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História de viagem no tempo 7 a 8 anos Leitura 16 min.

O relógio da oitava volta e a cidade das dunas frescas

Lia, uma menina curiosa e metódica, encontra um relógio mágico que a transporta para a Cidade das Dunas Frescas, onde aprende regras sobre o tempo e enfrenta um pequeno paradoxo que precisa resolver sem alterar o passado.

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Lia, menina de 8 anos, sorridente e concentrada, cabelo castanho claro curto, ajoelha-se diante de um velho móvel de madeira e coloca delicadamente um pequeno relógio de bolso prateado numa prateleira, segurando na outra mão uma concha de vidro fria; a avó, mulher de cerca de 70 anos com cabelos grisalhos presos, rosto enrugado e expressão terna, observa desde a porta da cozinha, mãos sobre um pano, ligeiramente ao fundo à direita. Ao redor, quintal ensolarado com chão de terra, vasos de terracota e uma cadeira de metal gasta; acima do móvel, um reflexo translúcido revela vagamente a silhueta azulada de uma cidade de dunas futurista. Momento terno e silencioso ao anoitecer em que Lia guarda cuidadosamente o relógio e um pequeno bilhete no móvel, atmosfera calma e mágica, luz quente e detalhes sutis. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O relógio que não gostava de atrasos

Lia tinha oito anos e uma forma muito certa de olhar para o mundo. Gostava de medir, contar e confirmar. Se alguém dizia “já volto”, Lia perguntava “em quantos minutos?”. Se o vento mexia a cortina, ela queria saber de onde vinha. Chamavam-na de cartésiana, mas a Lia só dizia: “Eu gosto de ter a certeza.”

Numa tarde quente, ela estava no quintal da avó, num bairro onde a areia às vezes entrava pelas ruas como farinha dourada. A avó tinha um velho armário cheio de coisas: bússolas, vidrinhos, fitas, e um relógio de bolso que parecia ter vivido mais do que muita gente.

Lia pegou no relógio e ouviu um tic-tac muito firme, como se o relógio marchasse.

“Este relógio está certo?” perguntou ela, franzindo a testa.

A avó sorriu, como quem guarda um segredo simples. “Ele é teimoso. Gosta de horas certinhas.”

Lia abriu a tampa. Dentro, havia um pequeno desenho gravado: um círculo com uma seta, e ao lado uma ampulheta minúscula.

“Parece… um sinal,” murmurou Lia, animada. “Uma marca. Talvez de fábrica.”

Ela deu corda ao relógio com cuidado, contando voltas: uma, duas, três… oito. Porque oito era um número bom. E também era a idade dela.

No instante da oitava volta, o ar ficou fresco, como se alguém tivesse aberto um frigorífico invisível. A areia do quintal levantou-se em redemoinho, mas não arranhava nem picava; era como pó de açúcar a dançar.

Lia apertou o relógio contra o peito. O tic-tac ficou mais rápido. Ela quis fazer uma lista mental do que estava a acontecer, mas a lista fugiu-lhe como sabonete molhado.

De repente, tudo ficou silencioso. E a luz mudou. Não era noite nem dia. Era uma claridade macia, como manhã depois de chuva.

Quando Lia abriu os olhos, já não estava no quintal da avó.

Ela estava numa cidade de areia, mas uma areia diferente: limpa, arrumada em caminhos claros, e com desenhos no chão como ondas. E o mais estranho de tudo: estava fresco. Fresco mesmo, como sombra de árvore grande.

Lia olhou à sua volta e respirou fundo. “Ok. Vamos observar,” disse baixinho, para se acalmar. “Onde estou? O que mudou? O que é igual?”

Ela viu casas baixas, brilhantes, com telhados que pareciam conchas. Havia torres finas ao longe, como canudos de vidro, e entre elas passavam pequenas pontes. Em vez de carros barulhentos, deslizavam plataformas suaves, quase sem som.

E no ar, sentia-se um perfume leve de água.

“Mas… numa cidade de areia… como é que está tão fresco?” Lia perguntou, mais curiosa do que assustada.

O relógio de bolso, na mão dela, fez um “clac” baixinho, como se dissesse: “Bem-vinda.”

