Capítulo 1 — A Lua a Escorregar
A lua daquela noite não estava no lugar certo. Não era poesia. Era mesmo um problema de manutenção.
Em vez de ficar alta e redonda, ela pendia por cima do bairro como uma roda mal apertada. Inclinada. Torta. A cada rajada de vento, fazia “nhéc” no céu, como uma prateleira a ceder.
Rita reparou primeiro, porque a Rita reparava em tudo — nas nuvens com forma de torrada, nos gatos que piscavam um olho de cada vez, nas coisas que não deviam chiar.
— Estão a ver aquilo? — sussurrou, apontando com o queixo para o céu.
Tomás, que estava a tentar bater um recorde pessoal de mastigar pastilha sem fazer barulho (falhou logo), olhou.
— Uau. A lua está… a fazer cosplay de escorrega.
Leo ergueu o binóculo do avô, aquele que cheirava a couro e aventuras antigas.
— Confirmo: a lua está inclinada aproximadamente “ai, que se vai partir”.
Um “plim” agudo caiu do céu e aterrou no passeio, mesmo ao lado do chinelo esquerdo do Tomás. Era um prego brilhante, com um pequeno laço de luz no topo, como se tivesse sido embrulhado por um duende muito organizado.
— Isto não é meu — disse Tomás, ofendido. — Eu só perco moedas e dignidade.
Rita apanhou o prego com cuidado. Estava morno. E tremia um bocadinho, como se tivesse medo de alturas… apesar de ter acabado de cair de uma altura impossível.
No mesmo instante, uma porta surgiu na parede da mercearia do senhor Aníbal. Uma porta que não estava lá há dois segundos. Tinha uma maçaneta em forma de estrela e um aviso escrito à pressa:
“MANUTENÇÃO CELESTE — ENTRADA SÓ PARA QUEM NÃO ENTRA EM PÂNICO.”
Tomás leu em voz alta e depois sorriu, porque o mundo era injusto.
— Pronto. Já entrámos em pânico, certo? Agora é tarde?
A maçaneta rodou sozinha. A porta abriu-se com o som de uma chaleira a suspirar.
Do outro lado, havia um corredor de céu, com azulejos feitos de nuvens comprimidas e candeeiros que eram… pirilampos sindicalizados.
Uma voz cansada veio de lá:
— Quem é que deixou cair o Prego de Prata? Isso é material oficial! Está tudo a descair!
Leo engoliu em seco, mas endireitou-se. Ele fazia isso quando tinha medo: fingia que tinha sido planeado.
— Olá… nós encontrámos isto. — mostrou o prego.
A voz aproximou-se. Apareceu uma mulher baixa, de capa azul cheia de manchas de giz, cabelo preso com uma pena e um cinto de ferramentas que tilintava.
— Ah, ótimo. Muito bem. Vocês são… — olhou para eles como quem confere um mapa que foi desenhado por um peixe. — Crianças.
— Preferimos “pré-adolescentes” — corrigiu Rita, digna.
A mulher suspirou.
— Eu sou a Mestre Selene, Inspetora Substituta da Fixação Lunar e… — olhou para cima, como se sentisse a lua a resmungar — hoje o meu objetivo do dia é calar uma lua bancale. Sim, “calar”. Porque ela não para de ranger. E não, não tenho tempo. Vocês têm mãos, olhos e aquela coragem esquisita que só aparece quando alguém diz “não façam isso”. Vêm?
Tomás apontou para si mesmo.
— A senhora está a recrutar-nos? Assim, sem formulário? Nem uma entrevista?
— Entrevista: conseguem andar sem gritar?
Leo levantou a mão.
— Eu consigo… com gritos internos.
— Serve. Entrem antes que a porta se arrependa.
E os três entraram, porque a lua estava a escorregar, e havia coisas que simplesmente não se deixam cair — nem no céu.
Capítulo 2 — A Oficina do Céu e um Manual Que Morde
O corredor terminou numa oficina enorme, montada em cima de um telhado invisível. O chão era firme, mas tinha um ligeiro brilho de leite derramado. Havia escadas que subiam para lugar nenhum e voltavam com novidades. E, pendurado no centro, um modelo do sistema lunar feito de engrenagens que rodavam com teimosia.
A Mestre Selene apontou para um quadro cheio de rabiscos.
— Situação: a lua soltou um dos suportes. Resultado: fica bancale e canta “crrrr” nas noites ventosas. Problema extra: se cair mais um bocadinho, vai bater na antena do senhor Artur e ele vai começar a captar rádios de Marte. Ninguém quer isso. Marte tem música estranha.
