanto alguém pequeno transformava tudo em jogo.
— Podemos… andar. A passo rápido. Um “passeio energético”. — Tomás apontou para o chão como se estivesse a negociar um tratado de paz.
— Aceito, mas com efeitos sonoros — disse Dinis, já a fazer “vruuummm” baixinho.
Tomás revirou os olhos, mas sorriu. Pelo menos, “passeio energético” ainda não era desastre.
Ainda.
Capítulo 2 — A Ideia Mais Escorregadia
Tomás decidiu ocupar o irmão com uma missão que parecesse importante.
— Vais buscar… a fita-cola. Para… consertar aquela moldura que está sempre a cair.
Dinis correu até à arrecadação e voltou dois segundos depois com algo que não era fita-cola: era um almofadão velho, redondo, amarelo, com cara de pato. E quando apertou, fez:
— Pouic!
Tomás ficou a olhar como se o pato o tivesse insultado.
— Por que é que isso faz “pouic”?
— Porque é um pato com voz interior — explicou Dinis, muito convicto. — Olha! Se eu apertar rápido faz “POUIC-POUIC-POUIC!”
— Shhh! — Tomás pôs o dedo nos lábios. — Se a mãe ouve, acabou tudo.
— Então temos de usar para uma coisa útil — disse Dinis, apertando outra vez. — Tipo… travão.
Antes que Tomás dissesse “travão de quê?”, Dinis atirou o almofadão para o chão do corredor e deu um passo para cima dele, como se estivesse a testar gelo.
O almofadão deslizou um centímetro.
— Ui — fez Dinis, com olhos a brilhar ainda mais. — Tomás. Isto é uma prancha!
— Não é prancha nenhuma, é… uma almofada que faz barulho — disse Tomás, mas já era tarde. O corredor tinha sido oficialmente convocado para as Corridas Loucas.
Dinis puxou uma meia até ao joelho, como se fosse um atleta.
— Preparar… apontar… POUI—
— Nem acabes essa frase — interrompeu Tomás. — Vamos fazer isto direito. Se é para haver… seja… “brincadeira”, tem de ser segura.
Dinis fez cara de anjo, o que era sempre suspeito.
— Prometo que não faço nada perigoso. Só escorrego um bocadinho. Um bocadinho grande.
Tomás respirou fundo. O papel dele era proteger. Se ele dissesse “não” e virasse costas, Dinis fazia na mesma, só que com menos cuidado. Então, o Tomás fez o que fazia melhor: transformou a asneira numa coisa com regras.
— Está bem. Uma corrida. Mas com capacete.
— Não temos capacete.
— Temos… almofadas do sofá — disse Tomás, já a imaginar como. — Uma para a cabeça. Outra para… sei lá… o orgulho.
Capítulo 3 — O Corredor das Corridas Loucas
Em cinco minutos, o corredor parecia uma competição muito caseira: dois pares de meias a servir de “linha de partida”, uma vassoura encostada como “bandeira”, e o almofadão do pato no centro como o grande veículo oficial.
Tomás pôs uma almofada do sofá na cabeça do Dinis.
— Se caíres, caímos com estilo.
— Estou parecendo um hambúrguer — disse Dinis, com a voz abafada.
— Um hambúrguer rápido — corrigiu Tomás. — E eu sou o… fiscal da pista.
— Fiscal é chato.
— Fiscal evita ossos partidos. Portanto, é o herói silencioso.
Dinis apontou para o almofadão.
— Eu primeiro! Eu sou o piloto-pato!
Tomás levantou a vassoura como se fosse um árbitro.
— Três… dois… um…
Dinis subiu para cima do pato, empurrou com um pé e disparou pelo corredor com um “vruuum” e três “pouic” seguidos:
— POUIC! POUIC! POUIC!
O almofadão deslizou mais do que devia. As fotografias na parede pareceram inclinar-se para ver melhor. O Dinis, de braços abertos, gritava:
— Sou um foguete de pão!
Tomás correu atrás, não para competir, mas para apanhar o irmão se ele decidisse conhecer o chão de perto.
— Travão! Travão!
— O travão é o pato! — respondeu Dinis, apertando a almofada com os pés, o que só fez mais “pouic” e zero travão.
Tomás esticou os braços e conseguiu agarrar o irmão pelo casaco antes de ele chegar ao tapete da sala, que tinha uma franja traiçoeira.
Os dois cambalearam, e Tomás caiu sentado. Dinis caiu em cima dele, leve como um saco de pipocas.
Silêncio por um segundo.
Depois, o almofadão fez um último:
— Pouic.
Dinis começou a rir com um som de máquina de lavar descontrolada.
— O pato fez “pouic” de vitória!
Tomás tentou manter a cara séria, mas o riso escapou-lhe também.
