Capítulo 1: Lista, Laço e Lenços
O Coelho Ambrósio acordou antes do sol, como fazia sempre que tinha um plano. E ele tinha um plano. Tinha, aliás, uma lista. A lista estava dobrada em quatro e guardada dentro de uma cenoura oca, porque Ambrósio era metódico e também gostava de dramatizar.
Ele puxou a lista com uma solenidade de bibliotecário e leu em voz alta, para o ar entender a importância do dia:
— “Objetivo: embalar um vulcão constipado.”
O ar não respondeu, o que foi sensato.
Ambrósio ajeitou os óculos redondos no focinho. Sim, óculos. Não porque precisasse, mas porque “ajudavam a concentrar”. E, além disso, davam-lhe um ar de quem sabia o que estava a fazer, mesmo quando estava prestes a embalar um monte de rocha fumegante.
No seu saco de viagem, ele organizou tudo por categorias:
1) Lenços (para narizes e para emergências filosóficas)
2) Chá de tomilho (para gargantas e para coragem)
3) Uma corda (para… cordar coisas)
4) Um pequeno sino (para marcar o ritmo do embalo)
5) Um livro: “Canções de Ninar para Montanhas Difíceis”
De repente, uma voz rouca ecoou do lado de fora da toca:
— Atchim!
O “atchim” veio com uma nuvem de cinza tão educada que pediu desculpa a seguir.
— Desculpa… — disse a nuvem, numa tosse.
Ambrósio suspirou. O Vulcão Bufarrão, que vivia do outro lado do vale, estava mesmo constipado. Quando Bufarrão espirrava, o dia ficava meio nublado, as folhas ganhavam pintinhas cinzentas e os pássaros usavam cachecóis por precaução.
Ambrósio engoliu em seco, escreveu “não entrar em pânico” no topo da lista e saiu.
Capítulo 2: A Subida e o Manual de Boas Maneiras para Lava
O caminho até ao vulcão era uma escada natural feita de pedras e raízes. Ambrósio subia contando os passos, porque contar acalmava.
— Um, dois, três… — murmurava. — Quatro, cinco, seis… Não, isso foi um passo demasiado grande. Vou repetir o cinco.
Ao lado dele, um esquilo de cauda espessa apareceu numa pedra, roendo uma avelã com ar de crítico.
— Vais mesmo embalar o Bufarrão? — perguntou o esquilo, com a boca cheia.
— Vou — disse Ambrósio. — É o objetivo do dia.
— Isso é… — o esquilo procurou a palavra — …corajosamente esquisito.
— Obrigado. — Ambrósio anotou mentalmente: “recebi elogio”.
Mais acima, um corvo pousou num ramo e inclinou a cabeça.
— Dizem que o vulcão está a tossir magma. — O corvo abriu as asas como se apresentasse um espetáculo. — MAGMA! Com catarro!
— Não é catarro — corrigiu Ambrósio, sério. — É lava com vontade de sair, mas com vergonha.
O corvo riu-se, um riso que parecia uma porta velha.
— Boa sorte, coelhinho. Se precisares de dramatização, eu faço vozes.
— Agradeço, mas prefiro um ambiente calmo.
Quando chegaram à zona quente, o chão estava morno como pão acabado de fazer. Ambrósio tirou uma placa da mochila: “Por favor, mantenha a calma.” Pregou-a num arbusto com um espinho.
O Vulcão Bufarrão surgiu finalmente, enorme, com as encostas cobertas de musgo e pedras negras. Do topo saía um fumo que parecia um lenço mal dobrado.
— Atchim! — rugiu Bufarrão.
A montanha tremeu. Uma pedrinha rolou e bateu no pé de Ambrósio.
— Ai! — disse a pedrinha, ofendida, como se fosse culpa do pé.
Ambrósio aproximou-se com passos curtos e respeitosos.
— Bom dia, Bufarrão.
— Bom… dia… — respondeu o vulcão, numa voz que parecia vir de dentro de uma chaleira gigante. — Não me olhes assim. Estou… indisposto.
— Percebo. — Ambrósio abriu o livro de canções de ninar. — Vou tratar de ti. Mas precisamos de paciência.
— Paciência? — Bufarrão fungou. — Eu sou um vulcão. Eu fui inventado para NÃO ter paciência.
— Hoje vais ser uma exceção — disse Ambrósio, com a serenidade de quem dobra meias por cor.
Capítulo 3: O Primeiro Embalo e o Espirro Com Timing Péssimo
Ambrósio pendurou o pequeno sino numa rocha e começou a tocar: tilim… tilim… tilim… Um ritmo suave, como passos na relva.
— Isto é para marcar o embalo — explicou.
— Eu não sou bebé — resmungou Bufarrão.
— Claro que não. — Ambrósio folheou o livro. — Há uma canção específica para vulcões teimosos. Chama-se “Dormita, Cratera, Dormita”.
Ele cantou com voz firme e macia:
— “Dormita, cratera, dormita devagar,
deixa a lava sossegar,
não precisa de saltar…”
Bufarrão tentou ficar sério. Tentou mesmo. Mas o fumo do topo fez uma careta.