Tomás, que tinha uma relação complicada com antenas (uma vez colou a dela com fita-cola e um clipe), assentiu com gravidade.
— Concordo. Marte deve ficar com a sua música.
Rita aproximou-se do modelo.
— Então precisamos de… um prego. O Prego de Prata.
— E de um calço — acrescentou Selene. — Uma coisa simples, robusta e um pouco… improvável. Como uma cunha. Mas mágica. Só que a magia aqui é baixa, do quotidiano. Nada de explosões épicas. Mais do género “a chaleira ferve no momento certo”.
Leo examinou uma prateleira. Havia caixas etiquetadas: “Brilhos”, “Sussurros”, “Lembretes”, “Chaves que abrem coisas que deviam ficar fechadas”.
— Isto parece o armazém de um sonho organizado por alguém com mania.
— Obrigada — disse Selene, sem saber se era elogio. — Agora, preciso que leiam o Manual de Fixação Lunar. Está ali.
O manual era grosso, com capa de couro e um fecho metálico. Parecia um livro que tinha opinião própria.
Tomás puxou-o. O livro puxou de volta.
— O livro… mordeu-me.
— Ele faz isso — disse Selene. — É para garantir atenção.
Rita abriu o fecho com o prego brilhante. O manual abriu-se sozinho e folheou páginas com impaciência, parando numa que dizia:
“PARA CALAR UMA LUA BANCALE:
1) Encontrar o PONTO DE EQUILÍBRIO (não confundir com “ponto de gelado”).
2) Escolher um CALÇO ADEQUADO (não usar meias, por mais confortáveis que sejam).
3) APLICAR O PREGO DE PRATA COM UMA FRASE DE CONFIRMAÇÃO.”
Tomás levantou o sobrolho.
— Uma frase? Tipo… “pronto, fica aí”?
O manual virou a página sozinho e mostrou: “NÃO.”
Leo riu-se.
— Deve ser uma frase especial. Um encantamento.
— Encantamento, sim, mas do tamanho certo — disse Selene. — Nada de latim, por favor. O latim dá alergia aos candeeiros.
Rita leu mais.
— O calço pode ser… “um objeto do quotidiano que saiba ser útil”. Isso é… vago.
Selene apontou para uma caixa.
— “Objetos Dispostos a Ajudar”. Escolham um. Mas cuidado. Alguns têm… personalidade.
Tomás meteu a mão na caixa como quem procura bolachas. Tirou uma escova de dentes.
— Esta serve? É firme.
A escova de dentes sacudiu-se indignada e cuspiu pasta de menta no ar, formando um coração agressivo.
— Ok, ela tem planos próprios.
Leo tirou uma colher. A colher fez uma vénia.
— Esta é educada.
Rita tirou um apagador de quadro, daqueles antigos. Estava gasto, mas parecia sólido. Ao tocá-lo, apareceu uma pequena etiqueta na madeira: “APAGADOR VALENTE — NÃO TEM MEDO DE NADA, EXCETO DE FARELO DE BOLACHA.”
— Este — disse Rita. — Parece… confiável.
Selene aprovou.
— Muito bem. Um calço que apaga. Útil para… apagar rangidos.
Tomás aproximou-se do modelo lunar.
— E o ponto de equilíbrio? Como se encontra uma coisa dessas no céu?
Selene entregou-lhes uma ferramenta parecida com um nível de bolha, mas a bolha era uma estrela minúscula, a boiar num líquido azul.
— Isto é um Nível Estelar. Colocam-no perto da lua. Quando a estrelinha fica no meio, vocês estão no ponto certo. Não deixem cair. Se cair, temos de pedir desculpa ao firmamento. E ele guarda rancor.
Rita pegou no nível com cuidado.
— Então vamos… ao céu?
Selene abriu uma gaveta e tirou três capacetes.
— Não exatamente ao céu. À parte de trás dele. É onde ficam os parafusos. Ponham isto. E, por favor, sem piadas sobre “cabeças de lua”. A lua já está sensível.
Tomás colocou o capacete e a viseira desceu sozinha.
— Isto faz-me parecer um… astronauta de feira.
— Um astronauta de feira pode salvar a noite — disse Selene. — Vamos lá antes que a lua decida fazer uma cambalhota.
Capítulo 3 — A Escada de Nuvens e o Gato Fiscal
Saíram por uma porta redonda e, de repente, estavam num beco atrás do céu. Literalmente: uma parede de azul escuro, com costuras de estrelas, como um tecido puxado demais.
