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História de super-heróis 11 a 12 anos Leitura 24 min.

O silêncio que salvou Bravamar

Lúcio Arcano e a inventora Nika enfrentam uma gosma poluente que reage ao som, precisando silenciar partes da cidade e improvisar soluções para proteger Bravamar.

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Um homem adulto, alto e calmo, postura ereta, rosto atento com barba curta grisalha e olhos avelã, veste um fato preto e azul com linhas prateadas tipo circuitos; ele ativa um pequeno emissor no pulso, dirigindo uma vibração invisível a um poço de coleta. Uma jovem inventora de ~22 anos, cabelos castanhos em rabo de cavalo, rosto concentrado e sorridente, segura um grande cilindro transparente de espuma branca e o lança no poço ao lado do homem, mantendo-se ligeiramente atrás à sua direita. Uma menina de ~7 anos em pijama de estrelas observa desde um degrau próximo, mãos juntas e olhos arregalados, em primeiro plano à esquerda. Local: câmara técnica subterrânea de aço e betão, canos enferrujados, grelhas no chão, lâmpadas halógenas amareladas, poças escuras e reflexos verdes nas paredes; ao fundo, uma abertura de condutas de onde pinga uma geleia verde fosforescente. Situação: a espuma bioabsorvente branca abre-se em pétalas e atrai a geleia brilhante para o poço enquanto o homem emite uma vibração ultrassónica discreta; ambiente tenso mas luminoso, cores contrastantes — verdes néon, azuis profundos, prateado metálico e brancos suaves — composição dinâmica com gestos nítidos e emoções visíveis. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Homem que Ouvia a Cidade

No alto de um prédio espelhado, onde o vento cheirava a maresia misturada com gasolina, ele ficou imóvel por um segundo, como se estivesse escutando uma música secreta. Não era música de rádio. Era a cidade.

Chamava-se Lúcio Arcano — um homem adulto, alto, de ombros largos e postura de quem já viu muita coisa sem perder a calma. A barba era curta e bem cuidada, com alguns fios prateados que brilhavam quando os letreiros neon piscavam. Os olhos, cor de avelã, pareciam sempre atentos, como se conseguissem ler o humor do céu. Vestia um traje preto e azul com linhas prateadas que lembravam circuitos; no peito, um símbolo simples: um círculo cortado por uma onda, como som virando luz.

Diziam que ele era um super-herói, mas Lúcio preferia outra palavra:

— Responsável — murmurava, toda vez que alguém o chamava de “lenda”.

Naquela noite, a cidade de Bravamar tinha um problema que não cabia num jornal de duas páginas. Um brilho esverdeado escorria pelos bueiros e pelas canaletas, como se alguém tivesse derramado tinta fluorescente no coração das ruas. E não era só feio. O ar ficava pesado, as pessoas tossiam, os gatos espirravam, e até as plantas dos canteiros pareciam encolher de nojo.

O comunicador no pulso de Lúcio vibrou com um “bip” animado, quase insolente.

— Lúcio! — disse uma voz jovem e apressada. Era Nika, a sua parceira de missão, uma inventora que adorava falar enquanto pensava. — Eu tenho notícias boas e… uma notícia muito estranha.

— Começa pelas boas — pediu ele, já saltando para a rua com um impulso leve, como se a gravidade fosse uma sugestão e não uma regra.

— O brilho vem de um polímero industrial. Não é radioativo, mas gruda em tudo. E está tomando a rota do Rio da Curva. Se chegar lá, adeus peixes, adeus patos, adeus meu humor.

Lúcio pousou numa esquina. O chão estava manchado de verde, e a luz do poste fazia o líquido parecer ainda mais vivo.

— E a notícia estranha?

Nika hesitou, e isso era raro.

— Ele… reage a som. Quanto mais barulho, mais ele se espalha. Como se o poluente fosse… curioso.

Lúcio franziu a testa.

— Poluição curiosa. Ótimo. Agora até o lixo tem personalidade.

Uma senhora apareceu na janela do segundo andar com um pano na mão e uma expressão preocupada.

— Moço, isso vai entrar na minha casa?

Lúcio ergueu a mão, com um sorriso que era firme e gentil ao mesmo tempo.

