1. Um pedido espinhoso
No coração da Clareira dos Pinheiros, Tico, um ouriço de olhos brilhantes e espinhos penteados ao vento, farejava o ar com curiosidade. Cheirava a resina, a musgo húmido e a biscoitos de amora vindos da toca da senhora Texuga. Era a véspera do Dia de São Valentim na Floresta, a festa das amizades que aquecem o peito, e as bandeirolas de folhas secas já dançavam entre os ramos.
Tico gostava de ouvir histórias. Gostava tanto que, às vezes, se esquecia de piscar. Talvez por isso o Conselho dos Animais, uma roda respeitável de corujas, lontras e esquilos idosos, o tinha chamado naquela manhã.
— Tico — disse a mocho Dora, com voz redonda —, este ano precisamos de um crachá de amizade. Um pequeno crachá que qualquer animal possa usar. Com poucas palavras. Palavras que abracem. Achamos que tu… bem… tu sabes ouvir.
Tico endireitou os espinhos, orgulhoso e um pouco nervoso.
— Eu? Compor um crachá de amigo? Eu faço já! — disse, e as patas tremelicaram de entusiasmo.
— Nada de pressa, rapaz — rosnou o texugo Bruno, gentil como um tronco —. Ouvir primeiro. Depois escrever.
Tico respirou fundo. que desafio apetitoso! Um crachá que coubesse em todos os peitos. Um crachá que dissesse “gosto de ti” sem excluir ninguém. O ouriço acenou com a cabeça.
— Trato disso. Vou ouvir a floresta.
Ao sair, tropeçou numa fita de hera, deu três cambalhotas e pousou de patas para o ar. Riu-se sozinho, e as folhas riram também, num farfalhar cúmplice.
2. Rascunhos colados nos espinhos
Na sua toca cheirosa a terra e folhas de eucalipto, Tico estendeu um pano e espalhou botões, conchas lisas, pedacinhos de madeira clara, fios de lã e um pote de cola que dizia “não lamber” (em letras muito sérias). Os espinhos serviam-lhe de ganchos para segurar as coisas. Metade era prático; metade, uma trapalhada.
— Um crachá redondo? Em forma de folha? Com brilho? — Tico mordiscou o lábio. — E o que vai dizer?
Pegou numa pena de gaio como pena de escrever. Num pedacinho de casca de bétula, rabiscou:
“És o melhor!” Risca.
“Amigos para sempre!” Risca.
“Coração de bolota.” Risca, risca.
Suspirou. As palavras pareciam enormes, pesadas, como pedrinhas dentro da boca. Um crachá tem de ser leve, pensou. Tem de caber num peito pequeno, num peito grande, num peito de penas, de pelos ou de escamas. Tem de caber num dia bom e num dia torto.
Uma gota de cola escorregou e colou dois espinhos entre si. Tico tentou desfazer o nó e ficou com o focinho pegajoso. Riu-se.
— Está decidido. Vou fazer aquilo que sei fazer: vou ouvir.
Limpou a cola, abasteceu-se de maçãs secas para a viagem e saiu a trotar, fazendo tilintar os botões nos espinhos como um pequeno campanário ambulante.
3. Gargalhadas, nozes e silêncio
Primeiro, Tico encontrou a coelha Bia junto ao campo de trevos. Bia ordenava cenouras como quem organiza um desfile.
— Bia! — chamou Tico. — O que é ser amigo?
— Amigo? — Bia coçou uma orelha comprida. — É quem espera quando corro às voltas, mesmo que demore. É quem não come a melhor cenoura sem perguntar. É quem ri das minhas piadas, mesmo quando não têm graça.
— As tuas piadas têm graça — disse Tico, sério.
— Obrigada por me ouvires — Bia sorriu e deu-lhe uma cenoura pequenina, doce como uma tarde de verão.
Tico escreveu: “esperar”, “partilhar”, “rir juntos”. Guardou a cenoura.
Mais adiante, o esquilo Zé tentava libertar uma noz teimosa de um tronco. Sacudia-se tanto que parecia que o tronco dançava com ele.
— Zé! — Tico encostou-se, atento. — E para ti?
— Um amigo… — Zé arregaçou o nariz — é quem diz “tens nódoa de amora no queixo” sem gozar. É quem te chama quando o ramo é alto demais. É quem guarda uma noz para ti, mesmo quando as próprias reservas estão a ficar magrinhas.
A noz saltou e foi cair, ploc!, no rio. Zé suspirou.
— E é quem mergulha por ela, se souber nadar.
— Eu não sei nadar, mas pergunto à lontra Lara — disse Tico, já a apontar o caminho.
— Obrigado por ouvires! — gritou Zé. — E trazes a noz… se ela não tiver decidido conhecer o mar.
Junto à curva do rio, o som da água era um segredo a sussurrar. A lontra Lara flutuava de barriga para cima, como um barquinho castanho, e deixou-se aproximar.