Uma escada de nuvens estava encostada ali, fofa e desconfiada.
— Subam — ordenou Selene. — Um de cada vez. E não pensem em queda. As nuvens são sensíveis.
Tomás subiu primeiro, porque tinha a coragem de quem não calcula bem. A nuvem rangeu, mas aguentou.
— Está tudo bem! — gritou. — Isto é como subir ao beliche… só que com o universo em baixo.
— Não digas “em baixo” — disse Rita, subindo com passos curtos. — Diz “atrás”.
Leo foi o último. Olhou para o chão, viu o beco a afastar-se e decidiu concentrar-se no cheiro de algodão doce que as nuvens tinham, por alguma razão.
A meio da escada, um miado cortou o ar.
Um gato surgiu numa nuvem ao lado, sentado como se fosse dono do espaço. Tinha uma coleira com uma placa: “FISCAL NOTURNO”. Os olhos eram dois faróis de julgamento.
— Miau — disse ele, num tom que significava “documentos”.
Selene bufou.
— Outra vez, Senhor Bigodes. Estamos em missão oficial.
O gato estendeu a pata. Não era um pedido. Era um carimbo invisível.
Tomás, sempre útil quando não devia, tirou do bolso um bilhete de autocarro dobrado.
— Serve?
O gato cheirou o bilhete e fez cara de nojo.
Rita aproximou o Nível Estelar, tentando parecer séria. A estrelinha dentro da bolha tremelicou.
— Temos autorização da… Inspetora Substituta da Fixação Lunar.
O gato olhou para Selene. Selene olhou de volta. Foi um duelo silencioso entre autoridade e felinidade.
Por fim, o gato bocejou, que era o equivalente cósmico de “vá lá, mas com má vontade”. Saltou para o lado e desapareceu.
Leo soltou o ar.
— Quase fomos multados por… existir.
— Acontece — disse Selene. — Continuem.
Chegaram ao topo da escada e o mundo mudou de textura. O ar era mais frio e fazia um som baixinho, como páginas a virar. Ali, as estrelas estavam presas em pequenos ganchos, e algumas tinham etiquetas: “NÃO TOCAR — BRILHO RECENTE”.
A lua estava perto. Muito perto. E sim, estava mesmo bancale, apoiada num suporte torto que parecia uma colher demasiado usada.
Ela fazia “crrrr… crrr…” como um carrinho de supermercado com uma roda birrenta.
Tomás tapou os ouvidos.
— Estou a sentir empatia por carrinhos.
Selene apontou para o suporte.
— Vejam aquilo. O encaixe soltou. Precisamos de meter o calço aqui, no lado que cede, e depois fixar com o prego no ponto certo.
Rita aproximou o Nível Estelar do suporte. A estrelinha andava de um lado para o outro, inquieta.
— Está a fugir! — disse ela.
— A lua mexe-se — explicou Selene. — Ela tem… vontade. Não gosta que mexam nela. É como cortar o cabelo a um leão que acha que já está perfeito.
Leo segurou o apagador valente.
— Então como fazemos com que ela pare?
Selene abriu o cinto de ferramentas e tirou um pequeno sino.
— Com isto. É o Sino do “Ora Vamos Lá”. Não manda. Convence.
Ela tocou o sino: “tilim”.
A lua pareceu ouvir. O rangido baixou um pouco, como se dissesse “hm”.
Tomás sorriu.
— Ela está a negociar.
Rita viu a estrelinha do nível aproximar-se do centro.
— Agora! Está quase… quase…
Nesse instante, uma brisa passou e a lua inclinou-se mais, decidida a testar a paciência de todos. Um brilho caiu: pó lunar, como farinha.
Tomás espirrou.
— Atchim! Desculpa, lua!
A lua respondeu com um “crrrr” ainda mais irritado.
Selene fechou o sino.
— Menos alergias, mais foco. Rita, marca o ponto. Leo, prepara o calço. Tomás… não inventes.
Tomás levantou as mãos, inocente.
— Eu? Inventar? Jamais.
Foi aí que a lua soltou um estalido e desceu um palmo.
— Ai! — gritou Leo. — Ela está a cair!
Selene arregalou os olhos.
— Então vão ter de calá-la depressa. Antes que ela decida visitar o telhado do senhor Aníbal.
Capítulo 4 — O Calço que Apaga Rangidos (E Algumas Vergonhas)
Rita encostou o Nível Estelar ao suporte. A estrelinha dançou e, por um segundo, ficou mesmo no meio, como se tivesse encontrado o seu lugar no mundo.