— Não vai, dona. Eu prometo. A cidade é de vocês. Eu só estou… de plantão.

Ele seguiu pela rua, os passos calculados para não espalhar mais aquela gosma brilhante. O vento trouxe um som distante: instrumentos afinando, risadas, um anúncio ecoando num painel luminoso.

“HOJE: CONCERTO BENEFICENTE NA SALA AURORA — MÚSICA PARA BRAVAMAR.”

Nika falou no comunicador:

— Lúcio… o concerto está para começar.

Ele olhou para o céu e depois para o asfalto verde.

— Então vamos ter que salvar a cidade sem fazer barulho. Isso vai ser… divertido.

Capítulo 2 — A Gosma que Gostava de Aplausos

Lúcio avançou até o centro industrial, onde tanques e tubulações formavam um labirinto metálico. O cheiro ali era de óleo e chuva guardada. E, no meio de tudo, uma poça verde pulsava como um coração.

Aos pés de um reservatório, um robô de manutenção estava caído de lado, como um brinquedo abandonado. Lúcio se agachou e tocou no metal; o robô soltou um “piu” fraco, quase envergonhado.

— Calma — disse Lúcio. — Eu não vim brigar. Vim entender.

Ele acionou um dispositivo no cinto: um cilindro pequeno que abriu e projetou linhas de luz azul, desenhando no ar o mapa das ruas. O poluente tinha um trajeto claro — e assustador: seguia como serpente pelos bueiros rumo ao rio.

Nika apareceu num drone do tamanho de um pombinho, com olhos de câmera e um adesivo escrito “NÃO MORDER”.

— Eu chamei ele de Zunzum — explicou a voz dela no alto-falante do drone. — Ele é fofo e… útil.

O drone circulou a poça verde. Um ruído agudo escapou do motorzinho.

Na mesma hora, a gosma se mexeu. Uma ondulação, como uma língua de gelatina, se esticou na direção do som.

Lúcio arregalou os olhos.

— Nika, desliga o Zunzum. Agora.

— Mas ele… — O drone fez outro “zzzz”.

A gosma respondeu com entusiasmo. Espalhou-se em três filetes rápidos, subindo por uma coluna, atravessando uma grade, e escorrendo para uma saída de drenagem.

— Tá, tá, tá! — Nika desligou o motor, e o drone caiu no ar, planando sem barulho até a mão de Lúcio. — Desculpa. Eu… eu estava testando.

Lúcio suspirou.

— O poluente está “ouvindo” a cidade. Se tem som, ele vai atrás. É por isso que está indo para o centro. Para onde tem gente, buzina, festa…

— E concerto — completou Nika, num sussurro.

Lúcio observou a poça. Quieta, ela parecia apenas sujeira brilhante. Mas ele sabia: bastava um ruído para ela “acordar”.

— Precisamos de silêncio — disse ele. — E de um jeito de capturar isso sem espalhar.

Nika riu, meio nervosa.

— Um super-herói que pede silêncio? Você vai ter que ensinar a Bravamar a… sussurrar.

Lúcio levantou-se e apontou para uma tampa de bueiro.

— Vamos começar por aqui. Se ela quer som, vamos dar som… do jeito certo.

— Isso parece perigoso e genial. Eu gosto — disse Nika.

Lúcio tirou do cinto duas esferas prateadas, do tamanho de bolas de pingue-pongue.

Microbarreiras acústicas. Elas engolem o ruído ao redor por alguns minutos. É como se o mundo prendesse a respiração.

Nika fez um assobio… e imediatamente tampou a própria boca.

— Ops.

Lúcio lançou a primeira esfera. Ela abriu um campo invisível. De repente, até o vento pareceu ter medo de soprar. Os sons viraram distância.

A gosma, confusa, parou de avançar.

— Está funcionando — disse Nika, agora falando baixo por instinto.

Mas então, lá longe, veio um ensaio de bateria. Tum-tum-tum. A cidade testando seu próprio coração.

O poluente respondeu como se alguém tivesse chamado pelo nome.

Lúcio apertou os punhos.

— O concerto vai ser um ímã.

Capítulo 3 — A Sala Aurora e o Plano Improvável

A Sala Aurora era um prédio antigo e bonito, com colunas claras e portas enormes. À noite, as luzes douradas faziam parecer que a entrada era um portal para outra dimensão — uma dimensão onde as pessoas esqueciam por uma hora que a vida podia ser complicada.

