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História do Dia dos Namorados 11 a 12 anos Leitura 18 min.

A caixa das gentilezas: pequenos gestos no Dia de São Valentim

Três amigas planejam e filmam um vídeo para o Dia de São Valentim mostrando pequenos gestos de gentileza na escola, enfrentando imprevistos que as ensinam sobre empatia e cooperação.

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Três meninas de cerca de 11 anos: uma no centro-esquerda com cabelo castanho liso até os ombros, jaqueta azul-clara com estrelas, segurando um pequeno telemone na horizontal e sorrindo calmamente; à esquerda dela, uma loira de rabo-de-cavalo com moletom vermelho, gestos exubérantes, oferecendo um cartão ou borracha com expressão alegre; à direita, uma morena de cabelo curto com franja e suéter verde-menta, concentrada, colocando delicadamente um cartão numa caixa vermelha decorada com um coração. Ambiente: sala de aula luminosa e acolhedora com mesas de madeira clara, chão de parquet, janela grande com luz dourada de inverno e cartazes coloridos nas paredes. Situação: as três amigas depositam cartões de gentileza numa caixa vermelha; cena terna com cores em tons pastéis, iluminação dourada, texturas de papel visíveis e alguns cartões e restos de cola espalhados para um efeito natural. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — Uma ideia com cheiro a chocolate

Na véspera do Dia de São Valentim, a escola parecia diferente. Havia corações de papel nas janelas, fitas vermelhas nas portas e um leve cheiro a chocolate a passear pelos corredores, como se alguém tivesse aberto uma caixa proibida.

A Leonor, a Matilde e a Sara tinham quase onze anos—quase, quase. A Leonor era criativa e calma, do tipo que pensa primeiro e fala depois. A Matilde tinha energia a mais, como se viesse com pilhas novas todos os dias. A Sara era a rainha dos detalhes: repara em tudo, até na forma como as pessoas seguram as canetas.

No recreio, sentaram-se no banco ao sol. O frio ainda mordia, mas o sol fazia cócegas.

—Então? O que fazemos amanhã? — perguntou a Matilde, a balançar as pernas como um pêndulo.

A Sara encolheu os ombros.

—Trocar cartões… e tentar não receber nenhum com “gosto de ti” escrito em letras brilhantes, porque depois é constrangedor.

A Matilde soltou uma gargalhada.

—Constrangedor é a professora de Educação Física a dizer “amizade é um músculo”! Como assim, músculo?

A Leonor sorriu, quietinha, e tirou do bolso um caderno pequeno. Tinha uma capa azul com estrelas.

—Eu pensei… — começou ela, e as duas inclinaram-se logo para a frente. Quando a Leonor dizia “eu pensei”, vinha sempre coisa boa. — E se fizéssemos um vídeo? Um vídeo curto. Tipo… “pequenos gestos”.

—Um vídeo! — Matilde quase caiu do banco de entusiasmo. — Com efeitos especiais? Eu posso fazer uma queda dramática!

—Sem quedas dramáticas, por favor — disse a Sara, muito séria, mas com os olhos a brilhar. — Um vídeo de quê, exatamente?

A Leonor folheou o caderno. Havia desenhos de corações, sim, mas também de mãos a ajudar, de sorrisos, de uma mochila aberta com um lanche a mais.

—De gentileza — disse ela. — Amanhã toda a gente fala de amor e amizade. E se mostrarmos que o importante são os gestos pequenos? Dar lugar na fila. Partilhar o lanche. Dizer “obrigada”. Coisas assim.

A Matilde pousou a mão no peito, teatral.

—Eu sou ótima a dizer “obrigada”. Principalmente quando me dão bolachas.

—Tem de ser real — avisou a Sara. — Nada de fingir e depois esquecer.

A Leonor assentiu. O sol tocou-lhes na cara como uma mão morna.

—Fazemos um plano. Filmamos durante o dia. Depois editamos à tarde. E mostramos na turma.

—E se correr mal? — perguntou a Sara.

A Leonor fechou o caderno devagar.

—Então rimos e fazemos melhor. Mas vai correr bem. Se formos gentis… a história faz-se quase sozinha.

Capítulo 2 — A caça aos gestos bons

No dia seguinte, o sino tocou e a escola acordou de vez. Havia alunos com pulseiras cor-de-rosa, professores com gravatas vermelhas e até o porteiro com um pin em forma de coração.

A Leonor trouxe o telemóvel do pai, com a condição de não o deixar cair e de não filmar “coisas tontas”. Ela prometeu, com uma seriedade que parecia um contrato.

—Primeira regra — disse a Sara, como se fosse realizadora de cinema. — Filmamos na horizontal. Senão parece que estamos a gravar um poste.