— Vitória… ou aviso.
Foi então que eles ouviram um barulho pequenino, mas muito preocupante: “crac”.
Uma moldura, a mais torta de todas, tinha finalmente desistido e ficou pendurada por um canto, balançando como um dente solto.
Dinis apontou, a rir menos.
— Ups.
Tomás levantou-se devagar, como um guarda-costas em missão.
— Está bem. Agora a corrida acabou. Temos de resolver isto antes que a mãe volte.
Dinis fez cara de quem tinha acabado de engolir um limão.
— Mas eu… eu só queria divertir.
— E vais divertir — disse Tomás. — A parte divertida agora é: salvar o dia.
Capítulo 4 — O “Pouic” Complica Tudo
Tomás levou o Dinis para a cozinha, como se fosse um quartel-general.
— Plano A: fita-cola, prego, e fingimos que sempre esteve direito.
Dinis abriu a gaveta das coisas aleatórias (a gaveta que provavelmente nasceu para o caos) e começou a tirar coisas: elásticos, uma pilha sem par, uma colher de pau, um brinquedo que parecia uma girafa com rodas.
— Isto não é fita-cola — murmurou Tomás.
— A fita-cola fugiu — disse Dinis. — Mas olha, tenho… isto! — e levantou o almofadão do pato como se fosse uma ferramenta científica. — O pato pode segurar a moldura. Ele é… suporte emocional.
— Não encostes isso à parede — avisou Tomás, mas Dinis já estava a tentar equilibrar o almofadão debaixo da moldura, como um macaco em treino.
— Só um bocadinho… — Dinis apertou o pato sem querer. — POUIC!
O “pouic” ecoou pelo corredor, e a moldura balançou mais. Tomás saltou e apanhou-a mesmo a tempo.
— Dinis! O pato não é suporte, é sabotador sonoro!
Dinis encolheu os ombros.
— Ele só está a comentar.
Tomás fechou os olhos um instante para não virar uma chaleira a ferver.
— Escuta. Eu vou segurar a moldura. Tu vais buscar a fita-cola. A sério. Sem pato. Sem corridas.
Dinis levantou a mão, muito solene.
— Prometo. Sem corridas. Só… caminhada aerodinâmica.
Tomás abriu um olho.
— Vai.
Dinis saiu a passo… que durou exatamente três passos. No quarto, o Tomás ouviu um “vruuum” disfarçado, depois um “pouic” distante.
— DINIS! — gritou Tomás.
— Não é corrida! É… é o pato a tropeçar!
Tomás mordeu o lábio. O irmão era impossível, mas era o irmão dele. E a moldura continuava na mão, frágil e prestes a cair.
Então, Tomás teve uma ideia: em vez de lutar contra o “pouic”, ia usá-lo.
Quando o Dinis voltou finalmente com a fita-cola (e, claro, com o pato atrás, como um cão fiel), Tomás estava com um ar de chefe de equipa.
— Certo. Temos um problema e um pato barulhento. Vamos transformar isto numa missão de ajuda. E tu vais ser o meu assistente oficial.
Dinis endireitou-se.
— Assistente oficial? Com cargo?
— Com cargo. E com responsabilidades. Se fizeres bem, ganhas… duas voltas finais no corredor. A passo seguro.
Os olhos do Dinis brilharam como faróis.
— Fechado!
Capítulo 5 — A Missão Altruísta do Pato
Tomás explicou as tarefas como se estivesse num filme de assalto, mas versão familiar.
— Eu seguro a moldura. Tu limpas a parede com este pano. Depois passas a fita-cola. Sem “pouic” durante o trabalho.
Dinis fez um gesto de zíper na boca.
— Mmm.
O problema é que o pato não sabia fazer zíper. Quando Dinis o pousou no chão, o almofadão escorregou sozinho e encostou no rodapé com um:
— Pouic.
Tomás apontou para ele.
— Esse pato está a rir-se de nós.
— Não, está a incentivar — corrigiu Dinis, limpando a parede com muita dedicação. — Ele faz “pouic” tipo… aplauso.
Tomás tentou colocar a moldura no sítio, mas faltava uma coisa: o prego estava meio solto, e a moldura insistia em inclinar.
— Hm. Precisamos de apoio enquanto a fita-cola agarra.
Dinis, com um sorriso esperto, puxou o almofadão.
— Apoio emocional.
— Desta vez… pode ser apoio a sério — admitiu Tomás. — Mas sem apertar!
Com muito cuidado, Tomás encostou o almofadão por baixo da moldura, como um pequeno pedestal. Funcionou. A moldura parou de balançar.
Dinis ficou tão orgulhoso que esqueceu a regra mais importante: não apertar. De alegria, deu um aperto rápido no pato.
— POUIC!