— Preciso de ti — disse Tico, e explicou a saga da noz. Lara sorriu e desapareceu de cabeça na água, deixando só bolhinhas. Voltou com a noz equilibrada no peito.
— Um amigo é este gesto — ela piscou. — Podes não saber mergulhar, mas sabes pedir ajuda. E… — aproximou-se, baixinho — sabes escutar o barulho do silêncio do outro. Quando o outro não quer falar, mas quer estar.
Tico fechou os olhos um instante. O rio dizia shhhhhh. As libelinhas faziam zzzzzz. O vento, ffff. O silêncio não era vazio; era macio.
Escreveu: “ajuda”, “pedir ajuda”, “respeitar o silêncio”.
4. Verdades com jeitinho
Na orla do bosque, a raposa Lume ensaiava passos de dança com a cauda em arco. Em cada movimento caíam-lhe pequenas faíscas de folhas secas. Lume era destemida e delicada.
— Lume, o que é um amigo?
— Um amigo é quem te diz a verdade com jeitinho — respondeu, sem parar de dançar. — Se eu tropeçar agora, prefiro que tu digas “vais depressa demais, baixa a cauda” do que fingires que está tudo bem. Verdade sem ferir, já vês?
Numa clareira ao lado, o texugo Bruno empilhava troncos, ofegando, com a paciência antiga dos troncos.
— E tu, Bruno?
— Um amigo é quem aparece quando o trabalho é pesado — disse. — E quem aceita quando dizes “hoje não posso”. Opá! — Um tronco escorregou e bateu no chão. O som ecoou grave e cheiro a resina encheu o ar.
No alto, a mocho Dora observava-os, redonda e sábia. Quando Tico olhou para ela, a mocho pousou no ramo mais baixo.
— Há mais, pequeno — disse Dora. — Um amigo é quem te dá ouvido mesmo quando já ouviu a história. É quem te vê no escuro, quando te escondes, e ainda assim te deixa estar. Escutar não é só “hã-hã”; é pousar as asas dentro do peito e abrir espaço.
Tico sentiu as palavras a pousar nele como penas quentes. A raposa riu, o texugo acenou, Dora fez um “uuu” doce.
Escreveu: “verdade com jeitinho”, “aparecer”, “aceitar o não”, “escutar de verdade”.
Com a lista a crescer, o crachá parecia cada vez mais difícil. Mas também mais claro, como quando o nevoeiro levanta devagar e se vê o trilho.
5. O crachá que cabe em todos
De volta à sua toca, Tico acendeu uma pequena vela de cera de abelha (com cuidado, porque espinhos e fogo são parentes de longe e discutem muito). Estendeu o pano. Separou três rodelas finas de madeira, lixadas até ficarem macias como palavras boas. Escolheu fitas: verde-musgo, azul-riacho, um fio dourado que parecia luz de manhã. Do pote de tinta, subiu cheiro a nozes e a chuva fresca.
Desenhou pequeninos ramos em volta, sementes, ondas que abraçavam o meio. Deu-lhes um brilho de resina. Mas parou, pena do gaio suspensa no ar.
— O que vai dizer? — murmurou. — Uma palavra que não empurre ninguém para fora.
As suas anotações estavam ali, uma floresta de ideias. “Esperar”. “Partilhar”. “Rir”. “Ajudar e pedir ajuda”. “Respeitar o silêncio”. “Verdade com jeitinho”. “Aparecer”. “Aceitar o não”. “Escutar de verdade”.
Tico roeu uma pontinha de maçã seca. Ouviu o bosque lá fora: passarinhos conversavam, um sapo ensaiava notas, a água dizia shhhhhh. Pôs a pata no peito e ouviu o seu próprio coração: tum, tum, tum.
Talvez o crachá não tivesse de dizer todas as coisas. Talvez pudesse dizer só uma, que as contasse a todas.
As patas tremiam. Pousou a pena e escreveu devagar, para não assustar as letras: “Tu contas.”
Leu. “Tu contas.” Contas como número? Como história? Como importância? Tudo ao mesmo tempo. A frase era pequena e elástica. Mas faltava-lhe um abraço maior. Tico franziu o nariz e acrescentou: “para nós”.
“Tu contas para nós.”
Sorriu de espinho a espinho. Soava como quem puxa um lugar na roda, abre um banco de musgo e diz: “Senta-te aqui.” Soava como quem diz: “Mesmo quando estás calado.” Soava como o rio a dizer shhhhhh.
— E se… — Tico recordou a mocho Dora, que sabia palavras de longe. Escreveu a frase também numa língua que Dora ensinara às crias, numa noite de estrelas: uma frase que muitos pássaros viajantes repetiam nas passagens do outono. O desenho parecia o mesmo, mas as letras dançavam diferente. Tico tremeu, mas gostou do desafio.
Tocou com a ponta do nariz no crachá, como quem sela um pacto. Os espinhos cantaram baixinho, tilintando nos botões: tin-tin.
