Capítulo 1: O Puzzle e as Duas Mãos Muito Ocupadas
A Inês tinha sete anos e era a mais nova lá de casa. Isso queria dizer duas coisas importantes: primeiro, ela ganhava abraços extra quando fazia cara de “eu sou pequena”; segundo, às vezes ninguém a levava muito a sério quando ela dizia: “Eu tenho um plano GENIAL!”
Nessa tarde, o plano genial tinha a forma de um puzzle enorme, com mil pedacinhos que pareciam todos iguais. O puzzle era de um castelo com um dragão simpático a tomar chá. Pelo menos, era o que a caixa prometia.
A Inês sentou-se no chão da sala, de pernas cruzadas, com uma concentração tão grande que até a língua lhe ficou de fora. Pôs duas peças na mão esquerda e duas na mão direita, como se fosse uma máquina de montar castelos.
“Olhem para mim!” anunciou. “Vou fazer este puzzle a duas mãos. Sem parar. Plim!”
O Tiago, o irmão do meio, apareceu com uma meia na cabeça, como se fosse um chapéu de pirata.
“Plim? Isso é um alarme?” perguntou ele.
A Marta, a irmã mais velha, espreitou por cima do sofá, com um ar de quem já viu muitos planos “geniais” acabarem em confusão.
“Ela está a inventar regras outra vez,” disse a Marta. “Inês, puzzles fazem-se com… mãos. Normal.”
“Não, não!” A Inês abanou as duas mãos no ar, cada uma com uma peça. “É diferente. Eu não posso largar as peças. Tenho de encaixar sem pousar. É o desafio do ‘Duas Mãos Sempre Ocupadas'.”
O Tiago arregalou os olhos, muito impressionado por coisas que não deviam impressionar ninguém.
“Uau. E se te coçar o nariz?”
A Inês franziu o nariz, como se ele tivesse trazido uma ideia proibida.
“Não me vou coçar. Vou ser forte.”
Nesse momento, o nariz dela decidiu fazer cócegas sozinho.
“Ah-ahn… ah-ahn… atchim!”
As peças saltaram um bocadinho: toc-toc! Mas ela conseguiu segurar. Ficou de olhos muito abertos, vitoriosa.
“Ganhei!” disse, como se tivesse vencido um campeonato mundial.
A Marta riu-se.
“Isso não é ganhar. Isso é… sobreviver.”
A Inês fez um beicinho. Ela queria respeito. Queria aplausos. Queria uma fanfarra com trompetes e um cão a abanar a cauda.
A mãe passou pela sala com um cesto de roupa e olhou para o chão, cheio de peças.
“Que bonito. Só não espalhem as peças até à cozinha, está bem?”
A Inês assentiu com muita seriedade, enquanto tentava encaixar duas peças ao mesmo tempo. Uma na mão direita, outra na esquerda. Parecia um polvo pequenino a montar um castelo.
O Tiago sentou-se ao lado dela.
“Posso ajudar?”
“Podes,” disse a Inês. “Mas com uma regra.”
“Eu adoro regras!” disse ele, como se regras fossem gelado.
A Inês levantou um dedo.
“Regra número um: ninguém pode dizer que é difícil.”
A Marta soltou um “Pfff!”.
“Então não posso falar.”
A Inês ignorou. Ela estava a encaixar uma peça azul-céu com outra azul-céu. Ou talvez fosse azul-quase-céu. Ou azul-que-não-encaixa.
“Grrr,” fez ela, baixinho, só um bocadinho.
O Tiago apontou para a caixa do puzzle.
“Olha, aqui diz: ‘Montar em equipa é mais divertido!'”
A Inês apertou os lábios. “Equipa, sim. Mas eu sou… a capitã.”
A Marta aproximou-se e, com cuidado, pegou numa peça. A Inês arregalou os olhos, alarmada.
“Ei! Eu disse que ninguém podia pegar!”