— Agora! Aqui!
Leo enfiou o apagador valente na fenda do suporte, com cuidado, como quem mete uma cunha numa porta para não bater. O apagador encaixou e, por um instante, ouviu-se um “puf”, como um suspiro aliviado.
O rangido diminuiu. Não parou. Mas ficou mais baixo, como uma pessoa a reclamar em voz de biblioteca.
— Está a resultar! — disse Leo, com um sorriso que lhe subiu às orelhas.
Selene entregou o Prego de Prata a Rita.
— Agora, o prego. No ponto. E a frase de confirmação. Não inventem… muito.
Tomás pigarreou, animado.
— Eu tenho uma sugestão de frase.
— Não — disseram Rita e Leo ao mesmo tempo.
Tomás ofendeu-se.
— Está bem, está bem. Eu só ia dizer “Lua, por favor, não faças asneiras”. É educado.
Rita respirou fundo, segurou o prego e procurou o buraco certo no suporte. O metal brilhava, como se quisesse ser útil.
Ela encostou o prego… e o suporte mexeu-se, como se tivesse cócegas.
— A sério? — murmurou Rita. — Até os suportes têm humor.
Selene ergueu o sino e tocou de leve: “tilim”. O suporte parou de brincar.
Rita bateu com a palma da mão no topo do prego. Não era um martelo, mas funcionou. “Toc”. O prego entrou um pouco. “Toc.” Mais um pouco.
No terceiro “toc”, a lua fez um som estranho, meio “hmph”.
Tomás olhou em volta e viu, pendurada num gancho, uma pequena placa de metal com letras: “FRASES RECOMENDADAS”. Claro que havia.
Ele leu rápido.
— “Fica firme, fica fina, lua não se inclina.” — disse ele, triunfante. — Rima!
Selene fez uma careta.
— Isso foi escrito por um estagiário. Mas… serve.
Rita, com o prego quase no sítio, disse a frase em voz firme:
— Fica firme, fica fina, lua não se inclina.
O ar vibrou como uma corda de guitarra. O prego brilhou, o apagador valente fez “hummm” de satisfação, e o rangido desapareceu — como se alguém tivesse apagado o som com uma borracha gigante.
A lua endireitou-se lentamente. Não perfeita, mas estável. Como uma bicicleta depois de apertar o selim.
Leo suspirou, aliviado.
— Conseguimos.
Tomás levantou os braços.
— Salvámos a noite! Alguém devia dar-nos… medalhas. Ou, no mínimo, bolachas.
Nesse momento, um jato de pó lunar caiu e pousou no cabelo de Tomás, deixando-o com uma risca brilhante no meio. Parecia que a lua lhe tinha desenhado uma sobrancelha extra na testa.
Rita riu-se.
— Olha, recebeste… glitter cósmico.
Tomás tentou soprar o pó. O pó brilhou mais.
— Isto vai sair com champô?
Selene olhou para ele, séria.
— Eventualmente. Talvez. Se o champô for humilde.
A lua, agora firme, parecia mais silenciosa. Quase satisfeita. E, por um instante, uma nuvem passou na frente dela e fez a lua parecer que piscava.
Leo apontou.
— Ela… agradeceu?
— A lua não agradece — disse Selene. — A lua tolera. É o máximo de carinho que ela dá.
Rita guardou o Nível Estelar.
— E agora? Descemos?
Selene olhou para o suporte, conferiu o prego, deu um puxão leve no apagador valente.
— Missão quase concluída. Falta o mais importante: confirmar que não deixámos nada solto. No céu, uma coisa solta vira lenda. E lendas dão trabalho.
Tomás pigarreou.
— Eu não deixei nada solto. Só… a minha dignidade, mas essa já estava frouxa.
Selene não conseguiu evitar um sorriso.
— Vamos fazer a ronda. E depois… sim. Um adeus como deve ser.
Capítulo 5 — O Mal-entendido do Sino e a Corrida Atrás do Brilho
A ronda parecia simples: olhar, apertar, confirmar. No céu, “simples” é uma palavra que entra com casaco e sai só de meias.
Selene tocou o Sino do “Ora Vamos Lá” outra vez, para testar se ainda funcionava. “Tilim”.
Imediatamente, três estrelas próximas soltaram-se dos ganchos e começaram a flutuar atrás deles, curiosas como patos.
— Ops — disse Selene. — Não era para chamar a equipa de luz.