—E segunda regra — acrescentou a Matilde —: eu apareço sempre do meu melhor lado.

—Qual é o teu melhor lado? — perguntou a Sara.

A Matilde virou-se.

—Este! Não, espera… este! Depende da luz!

A Leonor riu-se e apontou a câmara para o recreio. Começaram pela sala. A professora, a dona Rita, estava a arrumar papéis.

A Sara sussurrou:

—Olhem! O Tomás deixou cair a borracha.

A Leonor apontou discretamente. A Matilde, num impulso, correu, apanhou a borracha e entregou-a.

—Toma! — disse ela. — A borracha fugiu, mas eu capturei-a.

O Tomás sorriu.

—Obrigado.

A Sara fez sinal com o polegar para a Leonor.

—Boa. Natural. Sem drama.

A seguir, na fila do almoço, viram a Beatriz, mais nova, com os braços cheios de tabuleiros e uma cara de “isto vai cair a qualquer momento”.

A Leonor não hesitou. Largou a mochila, foi ao lado dela e segurou o tabuleiro maior.

—Eu ajudo — disse ela.

A Beatriz respirou como se tivesse acabado de escapar a uma avalanche.

—A sério? Obrigada!

A Matilde filmou, toda contente. Depois cochichou:

—Leonor, foste tão calma que parecias uma ninja da gentileza.

A Sara assentiu.

—Um gesto pequeno. Mas muda tudo.

Mais tarde, no recreio, a Matilde viu o Fábio sozinho, a tentar colar um coração de papel no caderno, mas o papel dobrava-se sempre e o coração parecia mais uma batata.

—Posso? — perguntou ela, sentando-se ao lado.

—Não… quer dizer… sim — respondeu o Fábio, corado.

A Matilde, que tinha mãos rápidas, endireitou o papel com cuidado e fez uma dobra perfeita.

—Pronto. Agora é um coração e não uma batata sentimental.

O Fábio soltou uma gargalhada. A Leonor apanhou aquele momento de riso, que era mais valioso do que qualquer filtro.

A Sara, no entanto, franziu o sobrolho.

—Temos de ter cuidado. Não queremos que as pessoas se sintam filmadas sem querer.

A Leonor baixou o telemóvel.

—Tens razão. Vamos pedir sempre autorização quando der para perceber quem é.

E assim fizeram. A maioria aceitou, alguns disseram “sim, mas sem eu parecer esquisito”, e houve até quem posasse como se estivesse numa passadeira vermelha.

—Dia de São Valentim também serve para ser ridículo com carinho — declarou a Matilde, com solenidade.

Capítulo 3 — O imprevisto mais pegajoso

À tarde, já com várias cenas gravadas, decidiram filmar uma última: uma “caixa de gentilezas” para a turma. A ideia era simples. Colocar um cartão para cada colega, com uma frase boa. “Gosto da tua coragem.” “Obrigada por me emprestares a caneta.” “Fazes-me rir.”

Foram para a biblioteca, que cheirava a livros antigos e silêncio. A Sara espalhou cartões na mesa como se estivesse a preparar um truque de magia.

—Escrevam com letra legível — ordenou ela. — Nada de hieróglifos.

—A minha letra é artística — protestou a Matilde. — É uma arte abstrata.

A Leonor escrevia com calma, escolhendo as palavras como quem escolhe conchas na praia. A Matilde escrevia depressa e, de vez em quando, soprava o papel como se estivesse a apagar um incêndio.

Foi então que aconteceu.

A Matilde, no seu entusiasmo, abriu a cola líquida com força demais. A tampa saltou. A cola fez um “plop” traiçoeiro e… despejou-se. Um rio branco e pegajoso escorreu pela mesa, invadiu cartões, ameaçou o caderno da Leonor e avançou como um monstro lento.

—NÃOOO! — gritou a Matilde, como se tivesse visto um fantasma.

A Sara levantou-se num salto.

—Papel! Guardanapos! Qualquer coisa!

A Leonor não gritou. Pegou num monte de folhas usadas, colocou-as sobre a cola e pressionou com cuidado, como uma enfermeira em missão.

—Calma — disse ela. — Respirem. É só cola. Não é lava.

—Parece lava — gemeu a Matilde. — Lava branca. Lava de desastre.

A Sara, com a rapidez de quem já derrubou sumos suficientes na vida, salvou os cartões ainda secos e afastou-os para a outra ponta da mesa.

—O vídeo… — murmurou ela, olhando para o telemóvel. — Filmámos isto?

A Leonor olhou para a câmara. Ainda estava a gravar. Por um segundo, ficaram as três paradas, com as mãos cheias de papel colado e expressões de tragédia.

