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Humor fantástico 11 a 12 anos Leitura 16 min.

O coelho Ambrósio e o vulcão constipado

Um coelho metódico chamado Ambrósio decide ajudar o Vulcão Bufarrão a vencer uma constipação que perturba o vale, usando canções, lenços e muita paciência, enquanto encontra amigos e inventa soluções gentis.

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O personagem principal é um pequeno coelho marrom claro antropomórfico de olhos grandes e óculos redondos, expressão calma e determinada, empurrando sorrindo um carrossel de troncos e pedras; ao fundo central está o vulcão Bufarrão, grande montanha antropomórfica negra com cratera como boca, fumegante e apaziguado; à direita em primeiro plano um esquilo ruivo entusiasmado salta sobre uma cenoura de madeira do carrossel, e à esquerda um corvo negro de plumagem lustrosa observa empoleirado numa pedra; o lugar é um vale vulcânico colorido com pedras negras, musgo e pequenas flores amarelas, fumaça suave e luz quente do pôr do sol, atmosfera serena e levemente divertida. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: Lista, Laço e Lenços

O Coelho Ambrósio acordou antes do sol, como fazia sempre que tinha um plano. E ele tinha um plano. Tinha, aliás, uma lista. A lista estava dobrada em quatro e guardada dentro de uma cenoura oca, porque Ambrósio era metódico e também gostava de dramatizar.

Ele puxou a lista com uma solenidade de bibliotecário e leu em voz alta, para o ar entender a importância do dia:

“Objetivo: embalar um vulcão constipado.

O ar não respondeu, o que foi sensato.

Ambrósio ajeitou os óculos redondos no focinho. Sim, óculos. Não porque precisasse, mas porque “ajudavam a concentrar”. E, além disso, davam-lhe um ar de quem sabia o que estava a fazer, mesmo quando estava prestes a embalar um monte de rocha fumegante.

No seu saco de viagem, ele organizou tudo por categorias:

1) Lenços (para narizes e para emergências filosóficas)

2) Chá de tomilho (para gargantas e para coragem)

3) Uma corda (para… cordar coisas)

4) Um pequeno sino (para marcar o ritmo do embalo)

5) Um livro: “Canções de Ninar para Montanhas Difíceis”

De repente, uma voz rouca ecoou do lado de fora da toca:

— Atchim!

O “atchim” veio com uma nuvem de cinza tão educada que pediu desculpa a seguir.

— Desculpa… — disse a nuvem, numa tosse.

Ambrósio suspirou. O Vulcão Bufarrão, que vivia do outro lado do vale, estava mesmo constipado. Quando Bufarrão espirrava, o dia ficava meio nublado, as folhas ganhavam pintinhas cinzentas e os pássaros usavam cachecóis por precaução.

Ambrósio engoliu em seco, escreveu “não entrar em pânico” no topo da lista e saiu.

Capítulo 2: A Subida e o Manual de Boas Maneiras para Lava

O caminho até ao vulcão era uma escada natural feita de pedras e raízes. Ambrósio subia contando os passos, porque contar acalmava.

— Um, dois, três… — murmurava. — Quatro, cinco, seis… Não, isso foi um passo demasiado grande. Vou repetir o cinco.

Ao lado dele, um esquilo de cauda espessa apareceu numa pedra, roendo uma avelã com ar de crítico.

— Vais mesmo embalar o Bufarrão? — perguntou o esquilo, com a boca cheia.

— Vou — disse Ambrósio. — É o objetivo do dia.

— Isso é… — o esquilo procurou a palavra — …corajosamente esquisito.

— Obrigado. — Ambrósio anotou mentalmente: “recebi elogio”.

Mais acima, um corvo pousou num ramo e inclinou a cabeça.

— Dizem que o vulcão está a tossir magma. — O corvo abriu as asas como se apresentasse um espetáculo. — MAGMA! Com catarro!

— Não é catarro — corrigiu Ambrósio, sério. — É lava com vontade de sair, mas com vergonha.

O corvo riu-se, um riso que parecia uma porta velha.

— Boa sorte, coelhinho. Se precisares de dramatização, eu faço vozes.

— Agradeço, mas prefiro um ambiente calmo.

Quando chegaram à zona quente, o chão estava morno como pão acabado de fazer. Ambrósio tirou uma placa da mochila: “Por favor, mantenha a calma.” Pregou-a num arbusto com um espinho.

