Na véspera de Natal, a neve fazia cócegas nas janelas e a casa cheirava a canela. Perto da lareira, uma pequena fada de gorro vermelho e asas brilhantes chamava-se Lili. As asas dela pareciam feitas de açúcar a brilhar.
Lili tinha uma missão muito importante. Na mesa havia uma pilha de sacos de papel, com estrelas e renas desenhadas. Eram sacos para as bolachinhas, para as laranjas, para os pequenos presentes. Mas os sacos estavam todos abertos, a bocejar.
“Hoje eu vou dobrar os sacos. Dobrar, dobrar, dobrar”, disse Lili, sorrindo.
Ela pegou no primeiro saco. Apertou bem a borda. Dobrou uma vez. Depois dobrou outra vez. Fez uma dobra pequenina, outra dobra pequenina. “Dobrar, dobrar… que bonito!”, cantou baixinho.
Só que, de repente, o saco fez “puf” e abriu de novo, como se tivesse vontade própria. Lili piscou os olhos. “Oh! Não faz mal. Eu tento outra vez.”
Na sala, o pinheiro de Natal brilhava com luzinhas amarelas. As bolas vermelhas pareciam maçãs. O gato Mingau dormia enrolado, quentinho, como uma nuvem com bigodes.
Lili dobrou o segundo saco. Dobrou com cuidado. Mas esse também abriu. O terceiro abriu. O quarto abriu. Parecia uma brincadeira de sacos saltitões.
Lili levou a mão ao peito e falou com sinceridade, bem simples: “Eu estou a ficar atrapalhada. E eu não gosto de fingir que está tudo bem.”
Nesse momento, a porta da cozinha rangeu devagar. A avó veio com uma bandeja de bolachas. “Cheira tão bem aqui!”, disse ela. E viu a pilha de sacos a fazer confusão.
“Lili, queres ajuda?” perguntou a avó, com voz macia.
Lili respirou fundo. “Quero, sim. Eu tentei, mas os sacos abrem. Eu fiquei triste um bocadinho.”
A avó sorriu. “Obrigada por dizeres a verdade. A verdade é como uma luzinha no Natal.”
A avó mostrou um truque. “Olha. Primeiro alisa o saco com a mão. Assim. Depois dobra a base. Agora faz uma linha bem firme com o dedo. E, no fim, põe uma fitinha.”
A fita era verde, como folhas de azevinho. Lili olhou e repetiu: “Alisar. Dobrar. Apertar. Fita.”
Ela tentou no saco seguinte. Alisou. Dobrou. Apertou. Pôs a fita. O saco ficou quietinho, direitinho, como um soldadinho de papel.
“Consegui!” disse Lili.
“Conseguiste”, confirmou a avó. “E sem pressa.”
Então Lili fez mais. Dobrar, dobrar, dobrar. Um saco para as bolachas. Um saco para as nozes. Um saco para uma meinha pequenina. Às vezes um saco teimava, mas Lili ria e dizia: “Eu sei. Eu volto ao começo. Alisar. Dobrar. Apertar.”
O gato Mingau acordou e veio cheirar um saco. “Miau”, disse ele, como se aprovasse. Lili deu-lhe uma festinha. “Este saco não é para ti, Mingau. Este é para a tia. Mas tu podes cheirar.”
Quando todos os sacos estavam dobrados, a mesa parecia uma fila de casinhas. Casinhas de papel, com fitas e estrelas. Lá fora, a neve continuava a dançar, lenta e suave.
A avó acendeu mais uma luz no pinheiro. “Vês, Lili? O Natal também é isto. Fazer com as mãos. Pedir ajuda. Dizer a verdade.”
Lili encostou-se à avó. As asas brilharam mais um pouco, como se estivessem felizes. “Eu gosto do Natal”, sussurrou. “E gosto de dobrar sacos, quando faço do meu jeito.”
Depois, comeram uma bolacha morninha. E, com a casa quentinha e os sacos bem dobrados, o Natal ficou ainda mais luminoso, calmo e cheio de carinho.