E depois… começaram a rir. Primeiro foi a Matilde, com uma gargalhada que abanou a cadeira. Depois a Sara, a tentar manter a dignidade e a falhar. Por fim, a Leonor, com um riso baixinho, mas inteiro.

—Isto também é um gesto — disse a Leonor, a limpar a cola do dedo. — Quando uma coisa corre mal… a gentileza é não culpar ninguém.

A Matilde ficou séria, o que nela durava pouco, mas naquele momento foi sincero.

—Desculpa. Eu estraguei tudo.

A Sara apontou para os cartões salvos.

—Não estragaste tudo. Só… colaste o Dia de São Valentim à mesa.

A Matilde fungou e sorriu.

—Podemos dizer que foi… “união”.

A Leonor levantou o telemóvel e parou a gravação.

—Isto vai entrar no vídeo. Mas com humor. Um “bastidores” da gentileza.

—E uma lição — acrescentou a Sara. — Tampas de cola não são brinquedos.

Capítulo 4 — Montagem, dúvidas e um gato figurante

Depois das aulas, foram para casa da Leonor, porque a sala tinha uma secretária grande e uma janela por onde entrava luz dourada.

A mãe da Leonor deixou-lhes uma travessa de bolachas na mesa e disse apenas:

—Sejam queridas umas com as outras. E com o tapete.

—Prometemos — disseram as três, ao mesmo tempo, com a solenidade de um juramento.

O computador ligou com um som que parecia um bocejo. A Leonor abriu o programa de edição. A Matilde aproximou-se tanto do ecrã que quase entrou lá dentro.

—Aqui! Cortamos aqui! Metemos música aqui! — dizia ela, como se estivesse a pilotar um avião.

A Sara puxou-a pelo casaco.

—Respira. A Leonor está a fazer isto com calma. É assim que se faz bom trabalho.

A Leonor alinhava as cenas: a borracha capturada, o tabuleiro salvo, o coração que deixou de ser batata, risos, “obrigados”, “de nada”, passos apressados no corredor. A certa altura, colocou a cena da cola a derramar com um som cómico baixo e um texto simples: “Nem sempre corre perfeito. E está tudo bem.”

A Matilde bateu palmas.

—Obra-prima!

A Sara apontou para o ecrã, concentrada.

—Falta uma coisa. Um final. Um momento que junte tudo.

A Leonor mordeu o lábio, a pensar. O vídeo estava bonito, mas ela sentia que ainda faltava… uma luz por dentro.

Foi então que o gato da Leonor, o Pompom, decidiu participar. Saltou para a secretária com a elegância de um saco de batatas e sentou-se em cima do teclado.

—Pompom! — exclamou a Leonor. — Sai daí!

O gato piscou os olhos, muito ofendido com a falta de respeito pela sua carreira cinematográfica.

A Matilde aproximou o telemóvel.

—Ele quer ser a estrela. Olha a cara dele. Cara de “eu sei que sou fofo”.

A Sara, que fingia não gostar tanto de gatos, estendeu o dedo para lhe fazer festinhas. O Pompom ronronou como um motor pequenino.

A Leonor observou aquilo e teve uma ideia.

—E se o final for… nós a levar a caixa de gentilezas para a sala? Sem dizer muito. Só entregar. E… mostrar as reações.

A Sara franziu o sobrolho.

—Mas as reações são imprevisíveis.

—É isso mesmo — disse a Leonor. — Gentileza é um presente sem saber exatamente como vai ser recebido. Mas faz-se na mesma.

A Matilde levantou uma bolacha como se fosse um microfone.

—Então amanhã de manhã filmamos o final. E hoje deixamos o resto pronto.

A Sara concordou.

—E o Pompom fica como figurante oficial. Mas longe do teclado.

O Pompom abriu a boca num bocejo enorme, como se tivesse ouvido e aprovado a decisão.

Capítulo 5 — A caixa de gentilezas e o silêncio bom

Na manhã seguinte, a caixa estava pronta: uma caixa de sapatos forrada com papel vermelho, com um coração desenhado pela Matilde (um coração um bocadinho torto, mas cheio de personalidade) e uma etiqueta escrita pela Sara: “Pequenos gestos. Grandes dias.”

A Leonor segurava o telemóvel, mas desta vez parecia mais nervosa do que antes. A ideia era mostrar o vídeo à turma depois de entregar os cartões.

—E se acharem lamechas? — sussurrou ela.

A Matilde aproximou-se e falou ao ouvido dela.

—Se acharem lamechas, eu digo que é um documentário sobre sobrevivência à cola líquida.

A Sara deu uma palmada suave no ombro da Leonor.

