Parte 1: O Mistério do Botão que Assobiava
A Clara tinha 5 anos e gostava de fazer tudo direitinho. Direitinho mesmo. Alinhava os lápis por tamanho, contava as bolachas antes de as comer (só para confirmar que estavam a portar-se bem) e dobrava as meias como se fossem pequenos envelopes.
Nessa manhã, ela estava a organizar a sua caixinha de tesouros: um berlinde azul, uma pena laranja, um autocolante de um dinossauro a sorrir e… um botão amarelo que ela não se lembrava de ter.
— Hum… botão? — Clara pegou nele com cuidado, como quem pega num segredo.
O botão era redondo, brilhante e tinha quatro buraquinhos que pareciam olhinhos. Quando ela o encostou ao ouvido, o botão fez uma coisa muito estranha:
— Fiu-fiu-fiu!
Clara piscou.
— Tu… assobias?
O botão assobiou outra vez, como se respondesse:
— Fiu-fiu!
A Clara, que era minuciosa, fez logo uma lista na cabeça:
“1) Botões não assobiam. 2) Este assobia. 3) Logo, este não é um botão normal.”
Ela pôs o botão em cima da mesa. De repente, uma sombra apareceu na parede. Não era a sombra da Clara. Era mais comprida, com um chapéu pontudo e pés que pareciam duas colheres.
A sombra mexeu-se sozinha. Fez um aceno. E depois… apontou para a janela.
— Ei! Volta aqui! — disse a Clara, com voz de quem quer saber o porquê das coisas.
A sombra escorregou pela parede como manteiga no pão quente e desapareceu pela cortina. O botão, muito atrevido, deu um saltinho na mesa.
— Fiu!
— Está bem, está bem… eu vou. Mas com regras! — Clara endireitou o laço do cabelo. — Primeiro: sapatos. Segundo: casaco. Terceiro: dizer à mamã… bem, talvez depois do quarto passo.
Ela calçou os ténis, vestiu o casaco e foi até à janela. Lá fora, o céu parecia normal… até que um pedacinho de nuvem desceu, mesmo devagarinho, como um elevador fofo.
A nuvem parou ao lado do parapeito. E tinha uma portinha.
Sim. Uma portinha.
Na portinha havia um tapete que dizia: “BEM-VINDA (limpa os pés, por favor)”.
Clara esfregou os ténis no tapete, porque era educada até com nuvens. E espreitou.
Lá dentro, a nuvem era… habitável. Havia chão feito de algodão firme, paredes de vapor brilhante e, no canto, uma mesa com uma jarra de arco-íris a fazer “ploc-ploc”.
A sombra do chapéu pontudo apareceu outra vez e começou a andar, toda contente, como quem diz “vem, vem, vem”.
— Eu só vou seguir se isto for lógico — avisou a Clara.
A sombra fez uma pirueta que parecia dizer “claro que é lógico”.
Clara respirou fundo. E entrou.
Parte 2: A Nuvem com Regras Engraçadas
Assim que Clara pôs os dois pés na nuvem, ouviu uma voz suave, como um travesseiro a contar uma piada:
— Bom dia! Atenção às regras da Nuvem Habitável número 7!
Uma placa apareceu do nada, pendurada em gotinhas:
“REGRA 1: Aqui, as palavras podem fazer cócegas.
REGRA 2: Não se pode correr. Só se pode… deslizar com estilo.
REGRA 3: Se vires um guarda-chuva a dormir, não o acordes. Ele ronca trovões.
REGRA 4: Sorrisos são obrigatórios, mas podem ser pequeninos.”
Clara leu tudo com cuidado, mexendo os lábios. Ela gostava muito de regras. As regras eram como linhas no caderno: ajudavam a não se perder.
A sombra andava à frente dela, deixando pegadas escuras no chão branco. Pegadas em forma de… banana.
— Pegadas de banana? Isso não é normal — murmurou Clara.
A sombra encolheu os ombros, como quem diz “aqui é”.
Clara tentou correr para a apanhar, mas lembrou-se da Regra 2. Então ela deslizou com estilo. Tentou deslizar “com estilo” e quase deslizou “com espalhafato”, mas manteve-se firme, porque era minuciosa.
Pelo caminho, viu coisas que pareciam ter saído de um cesto de roupa e de um livro de receitas ao mesmo tempo: uma cadeira feita de marshmallow, um relógio que marcava “hora do lanche” o dia inteiro, e um peixe de algodão que nadava no ar e dizia:
— Blub… bom dia… blub.
— Bom dia — respondeu Clara, educada.
A sombra parou ao lado de uma porta de nuvem, mais pequena, com um puxador em forma de colher.
Quando Clara chegou, a porta abriu-se sozinha e fez “plim!”, como um triângulo musical.
Dentro havia um corredor com espelhos. Só que os espelhos não mostravam o rosto da Clara. Mostravam… o seu cabelo com penteados diferentes: tranças, rabo de cavalo, cabelo com estrelas, cabelo com um ninho de passarinho (o passarinho dizia “piu” e parecia muito contente).
Clara ficou de boca aberta.
