Capítulo 1 — A Cometa que Não Parava Quietinha
Na vila de Limoeiro, a magia não vinha em varinhas brilhantes nem em dragões de estimação. Vinha em coisas pequenas: a chaleira assobiava melodias, as meias fugiam sozinhas para detrás do sofá, e o pão da padaria, às sextas, ficava tão fofo que parecia contar piadas.
Era ali que viviam quatro rapazes de 11 anos, com uma amizade que fazia barulho como um saco de pipocas ao lume.
O Tomás era o mais guloso. Não “gostava de comer”. Ele tinha uma relação séria, profunda e romântica com o lanche. Se alguém dissesse “bolacha”, o Tomás já estava a procurar a chávena de leite.
O Martim era o estratega. Fazia planos até para atravessar a rua: “primeiro a perna direita, depois a esquerda, e se um pombo olhar de lado, mudamos de rota”.
O Rafa era o artista. Desenhava monstros simpáticos nos cadernos e dava nomes às nuvens. A sua preferida chamava-se “Bife Voador”, por razões que ninguém compreendia.
E o Simão era o inventivo. Colecionava molas, rolhas e ideias perigosas como “e se puxarmos esta alavanca só para ver?”.
Nessa noite, estavam no quintal do Tomás, deitados numa manta, a ver o céu. O Tomás segurava um pão com chouriço como se fosse um telescópio comestível.
— Aposto que aquela estrela está a piscar para mim — disse o Rafa.
— Está a piscar porque tem poeira no olho — respondeu o Martim, sempre prático.
O Simão apontou para uma coisa que atravessava o céu. Não era uma estrela cadente. Era… uma estrela nervosa.
Uma cometa, com cauda brilhante e um jeito de quem tinha bebido três jarros de sumo de laranja com gás.
Ela ziguezagueou, deu uma cambalhota no ar e… parou mesmo por cima do quintal, como se o céu tivesse travões.
Uma voz fininha, vinda de lugar nenhum e de todo o lado, ecoou:
— OI! OI! OI! QUEM QUER BRINCAR? EU NÃO CONSIGO DORMIR!
O Tomás engasgou-se com o pão.
— Uma cometa… excitada… — murmurou ele, limpando as migalhas. — Isto é novo.
A cometa desceu um bocadinho, o suficiente para iluminar o quintal como uma lanterna gigante.
— Preciso de adormecer — disse ela, numa pressa que não combinava com a palavra “adormecer”. — Mas o meu brilho faz cócegas e as minhas ideias fazem saltos!
O Martim levantou-se.
— Certo. Então… por que não contas estrelas? É um clássico.
— EU CONTO MUITO RÁPIDO! — gritou a cometa. — JÁ CONTEI TODAS. TRÊS VEZES. UMA DELAS EM ORDEM ALFABÉTICA.
O Simão assobiou.
— Isso é… impressionante e assustador.
O Rafa, com os olhos brilhantes, perguntou:
— E se te contarmos uma história?
— EU OUÇO, MAS DEPOIS QUERO MAIS! MAIS! MAIS!
O Tomás pensou no que sabia sobre coisas que não dormem: bebés, cães e… o próprio Tomás na véspera de bolo de aniversário.
— Talvez… — disse ele, e foi como se tivesse uma ideia com cheiro a canela — talvez precisemos de uma receita.
— Uma receita para adormecer cometas? — perguntou o Martim, desconfiado.
— Sim — disse o Tomás, com a seriedade de quem fala de sobremesa. — Uma receita especial. E eu… eu sou bom em receitas.
A cometa fez um “OOOOH!” tão alto que as folhas da laranjeira tremeram.
— RECEITA! EU GOSTO DE RECEITAS!
— Então pronto — disse o Rafa. — Vamos adormecer uma cometa. Como quem adormece um gato com um cobertor, só que… no céu.
O Simão abriu um sorriso.
— E sem o cobertor.
O Martim respirou fundo.
— Está bem. Mas com plano.
E assim, quatro rapazes e uma cometa hiperativa combinaram o impossível, ali mesmo, ao lado de uma mangueira e de um balde com brinquedos velhos.
Capítulo 2 — O Livro que Mordia as Palavras
No dia seguinte, foram à Biblioteca Municipal de Limoeiro. Era um edifício antigo, com cheiro a papel, poeira e silêncio disciplinado. O tipo de silêncio que parece dizer: “se falas alto, eu faço-te cócegas nos ouvidos com uma pena.”