— Hmpf… — Bufarrão segurou um espirro, o que num vulcão é parecido com tentar segurar uma tempestade numa chávena.
Ambrósio parou de cantar.
— Não forces. Respira. Pelo lado. Como se cheirasses sopa quente.
— Não sei respirar pelo lado! — queixou-se Bufarrão. — Eu respiro… por cima!
— Então vamos adaptar. — Ambrósio tirou um lenço enorme, quase do tamanho dele, e agitou-o no ar. — Vamos fazer uma brisa. Brisa ajuda.
Ele abanou o lenço. O fumo ondulou. Bufarrão parecia menos apertado por dentro.
— Assim… — murmurou o vulcão. — É… estranho. Mas… agradável.
Ambrósio sorriu e voltou a tocar o sino.
Tilim… tilim…
E então aconteceu.
— ATCHIM!
O espirro foi tão grande que lançou uma chuva de cinza para o céu, como confettis num aniversário mal planeado. A cinza caiu sobre Ambrósio, que ficou parecendo um bolo polvilhado.
O coelho piscou. A cinza entrou-lhe no bigode.
— Cof! — tossiu ele, dignamente. — Tudo bem. Isso foi… expressivo.
— Desculpa! — Bufarrão parecia sinceramente embaraçado. — Eu não queria…
— Eu sei. — Ambrósio limpou os óculos. — A constipação faz-nos perder o controlo. O segredo é não desistir à primeira explosão.
— Isso é fácil de dizer quando não se é uma montanha com nariz.
— Justamente por isso estou aqui — respondeu Ambrósio. — Vamos tentar outra técnica.
Ele tirou a corda da mochila. O esquilo, que tinha seguido por curiosidade, arregalou os olhos.
— Vais amarrar o vulcão?!
— Não. — Ambrósio fez um nó impecável numa rocha. — Vou amarrar… a rotina.
— Rotina? — Bufarrão tossiu.
— Sim. Rotina acalma. Vamos dar voltas ao teu redor, bem devagar, como um embalo de rede.
— Eu não tenho rede.
— Tens encostas. Serve.
E começaram.
Capítulo 4: A Marcha Circular e o Mistério do Catarro de Lava
Ambrósio andava em círculos à volta do vulcão, segurando a corda como quem guia um balão muito pesado. O sino ia no ritmo: tilim… tilim… tilim…
O esquilo acompanhava saltando de pedra em pedra, narrando como se fosse um comentarista:
— E lá vai o coelho… volta número três… estilo: “calma obstinada”… nota artística: oito em dez!
O corvo apareceu também, porque um vulcão constipado é a melhor fofoca das redondezas.
— Posso fazer efeitos sonoros? — perguntou.
— Não — disse Ambrósio, sem perder o passo.
Bufarrão começou a resmungar menos. O fumo saía mais fino. A lava, lá dentro, parecia menos agitada.
— Sinto… — Bufarrão falou devagar — …como se alguém estivesse a arrumar o meu interior.
— É isso mesmo — disse Ambrósio. — Paciência é arrumar o caos com as mãos invisíveis.
— Eu não tenho mãos.
— Tens tempo — respondeu Ambrósio.
Mas então, um som novo se ouviu: um “ploc” tímido, vindo da cratera, como uma bolha.
— O que foi isso? — perguntou o esquilo, alarmado. — Foi o teu estômago?
— Vulcões não têm estômago — disse o corvo. — Têm drama.
Bufarrão pigarreou. Um pedaço de lava mais grossa subiu e desceu, como se estivesse indecisa.
— Isso… isso é o meu catarro de lava — confessou Bufarrão, humilhado. — Fica preso. Faz comichão. E depois eu espirro como um trovão.
Ambrósio parou. A corda relaxou.
— Então temos de soltar isso com cuidado. Sem pressa. Sem… — ele olhou para o corvo — …efeitos especiais.
— Eu nem ia! — mentiu o corvo.
Ambrósio preparou uma chávena de chá de tomilho numa pedra quente. A água ferveu com um sopro do próprio vulcão, que ficou orgulhoso.
— Eu faço chá agora — disse Bufarrão, tentando parecer útil.
— Excelente. — Ambrósio aproximou a chávena do topo, como se oferecesse a um gigante. — Inspira o vapor. Ajuda a soltar.
Bufarrão inspirou, muito devagar. O fumo ficou perfumado por um instante, e o vale cheirou a ervas como uma sopa de avó sem avó.
— Ah… — Bufarrão relaxou. — Isso é… surpreendentemente bom.
— Vês? — Ambrósio voltou a tocar o sino. — Agora, quando sentires o espirro a chegar, não lutes. Acompanha. Como uma onda.
— Eu não sei surfar — disse Bufarrão.
— Ninguém sabe no início. A paciência ensina.
Bufarrão tentou. Respirou. Esperou. O topo tremeu… e, em vez de um “ATCHIM” explosivo, saiu um “atchim” pequenino, quase envergonhado.
Uma pluma de cinza subiu e caiu como uma pena.
O esquilo aplaudiu.
— Ele fez um espirro educado! — gritou.
