Capítulo 1: A Porta do Tempo no Sótão
Lia era uma menina sensível. Ela reparava em coisas pequenas: o barulho da chuva no vidro, o cheiro de pão quente, a forma como a luz dançava no chão.
Naquele sábado, Lia estava no sótão da avó com duas amigas da mesma idade: a Zélia e a Bia. As três tinham mais ou menos oito anos e uma curiosidade do tamanho de um planeta.
A avó tinha deixado uma caixa de etiquetas coloridas para elas brincarem. Havia etiquetas que diziam “ontem”, “amanhã”, “agora”, “depois”, e uma bem brilhante que dizia “HOJE”.
“Olhem esta!” disse Bia, colando “HOJE” na ponta do nariz. “Agora eu sou o calendário.”
Zélia riu. “Tu és mais um alarme. ‘BIP BIP, É HOJE!'”
Lia sorriu, mas estava a olhar para outra coisa: no canto do sótão havia uma porta pequena, encostada à parede, que ela nunca tinha visto aberta.
“Essa porta sempre esteve aí?” perguntou Lia, baixinho, como quem não quer acordar um segredo.
“Eu nunca reparei,” disse Zélia, já a aproximar-se. “E eu reparo em tudo… menos na matemática.”
Bia tirou a etiqueta do nariz. “Vamos abrir! Se for um armário, podemos achar chocolate antigo.”
A porta tinha um puxador redondo e frio. Lia encostou a mão e sentiu um leve… tique-taque, como um relógio escondido.
“Estão a ouvir?” sussurrou Lia.
Zélia colou o ouvido na madeira. “Parece um relógio a mastigar bolachas.”
“Relógios não comem,” respondeu Bia, muito séria. “Só os ratos.”
Lia respirou fundo. “Vamos juntas. Se for estranho, fechamos logo.”
As três puseram as mãos no puxador ao mesmo tempo. A porta abriu com um suspiro, e lá dentro não havia pó nem teias. Havia luz. Uma luz azulzinha, suave, e um arco brilhante como uma bolha de sabão.
No chão, uma linha pintada dizia, com letras simples:
“Regra 1: Não mexer em nada sem combinar.
Regra 2: Voltar antes do sol ficar muito baixo.
Regra 3: Se vires a ti mesma… acena e segue.”
Bia arregalou os olhos. “Quem escreveu isto? Um relógio professor?”
Zélia apontou. “Olhem… dá para ver do outro lado.”
Do outro lado do arco, havia água a correr e uma roda grande a girar. Um moinho! Um moinho ao lado de um rio, com patos a nadar e ervas altas a dançar ao vento.
Lia sentiu o coração bater rápido, mas não de medo. Era como estar a abrir um livro novo.
“É um portal,” disse Lia, num fio de voz.
Bia pôs as mãos na cintura. “Eu voto ‘sim'. E voto que vamos.”
Zélia levantou um dedo. “Combinado: ninguém vai sozinha.”
Lia assentiu. “Juntas.”
Deram as mãos. Três mãos pequenas, três respirações, uma coragem partilhada.
E atravessaram.
Capítulo 2: O Moinho à Beira da Água
O ar do outro lado cheirava a rio e a pão. Sim, pão. Como se alguém estivesse a cozer qualquer coisa perto.
O moinho era de madeira escura, mas bem cuidada. A roda grande mexia-se com a força da água e fazia um som calmo: “chhh… clac… chhh… clac…”
“Parece que o rio está a cantar,” disse Lia.
“E a roda está a bater palmas,” completou Zélia.
Bia abriu os braços. “Bem-vindas ao passado! Ou ao futuro! Ou ao… ‘agora diferente'!”
No caminho de terra, apareceu um rapazinho com uma boina e uma cesta. Tinha mais ou menos a idade delas e um sorriso aberto.
“Olá!” disse ele. “Vocês vieram ajudar no moinho?”
As três trocaram olhares. Lia respondeu com cuidado. “Nós… estamos a visitar.”
“Eu sou o Tomás,” disse ele. “Hoje é dia de moer farinha. O meu pai está lá dentro. Se quiserem ver, podem. Mas cuidado com os sacos. São pesados.”
Bia tentou levantar uma pontinha de um saco e fez uma cara engraçada. “Este saco comeu muitos músculos.”
Tomás riu. “Ele comeu trigo. É farinha, mas ainda não está fininha.”
Zélia olhou para o moinho, fascinada. “Como é que a água faz a roda girar?”
Tomás apontou para a corrente. “A água empurra as pás. A roda mexe. Lá dentro, as pedras grandes rodam e esmagam o grão. É como… um sanduíche gigante, mas de pedra.”
Lia gostou da comparação. “Uma sanduíche que faz pó de pão.”
Entraram. O moinho era cheio de sons e cheiros: madeira, trigo, farinha, rio. Um homem alto acenou, com cara simpática e mãos brancas de pó.