— Eu fico assim quando durmo? — perguntou.
A sombra apontou para um espelho no fim do corredor. Nesse espelho, aparecia a sombra com o chapéu pontudo… mas, agora, tinha uma etiqueta presa no chapéu. A etiqueta dizia: “PROCURADO: dono(a) da sombra”.
— Dono da sombra? — Clara coçou a cabeça. — As sombras têm donos?
A voz suave voltou:
— Às vezes, a sombra foge para fazer uma surpresa. Às vezes, ela perde-se. Às vezes, ela quer brincar ao “segue-me se fores cuidadosa”.
Clara endireitou o casaco.
— Eu sou cuidadosa.
A sombra fez um salto de alegria e correu… quer dizer, deslizou com estilo… para fora do corredor.
Clara seguiu, a deslizar, a deslizar, a deslizar, repetindo baixinho para não se esquecer:
— Com estilo, com estilo, com estilo.
E então aconteceu o mini-rebuliço número um: o chão da nuvem ficou cheio de bolinhas de sabão.
Plop! Plop! Plop!
As bolinhas saltavam e diziam “desculpa!” quando batiam na perna da Clara.
— Desculpa! — dizia uma.
— Desculpa! — dizia outra.
— Desculpaaaa! — dizia uma muito esticada.
— Não faz mal — disse Clara, tentando não rir, mas rindo.
A sombra estava do outro lado do mar de bolinhas. Ela acenava, como quem diz “vai, consegues”.
Clara pensou como uma menina minuciosa pensa: “Se eu pisar uma bolinha, escorrego. Se eu escorregar, caio. Se eu cair… caio numa nuvem. Isso é macio. Então não é grave. Mas é melhor não cair.”
Ela viu ao lado uma colher gigante esquecida (talvez da porta). Pegou nela como se fosse um remo e empurrou as bolinhas para abrir um caminho.
— Saiam, bolinhas! Com licença, bolinhas! — dizia ela, muito séria, como se estivesse a dirigir trânsito.
As bolinhas obedeceram, porque pareciam gostar de ser organizadas.
Quando Clara chegou à sombra, a sombra fez “ta-da!” e apontou para uma escada.
Uma escada que subia… para o meio da nuvem.
— Escadas para o meio do nada? — Clara arregalou os olhos. — Isto é muito estranho… mas é um estranho simpático.
E subiu.
Parte 3: O Chá das Sombras e o Grande Engano Engraçado
No topo da escada havia uma sala redonda, toda feita de neblina cheirosa a baunilha. No centro, uma mesinha baixa estava posta para chá. Havia chávenas minúsculas e uma jarra que soltava vapor em forma de corações.
E sentada na cadeira de marshmallow estava… uma sombra diferente. Esta tinha bigodes, mas bigodes tortos, como duas minhocas a fazer ioga.
A sombra dos bigodes levantou-se e fez uma vénia.
— Bem-vinda, Clara! — disse a voz suave, que agora vinha de um bule. Um bule que tinha uma cara desenhada e sobrancelhas muito expressivas.
— Um bule a falar… — Clara apertou o botão amarelo na mão. O botão respondeu:
— Fiu!
A sombra do chapéu pontudo apontou para Clara, depois para si mesma, depois para o bule, como se estivesse a explicar uma história sem palavras.
O bule falou:
— A tua sombra veio até aqui porque queria aprender um truque: o Truque da Sombra Engraçada. Só que… — o bule fez uma pausa dramática, mas uma pausa de marshmallow, bem fofinha — ela pôs este chapéu e ficou… diferente.
Clara olhou para a sombra com o chapéu pontudo.
— Tu és… a minha sombra?
A sombra acenou muito depressa. Tão depressa que quase se desfez em pedacinhos escuros e depois voltou a colar-se, como plasticina.
Clara pôs as mãos na cintura.
— Eu sabia que faltava alguma coisa… Eu estava a arrumar as meias e senti… um vazio atrás de mim.
A sombra dos bigodes soltou um “hmm” e apontou para um espelho. Clara olhou e viu: atrás dela, no chão da sala, não havia sombra nenhuma. Era como se os seus pés estivessem sozinhos num dia de sol.
Clara não ficou com medo. Ficou intrigada, como quando encontra uma peça de puzzle debaixo do sofá.
— Então foi por isso que a luz do meu quarto parecia… esquisita.
O bule continuou:
— A tua sombra quis fazer uma surpresa: uma dança para ti. Só que ela não sabia voltar sozinha. As sombras são boas a seguir, mas às vezes são péssimas a… regressar.
A sombra do chapéu pontudo baixou a cabeça, como uma criança apanhada a comer bolachas antes do jantar.
— Eu gosto de surpresas… mas gosto mais quando me avisam — disse Clara, com voz calma.
A sombra fez um gesto como quem diz “desculpa, desculpa, desculpa”, repetindo com as mãos.
O bule serviu chá. O chá fazia “tlim” quando caía na chávena.
— Este é chá de risos — explicou o bule. — Bebe só um golinho.
Clara deu um golinho. Sentiu cócegas na barriga e soltou uma gargalhada curtinha:
— Hi-hi!