O susto fez o Tomás perder o equilíbrio por meio segundo. A moldura deu um mini-salto.
— Dinis!
Dinis arregalou os olhos, congelado.
— Eu… eu só estava a celebrar.
Tomás respirou fundo. Queria ralhar, mas viu a cara do irmão: não era de gozo, era de quem queria ajudar e se atrapalhou.
— Ok. Celebramos no fim. Agora… concentra-te.
Para salvar a situação, Tomás fez uma coisa inesperada: baixou a voz e falou como se o pato fosse um colega de equipa.
— Senhor Pato, precisamos de silêncio operativo. Consegue?
Dinis mordeu o lábio para não rir.
— Ele diz que sim.
— Ótimo — disse Tomás. — Então, tu, Assistente Oficial, segura o pato sem apertar. Eu endireito. Depois fita-cola. E pronto.
Dinis segurou o almofadão como se fosse uma bomba muito sensível. Tomás endireitou a moldura com toda a precisão de quem está a desarmar um relógio. A fita-cola fez “trrrr” e ficou bem presa.
Quando terminaram, os dois deram um passo atrás. A moldura estava direita. Milagre.
Dinis abriu os braços.
— Conseguimos!
Tomás sorriu, aliviado.
— Conseguimos porque tu ajudaste. A sério.
Dinis ficou um bocadinho quieto. Depois disse, meio baixinho:
— Eu faço asneiras… mas não quero dar trabalho.
Tomás passou o braço pelo ombro dele.
— Asneiras acontecem. O importante é o que fazemos depois. E tu fizeste… o depois.
O pato, como se concordasse, fez um “pouic” bem pequenino, quase educado.
Capítulo 6 — Arrumação em Música
O corredor ainda estava com “provas” do campeonato: meias no chão, vassoura atravessada, almofadas fora do sofá. Tomás olhou à volta e imaginou a mãe a entrar e a ver aquilo. A imaginação dele não gostou nada.
— Falta a parte final da missão — disse Tomás. — Arrumar tudo.
Dinis fez uma careta dramática.
— A parte em que o herói sofre.
— Não. A parte em que o herói dança — corrigiu Tomás, pegando no telemóvel velho que usavam sem internet, só com músicas guardadas. — Se vamos arrumar, vai ser com banda sonora. Regra da casa: arrumação em música dá pontos de velocidade.
Dinis endireitou-se como um DJ.
— Eu escolho!
— Eu escolho a primeira, tu a segunda — negociou Tomás. — Porque eu sou o Fiscal-Herói Silencioso.
— Fiscal que dança não é silencioso — disse Dinis, mas já estava a abanar os ombros.
Tomás pôs uma música animada. Começaram a arrumar como se estivessem num videoclip: Tomás apanhava as meias e fazia um passe de basquete para o cesto da roupa; Dinis agarrava a vassoura e fingia que era uma guitarra, mas pelo menos encostava-a no sítio certo.
— Não vale fazer solo de guitarra com a vassoura durante dez anos! — disse Tomás.
— Estou a dar emoção ao trabalho! — respondeu Dinis, fazendo “tcham-tcham” com a boca.
O almofadão do pato foi o último. Dinis pegou nele com respeito.
— Senhor Pato, missão cumprida.
Tomás abriu o sofá e encaixou as almofadas no lugar. Depois apontou para o pato.
— Esse vai para o quarto. E sem “pouic” no corredor. A pista está encerrada.
Dinis assentiu muito sério, como se fosse um segurança de discoteca.
— Encerrada. Mas… podemos abrir amanhã?
Tomás pensou um segundo.
— Podemos abrir… uma versão segura. Com travões. E sem molduras perto.
Dinis sorriu.
— E com “pouic” só nas celebrações.
Tomás riu.
— Combinado.
Quando a mãe voltou, encontrou o corredor limpo, a moldura direita e dois irmãos sentados no chão, ofegantes, como se tivessem corrido uma maratona invisível.
— O que aconteceu aqui? — perguntou ela, desconfiada.
Tomás e Dinis olharam um para o outro. Tomás falou primeiro, firme e honesto:
— Aconteceu uma pequena… aventura. Mas arrumámos tudo. E o Dinis ajudou muito.
Dinis acenou, orgulhoso.
— Eu fui Assistente Oficial. E o pato… foi suporte. Mais ou menos.
A mãe olhou para os dois, depois para a moldura, e soltou um suspiro que parecia meio riso.
— Ainda bem que se ajudaram. Agora… lanche?
Dinis levantou-se num salto.
— Lanche em música?
Tomás puxou-o pelo braço, rindo.
— Devagar, foguete de pão. Devagar.
E o corredor, finalmente, ficou quieto. Quase. Lá ao fundo, do quarto, ouviu-se um “pouic” de leve, como se o pato também estivesse a rir.