“Tu não disseste isso,” respondeu a Marta, calma. “Só disseste que ninguém podia dizer que é difícil.”
O Tiago deu uma gargalhada.
“Ahá! Apanhada pela tua própria regra!”
A Inês ficou vermelha como um tomate pequenino. E, como era a mais nova, fez o que os mais novos fazem muito bem: inventou uma regra nova, muito depressa.
“Regra número dois!” anunciou. “A capitã decide as regras. E a capitã diz: agora ninguém pega sem pedir permissão.”
A Marta levantou as mãos no ar, como se se rendesse.
“Está bem, capitã polvo.”
A Inês não sabia se era elogio ou gozo, mas decidiu que era elogio, porque o dia estava bom e ela queria rir.
Só que, ao tentar encaixar outra peça, ela percebeu uma coisa: havia uma peça muito importante que faltava. Uma peça com um pedacinho do dragão e… uma bolinha de chá.
“A peça do chá!” gritou ela. “Onde está a peça do chá?!”
Os três olharam para o chão, para o sofá, para o tapete. Nada.
O Tiago levantou a meia-pirata.
“Talvez esteja aqui dentro.”
Sacudiu. Caiu uma moeda e um botão. Peça de chá, não.
A Inês colocou as mãos na cintura, com o ar mais dramático que uma menina de sete anos consegue ter.
“Eu declaro… uma missão!”
A Marta suspirou, mas já estava a sorrir.
“Vai ser uma missão ao parque, aposto.”
A Inês piscou os olhos.
“Como é que sabes?”
“Porque tu achas que o parque resolve tudo,” respondeu a Marta.
“E resolve,” disse a Inês, muito convencida. “Além disso, no parque há vento. O vento encontra coisas.”
O Tiago saltou.
“Eu vou! Eu vou! Eu sou o… ajudante da capitã polvo!”
“E eu sou… a conselheira,” disse a Marta, pegando numa garrafa de água. “Alguém tem de evitar que vocês investiguem dentro dos caixotes do lixo.”
A Inês apontou para a porta.
“Partida! Mas atenção: eu vou levar duas peças nas mãos, para treinar. Duas mãos sempre ocupadas!”
A Marta arqueou uma sobrancelha.
“Vais ao parque com peças de puzzle na mão?”
“Sim,” disse a Inês. “Para não perder o ritmo.”
E assim, a mais nova da família saiu em aventura, com duas peças apertadas nas mãos como se fossem tesouros. Toc-toc, toc-toc, as peças batiam uma na outra a cada passo, como se estivessem também entusiasmadas.
Capítulo 2: A Regra Mal Entendida e o Parque das Missões
O parque do bairro estava cheio de sons felizes: crianças a correr, um cão a ladrar “au-au!”, um baloiço a fazer “iiih… uuh…”, e um pardal atrevido a comentar tudo com “piu-piu-piu!”
A Inês entrou como uma exploradora.
“Equipa, olhos de águia! Procuramos a peça do chá do dragão!”
O Tiago pôs a mão na testa, como se o sol fosse muito forte.
“Vejo… um escorrega! Vejo… um senhor a ler! Vejo… um gelado!”
“Foco!” disse a Marta, mas sem conseguir não rir.
A Inês olhou para as duas peças que ainda tinha nas mãos. Lembrou-se da regra e apertou-as com força.
“Duas mãos sempre ocupadas,” murmurou. “Eu consigo.”
Foi então que ela viu a placa do parque. Era uma placa simples, com regras para toda a gente. A Inês aproximou-se e leu em voz alta, devagar, como quem descobre um segredo:
“‘Por favor, mantenha… as… mãos… ocupadas nos… equipamentos.'”
A Inês ficou a olhar, com os olhos a brilhar.
“Viram? O parque também tem a minha regra! Mãos ocupadas!”
O Tiago abriu a boca, maravilhado.
“Uau! O parque é fã da Inês!”
A Marta aproximou-se e leu a placa com mais atenção.
