Eu sou a Lila. Tenho três anos. Hoje eu encontro uma porta pequena no meu jardim. A porta é redonda. A porta brilha como um botão de estrela. Eu toco a porta. Ela abre devagar.
Dentro, há um corredor colorido. O corredor sorri. Há setas: PARA FRENTE, PARA TRÁS. Eu vejo um relógio com asas. O relógio faz "tic... tac...". Uma luz suave me chama.
"Vou só espiar", eu digo. Minhas mãos ficam quentinhas. Meu coração fica curioso. Entro no corredor. O corredor canta uma canção tranquila. Passo pela porta e sinto um leve cosquinha na barriga. É divertido.
Há uma mesinha com um caderno. Em cima do caderno está escrito: Diário da Viagem. Eu abro. Pego um lápis com estrela. Escrevo com cuidado. "Dia 1: Lila entra no corredor do tempo." Eu gosto de escrever. Escrever é um jeito de lembrar.
A primeira seta aponta para o passado. Eu puxo a alavanca pequena. Um vento de brinquedo sopra. Plim! A sala fica dourada. Eu apareço num parque antigo. As árvores parecem amigas. Há crianças com chapéus engraçados. Um menino me oferece uma flor azul.
"Oi, eu sou Lila", eu falo.
"Ola, Lila", diz o menino. "Eu sou Tom."
Brincamos de esconde-esconde. Tudo é lento e bonito. Vejo um relógio grande na torre. Ele marca outra canção do tempo. Eu lembro de olhar o meu caderno. Escrevo: "No parque do passado eu brinquei com Tom." Escrever me dá calma.
Antes de voltar, eu coloco a flor azul na minha bolsinha. Eu sei que devo ser prudente. Não tocar em tudo. Não levar demasiado. Respeitar as regras do tempo. "Só uma flor", eu digo. O parque sorri de volta.
Volto ao corredor. A segunda seta aponta para o futuro. Eu respiro fundo. Plim! Tudo fica brilhante e suave como papel de presente. O céu tem casas que parecem nuvens. As plantas cantam baixinho. Alguém sorri de dentro de uma janela de vidro.
"Olá!" chama uma voz doce.
"Olá!" eu respondo. Uma menina com cabelos de luz me mostra um brinquedo que flutua. "Isto voa porque respeita as regras", ela diz. Ela usa um capacete com um coração desenhado. "Sempre com cuidado", ela acrescenta. Eu observo. Ela aperta um botão com delicadeza.
Eu anoto: "No futuro eu vi brinquedos que voam com cuidado." Escrever me ajuda a guardar a surpresa. A menina do futuro me ensina a segurar o brinquedo com as duas mãos. Ela sorri. Eu aprendo a esperar o momento certo para apertar o botão. Prudência é um gesto de amor.
De volta ao corredor, uma nova luz pisca. Há uma placa: PARADOXOS? SIMPLES. Sorrio, porque paradoxos me lembram daqueles quebra-cabeças mágicos. Entro na salinha dos paradoxos. É feita de espelhos e borboletas. Um espelho me mostra criança e avó ao mesmo tempo. Uma borboleta segura um relógio na patinha.
"Um paradoxo é uma surpresa que se conserta com cuidado", diz uma voz pequenina. É uma borboleta falante. Eu rio. "Ah!" digo. A borboleta me conta uma história curta, com voz de sininho. Um dia, um menino tentou trazer seu bolo de volta do passado. O bolo ficou molinho. O menino aprendeu que alguns cheiros pertencem a um tempo só. Ele sorriu e fez outro bolo no seu presente. Eu escrevo: "Paradoxos pedem cuidado."
No corredor, encontro um mapa do tempo. O mapa tem pontos coloridos. Um ponto é vermelho: PERIGO (pequeno). Um ponto é amarelo: CUIDADO. Um ponto é verde: AVENTURA. Eu aprendo a ler o mapa com olhos de criança. O mapa diz: "Siga as regras. Toque menos. Observe mais." Eu guardo o mapa no meu bolso.
Eu vejo o meu reflexo no relógio com asas. O relógio ainda faz "tic... tac..." Eu digo baixinho: "Obrigada, tempo." O tempo responde com um brilho macio.
Saio do corredor com o meu caderno. Escrevo uma lista curta:
- Flores: uma.
- Brinquedo flutuante: ver.
- Paradoxo: ouvir.
No caminho de volta para casa, eu encontro Tom e a menina do futuro na estação do tempo. Eles acenam. Nós trocamos um sorriso. "Até logo", digo. "Até logo", respondem eles. É um adeus pequeno e doce, sem tristeza. Bom, porque eu sei que sempre posso pôr a mão na porta redonda de novo.
De repente, sinto um cheirinho de biscoito. É a cozinha da minha casa. Plim! Estou na minha cozinha. A mamãe coloca um biscoito no prato. "Lila, onde você esteve?" ela pergunta com voz macia.
"Eu fui no corredor do tempo", eu digo. Mamãe sorri e me abraça. "Que aventura bonita. Contas tudo?" ela pede.
Eu mostro o meu caderno. Ela lê as palavras simples. Ela beija minha testa. "Que bom que foi com cuidado", ela diz. Eu sinto-me segura. Segurança é um cobertor quente.
Ao apagar a luz, eu penso nas flores, no brinquedo e na borboleta. Eu penso nas regras do mapa. Respeitar o tempo é como guardar um segredo gentil. Eu sussurro para meu travesseiro: "Obrigada, tempo. Eu volto outro dia."
O relógio do meu quarto faz "tic... tac..." e eu adormeço. Sonho com portas que sorriem e portas que cantam. Sonho com aventuras que começam com cuidado. E assim eu durmo, calma, feliz e sabendo que o presente é o lugar mais doce para estar agora.