Lúcio chegou pela lateral, caminhando rápido, capuz levantado, tentando não chamar atenção. Do lado de fora, voluntários colavam cartazes: “MÚSICA = ESPERANÇA”. Uma frase bonita… e, naquele momento, quase perigosa.

Nika, no comunicador, parecia estar digitando enquanto falava.

— Eu puxei as câmeras da rua. A gosma está se aproximando pela rede de drenagem. E adivinha? Ela está vindo bem na direção da Sala Aurora. Porque claro que está.

Lúcio entrou por um corredor estreito e encontrou o maestro do concerto, um homem magro de cabelo grisalho e olhar elétrico, organizando os músicos.

— Desculpe interromper — disse Lúcio, aproximando-se com cuidado. — Eu sou… um amigo da cidade.

O maestro o avaliou. Bravamar tinha seus boatos; e aquele traje com linhas prateadas não era exatamente discreto.

— Se for para pedir autógrafo, vai ter que esperar o intervalo — disse o maestro, com um sorriso rápido.

Lúcio respondeu com outro sorriso, mas os olhos estavam sérios.

— Não. É para pedir uma coisa bem estranha: eu preciso que o concerto comece… com silêncio.

O maestro piscou, como se tivesse ouvido um instrumento desafinar dentro da própria cabeça.

— Começar com silêncio?

— Um minuto — insistiu Lúcio. — Uma pausa total. Sem tosses, sem cadeiras rangendo, sem celular. Silêncio como se todo mundo estivesse segurando uma vela acesa.

Uma violinista jovem, que estava ali perto, inclinou-se.

— Isso é… parte do espetáculo?

Lúcio escolheu as palavras como quem segura água nas mãos.

— É parte da proteção. Há uma poluição se espalhando lá fora. Ela segue o barulho. Se controlarmos o som aqui dentro, eu consigo desviá-la e capturá-la antes que chegue ao rio.

O maestro ficou sério. Não de medo, mas de decisão.

— Você está me pedindo para transformar uma sala cheia de gente em… um instrumento invisível.

— Exatamente.

O maestro virou-se para os músicos e bateu duas vezes com a batuta no ar.

— Atenção, todos. Vamos começar com “A Respiração de Bravamar”, versão… especial.

A violinista arregalou os olhos.

— Mas essa peça não existe.

— Agora existe — disse o maestro.

Lúcio afastou-se para as áreas técnicas. Ali, os sons eram menores: cabos, passos, uma lâmpada zumbindo. Ele colocou microbarreiras acústicas em pontos estratégicos, como se desenhasse um caminho de silêncio.

Nika apareceu por uma pequena tela no pulso dele, projetada como holograma.

— Eu tenho um protótipo de “rede de espuma bioabsorvente” no meu laboratório. Ela engole polímeros sem machucar a água. Só que… ela precisa ser ativada com um pulso de frequência.

Lúcio ergueu uma sobrancelha.

— Frequência… sonora?

Nika mordeu o lábio.

— Não exatamente. É vibração. Pode ser ultrassom, fora do ouvido humano. Tipo… um “assobio” que ninguém escuta.

Lúcio soltou um meio riso.

— Um assobio secreto. Perfeito. Um super-herói e seu truque de cachorro.

— Ei! — protestou Nika. — Cães são incríveis. E empáticos. Você devia aprender com eles.

Lúcio ficou quieto por um segundo. Empatia. Era isso que diferenciava um salvamento de uma simples vitória. Salvar era também entender o medo dos outros.

Do lado de fora, um estrondo distante: uma porta de metal batendo. O poluente, lá embaixo, devia ter “sorrido”, se poluição pudesse sorrir.

O concerto estava prestes a começar.

Capítulo 4 — O Silêncio que Virou Escudo

As luzes da Sala Aurora diminuíram, e o público — crianças, avós, adolescentes, pessoas com roupas de trabalho — ajeitou-se nas cadeiras com aquele murmúrio típico de expectativa.

O maestro levantou a batuta.

