Parte 1: A casa fica calma
A Luísa tem 3 anos. Ela toma banho com água morna. A toalha é macia e cheira a sabonete. A mamã penteia o cabelo devagar, devagar.
“Pronta para o pijama?” pergunta a mamã.
“Sim,” diz a Luísa, com voz pequenina.
O pijama é azul e tem estrelas. A Luísa gosta de tocar numa estrela e tocar noutra. Uma, duas, três. Ela sorri. O quarto está arrumado. O urso de peluche está na cama. O livro está na mesinha. A luz é baixinha, como uma lua dentro de casa.
A papá fecha a janela com cuidado. Lá fora, a rua está quieta. Dentro, só há sons suaves: um relógio a fazer “tic-tac” e o vento a dizer “shhh” nas folhas.
“Boa noite, casa,” sussurra a Luísa.
Ela dá uma volta lenta pelo quarto. Põe os chinelos no lugar. Encosta o copo de água na mesinha. Faz tudo com calma, como se estivesse a ensinar o corpo a abrandar.
A mamã senta-se na beira da cama.
“Vamos respirar?” pergunta ela.
A Luísa acena com a cabeça. A mamã mostra: inspira pelo nariz… e solta o ar devagar.
A Luísa tenta também. O peito sobe. O peito desce. Sobe… desce… O corpo fica mais leve, como uma almofada fofa.
“Estou a ficar quentinha,” diz a Luísa.
“Isso é o sono a chegar,” diz a mamã, baixinho.
Parte 2: O sono chega como uma canção
A Luísa deita-se. A manta cobre os pés, depois as pernas, depois a barriga. É uma manta com riscas suaves. Parece um abraço comprido.
O urso de peluche fica encostado ao lado dela.
“Boa noite, urso,” diz a Luísa.
O urso não responde, mas parece ouvir. A Luísa põe a mão na barriga do urso e sente o tecido macio. Macio, macio. Isso dá vontade de fechar os olhos.
A mamã pega no livro. Lê duas páginas. A história é simples. Tem um gato que boceja e uma janela com estrelas. A Luísa boceja também. Um bocejo grande, redondo, como uma bolha.
“Luísa, queres contar três coisas boas do teu dia?” pergunta a mamã.
A Luísa pensa com calma. Ela gosta de pensar assim, devagar.
“Eu brinquei no parque,” diz ela. “Eu comi banana.” Ela faz uma pausa e depois sorri. “E eu abracei a mamã.”
A mamã beija a testa da Luísa.
“Três coisas boas. O teu coração guarda alegria,” diz a mamã.
A Luísa fecha os olhos um pouco. Abre. Fecha. Abre. Como uma borboleta a descansar as asas.
O papá entra de mansinho.
“Posso dar um beijo também?” pergunta ele.
“Sim,” diz a Luísa.
O papá dá um beijo na bochecha. Depois fala baixo, como quem canta sem música.
“O teu corpo trabalhou hoje. Agora ele pode repousar. Está tudo bem.”
A Luísa ouve essas palavras e sente que são verdade. Tudo bem. Tudo bem.
A mamã apaga a luz forte e deixa só a luz de presença. Um pontinho dourado no canto. Não assusta. Só brilha.
“Se ouvires algum barulhinho,” diz a mamã, “é a casa a dormir também.”
A Luísa imagina a casa a bocejar. A cadeira a ficar quieta. A mesa a ficar quieta. O corredor a ficar quieto. Ela gosta desta ideia.
Parte 3: Um silêncio com alegria
A mamã põe a mão na mão da Luísa. A mão é quente.
“Vamos fazer o jogo do corpo relaxado,” diz a mamã.
“Sim,” sussurra a Luísa.
“Os pés descansam,” diz a mamã.
A Luísa pensa nos pés. Eles ficam molinhos.
“As pernas descansam.”
As pernas ficam pesadas e boas.
“A barriga descansa.”
A barriga sobe e desce com a respiração. Sobe… desce…
“Os ombros descansam.”
A Luísa deixa os ombros cair. Ela não precisa segurar nada agora.
“E a cara descansa.”
A testa alisa. A boca fica tranquila. Os olhos fecham, fecham, fecham.
A mamã fala bem baixinho: “A alegria mora dentro de ti. Mesmo no escuro, ela acende uma luz pequenina.”
A Luísa sente essa luz por dentro. Não é uma luz que brilha forte. É uma luz mansa, como uma vela num copo.
Ela pensa no parque, na banana, no abraço. Pensa no urso. Pensa na cama. Tudo é simples. Tudo é seguro.
“Boa noite, mamã,” diz a Luísa, quase sem som.
“Boa noite, amor,” responde a mamã.
A mamã fica ali mais um pouco. Depois levanta-se sem pressa. A porta fica encostada. A luz de presença continua.
A Luísa respira. Inspira… solta. Inspira… solta. O sono chega como uma onda calma. Ela deixa a onda levar devagar.
Dentro do peito, há paz. Dentro do peito, há alegria quietinha. A Luísa adormece sorrindo, como quem guarda um segredo bom.