A bibliotecária, Dona Adelaide, tinha óculos na ponta do nariz e um olhar que conseguia pôr um suspiro em sentido.
— Bom dia — disse o Martim, em modo “cidadão exemplar”. — Precisamos de um livro… sobre… astronomia e… sonos.
— Astronomia e sonos — repetiu ela, como se provasse uma sopa. — Isso soa a… crianças a inventar confusões.
O Tomás sorriu com o ar mais inocente do mundo, que era um ar suspeito.
— Confusões? Nós? Só queremos… conhecimento. E talvez… uma bolacha, se houver.
A Dona Adelaide suspirou.
— Na secção de ciências, prateleira D. Mas se derrubarem alguma coisa, eu vou saber. Eu sei sempre.
Eles encontraram livros enormes com títulos sérios. “COMETAS: VISITANTES GELADOS DO ESPAÇO”. “O SONO E O CÉREBRO”. E um livro fino, escondido atrás de um atlas, com letras douradas a brilhar de maneira… atrevida: “Manual de Magia Doméstica e Outras Trapaceiras do Quotidiano”.
— Isto não é ciência — murmurou o Martim.
— É… mais divertido — disse o Simão, puxando-o.
O livro abriu-se sozinho com um “plop”, como uma caixa de bolachas. E as páginas viraram-se depressa, como se estivessem com pressa.
Uma frase apareceu, escrita a tinta que parecia luz:
“PARA ADORMECER UMA COMETA EXCITADA:
1) UMA CANÇÃO DE CHALEIRA
2) UM CHEIRO DE BOLO QUENTE
3) UMA PROMESSA DE AMIZADE
4) UMA COISA MUITO PEQUENA QUE BRILHE”
O Rafa inclinou a cabeça.
— Isto parece… uma lista de compras de um mago preguiçoso.
O Tomás já estava a imaginar bolos.
— “Cheiro de bolo quente” é a melhor parte. Eu voto sim.
O Martim apontou para “canção de chaleira”.
— Como vamos arranjar uma canção de chaleira? Não é que a chaleira… canta?
Ao lado, alguém pigarreou. Era a Dona Adelaide, que surgira sem fazer barulho, como se tivesse rodas de borracha nos pés.
— A chaleira da sala de chá da biblioteca assobia em Ré menor — disse ela. — Mas só quando está bem-disposta.
O Simão arregalou os olhos.
— A senhora… ouviu-nos?
— Eu ouço tudo. Até os pensamentos que são muito altos — respondeu ela, seca. Depois olhou para o livro. — Esse manual devia estar fechado. Ele gosta de… morder palavras.
Como para provar, o livro deu uma dentadinha no ar: “nhac!”
O Rafa recuou.
— Ele acabou de…?
— Sim — disse a Dona Adelaide. — E se não o devolverem ao lugar certo, ele pode começar a comer… pontuação. E isso é o fim da civilização.
O Martim engoliu em seco.
— Nós devolvemos. Certinho. Sem pôr em risco a pontuação.
A Dona Adelaide ajustou os óculos, e por um segundo, um sorriso pequenino apareceu.
— Se estão a fazer uma… coisa boa, façam-na com cuidado. E tragam-me de volta o livro sem dobrar as páginas. E sem… incendiar a biblioteca.
— Não vamos incendiar nada — prometeu o Simão, que já tinha, mentalmente, três formas diferentes de incendiar acidentalmente uma biblioteca.
Eles copiaram a lista num caderno do Rafa. O Tomás desenhou ao lado um bolo com cara feliz.
Ao saírem, o céu parecia mais claro, como se a cometa estivesse a espreitar por trás das nuvens, impaciente.
Capítulo 3 — A Chaleira Diva e o Bolo Teimoso
A primeira missão foi a canção de chaleira.
Foram à sala de chá da biblioteca, onde a chaleira de metal estava em cima de um fogareiro, com uma postura de estrela de ópera.
— Então… — disse o Simão, aproximando-se. — Canta.
A chaleira não se mexeu. Não assobiou. Ficou ali, ofendida.
A Dona Adelaide, de braços cruzados, explicou:
— Ela só canta para quem tem boas maneiras. E não se deve dizer “canta” assim, como se ela fosse um rádio.
O Martim endireitou-se.
— Senhora Chaleira, por favor, podia… oferecer-nos uma melodia? Em Ré menor, se não for incómodo.
A chaleira fez um “tlim” delicado, como quem diz “finalmente”.
