Capítulo 1 — O achado amarelo
Havia um guarda-chuva pequeno e amarelo que gostava de passear quando não chovia. Ele andava com passos curtos e cantava baixinho: "Gira, gira, guarda chuva!" Um dia, ao passar pela praça, encontrou algo curioso no banco. Era um caderninho, todo dobradinho, com páginas que faziam zig-zag como um rio que gosta de brincar.
— Oi, caderninho, disse o guarda-chuva. Anda comigo? — E o caderninho piscou com uma página. Ele não falou, rabiscou. Fez um desenho de um ponto de interrogação que virou um mapa. O guarda-chuva decidiu: precisava devolver o caderninho ao dono.
Mas quem seria o dono? As folhas mostraram pistas meio malucas: uma pata de lana, um miado longo, e o cheiro de sardinha. "Pata? Miado? Sardinha?" repetiu o guarda-chuva. Ele riu. Era uma caixinha de risos.
O guarda-chuva colocou o caderninho na sua capa. Eles começaram a andar. Cada passo fazia ao mesmo tempo um chocalho e um sussurro. A missão era simples e brilhante: achar quem perdeu aquele monte de ideias zig-zag.
Capítulo 2 — Amizades e pequenos reviravoltos
Na fonte do parque, uma bota velha espirrou água de alegria ao ver o caderninho.
— Deixe-me ver! — disse a bota, que gostava de colecionar calos e histórias. O caderninho fez um desenho rápido: um peixe com chapéu. "Peixe com chapéu?" perguntou a bota. "Isto vai dar certo", murmurou.
Perto dali, um relógio de sol bocejava e apontou para o carvalho amigo.
— Se o caderninho pertence a quem gosta de sardinha, talvez o gato da calçada saiba — sugeriu o relógio.
Eles foram até a calçada. O gato morava num muro com vista para o rio. Era um gato sonhador, de bigodes que pareciam canudos de sorvete. Quando o guarda-chuva e a bota chegaram, o gato estava ensaiando passos de dança.
— Miau? — perguntou o gato, curioso.
— Encontramos isto! — disse o guarda-chuva, mostrando o caderninho que fez um desenho de uma pata e, de repente, uma página saltou para fora e desenhou um coração. Todos riram.
O gato cheirou o caderninho. Virou uma página. Rabiscou um poema. "Ahá!", disse a bota. "Tem dedo de quem rabisca um poema antes de dormir. Pode ser seu?" O gato olhou em volta, pensou nas sardinhas que gostava e nos poemas que guardava na barriga. Mas ele não tinha perdido caderninho nenhum. O caderninho, no entanto, gostou da poesia e ofereceu uma ideia: fez um mapa com zigues e zagues até o lampião antigo.
Eles seguiram até o lampião. Lá, a chaleira do restaurante de esquina, que tinha ouvido mil e uma conversas, bufou uma nuvem de vapor e disse:
— À noite, vi um passo felpudo passar. Parecia um felpudo mesmo. Talvez o dono more perto da árvore que conta histórias.
A árvore que conta histórias era velha e tinha bolsos no tronco. Foi ela quem puxou do bolso um bilhete amarelo onde estava escrito: "Procuro caderninho de ideias, peço que me devolvam — o dono usa botas de chuva e gosta de versos, e às vezes espeta um rabo no pão." O guarda-chuva riu de novo. As pistas eram uma festa de confusão.
No meio do caminho, o caderninho fez uma travessura: soltou notas musicais que viraram borboletas. Borboletas tocavam sinos. O guarda-chuva dançou. Tudo era um grande quebra-cabeça que mexia os corações.
Capítulo 3 — Partilha e o passo que se vai
Finalmente, perto de um pequeno cais, encontraram uma placa que dizia: "Aqui mora quem divide o peixe e a canção." Um barco de papel, alegre como quem tem sonhos, falou:
— Conheço esse dono! Vive no armazém azul, com um cobertor de retalhos e um gato que conta segredos.
Entraram no armazém azul. Havia almofadas que cochichavam e uma prateleira que aplaudia de vez em quando. No canto, enrolado numa manta, estava um gato grande e macio. Seus olhos eram duas moedas sonolentas.
— Meu caderninho! — miou o gato, e pulou com cuidado, como quem não quer desarrumar ideias. Era mesmo dele. As folhas zig-zag eram do seu caderno de rimas e receitas de sonhos.
O guarda-chuva abriu a capa com orgulho. O caderninho saltou para o colo do gato e deu um beijo de rabisco. O gato sorriu. Ele convidou todos para partilhar um lanche: pequenas latinhas de sardinha com biscoito de vento. Cada um dividiu o pouco que tinha. A bota ofereceu histórias de estrada. O relógio de sol deu minutos brilhantes. O guarda-chuva, feliz, contou sobre cada passo e cada desenho do caderninho.
O gato, com olhos brilhantes, disse:
— Obrigado. Partilhar faz a casa crescer.
Eles riram e dividiram histórias até a lua escutar e bocejar. O caderninho, agora em casa, fez uma última página: um desenho de todos com mãos dadas, ou, melhor dizendo, com patas, com solas, com copos e com folhas. Era um agradecimento ziguezagueante.
Quando foi a hora de partir, o guarda-chuva já sabia que havia feito bem. O gato deu um abraço felpudo. A porta rangeu um adeus suave. O guarda-chuva fechou a capa, bateu palminhas e foi-se embora.
Na rua, os amigos ficaram acenando. A noite vestiu um casaco de estrelas. O guarda-chuva andou, pensando nas coisas partilhadas. De repente, sentiu um calor de amizade nos pés. Escutou atrás, um suspiro macio: o gato voltou para dentro, e a última imagem foi um passo felpudo que se afasta.