O Vulcão Bufarrão surgiu finalmente, enorme, com as encostas cobertas de musgo e pedras negras. Do topo saía um fumo que parecia um lenço mal dobrado.

— Atchim! — rugiu Bufarrão.

A montanha tremeu. Uma pedrinha rolou e bateu no pé de Ambrósio.

— Ai! — disse a pedrinha, ofendida, como se fosse culpa do pé.

Ambrósio aproximou-se com passos curtos e respeitosos.

— Bom dia, Bufarrão.

— Bom… dia… — respondeu o vulcão, numa voz que parecia vir de dentro de uma chaleira gigante. — Não me olhes assim. Estou… indisposto.

— Percebo. — Ambrósio abriu o livro de canções de ninar. — Vou tratar de ti. Mas precisamos de paciência.

— Paciência? — Bufarrão fungou. — Eu sou um vulcão. Eu fui inventado para NÃO ter paciência.

— Hoje vais ser uma exceção — disse Ambrósio, com a serenidade de quem dobra meias por cor.

Capítulo 3: O Primeiro Embalo e o Espirro Com Timing Péssimo

Ambrósio pendurou o pequeno sino numa rocha e começou a tocar: tilim… tilim… tilim… Um ritmo suave, como passos na relva.

— Isto é para marcar o embalo — explicou.

— Eu não sou bebé — resmungou Bufarrão.

— Claro que não. — Ambrósio folheou o livro. — Há uma canção específica para vulcões teimosos. Chama-se “Dormita, Cratera, Dormita”.

Ele cantou com voz firme e macia:

“Dormita, cratera, dormita devagar,

deixa a lava sossegar,

não precisa de saltar…”

Bufarrão tentou ficar sério. Tentou mesmo. Mas o fumo do topo fez uma careta.

— Hmpf… — Bufarrão segurou um espirro, o que num vulcão é parecido com tentar segurar uma tempestade numa chávena.

Ambrósio parou de cantar.

— Não forces. Respira. Pelo lado. Como se cheirasses sopa quente.

— Não sei respirar pelo lado! — queixou-se Bufarrão. — Eu respiro… por cima!

— Então vamos adaptar. — Ambrósio tirou um lenço enorme, quase do tamanho dele, e agitou-o no ar. — Vamos fazer uma brisa. Brisa ajuda.

Ele abanou o lenço. O fumo ondulou. Bufarrão parecia menos apertado por dentro.

— Assim… — murmurou o vulcão. — É… estranho. Mas… agradável.

Ambrósio sorriu e voltou a tocar o sino.

Tilim… tilim…

E então aconteceu.

— ATCHIM!

O espirro foi tão grande que lançou uma chuva de cinza para o céu, como confettis num aniversário mal planeado. A cinza caiu sobre Ambrósio, que ficou parecendo um bolo polvilhado.

O coelho piscou. A cinza entrou-lhe no bigode.

— Cof! — tossiu ele, dignamente. — Tudo bem. Isso foi… expressivo.

— Desculpa! — Bufarrão parecia sinceramente embaraçado. — Eu não queria…

— Eu sei. — Ambrósio limpou os óculos. — A constipação faz-nos perder o controlo. O segredo é não desistir à primeira explosão.

— Isso é fácil de dizer quando não se é uma montanha com nariz.

— Justamente por isso estou aqui — respondeu Ambrósio. — Vamos tentar outra técnica.

Ele tirou a corda da mochila. O esquilo, que tinha seguido por curiosidade, arregalou os olhos.

— Vais amarrar o vulcão?!

— Não. — Ambrósio fez um nó impecável numa rocha. — Vou amarrar… a rotina.

— Rotina? — Bufarrão tossiu.

— Sim. Rotina acalma. Vamos dar voltas ao teu redor, bem devagar, como um embalo de rede.

— Eu não tenho rede.

— Tens encostas. Serve.

E começaram.

Capítulo 4: A Marcha Circular e o Mistério do Catarro de Lava

Ambrósio andava em círculos à volta do vulcão, segurando a corda como quem guia um balão muito pesado. O sino ia no ritmo: tilim… tilim… tilim…

O esquilo acompanhava saltando de pedra em pedra, narrando como se fosse um comentarista:

— E lá vai o coelho… volta número três… estilo: “calma obstinada”… nota artística: oito em dez!

O corvo apareceu também, porque um vulcão constipado é a melhor fofoca das redondezas.