Lúcio, escondido na área técnica, olhou para os monitores de drenagem que Nika tinha hackeado com a rapidez de quem amarra o cadarço correndo. Uma linha verde se aproximava do ponto sob o prédio.

— Agora — sussurrou ele.

O maestro não fez o primeiro gesto musical. Em vez disso, fez um gesto de convite ao silêncio, com as duas mãos abertas, como quem pede gentileza.

E, aos poucos, o impossível aconteceu: a sala inteira ficou quieta. Uma quietude que não era vazia, era cheia de atenção. Até uma criança na primeira fila, que estava com um pacote de biscoitos, parou com o biscoito no ar, como se estivesse congelada num jogo.

Lúcio sentiu o silêncio como uma camada macia envolvendo tudo.

No subsolo, a gosma chegou à junção de canos sob a Sala Aurora… e hesitou. Procurou o som. Procurou a isca. Mas ali, naquela direção, havia apenas silêncio.

— Funcionou! — Nika falou, tão baixo que parecia um pensamento. — Ela está perdida!

Lúcio ajustou uma pequena antena no pulso e enviou um comando. As microbarreiras criaram um corredor mudo, apontando para uma saída lateral que dava para um antigo canal de serviço — um lugar afastado do público, onde ele poderia agir sem assustar ninguém.

Mas a cidade lá fora não tinha combinado de ser quieta. Um carro buzinou duas vezes, impaciente, e alguém gritou “ei!” na rua.

A gosma, animada, tentou virar para a buzina.

— Não, não, não — murmurou Lúcio, correndo pelo corredor de serviço. Ele saltou uma grade, desceu uma escada, e chegou a uma câmara úmida onde o ar era frio e cheirava a pedra molhada.

A gosma apareceu pelo cano, brilhando como se carregasse um pedaço de lua verde. Ela escorreu com rapidez, procurando a próxima fonte de som.

Lúcio pegou o comunicador.

— Nika, preciso da rede. Agora mesmo.

— Estou a caminho — respondeu ela. — E, Lúcio… tenta não ficar coberto de brilho. Você já tem linhas prateadas suficientes.

— Vou tentar. Sem promessas.

No palco, o maestro finalmente deu o primeiro gesto musical. As cordas começaram, suaves, como água passando por vidro. Era lindo. E era perigoso.

No subsolo, a gosma vibrou, atraída como um inseto por uma lâmpada.

— Droga — disse Lúcio. — Ela está ouvindo através das paredes.

Ele não podia pedir para pararem a música. O concerto era para unir a cidade, não para assustá-la. Além disso, aquela música estava fazendo algo importante: as pessoas estavam respirando juntas, lembrando que ainda existia beleza.

Lúcio pensou rápido, com a mente afiada como uma lâmina, mas o coração macio como um cobertor.

— Se ela quer música… vou dar música do outro lado.

Ele ativou um emissor ultrassônico. Não fazia som audível, mas vibrava o ar com uma assinatura escondida, como uma melodia para quem não tinha ouvidos humanos.

A gosma estremeceu. Confusa. Depois seguiu o chamado invisível, escorrendo para a direção que Lúcio queria.

— Isso, vem — disse ele, como quem chama um gato teimoso. — Vem pro lado do herói bonitão.

— Eu ouvi isso! — reclamou Nika no comunicador. — E “bonitão” foi você que se chamou?

— Foi estratégia. A gosma gosta de elogios.

— Poluição narcisista. Incrível.

Lúcio guiou a gosma até uma área de manutenção abandonada. Ali, o chão tinha grades e havia um poço de coleta vazio, pronto para receber algo… indesejado.

Só faltava a rede.

Capítulo 5 — A Rede de Espuma e o Coração da Confusão

Nika chegou correndo pela entrada lateral, com uma mochila grande demais para alguém que parecia tão leve. Ela abriu a mochila e tirou um cilindro transparente cheio de um líquido branco, espesso, como espuma antes de virar espuma.

— Isso aqui é a Rede de Espuma Bioabsorvente, versão 0.9 — disse ela, ofegante. — A versão 1.0 teria manual. Essa não tem.

— Eu adoro surpresas — respondeu Lúcio, pegando o cilindro com cuidado.

A música do concerto filtrava-se pelas paredes, mais forte agora. O público devia estar preso numa parte empolgante, com percussão e metais. A gosma tremia, tentando voltar.