Capítulo 2: A cidade que fazia vento com inteligência

Lia caminhou devagar. Contava passos para não se perder: dez, vinte, trinta… Depois desistiu, porque havia tantas coisas interessantes que os números começaram a tropeçar.

Ela passou por um jardim, mas não tinha relva. Tinha plantas que pareciam fitas verdes e grossas, enfiadas em vasos de areia. Em cima, flutuavam pequenos círculos de tecido, como guarda-chuvas muito leves.

Ao aproximar-se, Lia sentiu uma brisa que vinha de baixo. Ela ajoelhou-se e viu uma grelha no chão.

“Ah!” Lia sorriu. “Ar fresco!”

Uma menina da idade dela apareceu numa plataforma deslizante. Usava um chapéu claro e tinha uma pulseira com luzinhas. A plataforma parou, como se obedecesse a um pensamento.

“Olá,” disse a menina, com simpatia. “Estás perdida?”

“Estou… deslocada,” respondeu Lia, escolhendo a palavra mais certa. “Onde é que eu estou?”

“Na Cidade das Dunas Frescas,” disse a menina. “Eu sou a Nara.”

Lia tentou ficar muito séria, mas a curiosidade puxou-lhe um sorriso. “Por que é que aqui é fresco? No meu bairro, quando a areia aparece, o calor vem junto.”

Nara apontou para as torres finas ao longe. “Vês aquelas torres? São coletores de vento. Elas puxam o ar lá de cima, onde está mais frio, e empurram por canais debaixo do chão. A areia por cima não aquece tanto, então o ar sai fresquinho.”

Lia arregalou os olhos. “Como… um canudo gigante a beber vento?”

Nara riu. “Sim! E também usamos água guardada em pedras especiais. Elas ‘bebem' um pouco de humidade à noite e soltam durante o dia. E as sombras flutuantes ajudam.”

Lia olhou para os círculos de tecido. “São como nuvens de brincar.”

“Exato,” disse Nara. “E são gentis. Não fazem barulho, não assustam ninguém.”

Lia apertou o relógio. O tic-tac tinha voltado ao normal, como se estivesse contente por ela estar a aprender.

“Que ano é este?” perguntou Lia, de repente, com o coração a bater mais rápido. Porque aquela cidade não parecia “agora”. Parecia “depois”.

Nara pensou um pouco. “É o ano 2189.”

Lia ficou quieta por um segundo. Depois disse, com voz baixa e redonda: “Então… eu vim do passado.”

Nara inclinou a cabeça. “Acontece às vezes. Não é comum, mas acontece. Há regras, claro.”

“Regras são boas,” disse Lia, aliviada. “Quais são?”

Nara levantou dois dedos. “Primeira regra: não mexer em coisas que mudem o teu tempo. Segunda: não contar detalhes que façam alguém tomar decisões diferentes por tua causa.”

Lia respirou fundo. “Ok. Não mexer. Não contar demais.”

“E a terceira,” Nara acrescentou, piscando um olho. “Não culpar o tempo. Ele só faz o trabalho dele.”

Lia riu, apesar de não perceber bem a piada. Mas gostou do jeito leve.

Nara convidou-a a ver o Centro de Mapas do Tempo, um prédio baixo com paredes claras. Dentro, havia painéis com linhas que pareciam rios desenhados.

Um homem de cabelos grisalhos, com olhos sorridentes, aproximou-se. “Bem-vinda. Sou o senhor Ivo, cuidador dos registros temporais.”

Lia endireitou as costas, como quando ia responder a uma pergunta na escola. “Eu sou a Lia. Eu… dei corda a um relógio.”

O senhor Ivo olhou para o relógio como quem reconhece um velho amigo. “Ah. Um Relógio de Oitava Volta. Ele gosta de pessoas que contam bem.”

“Eu conto muito,” confessou Lia.

Ivo apontou para um painel. “Vamos ver a tua linha. Não te preocupes. O tempo é como uma corda de saltar: dá voltas, mas volta ao mesmo lugar quando alguém segura bem.”

Lia gostou dessa imagem. Uma corda de saltar.

Mas então viu algo no painel: uma pequena ondulação na linha, como um nó.

“Isso é… um problema?” perguntou ela.