— Posso fazer efeitos sonoros? — perguntou.

— Não — disse Ambrósio, sem perder o passo.

Bufarrão começou a resmungar menos. O fumo saía mais fino. A lava, lá dentro, parecia menos agitada.

— Sinto… — Bufarrão falou devagar — …como se alguém estivesse a arrumar o meu interior.

— É isso mesmo — disse Ambrósio. — Paciência é arrumar o caos com as mãos invisíveis.

— Eu não tenho mãos.

— Tens tempo — respondeu Ambrósio.

Mas então, um som novo se ouviu: um “ploc” tímido, vindo da cratera, como uma bolha.

— O que foi isso? — perguntou o esquilo, alarmado. — Foi o teu estômago?

— Vulcões não têm estômago — disse o corvo. — Têm drama.

Bufarrão pigarreou. Um pedaço de lava mais grossa subiu e desceu, como se estivesse indecisa.

— Isso… isso é o meu catarro de lava — confessou Bufarrão, humilhado. — Fica preso. Faz comichão. E depois eu espirro como um trovão.

Ambrósio parou. A corda relaxou.

— Então temos de soltar isso com cuidado. Sem pressa. Sem… — ele olhou para o corvo — …efeitos especiais.

— Eu nem ia! — mentiu o corvo.

Ambrósio preparou uma chávena de chá de tomilho numa pedra quente. A água ferveu com um sopro do próprio vulcão, que ficou orgulhoso.

— Eu faço chá agora — disse Bufarrão, tentando parecer útil.

— Excelente. — Ambrósio aproximou a chávena do topo, como se oferecesse a um gigante. — Inspira o vapor. Ajuda a soltar.

Bufarrão inspirou, muito devagar. O fumo ficou perfumado por um instante, e o vale cheirou a ervas como uma sopa de avó sem avó.

— Ah… — Bufarrão relaxou. — Isso é… surpreendentemente bom.

— Vês? — Ambrósio voltou a tocar o sino. — Agora, quando sentires o espirro a chegar, não lutes. Acompanha. Como uma onda.

— Eu não sei surfar — disse Bufarrão.

— Ninguém sabe no início. A paciência ensina.

Bufarrão tentou. Respirou. Esperou. O topo tremeu… e, em vez de um “ATCHIM” explosivo, saiu um “atchim” pequenino, quase envergonhado.

Uma pluma de cinza subiu e caiu como uma pena.

O esquilo aplaudiu.

— Ele fez um espirro educado! — gritou.

O corvo fez um som de trompete com o bico, mas tão baixo que quase não contou.

Bufarrão suspirou, aliviado.

— Acho que… estou a melhorar.

— Ainda falta a parte mais difícil — disse Ambrósio, olhando para a lista.

— Qual?

Ambrósio engoliu em seco.

— A parte de te embalar até adormeceres mesmo.

Bufarrão pareceu assustado.

— Vulcões… não dormem.

— Dormem um bocadinho. Só que chamam “estar quietos por séculos”, para não parecerem fofinhos.

Bufarrão fez um barulho que podia ser riso ou tremor.

— Eu não sou fofinho.

— Claro que não — disse Ambrósio, já a preparar o passo seguinte. — Agora vem o carrossel.

Capítulo 5: O Carrossel de Pedras e a Paciência em Andamento

Ambrósio tinha trazido algo especial: um carrossel portátil. Não era daqueles de feira (não havia feiras ali, e, mesmo que houvesse, ninguém queria um rinoceronte a pedir bilhete). Era um carrossel de pedras lisas e troncos, montado com corda e engenho.

Ele prendeu o eixo central numa clareira plana perto da base do vulcão. Em volta, colocou quatro “montadas”: um tronco em forma de peixe, uma pedra que parecia uma tartaruga, um toco que lembrava um dragão muito cansado e… uma cenoura gigante de madeira, só por humor.

— Isto é ridículo — disse Bufarrão, mas a voz tinha curiosidade.

— Ridículo é um tipo de magia — respondeu Ambrósio. — Sobe… metaforicamente.

— Eu não posso subir.

— Não tu. A tua atenção. Vais ouvir o carrossel. O ritmo vai embalar-te por dentro.

O esquilo subiu na cenoura de madeira e gritou:

— Eu sou o cavaleiro oficial da cenoura!

