A Inês tinha 3 anos e já sabia uma coisa importante: o dia é para brincar, e a noite é para descansar. Nessa noite, ela tomou banho morninho. A toalha parecia uma nuvem. A casa ficou silenciosa, com um cheirinho bom de sabonete.
A mamã apagou a luz forte e deixou só uma luz pequenina, amarela, como uma lua dentro do quarto. A Inês entrou de meias. “Estou quentinha”, disse ela. “Que bom”, respondeu a mamã, bem baixinho.
Na cama, a Inês abraçou o seu coelhinho de pano. O coelhinho tinha orelhas macias. Ela mexeu um bocadinho os pés. Mexeu um bocadinho as mãos. O corpo queria ainda fazer coisas.
“Parece que a minha cabeça está cheia”, sussurrou a Inês.
A mamã sentou-se ao lado. “Vamos fazer espaço para o descanso”, disse ela. “Como?”
A mamã apontou para o peito da Inês. “Põe a mão aqui. Sente? Agora vamos soprar devagar, como se apagássemos uma vela.”
A Inês soprou. “Fuuuu.” E depois outra vez. “Fuuuu.” O ar entrou e saiu, calmo, calmo. A luz pequenina parecia piscar mais devagar.
“Agora vamos arrumar o dia”, disse a mamã. “Uma coisinha de cada vez. Primeiro, os brinquedos.”
A Inês fechou os olhos e imaginou uma caixa grande, azul. “Carrinhos, para dentro”, murmurou ela. “Blocos, para dentro.” A caixa fechou com um “clique” manso. Não doeu. Não fez barulho alto. Só ficou arrumado.
“E as palavras?”, perguntou a mamã.
A Inês pensou nas palavras que tinha dito. “Olá.” “Quero água.” “Obrigada.” Ela colocou todas num saquinho macio. “Pronto”, disse ela. “Ficam aqui até amanhã.”
A mamã sorriu. “E os saltos e as corridas?”
A Inês mexeu os ombros bem devagar. “Eu ponho os saltos numa prateleira”, disse. “Lá em cima.” E respirou outra vez. “Fuuuu.” O corpo ficou mais pesado, como um ursinho a deitar-se.
A mamã puxou o lençol. Era leve, mas a Inês sentiu-se segura. “O descanso também precisa de espaço”, disse a mamã. “Quando fazemos espaço, ele chega mansinho.”
“Estou a sentir”, disse a Inês. “Aqui, na barriga. Está quentinho.”
“Isso é o teu descanso a chegar”, falou a mamã, com voz de canção. “Devagar. Bem devagar.”
A Inês apertou o coelhinho. Ouviu o som da casa: um relógio baixinho, uma respiração, o vento lá fora a fazer ‘shhh'. Ela abriu um sorriso pequeno.
“Boa noite, dia”, disse a Inês. “Até amanhã.”
“Boa noite, Inês”, respondeu a mamã. “O descanso fica contigo.”
E a Inês, com o quarto quieto e dourado, fez mais uma respiração lenta. O corpo ficou solto. A cabeça ficou leve. E o sono veio, calmo e certo, como um cobertor de paz que não vai embora.