“Inês… isso diz para manter as mãos ocupadas nos equipamentos. Quer dizer: quando estás a subir ao escorrega, segura bem.”
Mas a Inês já estava a imaginar outra coisa. Na cabeça dela, “mãos ocupadas” era uma ordem oficial do parque para toda a gente andar com coisas nas mãos. Talvez para treinar para… sei lá… ser malabarista.
“Temos de obedecer!” declarou ela. “A placa manda!”
E pronto: de repente, a missão da peça do chá transformou-se numa missão ainda mais importante: obedecer à “Regra das Mãos Ocupadas do Parque”.
A Inês, com duas peças nas mãos, procurou mais coisas para ocupar ainda mais as mãos. O problema era que ela só tinha duas mãos.
“Tiago!” chamou. “Dá-me mais uma coisa.”
O Tiago apanhou uma folha grande do chão e entregou-lhe.
A Inês tentou segurar: duas peças e uma folha. A folha fugia com o vento: ffffiuuu!
“Ela está a escapar!” gritou a Inês, a correr atrás da folha sem largar as peças. Parecia uma corrida de patos: apressada, aos saltinhos, e muito engraçada.
A Marta veio atrás.
“Inês, larga a folha! Não precisas…”
“Preciso sim!” disse a Inês, ofegante. “A placa manda!”
A folha pousou na cabeça do Tiago. Ele ficou com cara de espantalho.
“Estou disfarçado! Sou o Homem-Folha!”
A Inês riu-se, mas continuou firme na sua missão. Olhou em volta e viu um banco. Em cima do banco, alguém tinha esquecido uma luva de criança, vermelha, pequenina.
“Uma luva!” disse ela. “Perfeita para ocupar mão!”
A Marta pegou na luva e olhou em volta.
“Não vamos levar isso. Deve ser de alguém.”
A Inês franziu o sobrolho.
“Mas… mãos ocupadas…”
A Marta agachou-se ao nível dela.
“Obedecer regras é bom, mas entender regras é melhor. A placa quer que a gente se segure bem no escorrega e nas escadas. Não quer que a gente colecione coisas do chão.”
O Tiago inclinou a cabeça.
“Então eu posso tirar a folha da cabeça?”
“Podes,” disse a Marta.
O Tiago tirou a folha e fez uma vénia.
“O Homem-Folha despede-se. Ploc!”
A Inês ficou calada por um segundo. Ela não gostava de estar errada, mas gostava muito de imaginar coisas. E, no fundo, ela estava a imaginar um parque mágico que falava com ela por placas.
“Está bem,” disse por fim, com um suspiro pequeno. “Talvez eu tenha lido com olhos de… imaginação.”
A Marta sorriu.
“Isso é uma coisa boa. Só tens de juntar com olhos de atenção.”
A Inês levantou as duas peças.
“Então a regra verdadeira é: segurar bem quando subimos.”
“Exato,” disse a Marta. “E a tua regra do puzzle pode ser só… uma brincadeira.”
O Tiago bateu palmas.
“Brincadeira oficial! Posso inventar uma também?”
“Podes,” disse a Inês, já a recuperar a alegria. “Mas agora voltamos à missão original: a peça do chá!”
E foi aí que aconteceu uma coisa bem esquisita: um menino pequeno passou a correr com um papagaio de papel, e o fio do papagaio roçou na mão da Inês.
“Ui!” disse ela, apertando mais as peças, com medo de as deixar cair.
O menino parou, olhou para ela e perguntou:
“O que é isso?”
“Peças de puzzle,” respondeu a Inês, muito séria. “Estou à procura de uma peça perdida. A do chá do dragão.”
O menino arregalou os olhos.
“Eu vi uma peça no escorrega!”
A Inês quase saltou para o ar.
“No escorrega?!”
“Sim,” disse ele. “Estava ali na parte de baixo, perto da areia.”
A Marta deu um passo à frente.