O Tomás sussurrou:
— Ela é uma diva.
— Shhh — fez o Rafa. — Respeita a arte.
Quando a água ferveu, a chaleira assobiou uma música triste e bonita, que fazia pensar em chuva a cair devagar. O Rafa gravou no telemóvel, segurando-o como se fosse um microfone sagrado.
— Uma canção de chaleira: feito — disse o Martim, marcando no caderno.
Segundo item: cheiro de bolo quente.
Isso era território do Tomás. Foram para a cozinha dele, onde a magia do quotidiano era uma mistura de farinha e confusão.
— Vamos fazer bolo de canela — anunciou o Tomás. — Cheiro clássico. Funciona em humanos, gatos e, espero eu, cometas.
O Simão pôs o avental ao contrário e disse:
— Eu sou o assistente de… coisas perigosas.
O Rafa partiu ovos com delicadeza artística. O Martim leu a receita como um general lê um mapa.
Tudo corria bem… até o Tomás provar a massa.
— Só uma lambidela — disse ele, já com a colher a brilhar de massa.
— Tomás! — gritou o Martim. — A receita diz “não abrir o forno nos primeiros vinte minutos” e eu aposto que também devia dizer “não comer metade da massa”.
— Eu não comi metade — defendeu-se o Tomás, com a boca cheia. — Foi… um terço.
O Simão, ao tentar ajudar, confundiu sal com açúcar. O bolo, no forno, começou a crescer com uma expressão… suspeita, como se estivesse a planear uma fuga.
— Está a crescer demais — disse o Rafa.
— É um bolo ambicioso — disse o Simão. — Eu respeito.
O Martim abriu a porta do forno só uma fresta, para espreitar. Um bafo quente saiu, com cheiro maravilhoso… e o bolo, ofendido, afundou um pouco, como se dissesse: “Ah, é assim? Então toma.”
— Vês? — choramingou o Martim. — Agora ficou… triste.
O Tomás aproximou-se e cheirou o ar.
— Triste ou não, cheira a felicidade. Isso conta.
Quando tiraram o bolo, ele estava um bocado torto e com uma racha no meio, como um sorriso torto. Mas o cheiro era tão bom que até a gata do vizinho apareceu à janela, julgando que era feriado.
— Cheiro de bolo quente: feito — disse o Martim, apesar de tudo.
O Tomás cortou uma fatia.
— Isto é para a cometa, certo?
— Primeiro para a cometa — disse o Rafa. — Depois para a nossa sobrevivência.
O Tomás suspirou, heróico.
— Eu sacrifico-me pela amizade… e pelo cosmos.
Capítulo 4 — A Promessa e o Problema do “Brilhozinho”
Faltavam dois ingredientes: a promessa de amizade e uma coisa muito pequena que brilhe.
A promessa parecia fácil, mas o Martim complicou:
— Não pode ser uma promessa qualquer. O manual diz “promessa de amizade”, não “promessa de ‘talvez'”.
— Podemos fazer um juramento — sugeriu o Rafa. — Tipo cavaleiros, só que sem armadura e com mochila.
O Simão levantou um dedo.
— Eu posso fazer uma pulseira da amizade com fio de pesca e… uma tampa de garrafa.
— Isso parece perigoso — disse o Martim.
— É só um pouco cortante — admitiu o Simão.
Acabaram por fazer algo simples: sentaram-se no quintal, ao fim da tarde, com o bolo embrulhado e o som da chaleira gravado.
O Tomás pôs a mão no peito.
— Prometo partilhar o meu lanche… mesmo quando for difícil.
— Isso é a promessa mais corajosa que já ouvi — disse o Rafa.
O Martim falou a seguir:
— Prometo não mandar em tudo. Só em… quase tudo. E prometo ouvir vocês antes de… decidir.
O Simão, sério pela primeira vez em horas, disse:
— Prometo não puxar alavancas misteriosas sozinho. Puxo… convosco.
O Rafa sorriu.
— Prometo desenhar as vossas ideias, mesmo quando parecem malucas. E prometo não gozar… muito.
— Eu prometo gozar pouco — corrigiu o Simão.
— Pouco, sim — riu o Rafa.
Juntaram as mãos no centro.
— Amigos — disseram, e a palavra soou como um nó bem apertado.
A seguir, o “brilhozinho”.
— Uma coisa pequena que brilhe — repetiu o Martim. — Tipo… uma estrela em miniatura?
O Simão correu para a caixa de bugigangas.