— Temos pouco tempo — disse Lúcio.

Nika apontou para um botão no cilindro.

— Aperta e joga no poço. Depois ativa o pulso ultrassônico nessa frequência. — Ela passou uma sequência de números como se fossem ingredientes de bolo. — E por favor não pergunta por quê, porque eu não vou saber explicar sem desenhar.

— Eu confio nos seus desenhos — disse Lúcio.

Ele lançou o cilindro no poço. Ele se abriu em pétalas mecânicas, liberando a espuma que se expandiu como uma nuvem em câmera lenta, enchendo o espaço com algo branco e macio.

A gosma, atraída pela vibração invisível do emissor de Lúcio, desceu pelo cano e caiu no poço.

Por um instante, pareceu hesitar. Como se entendesse que aquilo não era aplauso. Era armadilha.

Lúcio falou baixo, sem ironia:

— Eu sei. Você só está seguindo o que te chama. Mas aqui, você vai parar.

Ele ativou o pulso ultrassônico na frequência indicada. A espuma brilhou com um tom azulado e começou a “puxar” o verde para dentro de si. Não era uma sucção agressiva; parecia mais um abraço insistente, do tipo que não solta até a bagunça se acalmar.

A gosma resistiu, espalhando-se em pequenos fios. Alguns fios subiram pela borda do poço, tentando escapar.

— Ela vai sair! — disse Nika, agarrando uma chave inglesa como se fosse uma espada.

— Sem pânico — respondeu Lúcio.

Ele tirou do cinto uma segunda esfera de microbarreira e a rolou pela borda do poço. O som da música ficou distante ali. A gosma perdeu o “rumo” e caiu de volta, vencida pela falta de estímulo.

A espuma continuou a trabalhar, absorvendo o polímero até que o verde virou apenas manchas pálidas, depois quase nada.

Nika soltou o ar.

— Eu… eu acho que conseguimos. A Rede está saturando o poluente. E depois a gente leva para tratamento, sem jogar em lugar nenhum.

Lúcio assentiu, mas não relaxou totalmente.

— Quem fez isso?

Nika abriu um tablet e mostrou um símbolo encontrado nos registros da fábrica: um círculo cortado por uma seta verde. O mesmo símbolo aparecia em caixas de transporte de um laboratório chamado Vértice Prisma.

— Eles estavam testando um “material inteligente” para… — Nika rolou a tela e fez uma careta. — Propaganda interativa. Tipo um líquido que se move com som e luz pra chamar atenção.

Lúcio arregalou os olhos.

— Eles criaram uma poluição que persegue aplausos.

— Basicamente. E vazou.

No palco, a música chegou ao clímax. A plateia começou a bater palmas, primeiro tímida, depois forte como chuva em telhado.

Lá embaixo, um último fio verde tentou se erguer, atraído pelo aplauso.

Lúcio pousou a mão sobre a grade do poço.

— Não.

Ele ajustou o emissor, criando uma vibração de “desligar”. A espuma fechou suas pétalas mecânicas, selando o conteúdo como um pote hermético.

O fio verde caiu, sem força.

Nika sorriu, cansada e feliz.

— Você acabou de impedir que uma gosma fosse fã de concerto.

— E eu nem cobrei ingresso — respondeu Lúcio.

Eles trocaram um olhar rápido. Era vitória, sim. Mas ainda faltava uma coisa: o rio e as ruas ainda tinham manchas. E as pessoas lá fora ainda estavam preocupadas.

Lúcio endireitou os ombros.

— Vamos limpar o resto. Bravamar merece amanhecer sem brilho suspeito.

Capítulo 6 — Limpeza, Empatia e um Amanhecer Tranquilo

A madrugada em Bravamar era feita de ruas úmidas e luzes que pareciam bocejar. Lúcio e Nika, agora com uma pequena equipe de agentes ambientais avisados por ela, seguiram os rastros do poluente.

Lúcio usava um equipamento no antebraço que emitia microcampos silenciosos, impedindo que qualquer ruído acidental “acordasse” restos da gosma. Nika, com luvas até o cotovelo, aplicava uma solução que soltava o polímero do chão sem espalhar.