“Obrigada. Como te chamas?”
“Eu sou o Léo,” disse ele. “E o meu papagaio chama-se… Senhor Ventania.”
O Tiago apontou para o céu.
“Claro que chama.”
A Inês fez um gesto de capitã.
“Léo, conduze-nos ao escorrega!”
O Léo correu, e os três seguiram, como uma equipa de detetives do bairro. A Inês ia com as duas peças bem agarradas, agora por escolha, não por confusão.
Chegaram ao escorrega. A Inês desceu devagar, segurando bem com as mãos, como a regra verdadeira. No fim, ajoelhou-se e procurou na areia.
E lá estava: uma pecinha pequenina com uma bolinha de chá e uma ponta de dragão.
“A peça do chá!” gritou a Inês. “Encontrei!”
Ela levantou a peça como se fosse um troféu. O Tiago fez sons de trompete:
“Pruuu-pruuu-pruuu!”
A Marta aplaudiu.
“Missão cumprida.”
A Inês olhou para o Léo.
“Obrigado! Tu és um ótimo… informador de parque.”
O Léo sorriu.
“De nada. Posso ver o puzzle quando ficar pronto?”
“Podes,” disse a Inês, e depois pensou: “Hmmm… e se…?”
A imaginação dela começou a correr outra vez, mas agora com o cinto de segurança da atenção.
Capítulo 3: Pequenas Chamas, Grandes Gargalhadas
De volta a casa, a Inês espalhou as peças na mesa da cozinha (na mesa, não no chão, porque a mãe tinha olhos de águia também). O puzzle já tinha uma parte do castelo e uma parte do céu. Faltava o dragão com o chá, claro.
“Agora,” disse a Inês, “vamos fazer em equipa. Mas… eu continuo a ser capitã.”
A Marta sentou-se com calma.
“Sim, capitã.”
O Tiago sentou-se tão depressa que a cadeira fez “crec!”.
“Eu sou o… ajudante oficial e malabarista de folhas!”
“Nada de folhas,” disse a Marta.
A Inês encaixou a peça do chá com um “clic!” perfeito. Ficou tão certinho que parecia que a peça tinha suspirado de alívio.
“Ahhh,” fez a Inês, feliz.
Mas aí começou a parte das pequenas chatices. O Tiago pegou numa peça e tentou encaixar, mas era do outro lado. A Inês arregalou os olhos.
“Tiago! Essa peça é do telhado! Estás a pôr no dragão!”
“Eu só estou a testar,” respondeu ele. “Talvez o dragão queira um chapéu.”
A Inês cruzou os braços.
“Dragões não usam telhados.”
“Ainda,” disse o Tiago.
A Marta riu-se.
“Inês, lembra-te: imaginação.”
A Inês hesitou. Pois… imaginação era a palavra mágica do dia. Ela olhou para o Tiago, que estava com um sorriso maroto, mas simpático.
“Está bem,” disse ela. “O dragão pode querer um chapéu… mas no fim tem de ficar certo.”
O Tiago fez uma careta feliz.
“Combinado.”
A Marta estava a separar peças por cores. O Tiago começou a imitar um aspirador:
“Vuuuuuum!” enquanto empurrava peças para um monte.
“Não!” gritou a Inês, rindo e zangando ao mesmo tempo. “Não baralhes!”
“Eu estou a aspirar o castelo,” disse o Tiago. “Está com pó de areia do parque.”
A Inês tentou manter-se séria, mas saiu-lhe uma gargalhada.
“Pó de areia do parque não existe! É… areia!”
A Marta apontou para a tigela de bolachas que a mãe tinha deixado.
“Pausa para bolachas. Antes que a capitã exploda.”
A Inês fez um som dramático:
“Eu não explodo. Eu só… faço ‘pfff'.”
“Pfff,” repetiu o Tiago, soprando uma bolacha como se fosse um barco. A bolacha deslizou na mesa e parou mesmo em cima de uma peça.