Ivo fez um gesto calmo. “É um paradoxo pequeno. Malicioso, mas não perigoso. Parece que o teu relógio foi parar ao armário da tua avó porque… tu mesma vais devolvê-lo.”

Lia piscou. “Como eu posso devolver no passado se eu estou no futuro?”

Nara sorriu. “É a parte divertida.”

Lia cruzou os braços, a tentar ser lógica. “Isso não faz sentido.”

Ivo respondeu com calma: “No tempo, algumas coisas são círculos. E tu vais fechar esse círculo. Mas com cuidado. Sem deixar pistas a mais.”

Lia sentiu uma mistura de orgulho e confusão. Orgulho por ser importante numa coisa tão grande. Confusão porque… bem, era o tempo.

“Então eu preciso voltar,” disse ela.

“Sim,” disse Ivo. “Mas antes, há um pequeno dever. Para manter tudo certinho.”

Capítulo 3: O paradoxo do bilhete que se escreve sozinho

Ivo levou Lia e Nara até uma sala com uma mesa e uma caixa transparente. Dentro da caixa havia um papel dobrado.

“Este bilhete apareceu hoje,” explicou Ivo. “Sem ninguém o colocar aqui. E isso só acontece quando alguém do passado está por perto.”

Lia engoliu em seco. “Eu?”

Ivo abriu a caixa e mostrou o papel. Estava em branco.

“Em branco?” perguntou Nara, desapontada.

“Por enquanto,” disse Ivo. “O bilhete precisa ser escrito pela pessoa certa, no momento certo. E depois… voltar para onde sempre esteve.”

Lia olhou para o papel como se fosse uma conta de matemática difícil. “O que eu tenho de escrever?”

Ivo apontou para o painel do tempo. “Uma frase simples, que ajude a tua versão do passado a fazer o que é necessário. Sem assustar. Sem dar explicações demais.”

Lia pensou na avó, no armário, no relógio, e nela mesma a contar voltas. Ela imaginou a avó a dizer “Ele é teimoso”. Talvez a avó já soubesse um pouco… ou talvez só soubesse confiar.

Lia pegou num lápis. O lápis era leve, feito de um material que parecia madeira e pedra ao mesmo tempo.

Ela escreveu devagar, com letra bem redonda:

“Se contares até oito com calma, o tempo mostra um caminho. Volta com o relógio para o armário, e diz obrigada.”

Nara inclinou-se. “É… fofo.”

Lia corou. “É simples. E é educado.”

Ivo assentiu. “Humildade é uma boa âncora. O tempo gosta de âncoras.”

Lia franziu a testa. “O tempo gosta?”

Ivo riu. “Eu falo como se ele fosse uma pessoa. É só um jeito de lembrar: quando agimos com cuidado, tudo fica mais estável.”

Assim que Lia terminou, o bilhete pareceu ganhar peso, como se as palavras o tornassem mais real. O papel deu um brilho suave, como quando se aproxima uma lanterna.

“Agora vem a parte do círculo,” disse Nara, animada.

Eles caminharam até uma praça com um arco de metal claro. No chão, havia a mesma marca do relógio: círculo, seta, ampulheta.

“O Portal de Retorno,” explicou Ivo. “Ele não te manda para qualquer lugar. Ele manda para o teu lugar. Mas só se estiveres pronta.”

Lia olhou para a cidade fresca, para as sombras flutuantes, para as plataformas silenciosas, e para os coletores de vento ao longe. Uma parte dela queria ficar e medir tudo, desenhar mapas, entender cada detalhe.

Mas outra parte, bem pequena e firme, lembrava-se do quintal, da avó, e das coisas que precisavam de continuar como eram.

“Eu estou pronta,” disse Lia.

Nara entregou-lhe uma pequena concha de vidro. “Para te lembrares de respirar devagar. Quando a concha fica fria, é porque estás a ser paciente.”

Lia segurou a concha e sorriu. “Obrigada.”

Ivo entregou-lhe o bilhete, agora dobrado. “Este bilhete vai contigo. E também fica aqui. Parece impossível, mas é assim que o círculo fecha. Tu não precisas entender tudo. Só precisas fazer a tua parte.”