As estrelas rodopiavam em volta da cabeça do Tomás. Ele ficou com ar de herói de desenho animado que levou uma panela na cabeça.
— Eu acho que elas gostam de mim — disse, a tentar manter a pose enquanto uma estrela lhe fazia cócegas na orelha.
Rita estendeu a mão, devagar.
— Estrelas, voltem para os vossos ganchos. Por favor.
Uma das estrelas pousou na palma dela, quente e leve como uma pedra ao sol. A estrela brilhou mais forte quando Rita sorriu.
Leo, sempre observador, apontou para o suporte da lua.
— Esperem… o apagador valente está a deslizar.
O calço tinha começado a escorregar, milímetro a milímetro, como se estivesse a apanhar confiança. A lua manteve-se firme, mas o apagador parecia querer… aventura.
— Ei! — disse Tomás. — O calço está a fugir!
Selene correu até lá.
— Apagador valente! Fica!
O apagador, muito valente, decidiu provar que “valente” também pode significar “teimoso”. Saltou para fora e caiu… não para baixo, mas para lado nenhum, desaparecendo numa dobra escura atrás do céu.
O rangido voltou, baixinho. “crrr…”
Rita arregalou os olhos.
— Sem o calço, o prego aguenta?
Selene mordeu o lábio.
— Aguenta por algum tempo. Mas a lua vai voltar a inclinar. Precisamos do calço. Agora.
Tomás apontou para a dobra escura.
— Então vamos buscá-lo.
Leo hesitou.
— Isso parece… um sítio onde se perdem meias e sinais de Wi-Fi.
Selene assentiu.
— É a Fenda dos Esquecidos. Onde vão parar coisas que escapam do lugar. Muito comum em casas com sofás.
Rita respirou fundo.
— Ok. Problema. Solução: recuperar o calço.
Tomás já estava a aproximar-se da fenda, curioso como um gato sem fiscal.
— Eu vou à frente.
— Não vais — disse Selene, agarrando-o pelo capacete com dois dedos. — Vocês vão juntos. E vão usar isto.
Ela tirou do cinto um rolo de fio dourado.
— Fio de Regresso. Para não se perderem. Não puxem com força, senão ele fica ofendido e vira laço de presente.
Selene amarrou o fio aos três, como se fossem uma equipa de escalada, mas com mais potencial para discussões.
— Lembrem-se: na Fenda, as coisas estão… baralhadas. Se virem uma coisa absurda, não a julguem. Apenas digam “olá” e passem.
Tomás sorriu.
— Isso é a minha filosofia de vida.
Eles entraram na fenda e o mundo mudou para um lugar de sombras suaves, cheirando a poeira e a segredos domésticos. Havia montes de objetos: tampas de caneta, brincos perdidos, um comando de televisão com saudades, e até uma meia solitária que parecia meditar.
De repente, ouviram um “puf” e um “rasp-rasp”.
O apagador valente estava ali, encostado a uma pilha de cadernos esquecidos, a tentar apagar… palavras que apareciam no ar sozinhas.
As palavras diziam coisas embaraçosas, como:
“EU COMI O ÚLTIMO IOGURTE.”
“EU DISSE QUE TINHA ACABADO O TPC, MAS…”
“EU FINGI QUE NÃO GOSTAVA DE AQUELA MÚSICA.”
Rita corou.
— Isto são… confissões?
Leo engoliu em seco.
— Parece o sítio onde os pequenos mentiricos vão parar.
Tomás aproximou-se de uma frase que surgiu bem à frente dele:
“EU QUEBREI O VASO E CULPEI O VENTO.”
Tomás apontou, culpado.
— Eu não sabia que isso vinha parar aqui!
O apagador valente apagava as frases com vontade, mas cada vez que apagava uma, surgiam duas novas.
Selene, do lado de fora (a voz vinha pelo fio, como um telefone de lata cósmico), chamou:
— Encontrem o calço e saiam! A lua não espera por terapia emocional!
Rita pegou no apagador com firmeza.
— Desculpa, apagador. Precisamos de ti lá fora. Estas palavras… podem ficar aqui um bocadinho. Não é o fim do mundo.
O apagador tremeu, como se estivesse a decidir. Depois fez um “tap” no ar, apagando uma última frase, e deixou-se pegar.
Leo puxou o fio com cuidado.
— Vamos. Antes que apareça alguma confissão minha sobre… colecionar pedras.
Tomás olhou para trás, para as frases a surgirem.
— Eu sinto que devia… pedir desculpa ao vento.