6. A festa e o segredo das palavras
O Dia de São Valentim nasceu lavado e azul, a claridade a escorrer pelas folhas como mel. A clareira estava enfeitada de lanternas de casca e fios de bagas vermelhas. Havia bolinhos com sementes, sumo de groselha, e um lago de risos. Os animais chegaram aos grupos: patinhas, asas, garras, chifres, bigodes. Todos com olhos a brilhar.
— Tico! — chamou a coelha Bia, pulando. — Trouxeste?
— Trouxe — respondeu o ouriço, e o coração fez tum, tum, tum, como um tamborzinho de musgo.
Subiu a um tronco, com cuidado. Limpou as patas à pelagem do tronco como quem entra numa casa. Todos ficaram em silêncio, um silêncio macio. Tico sentiu a coragem a pousar nos espinhos como passarinhos.
— Ouvi-vos — disse, com voz de folha que não se parte. — Ouvi gargalhadas e suspiros. Ouvi a água, o vento e o silêncio. Cada um de vocês me disse uma coisa diferente, e todas eram verdade. Eu queria dizer isso num crachá pequeno, que coubesse no peito de toda a gente, nos dias em que apetece gritar e nos dias em que não apetece dizer nada.
Mostrou o crachá. A madeira, redonda e quente. Os raminhos desenhados. As fitas a dançar com o vento. E, no centro, as palavras: “Tu contas para nós.”
Houve um “ohhh” que voou por cima das cabeças, como um bando de estorninhos. A raposa Lume mexeu a cauda, o texugo Bruno pigarreou para disfarçar um brilho nos olhos. A lontra Lara bateu com as patinhas na água, plish-plash, como quem aplaude molhado.
— Há mais — disse Tico, corando por baixo dos espinhos. — Também o escrevi noutra maneira de dizer, que aprendi com a mocho Dora. Às vezes, ouvir é aprender a língua dos passos do outro. Às vezes, uma palavra de longe abraça mais alguém.
Dora voou um pouco mais perto, orgulhosa, e assentiu.
— As palavras são pontes — disse. — E a ponte mais segura é a que se constrói a ouvir.
Tico começou a prender crachás nos pelos, nas penas, nas escamas, com pinos feitos de espinhos caídos (nenhum espinho a menos do Tico; eram de muda, ele garantiu, com humor). Bia recebeu o seu e suspirou.
— Sabe a cenoura doce — ri-se. — E a abraço de raiz.
Zé girou o seu crachá entre as patinhas rápidas.
— Gosto do “contas” — disse. — Faz-me lembrar as minhas nozes. Cada uma conta. Eu também.
— E quando não estiver com vontade de falar? — perguntou um pequeno ouriço bebé, espreitando de trás de uma folha.
— O crachá fala por ti — respondeu Tico, sorrindo. — E nós ouvimos com os olhos.
Um pardal atrevido pousou na cabeça de Tico, como um chapéu de penas, e os dois riram. O vento trouxe de longe cheiro de flores mansas, e um fio de música começou, feito de cascas que tilintavam e caules que ressoavam.
Os animais dançaram. A raposa ensinou passos à lontra, a lontra ensinou mergulhos à raposa, e acabou tudo num salpico generalizado que fez o texugo Bruno protestar a fingir.
— Olha a minha t-shirt de musgo! — resmungou, sacudindo, e todos riram.
Depois, veio a hora das histórias. Um a um, sentados em círculo, contaram coisas pequenas que lhes enchiam o coração. A tartaruga Lígia falou de um raio de sol que lhe aquecia a carapaça, sempre na mesma pedra, todas as manhãs. O esquilo Zé contou como tinha aprendido a partilhar as melhores nozes sem ficar com uma dor de barriga de inveja. A raposa Lume confessou que às vezes tinha medo de falhar o salto, e que um amigo era quem dizia “tenta outra vez, estou aqui”.
Tico ouviu tudo. Com atenção redonda, inteira. Às vezes fechava os olhos para ver melhor. Às vezes abria-os muito, para fazer caber mais luz. A cada história, o crachá no peito parecia mais cheio. As fitas tocavam-lhe as patas, como quem diz “é isso”.
Quando chegar ao fim do círculo, Tico sentiu que ainda faltava um gesto. Um gesto que fosse pequeno e, ao mesmo tempo, enorme. Subiu outra vez ao tronco, e fez um sinal à mocho Dora.
— Podem repetir comigo? — pediu, com voz tranquila. — Como o rio repete as margens. Como o eco que volta, mas mais doce.
Dora pousou ao lado dele, e a clareira ficou tão silenciosa que se ouviu um bago de baga cair, ploc, na terra. O vento parou para ouvir. O sol inclinou-se só um bocadinho mais, curioso.
— Hoje, e em todos os dias — disse Tico —, quando alguém chegar cansado ou contente, alto ou baixinho, a nossa resposta pode ser esta. Não é uma resposta apressada. É uma escuta que abraça.
Respirou. E, em voz baixa, para que todos pudessem acompanhar, começou:
tu comptes pour nous