—Vai correr bem. E se alguém fizer piadas… é só lembrar que piadas também podem ser gentis. Sem magoar.

Entraram na sala. A dona Rita olhou para a caixa e levantou uma sobrancelha curiosa.

—O que é isso, meninas?

A Leonor engoliu em seco, mas falou com clareza.

—Uma caixa de gentilezas. Para o Dia de São Valentim. Podemos… distribuir no fim da aula?

A professora sorriu, com um brilho orgulhoso.

—Claro que sim.

Durante a aula, a caixa ficou em cima da secretária, como se fosse um segredo a respirar. A Matilde não parava quieta. A Sara organizava mentalmente a ordem de entrega. A Leonor sentia o coração a bater como um tambor discreto.

Quando finalmente chegou o momento, levantaram-se. A sala ficou com aquele silêncio curioso que acontece quando algo diferente vai acontecer.

Foram chamando nomes e entregando cartões. Alguns alunos abriram logo, outros guardaram como se fosse um tesouro. Houve risos baixos, olhares surpreendidos, e até um “a sério?” dito com voz tremida.

O Tomás, o da borracha, leu o dele e ficou a olhar para o papel por um segundo a mais.

—Obrigado — disse ele, e parecia mesmo.

A Beatriz, a mais nova, apareceu à porta com a turma dela para buscar um livro. Viu a caixa e a Leonor correu até ela com um cartão extra.

—Também é para ti.

A Beatriz abriu e sorriu de um jeito que parecia luz acesa.

—Eu vou guardar.

A Sara filmava discretamente, com cuidado para respeitar as caras e os momentos. A Matilde, por uma vez, não fez nenhum comentário dramático. Apenas ajudou, entregou, sorriu.

Quando terminaram, a dona Rita aplaudiu devagar. A turma acompanhou. Não foi um aplauso de espetáculo. Foi um aplauso de “isto fez bem”.

A Leonor sentiu um calor no peito, como quando se bebe chá no inverno.

—Agora… — disse ela, e levantou o telemóvel. — Nós fizemos um vídeo. Sobre pequenos gestos. Querem ver?

—Sim! — disseram várias vozes.

Até a Sara, que gostava de controlar tudo, pareceu esquecer as preocupações.

—Passa — murmurou ela. — Está pronto.

Capítulo 6 — Uma luz suave no ecrã

A sala escureceu um pouco quando fecharam as persianas, mas não ficou triste. Ficou aconchegada, como uma cabana feita de cobertores.

O vídeo começou. A música era simples, leve, como passos num corredor. Apareceu a Matilde a capturar a borracha “fugitiva”, a Leonor a segurar o tabuleiro, o Fábio a rir do coração-batata. Apareceu a cena da cola, com o “monstro branco” e as gargalhadas, e a frase: “Gentileza também é recomeçar.”

Houve risos nos momentos certos. Houve “ohhh” quando alguém se viu a sorrir sem saber. E houve um silêncio bonito, daqueles que não pesam, quando apareceu a entrega da caixa e os “obrigados” ditos com a voz verdadeira.

No final, a última imagem foi gravada de propósito naquela mesma manhã: as três amigas na janela da sala, depois de tudo, a olhar para o pátio. O sol de inverno atravessava o vidro e espalhava uma luz dourada pelos cabelos, pelas mesas, pelos papéis.

A Matilde, no vídeo, dizia baixinho:

—No fim, é só isto… fazer alguém sentir-se visto.

A Sara completava:

—Sem fazer barulho. Só… com cuidado.

E a Leonor, com um sorriso calmo, concluía:

—Feliz Dia de São Valentim. Para amigos. Para todos.

Quando o ecrã ficou preto, a sala ficou em silêncio por um segundo. Depois, alguém bateu palmas. Depois mais alguém. E de repente era como se a turma inteira estivesse a devolver, em aplausos, todos os pequenos gestos que tinha recebido.

A dona Rita limpou os olhos, disfarçando.

—Meninas… isto foi muito bonito. E muito importante. Obrigada por lembrarem a todos que a gentileza não precisa de ser gigante.

A Matilde inclinou-se para a Leonor e sussurrou:

—Eu disse que ia ser uma obra-prima.

A Sara respondeu, também em sussurro:

—Desta vez, tens razão.

A Leonor olhou pela janela. Lá fora, as pessoas continuavam a andar, a falar, a viver. Mas parecia que havia uma luz mais suave no ar, como se alguém tivesse colocado um filtro de ternura no mundo.

E ela pensou: talvez seja isso o Dia de São Valentim. Não um grande discurso. Não um presente enorme. Mas uma sequência de pequenos gestos—gravados ou não—que iluminam, devagarinho, o caminho dos outros.

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Montagem
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