— Eu tenho uma coisa! Uma pilha! Brilha… quando dá choque.
— Isso não é “brilhar” — disse o Martim. — É “fritar”.
O Rafa trouxe um berlinde.
— Este tem um reflexo bonito.
— Brilha só com luz — disse o Martim. — Precisamos de brilho próprio.
O Tomás abriu a carteira e tirou um papel de rebuçado prateado.
— Brilha!
— Reflete — insistiu o Martim, em modo professor chato.
Foi então que algo no chão se mexeu. Uma pedrinha, perto do canteiro, fez “plim”. E acendeu, como um pirilampo tímido.
— Olá — disse uma voz muito baixinha.
Os quatro inclinaram-se.
Era uma pedrinha com luz dentro. Parecia uma migalha de lua.
— Eu sou a Cintilinha — disse a pedrinha. — Eu brilho quando alguém diz uma coisa verdadeira.
O Martim abriu a boca, fechou, abriu de novo.
— Isso… é útil.
— Eu estava a brilhar agora porque vocês fizeram uma promessa a sério — explicou a Cintilinha. — Vocês são… bons.
O Tomás sussurrou:
— Nós também somos… famintos.
A Cintilinha riu. Foi um brilho pequeno, mas muito alegre.
— Posso ajudar. Se for para adormecer uma cometa. Ela anda a passar por aqui e não pára de fazer cócegas nas nuvens.
— Ela é barulhenta — concordou o Rafa.
A Cintilinha saltitou para a palma do Martim, como se a gravidade fosse apenas uma sugestão.
— Levem-me. Eu brilho melhor quando há amizade.
O Martim assentiu.
— Está bem. Mas… sem fugas.
— Eu sou uma pedrinha — disse ela. — Para onde é que eu ia fugir? Para dentro de um sapato?
O Simão apontou para os ténis do Tomás.
— Cuidado. É um sítio perigoso.
O Tomás ofendeu-se.
— Os meus ténis têm personalidade.
Com os quatro ingredientes prontos — canção, cheiro, promessa e brilhozinho — faltava só a parte mais difícil: convencer uma cometa excitada a… parar.
Capítulo 5 — A Cometa Desce ao Quintal (e Quer Sobremesa)
Nessa noite, voltaram à manta no quintal. O céu estava limpo, como uma folha nova. E lá veio ela: a cometa, a riscar o ar, a fazer curvas como se estivesse a jogar à apanhada com o vento.
— OI! — gritou ela, antes de sequer chegar. — EU TROUXE MAIS ENERGIA!
— Não era preciso — murmurou o Martim.
A cometa parou por cima deles, brilhando tanto que as sombras ficaram com vergonha.
— Trouxemos coisas — disse o Rafa, levantando o embrulho do bolo como se fosse uma oferta ao universo.
— BOLO? — A cometa estremeceu de entusiasmo. — EU POSSO COMER BOLO?
O Tomás fez cara de dor.
— Tecnicamente… ele é para ti.
— Eu fiz! Eu ajudei! Eu… prov… — o Tomás engoliu a última palavra. — Eu participei!
O Martim tirou o telemóvel e pôs a gravação.
— Primeiro, a canção de chaleira. É para… acalmar.
O assobio em Ré menor encheu o ar. A cometa ficou mais quieta por um segundo.
— Oh — disse ela. — Isso faz cócegas ao contrário. É… agradável.
O Rafa abriu o embrulho. O cheiro do bolo de canela subiu como um abraço.
A cometa aspirou o ar.
— EU SINTO! EU SINTO CHEIRO! COMO É QUE CHEIRO FUNCIONA NO ESPAÇO? Não interessa. EU SINTO!
O Tomás cortou uma fatia e colocou-a num prato. O Simão segurou o prato no alto, porque a cometa estava no céu e eles não tinham escadas até às estrelas.
— Podes… descer um bocadinho? — pediu o Simão. — Só… o suficiente para não partirmos o braço.
— POSSO! — disse a cometa. E desceu de repente, tão rápido que o Martim gritou:
— DEVAGAR! DEVAGAR! Há regras de aterragem!
A cometa travou. O vento fez um “puf”. O cabelo do Tomás levantou-se todo, como se tivesse levado um susto elétrico.
— Desculpa — disse a cometa, num tom mais pequeno. — Eu esqueço-me de… dosar.
O Rafa aproveitou:
— Temos uma coisa importante. Uma promessa.
Os quatro repetiram a promessa de amizade, juntos, como um coro atrapalhado. A cada frase, a Cintilinha brilhava mais, até parecer um botão de luz quente.