— Isso não é um cargo real — disse o corvo, já pousado no “dragão cansado”. — Mas combina contigo.

Ambrósio empurrou o carrossel com cuidado. Ele começou a girar devagar. As pedras rangiam como risos contidos. O sino marcava o tempo: tilim… tilim… tilim…

Bufarrão observava. O fumo saiu em espirais suaves, como se estivesse a desenhar no ar.

— É… hipnótico — admitiu o vulcão, a contragosto.

— A paciência é isso — disse Ambrósio. — Um “devagar” que não desiste.

O carrossel girava. O esquilo cantava uma música inventada, desafinada mas feliz:

“Gira, gira, cenourão,

faz dormir o vulcão!”

— Isso é poesia perigosa — comentou o corvo.

— É poesia necessária — respondeu o esquilo.

Ambrósio não discutiu. Continuou a empurrar, sempre com a mesma força. Nem mais, nem menos. O seu método era uma espécie de feitiço: repetição com carinho.

Bufarrão começou a bocejar. Sim, bocejar. O som foi tão profundo que as pedras vibraram.

— Uoooaaah… — fez o vulcão.

A lava lá dentro acalmou. O catarro de lava pareceu dissolver-se em borbulhas preguiçosas.

— Estou… a ficar… — Bufarrão procurou a palavra, ofendido — …tranquilo.

— Isso chama-se “funcionar” — disse Ambrósio.

O carrossel girou mais um pouco. O esquilo, excitado, pulou para a “tartaruga” e quase caiu.

— Devagar! — avisou Ambrósio. — Paciência também é não apressar o giro.

— Eu tenho energia demais! — disse o esquilo.

— Guarda para depois — disse o corvo. — Há sempre um depois.

Bufarrão soltou outro espirro pequeno, um “atchim” de quem já não precisa provar nada.

— Muito bem — disse Ambrósio, orgulhoso e cansado. — Agora, só falta… parar no momento certo.

— Porquê parar? — perguntou o esquilo. — Está divertido!

Ambrósio olhou para o vulcão. Bufarrão estava quase a adormecer. O fumo saía como suspiro.

— Porque, se não parar, ele pode acordar a achar que a vida tem de rodar sempre. E às vezes… — Ambrósio falou com calma — …a vida precisa de quietude.

O corvo inclinou a cabeça, surpreendido por aquilo fazer sentido.

Ambrósio esperou. Uma volta. Outra. Contou no pensamento, como sempre. E, quando sentiu que o vale inteiro estava a respirar no mesmo compasso, ele pousou as mãos no eixo.

— Agora — sussurrou.

E puxou a corda de travão.

O carrossel abrandou, rangendo como quem boceja. Girou mais meio círculo… e parou.

Silêncio.

Bufarrão soltou um último suspiro, tão leve que parecia uma pena a cair.

— Obrigado, Ambrósio… — murmurou, já meio a dormir. — Tu és… irritantemente paciente.

— Eu sei — disse o coelho, com um sorriso pequeno.

O esquilo ficou imóvel, de olhos abertos, como se o mundo tivesse congelado num jogo.

— O carrossel… parou — disse ele, num tom de respeito.

— Sim — respondeu Ambrósio. — E está tudo bem.

E, naquela quietude, o vulcão constipado finalmente descansou, embalado não pelo giro, mas pela espera certa.

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Metódico
Que faz as coisas com ordem e cuidado, seguindo um plano certo.
Dramatizar
Transformar algo simples em algo mais intenso ou exagerado, como numa peça.
Solenidade
Ato sério e formal, com respeito e atenção especiais.
Constipado
Quando alguém tem o nariz entupido e tosse, está resfriado.
Cratera
A grande abertura no topo de um vulcão, por onde sai fumo ou lava.
Encostas
As laterais inclinadas de uma montanha ou vulcão.
Lava
Rocha derretida que sai de um vulcão quando está muito quente.
Serenidade
Estado de calma profunda, sem ansiedade nem barulho interno.
Pigarreou
Fazer um som curto na garganta para limpar ou chamar atenção.
Hipnótico
Que faz alguém sentir-se muito calmo ou quase sonolento, como um transe.
Catarro de lava
Expressão que descreve uma mistura presa na cratera, como muco, mas de lava.
Borbulhas
Pequenas bolhas que se formam e estalam numa superfície líquida.
Travão
Mecanismo que faz algo abrandar ou parar, como puxar uma corda para travar.

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