O corvo fez um som de trompete com o bico, mas tão baixo que quase não contou.
Bufarrão suspirou, aliviado.
— Acho que… estou a melhorar.
— Ainda falta a parte mais difícil — disse Ambrósio, olhando para a lista.
— Qual?
Ambrósio engoliu em seco.
— A parte de te embalar até adormeceres mesmo.
Bufarrão pareceu assustado.
— Vulcões… não dormem.
— Dormem um bocadinho. Só que chamam “estar quietos por séculos”, para não parecerem fofinhos.
Bufarrão fez um barulho que podia ser riso ou tremor.
— Eu não sou fofinho.
— Claro que não — disse Ambrósio, já a preparar o passo seguinte. — Agora vem o carrossel.
Capítulo 5: O Carrossel de Pedras e a Paciência em Andamento
Ambrósio tinha trazido algo especial: um carrossel portátil. Não era daqueles de feira (não havia feiras ali, e, mesmo que houvesse, ninguém queria um rinoceronte a pedir bilhete). Era um carrossel de pedras lisas e troncos, montado com corda e engenho.
Ele prendeu o eixo central numa clareira plana perto da base do vulcão. Em volta, colocou quatro “montadas”: um tronco em forma de peixe, uma pedra que parecia uma tartaruga, um toco que lembrava um dragão muito cansado e… uma cenoura gigante de madeira, só por humor.
— Isto é ridículo — disse Bufarrão, mas a voz tinha curiosidade.
— Ridículo é um tipo de magia — respondeu Ambrósio. — Sobe… metaforicamente.
— Eu não posso subir.
— Não tu. A tua atenção. Vais ouvir o carrossel. O ritmo vai embalar-te por dentro.
O esquilo subiu na cenoura de madeira e gritou:
— Eu sou o cavaleiro oficial da cenoura!
— Isso não é um cargo real — disse o corvo, já pousado no “dragão cansado”. — Mas combina contigo.
Ambrósio empurrou o carrossel com cuidado. Ele começou a girar devagar. As pedras rangiam como risos contidos. O sino marcava o tempo: tilim… tilim… tilim…
Bufarrão observava. O fumo saiu em espirais suaves, como se estivesse a desenhar no ar.
— É… hipnótico — admitiu o vulcão, a contragosto.
— A paciência é isso — disse Ambrósio. — Um “devagar” que não desiste.
O carrossel girava. O esquilo cantava uma música inventada, desafinada mas feliz:
— “Gira, gira, cenourão,
faz dormir o vulcão!”
— Isso é poesia perigosa — comentou o corvo.
— É poesia necessária — respondeu o esquilo.
Ambrósio não discutiu. Continuou a empurrar, sempre com a mesma força. Nem mais, nem menos. O seu método era uma espécie de feitiço: repetição com carinho.
Bufarrão começou a bocejar. Sim, bocejar. O som foi tão profundo que as pedras vibraram.
— Uoooaaah… — fez o vulcão.
A lava lá dentro acalmou. O catarro de lava pareceu dissolver-se em borbulhas preguiçosas.
— Estou… a ficar… — Bufarrão procurou a palavra, ofendido — …tranquilo.
— Isso chama-se “funcionar” — disse Ambrósio.
O carrossel girou mais um pouco. O esquilo, excitado, pulou para a “tartaruga” e quase caiu.
— Devagar! — avisou Ambrósio. — Paciência também é não apressar o giro.
— Eu tenho energia demais! — disse o esquilo.
— Guarda para depois — disse o corvo. — Há sempre um depois.
Bufarrão soltou outro espirro pequeno, um “atchim” de quem já não precisa provar nada.
— Muito bem — disse Ambrósio, orgulhoso e cansado. — Agora, só falta… parar no momento certo.
— Porquê parar? — perguntou o esquilo. — Está divertido!
Ambrósio olhou para o vulcão. Bufarrão estava quase a adormecer. O fumo saía como suspiro.
— Porque, se não parar, ele pode acordar a achar que a vida tem de rodar sempre. E às vezes… — Ambrósio falou com calma — …a vida precisa de quietude.
O corvo inclinou a cabeça, surpreendido por aquilo fazer sentido.
Ambrósio esperou. Uma volta. Outra. Contou no pensamento, como sempre. E, quando sentiu que o vale inteiro estava a respirar no mesmo compasso, ele pousou as mãos no eixo.
— Agora — sussurrou.
E puxou a corda de travão.
O carrossel abrandou, rangendo como quem boceja. Girou mais meio círculo… e parou.
Silêncio.
Bufarrão soltou um último suspiro, tão leve que parecia uma pena a cair.
— Obrigado, Ambrósio… — murmurou, já meio a dormir. — Tu és… irritantemente paciente.
— Eu sei — disse o coelho, com um sorriso pequeno.
O esquilo ficou imóvel, de olhos abertos, como se o mundo tivesse congelado num jogo.
— O carrossel… parou — disse ele, num tom de respeito.
— Sim — respondeu Ambrósio. — E está tudo bem.
E, naquela quietude, o vulcão constipado finalmente descansou, embalado não pelo giro, mas pela espera certa.