A cometa olhou para eles, e a sua luz tremelicou, como se estivesse a aprender uma coisa nova.
— Vocês… ficam juntos mesmo quando… discordam?
— Especialmente quando discordamos — disse o Martim, e apontou para o bolo. — Olha para isto.
— Ei! — protestou o Tomás. — Ele está… rústico.
— Está vivo — completou o Simão. — Quase.
A cometa riu-se, e o riso foi como sinos a tropeçar.
— Eu nunca tive amigos — confessou ela. — Eu só passo. Eu brilho. Eu corro. Eu… não paro.
O Rafa estendeu a mão, como se pudesse tocar a luz.
— Podes parar agora. Só um bocadinho. Nós ajudamos.
A cometa aproximou-se do prato. A fatia de bolo levitou, puxada por uma brisa doce, e desapareceu num brilho.
— MMMM! — fez a cometa. — SABE A… CASA!
O Tomás sorriu, derrotado e feliz.
— Eu disse. Bolo é magia.
A cometa suspirou. Um suspiro de cometa é um vento manso que cheira a noite.
— Mas eu ainda não consigo dormir — disse ela, preocupada. — A minha cauda não pára de… pensar.
O Simão bateu na testa.
— Falta o “brilhozinho” a sério. A Cintilinha.
A pedrinha saltou para o ar e ficou a flutuar entre eles e a cometa, como um pirilampo corajoso.
— Olá, Cometa — disse a Cintilinha. — Eu sou pequena. Eu brilho. E eu sei um truque: para dormir, tens de guardar a tua luz num lugar seguro. Nem que seja por um instante.
— Guardar a luz? — repetiu a cometa, assustada. — Mas se eu guardo a luz… eu deixo de ser eu?
— Não — disse o Martim, firme. — É como fechar os olhos. Continuas a ser tu. Só descansas.
O Rafa acrescentou:
— E depois abres outra vez. Mais brilhante.
A cometa hesitou, tremendo.
— E se eu apagar… para sempre?
O Tomás deu um passo à frente.
— Então nós lembramos-te. Nós… fazemos-te rir outra vez. E damos-te bolo. Sempre dá para recomeçar com bolo.
— Isso não é um plano científico — murmurou o Martim.
— É um plano delicioso — respondeu o Tomás.
A cometa soltou uma risadinha.
— Está bem. Mas… como?
A Cintilinha brilhou com força e disse:
— Encosta-te a nós. Não com o corpo, que tu és… céu. Encosta-te com a atenção. Ouve a canção. Sente o cheiro. Segura a promessa. E deixa o brilho pequenino guiar-te… para dentro.
A cometa fechou a sua luz um bocadinho. O ar ficou mais escuro, como se o mundo prendesse a respiração.
Capítulo 6 — O Sono Mais Difícil do Universo
A cometa tentou. Mesmo tentou. Mas a excitação dela era teimosa como um balão preso a um gato.
— Eu estou a quase dormir! — disse ela, e logo a seguir: — NÃO, ESPERA, EU LEMBREI-ME DE UMA COISA! E SE EU DER UMA VOLTA À LUA SÓ PARA DESCONTRAIR?
— Isso é o oposto de descontração — disse o Martim, com a calma de quem está a segurar um castelo de cartas durante um vendaval.
O Simão teve uma ideia.
— Precisamos de um ritual. Tipo… uma rotina. Rotina funciona com crianças e, às vezes, com adultos. Talvez funcione com cometas.
O Tomás apontou para o bolo.
— Rotina: uma fatia antes de dormir.
— Isso é a tua rotina pessoal — disse o Rafa.
— E é uma rotina excelente.
A Cintilinha falou:
— Cometa, escolhe três coisas para fazer sempre que quiseres dormir. Três. Nem mais. Se forem muitas, ficas animada.
A cometa pensou. A cauda dela ondulou, desenhando laços de luz no ar.
— Três coisas… Certo. Um: ouvir a canção da chaleira. Dois: imaginar o cheiro de bolo. Três: lembrar-me da promessa de amizade.
— E eu? — perguntou a Cintilinha, ofendida de brincadeira.
— Quatro! — disparou a cometa.
— Três — insistiu a Cintilinha, brilhando com autoridade.
A cometa fez bico. Sim, cometas podem fazer bico. A astronomia não explica, mas a vida também não.