Lia respirou fundo. Pela primeira vez naquele dia, ela não tentou controlar tudo. Ela apenas confiou, com cuidado.

Ela entrou no arco.

O ar ficou fresco outra vez, depois quente, depois fresco, como se ela passasse por várias estações num só passo. O tic-tac do relógio acelerou, e Lia sentiu a areia a dançar ao redor, mas sem qualquer medo. Era como se o tempo fizesse uma coreografia.

E então… silêncio.

Capítulo 4: O presente, a avó e o “obrigada” que fecha o círculo

Lia estava de volta ao quintal da avó. O sol era o mesmo, a cadeira era a mesma, e o armário velho parecia olhar para ela com a mesma paciência de sempre.

Mas Lia não era a mesma.

Ela abriu a mão. O relógio de bolso estava lá. E a concha de vidro também. Estava fria, fria como a brisa da Cidade das Dunas Frescas.

Lia correu até o armário, abriu a porta e colocou o relógio no mesmo lugar de onde o tinha tirado. Depois, sem saber bem porquê, dobrou o bilhete e meteu-o numa pequena caixa que estava na prateleira de baixo. A caixa tinha pó, como se esperasse por aquilo há muito tempo.

A avó apareceu à porta da cozinha, a limpar as mãos num pano. “Então, Lia? Encontraste algo interessante?”

Lia olhou para a avó. Teve vontade de contar tudo: as torres, o vento, a cidade, a Nara, o senhor Ivo. Mas lembrou-se das regras. Não contar demais. Não mexer. Ser cuidadosa.

Ela escolheu palavras simples, verdadeiras e pequenas.

“Encontrei,” disse Lia. “E aprendi que nem tudo precisa ser mandado por mim.”

A avó aproximou-se e alisou o cabelo dela. “Isso é uma coisa grande de aprender, pequenina.”

Lia hesitou e depois perguntou: “Avó… às vezes tu já sabes coisas antes de eu saber?”

A avó piscou um olho. “Eu sei algumas. E outras eu apenas confio.”

Lia sentiu um calor bom no peito. A humildade, percebeu ela, não era ficar pequena. Era lembrar que o mundo é grande, e que pedir ajuda e respeitar regras também é ser esperta.

Mais tarde, no seu quarto, Lia pegou num caderno e desenhou a Cidade das Dunas Frescas. Fez setas e notas simples: “torres puxam vento”, “sombras flutuantes”, “canais no chão”. E escreveu uma frase no topo, em letra grande:

“Descobrir é bom. Mas cuidar do tempo também.”

No dia seguinte, quando voltou ao quintal, a pequena caixa na prateleira de baixo parecia ter um brilho diferente. Lia abriu-a e encontrou o bilhete… com a sua própria letra.

Ela leu em voz baixa:

“Se contares até oito com calma, o tempo mostra um caminho. Volta com o relógio para o armário, e diz obrigada.”

Lia riu. “Eu escrevi isto… e ainda assim, parece que alguém escreveu para mim.”

Ela fechou a caixa com cuidado. O paradoxo não a irritou. Pelo contrário. Parecia uma travessura bondosa do universo, como um jogo em que ninguém perde.

Antes de sair, Lia olhou para o relógio no armário. Não tocou nele. Só sussurrou, para si mesma:

“Obrigada.”

E o mundo seguiu, no seu ritmo certo. Tic-tac. Presente. Com uma pequena luz de futuro guardada no coração, fresca como uma brisa num dia de areia.

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Cartésiana
Pessoa que gosta de pensar com calma e seguir regras e lógica.
Armário
Móvel com portas onde se guardam roupas e objetos em casa.
Bússolas
Instrumentos que mostram a direção norte, sul, leste e oeste.
Ampulheta
Objeto com areia que cai devagar para medir o tempo.
Redemoinho
Movimento de ar ou água que gira em forma de espiral.
Paradoxo pequeno
Situação estranha que parece contradizer a lógica comum.
Painel
Superfície com informações ou botões usados para ver dados.
Coletores de vento
Estruturas que captam o vento para trazer ar fresco.
Plataformas
Superfícies que se movem devagar e servem para andar.
Humildade
Qualidade de ser simples e respeitar os outros, sem orgulho.

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