— Pede depois — disse Rita. — Agora, missão.
Eles saíram da fenda com o apagador valente ao colo, como se fosse um animal teimoso resgatado de uma árvore.
Selene esperava, braços cruzados.
— Demoraram.
Tomás apontou para a fenda.
— Lá dentro há… palavras. Que aparecem.
Selene encolheu os ombros.
— Sim. O céu também guarda coisas que as pessoas deixam cair por dentro. Agora, calço no sítio. Depressa.
Capítulo 6 — A Cunha, a Frase e um Adeus Luminoso
De volta ao suporte lunar, o rangido estava mais alto. A lua inclinava-se de novo, como se estivesse a testar se alguém estava a prestar atenção.
— Está a fazer birra — disse Leo.
— Está a pedir manutenção com drama — corrigiu Selene.
Rita colocou o Nível Estelar. A estrelinha corria, mas Rita já conhecia o truque: respirou devagar, esperou o vento acalmar, e tocou no suporte com a ponta dos dedos, como quem acalma um cavalo nervoso.
A estrelinha parou no centro.
— Aqui.
Leo enfiou o apagador valente na fenda. Desta vez, o apagador ficou. Bem encaixado. Como se tivesse percebido que havia trabalho sério a fazer.
Selene verificou o Prego de Prata.
— O prego continua firme. Ótimo. Agora, repetimos a frase. Para selar. E nada de inventar outra rima pior.
Tomás abriu a boca. Pensou melhor. Fechou.
Rita, Leo e Tomás disseram juntos, em coro meio desafinado, mas sincero:
— Fica firme, fica fina, lua não se inclina.
O ar vibrou de novo, mais suave. O rangido apagou-se por completo. A lua endireitou-se, segura, como se tivesse finalmente encontrado a posição perfeita para olhar o mundo sem torcer o pescoço.
As estrelas que tinham seguido Tomás voltaram aos ganchos, satisfeitas, como pássaros a regressar ao ninho.
Selene soltou um longo suspiro, daqueles que parecem arrumar o peito por dentro.
— Feito. Calámos a lua bancale. E ninguém caiu. Isto é, sinceramente, um dia excelente.
Tomás levantou a mão.
— E as confissões na fenda?
— Continuam lá — disse Selene. — E isso é saudável. Nem tudo precisa de ser dito em voz alta. Algumas coisas precisam apenas de ser… aprendidas.
Rita olhou para a lua, agora brilhante e estável.
— Ela parece mais… contente.
Selene assentiu, séria e gentil.
— A lua é como muita coisa na vida: quando está torta, faz barulho. Quando está no lugar, ilumina.
Leo sorriu, como se guardasse aquela frase num bolso.
A escada de nuvens apareceu ao lado, como se tivesse ouvido o fim da missão e voltasse para os créditos finais.
Desceram com cuidado. O beco atrás do céu pareceu menos estranho agora, como se fosse só mais uma rua secreta do bairro.
Antes de irem embora, Selene parou junto da porta mágica, que já começava a parecer uma porta normal.
— Vocês fizeram bem. Viram um problema, não fingiram que era “só imaginação”, e procuraram solução. Isso é magia do quotidiano. A única que realmente conta.
Tomás coçou a testa ainda brilhante.
— E o glitter cósmico?
— Bónus — disse Selene. — Lembra-te de que, às vezes, ajudar deixa marca. Nem sempre sai com champô. Mas vale a pena.
Rita acenou.
— Vamos voltar amanhã? Para… apertar estrelas? Ou calçar o sol?
Selene riu-se, um riso curto e quente.
— Não. Amanhã eu quero dormir. E vocês têm escola. A aventura deve caber na vida, não esmagá-la.
Leo olhou para a lua mais uma vez. Ela estava alta, redonda, firme. Um farol silencioso.
Selene abriu a porta.
— Agora, vão. E digam adeus como deve ser. O céu gosta de despedidas educadas.
Os três olharam para cima. Rita levantou a mão.
— Adeus, lua.
— Adeus — disse Leo, com voz calma.
Tomás fez uma pequena vénia.
— Adeus, senhora Lua. Fique… bem apertada.
A lua brilhou um pouco mais, como resposta. Não era um “obrigada”, porque a lua não fazia essas coisas. Era um adeus luminoso, simples e claro, a despejar prata no mundo.
E os três voltaram para casa com passos leves, como quem sabe que, lá em cima, até as coisas grandes podem precisar de um pequeno calço — e de alguém que não tenha medo de tentar.