— Está bem. A Cintilinha entra no três — decidiu ela. — “Lembrar-me da promessa… e do brilhozinho que prova que é verdade.”
— Melhor — disse o Martim.
O Rafa pôs o telemóvel a tocar de novo. O assobio triste e doce encheu o quintal. O Tomás partiu outra fatia de bolo e deixou o cheiro subir, generoso, como se o forno ainda estivesse aberto.
Os quatro ficaram em silêncio, mas um silêncio vivo, cheio de presença. Como se dissessem “estamos aqui” sem usar palavras.
A cometa começou a diminuir o brilho. Lentamente. Um bocadinho de cada vez. Como uma lâmpada que aprende a ser vela.
— Eu… — murmurou ela. — Eu sinto-me… pesada.
— Isso é bom — disse o Simão. — Significa que estás a pousar por dentro.
— Eu estou a… a escorregar… — A voz dela ficou mais baixa. — O céu está… fofinho.
O Tomás, num sussurro, disse:
— O céu é tipo merengue, quando está bem batido.
O Martim ia corrigir (“não é”), mas resolveu não estragar o momento.
A cometa soltou um bocejo enorme. Foi tão grande que uma nuvem mudou de forma de susto.
— BOCEJO! EU FIZ UM BOCEJO! — disse ela, orgulhosa.
— Não grites — pediu o Rafa, a rir baixinho. — Bocejo é secreto.
— Desculpa… — sussurrou a cometa. — É que… eu nunca… bocejei antes.
A Cintilinha aproximou-se do brilho dela, como uma amiga a arrumar um cobertor.
— Agora fecha os “olhos” do brilho. Só um pouco. Confia.
E a cometa confiou. A cauda abrandou. O ziguezague virou linha. A linha virou pausa.
O quintal ficou escuro, mas não assustador. Um escuro macio, como quando se apaga a luz e ainda se sabe onde está a cama.
— Boa noite — disseram os quatro, ao mesmo tempo.
A cometa respondeu, tão baixinho que quase não se ouviu:
— Boa… noi…
E adormeceu.
No céu, ficou um rasto suave, como um suspiro desenhado.
Capítulo 7 — A Estrela que Brilha
Passaram alguns minutos. O Tomás não se mexia, com medo de acordar o universo. O Martim contava mentalmente, só para sentir que tinha controlo sobre alguma coisa. O Rafa desenhava com o dedo na manta, como se pudesse guardar aquele momento num caderno invisível. O Simão olhava para a Cintilinha, fascinado.
— Conseguimos? — sussurrou o Simão.
A Cintilinha brilhava pouco, mas firme.
— Conseguiram. Ela está a dormir. E não foi pela canção, nem pelo bolo. Foi… por vocês.
O Tomás tossiu baixinho.
— Foi um bocadinho pelo bolo.
— Um bocadinho — concordou a Cintilinha, divertida.
De repente, no céu, um ponto acendeu-se. Não era a cometa. Era uma estrela pequenina, muito nítida, como um botão de luz preso na noite.
A Cintilinha apontou:
— Estão a ver? Quando uma cometa dorme, o céu agradece. E às vezes… acende uma estrela.
O Martim engoliu.
— Isso… é bonito.
— E prático — disse o Simão. — Assim sabemos que funcionou.
O Rafa sorriu.
— Parece que o céu nos fez um “obrigado”.
O Tomás olhou para a estrela e depois para os amigos.
— E nós… fizemos uma cometa bocejar. Eu vou contar isto para sempre.
— Ninguém vai acreditar — disse o Martim.
— Não interessa — respondeu o Rafa. — Nós acreditamos.
A estrela brilhou um pouco mais, como se tivesse ouvido. E no silêncio do quintal, os quatro rapazes sentiram uma coisa simples e enorme: amizade é uma espécie de magia doméstica. Não faz faíscas dramáticas. Faz luz que fica.
A Cintilinha bocejou (sim, pedrinhas também bocejam, quando estão inspiradas).
— Agora… vocês também deviam dormir.
O Tomás segurou o embrulho do bolo, com o resto das fatias.
— Uma última pergunta — sussurrou ele. — A cometa vai acordar… com fome?
A Cintilinha riu, brilhando de mansinho.
— Provavelmente.
O Tomás sorriu no escuro, já a planear.
— Então amanhã fazemos outro bolo. Pelo cosmos. E pela amizade.
No céu, a estrela continuou a brilhar. Como uma luz de presença. Como um segredo bom, guardado entre quatro amigos e uma cometa finalmente sossegada.