A sombra do chapéu pontudo tentou imitar. Fez uma dança. Uma dança muito engraçada, porque sombras não têm joelhos, mas fingem que têm.
De repente, mini-reviravolta número dois: a sombra dos bigodes pegou no chapéu pontudo e colocou-o… no bule!
O bule ficou com chapéu e bigodes ao mesmo tempo. Parecia um bule disfarçado de mágico cansado.
— Ops! — disse o bule, com voz abafada debaixo do chapéu. — Agora eu sou o Mago Bule!
A sala inteira riu. Até as paredes de neblina tremiam, como gelatina.
Clara riu também, mas depois respirou e lembrou-se: “minuciosa”.
— Está bem. A piada foi boa. Agora precisamos resolver: como é que a minha sombra volta para mim?
O bule-mago tirou o chapéu e ficou sério-sereno.
— Simples. Precisas chamar a tua sombra pelo nome.
Clara piscou.
— A minha sombra tem nome?
A sombra do chapéu pontudo levantou a mão, como quem quer dizer “eu tenho, eu tenho!”
O bule explicou:
— Quando uma criança é muito cuidadosa, a sombra aprende um nome sozinha. Um nome que combina.
Clara pensou. A sombra dela era sempre certinha, seguia-a em todo o lado, nunca se atrasava… e hoje resolveu fazer traquinice.
— Então… o teu nome é… Sombrita? — tentou Clara.
A sombra fez cara de “quase”.
— Sombra Clara? — tentou de novo.
A sombra abanou a cabeça.
Clara olhou para o botão amarelo, que ainda assobiava baixinho, como um pássaro a aquecer a garganta.
— E se… o teu nome for Fiu-Fiu? — disse Clara, devagar.
A sombra saltou de alegria. Pegadas de banana apareceram no ar.
— Então é isso! — disse o bule. — Chama com carinho e com firmeza. Três vezes, para ficar bem colado.
Clara endireitou os ombros, como quando vai dizer uma coisa importante.
— Fiu-Fiu. Fiu-Fiu. Fiu-Fiu.
A sombra do chapéu pontudo brilhou um pouco, como se tivesse bebido um gole de luz. E começou a aproximar-se dos pés da Clara, como uma manta a voltar para a cama.
Parte 4: O Regresso Macio e a Dança Prometida
A sombra encostou-se aos pés da Clara e “ploc”. Ficou no lugar certo. Clara olhou para baixo e viu: agora tinha sombra outra vez. A sua sombra. Fiu-Fiu.
A sombra fez um pequeno aceno, como quem diz “prometo”.
O bule suspirou aliviado, soltando um vapor em forma de flor.
— Muito bem! — disse ele. — E agora, antes de ires, a regra final da Nuvem Habitável número 7: quem resolve um problema ganha uma coisa calma.
Uma gaveta apareceu na mesa e abriu-se. Dentro havia um pacote de “Soninhos de Algodão”. Pareciam biscoitos, mas cheiravam a almofada limpa.
— Isto é para quando estiveres a pensar demais — explicou o bule. — Um cheirinho e… o coração desacelera.
Clara pegou no pacote com cuidado.
— Obrigada, senhor Bule.
— Mago Bule — corrigiu ele, mas a sorrir.
A sombra dos bigodes fez uma vénia e ofereceu à Clara uma colher pequenina como lembrança.
A sombra Fiu-Fiu puxou de leve a mão da Clara, apontando para a saída. Era hora de voltar.
Elas desceram a escada, deslizaram com estilo pelo corredor dos espelhos (o espelho do ninho de passarinho agora mostrava o passarinho a dormir), passaram pelo mar de bolinhas de sabão (que agora faziam “boa viagem!”) e chegaram à portinha com o tapete.
Clara limpou os pés outra vez, por educação. A nuvem-elevador levou-a de volta à janela do seu quarto, devagarinho, como quem embala.
No quarto, tudo estava no lugar: os lápis alinhados, as meias dobradas, a caixinha de tesouros aberta. O botão amarelo, agora quieto, parecia só um botão. Mas Clara sabia.
Ela olhou para o chão. A sua sombra estava ali. Fiu-Fiu. Bem comportada… quase.
— Então, Fiu-Fiu — disse Clara, baixinho. — A dança surpresa… ainda está prometida?
A sombra fez um “sim” com o corpo inteiro. E começou uma dancinha pequena, simples, sem barulho, como um segredo feliz. Um passo para a esquerda, um passo para a direita, um rodopio que parecia um ponto final a rir.
Clara riu sem pressa, sentou-se na cama e abriu o pacote de Soninhos de Algodão. Cheirou. Era como cheirar uma nuvem que gosta de boas maneiras.
O quarto ficou mais silencioso, mais macio. A sombra, agora no lugar certo, balançava devagar como uma cortina com vento leve.
— Amanhã arrumamos a caixinha de tesouros — murmurou Clara, com voz doce. — Hoje… só vamos estar.
A sombra concordou, quietinha.
E o mundo, mesmo com nuvens com portas e bules com bigodes, ficou calmo, quentinho e certo.