A Inês colocou as mãos na cabeça.
“Tiago!”
O Tiago levantou as mãos.
“Desculpa! Foi o vento. O Senhor Ventania.”
A Inês ia responder, mas de repente imaginou o papagaio do Léo a entrar pela janela para roubar bolachas. E, sem querer, começou a rir outra vez.
“Está bem,” disse ela, limpando lágrimas de riso. “Mas agora a sério: vamos terminar antes do jantar.”
O puzzle avançou. Clic, clic, clic. Cada peça era um passinho. A Inês sentia-se como se estivesse a construir uma porta para um lugar onde dragões tomavam chá e ninguém discutia por telhados.
Depois, a Marta disse:
“Inês, falta uma peça aqui no canto.”
A Inês congelou.
“Não. Não, não, não.”
O Tiago olhou para o canto. “Falta mesmo.”
A Inês apertou os punhos, mas não de raiva a sério. Era mais um “oh não!” de teatro.
“Outra missão? Eu não tenho pernas para tantas missões!”
A mãe entrou na cozinha e olhou para o puzzle.
“Que lindo. Está quase.”
A Inês apontou para o buraco vazio.
“Está quase… mas está com um buraco. Um buraco muito… buracado.”
A mãe aproximou-se e sorriu como quem sabe de alguma coisa.
“Talvez a peça esteja onde vocês menos esperam.”
O Tiago apontou para o próprio nariz.
“Aqui?”
A mãe riu.
“Não, não aí.”
A Inês estreitou os olhos.
“Mãe… tu sabes.”
A mãe fez cara de inocente.
“Eu? Eu só trago… surpresas.”
A Inês e os irmãos trocaram um olhar. Surpresas eram perigosas e maravilhosas ao mesmo tempo.
A Marta levantou-se.
“Vamos procurar juntos. Mas sem pânico. Nada de ‘missão dramática'.”
“Eu sou dramática só um bocadinho,” murmurou a Inês.
Procuraram na caixa, debaixo da mesa, no sofá, perto da porta. O Tiago até olhou dentro do sapato (não se sabe porquê).
“Não está!” disse a Inês, com um suspiro comprido.
Foi então que a campainha tocou: “Trim-trim!”
O Tiago correu e abriu a porta. Era o Léo, com o papagaio de papel enrolado e um sorriso.
“Olá! A minha mãe disse para eu trazer isto. Encontrámos no nosso carrinho de brinquedos no parque.”
E ele tirou do bolso… a peça que faltava. Era mesmo a do canto. Tinha um pedacinho do castelo e uma nuvem com cara de riso (ou a Inês imaginou que tinha, mas era uma nuvem simpática na mesma).
A Inês ficou de boca aberta.
“Como… como é que ela foi parar ao teu carrinho?”
O Léo encolheu os ombros.
“O Senhor Ventania gosta de brincar.”
O Tiago fez sons de vento:
“Fffffiuuu!”
A Marta sorriu para o Léo.
“Obrigado por trazeres.”
A Inês segurou a peça como se fosse feita de ouro.
“Tu és oficialmente… amigo da equipa.”
O Léo endireitou-se.
“Obrigad… eu aceito.”
Capítulo 4: A Surpresa Coletiva e o Castelo do Dragão
A mãe trouxe sumo para todos, incluindo para o Léo, e pôs uma travessa de pipocas na mesa. Pipocas faziam qualquer missão parecer uma festa.
“Agora,” disse a Inês, com voz de capitã importante, “toda a gente coloca uma peça. Uma de cada vez. E sem aspiradores.”
O Tiago fez um gesto de fechar a boca com um fecho imaginário: “Ziiiip!”
O Léo sentou-se com cuidado, como se estivesse num clube secreto.
“Eu nunca fiz um puzzle tão grande.”
A Inês piscou-lhe o olho.
“É fácil. Só tens de usar… imaginação e olhos de atenção.”
A Marta apontou para a peça final, a do canto.