Em cada esquina, havia alguém acordado: um porteiro preocupado, uma entregadora que parou a bicicleta, uma família olhando pela janela.

Uma menina com pijama de estrelas apontou para o traje de Lúcio.

— Você vai deixar a rua bonita de novo?

Lúcio agachou-se para ficar na altura dela. A voz dele ficou suave, mas firme.

— Vou fazer o melhor possível. Mas sabe uma coisa? A cidade também precisa de você.

A menina franziu o nariz.

— De mim?

— Precisa do jeito como você cuida das coisas pequenas. Não jogar lixo no chão, avisar quando vê algo estranho, tratar as pessoas com respeito. Superpoder não é só voar ou brilhar. Às vezes é… prestar atenção.

A menina pensou e assentiu com seriedade, como se tivesse recebido uma missão secreta.

Mais adiante, um senhor tentava limpar a calçada com uma mangueira, espalhando a mancha verde.

— Senhor! — chamou Lúcio, rápido, mas sem bronca. — Espera! Eu sei que o senhor está tentando ajudar.

O homem parou, suando.

— Eu não aguento ver essa sujeira. Parece que a cidade está doente.

Lúcio aproximou-se devagar.

— Eu entendo. E eu admiro sua vontade de cuidar. Mas essa substância se espalha com água e barulho. Se o senhor parar agora, ajuda mais do que imagina.

O homem respirou fundo e desligou a mangueira.

— Desculpe. Eu só… fiquei com raiva.

— Raiva é um alarme — disse Lúcio. — O importante é o que a gente faz depois que o alarme toca.

Eles continuaram o trabalho. As equipes coletaram resíduos para tratamento, lavaram com técnicas certas, e selaram os pontos onde havia vazamento. Nika enviou um relatório completo às autoridades, com provas e um pedido bem claro: responsabilidade da empresa, reparação e transparência.

Quando o céu começou a clarear, Bravamar parecia outra. As ruas estavam limpas, o ar menos pesado, e o Rio da Curva — visto de uma ponte — seguia seu caminho com um brilho normal: o brilho do sol nascendo, não de poluição.

Da Sala Aurora, ainda vinha movimento. Pessoas saíam sorrindo, comentando a música, sem saberem exatamente o quanto tinham ajudado ao fazer aquele minuto de silêncio. O maestro, na porta, encontrou Lúcio ao longe e levantou a batuta como quem faz um cumprimento.

Lúcio respondeu com um gesto simples de mão, e Nika cutucou o braço dele.

— Você viu? Eles não têm ideia.

— Eles têm ideia do que importa — disse Lúcio. — Eles escolheram escutar. E isso muda tudo.

Nika apoiou o queixo no punho.

— Então, no fim, a cidade foi salva com… silêncio e empatia.

Lúcio sorriu, olhando Bravamar acordar.

— E com um pouco de ciência teimosa.

Nika riu.

“Ciência teimosa” é meu novo slogan.

Lúcio respirou fundo. O vento agora cheirava a café recém-passado e mar, como deveria ser. Ele olhou para os prédios, as praças, as pessoas indo trabalhar, os ônibus começando suas rotas.

Bravamar estava em paz — não perfeita, mas viva, atenta, e mais cuidadosa.

E, no alto de um prédio, quando o sol finalmente subiu, Lúcio Arcano ficou por um segundo em silêncio outra vez, ouvindo a cidade.

Dessa vez, ela soava tranquila.

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Que parece ter a superfície como um espelho, muito brilhante e refletora.
Maresia
Cheiro e ar úmido que vem do mar e se mistura com o vento.
Letreiros neon
Placas luminosas feitas com tubos que brilham em cores fortes à noite.
Canaletas
Pequenos canais ou ranhuras por onde corre água ou líquidos.
Comunicador
Aparelho usado para falar ou enviar mensagens à distância.
Gravidade
Força que puxa objetos para o chão e mantém tudo no lugar.
Polímero industrial
Material feito em fábricas, feito de muitas moléculas iguais ligadas.
Poluente
Substância suja que prejudica o ar, a água ou o solo.
Microbarreiras acústicas.
Dispositivos que criam um campo para reduzir ou prender sons ao redor.
Bioabsorvente
Material que absorve substâncias e não prejudica o ambiente.
Ultrassom
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