“Capitã, a última é tua.”
A Inês sentiu o peito a ficar quentinho. Não por ser capitã, mas porque, de repente, estavam ali todos: ela, os irmãos, o Léo, a mãe por perto, e até o Senhor Ventania lá fora a abanar as árvores.
A Inês pegou na peça. As mãos dela, desta vez, estavam ocupadas com a coisa certa.
“Prontos?” perguntou.
“Prontos!” disseram todos.
Ela encaixou: “CLIC!”
E o castelo ficou completo. O dragão simpático estava mesmo a tomar chá, com uma chávena minúscula, e parecia estar a sorrir para eles, como se dissesse: “Boa, humanos! Conseguiram!”
O Tiago fez uma reverência para o puzzle.
“Senhor Dragão, eu ofereço-te… um telhado-chapéu imaginário.”
A Inês riu.
“Oferta aceite.”
A Marta apontou para o céu do puzzle.
“Olha, Inês. A nuvem parece que está a rir.”
A Inês aproximou o rosto.
“Está sim! Ou sou eu que estou a ver com olhos de imaginação.”
A mãe pousou a mão no ombro da Inês.
“É uma boa maneira de ver o mundo. Só lembra: imaginação para criar, atenção para cuidar.”
A Inês assentiu, muito séria por meio segundo… até uma pipoca saltar sozinha da travessa: “pop!”
O Tiago arregalou os olhos.
“A pipoca fugiu!”
A Inês apontou.
“Missão final: capturar a pipoca fugitiva!”
O Léo levantou-se como um soldado.
“Eu ajudo!”
A Marta riu-se.
“Vocês não têm emenda.”
A pipoca rolou pela mesa e caiu no chão: ploc. O Tiago atirou-se para a apanhar, mas escorregou um bocadinho e fez “whoops!” — nada de perigoso, só uma dança desajeitada. A Inês e a Marta começaram a rir tanto que quase não conseguiam respirar.
“Tiago!” conseguiu dizer a Inês entre risos. “Tu… tu és um escorrega humano!”
O Tiago levantou-se, fingindo dignidade.
“Eu fiz de propósito. Foi… treino de parque. Mãos ocupadas!”
Todos riram outra vez, incluindo a mãe, que abanou a cabeça.
“Está bem. Vocês ganharam o prémio de ‘família mais barulhenta e feliz da rua'.”
A Inês olhou para o puzzle completo, depois para os irmãos, e depois para o Léo.
“Sabe o que eu imagino agora?”
“O quê?” perguntou o Léo.
A Inês abriu os braços.
“Que o castelo é um portal. E cada peça era uma história pequena. E nós juntámos todas.”
A Marta fez um sorriso suave.
“E a história de hoje teve um dragão, um parque, uma regra confusa e uma pipoca fugitiva.”
O Tiago levantou um dedo.
“E o Homem-Folha!”
“E o Homem-Folha,” confirmou a Inês, a rir.
No fim, a mãe tirou uma fotografia do grupo com o puzzle, todos cheios de pipocas e gargalhadas. Foi uma surpresa coletiva bonita: o puzzle não era só um desenho completo. Era uma lembrança completa.
A Inês encostou a cabeça ao ombro da Marta por um segundo, depois deu um encontrãozinho carinhoso no Tiago.
“Desculpem as minhas regras malucas.”
O Tiago deu de ombros.
“Eu gostei. Amanhã inventamos outra.”
A Marta passou um braço pelos dois.
“Desde que a regra número um seja: rimos juntos.”
A Inês olhou para as próprias mãos, agora livres, e decidiu:
“Sim. E a regra número dois: a imaginação manda… mas a atenção ajuda.”
Lá fora, uma rajada de vento fez as folhas dançarem: ffffiuuu!
O Tiago apontou para a janela.
“O Senhor Ventania está a aplaudir.”
A Inês sorriu.
“Então… plim. Missão cumprida.”