“Bem-vindas,” disse ele. “Tomás, mostra-lhes as regras do moinho.”
Tomás endireitou-se, importante. “Regra 1: Não meter os dedos onde roda. Regra 2: Não correr. Regra 3: Se espirrarem, digam ‘saúde'.”
Bia levantou a mão. “E se eu espirrar três vezes?”
“Então a farinha gosta muito de ti,” respondeu Tomás, sério. Zélia riu tanto que quase espirrou de verdade.
Enquanto olhavam, Lia reparou numa coisa pendurada na parede: um pequeno relógio de madeira, com um ponteiro que não parava quieto. Ele tremia, como se não soubesse que horas queria ser.
Lia aproximou-se. “Este relógio está… nervoso.”
O pai de Tomás coçou a barba. “Ah, esse. Às vezes faz coisas estranhas. Começou hoje de manhã. O ponteiro dá voltas sem parar. E, quando isso acontece, a roda do moinho também fica… caprichosa.”
Nessa mesma hora, a roda lá fora deu um “CLAC!” diferente, como um soluço. O moinho pareceu hesitar, e a farinha caiu de repente mais depressa.
Tomás arregalou os olhos. “Oh não. A roda está a girar rápido demais!”
Bia apontou para uma manivela perto da porta. “Aquilo serve para travar?”
“Serve,” disse Tomás, “mas é dura. Eu sozinho não consigo.”
Zélia foi logo. “Três meninas e um Tomás. Isso dá… quatro forças!”
Lia engoliu em seco. “Vamos combinar. Eu conto ‘um, dois, três' e puxamos juntos.”
“Combinado!” disseram os três.
Lia respirou, segurou a manivela com as duas mãos, sentiu a madeira áspera. “Um… dois… três!”
Puxaram. A manivela mexeu só um bocadinho.
“Outra vez!” disse Bia, com energia. “Eu vou fazer cara de super-heroína.”
Zélia fez também. “Eu vou fazer cara de matemática fácil.”
Tomás riu, mesmo preocupado. “Isso é impossível.”
“Um… dois… três!” puxaram de novo. A manivela girou mais. Lá fora, a roda abrandou. O som voltou ao normal: “chhh… clac… chhh…”
O pai de Tomás soltou o ar. “Muito bem! Obrigado. Vocês trabalham em equipa como gente grande.”
Lia sentiu um calor bom no peito. Não era orgulho sozinho. Era orgulho com as outras, como um cobertor partilhado.
Mas o relógio nervoso continuava a tremer.
Zélia apontou. “Acho que isto tem a ver com o portal.”
Bia inclinou a cabeça. “E se o tempo estiver a fazer cócegas no relógio?”
Lia olhou pela janela. O sol estava num ponto que ela não conseguia adivinhar bem. E, de repente, viu uma coisa estranha no vidro: o reflexo de… três meninas iguais a elas, a passar lá fora, como se fosse um eco.
Lia lembrou-se da Regra 3: “Se vires a ti mesma… acena e segue.”
Ela levantou a mão e acenou. O reflexo acenou também e desapareceu, como uma bolha a rebentar sem barulho.
Bia sussurrou: “Eu vi!”
Zélia sussurrou também: “Eu também!”
Tomás olhou confuso. “Vir o quê? Um pato a fazer careta?”
“Sim,” disse Bia depressa. “Um pato muito… parecido connosco.”
Lia cochichou para as amigas: “Não vamos confundir ninguém aqui. Só precisamos de… arrumar o tempo.”
Capítulo 3: O Paradoxo das Migalhas
O pai de Tomás ofereceu-lhes uma fatia de pão ainda morno, com um pouco de mel. Era tão bom que Bia fechou os olhos.
“Se eu ficar no passado, eu quero ser pade… pade… pessoa do pão,” disse ela, com a boca cheia.
Zélia apontou para o relógio nervoso. “Mas o tempo está a fazer disparates.”
Lia olhou para a linha de água, para a roda, para o relógio. “O portal deve estar ligado a isto. Talvez o relógio seja como… uma placa de trânsito do tempo.”
Tomás aproximou-se, curioso. “O que é ‘tempo'? É tipo… a fila do pão?”
Bia engoliu e respondeu: “É a fila de tudo. A gente vai andando.”
Lia sorriu. “E, se alguém mexe na fila, as pessoas podem ficar baralhadas.”
Zélia ficou pensativa. “Nós já mexemos. Atravessámos o portal. Talvez o relógio esteja a tentar decidir se é ‘hoje', ‘ontem' ou ‘amanhã'.”
Bia tirou do bolso uma das etiquetas que tinha ficado colada na mão: “amanhã”. “Tenho uma ideia. E se o relógio precisa de uma etiqueta certa?”
Lia arregalou os olhos. “A etiqueta ‘HOJE' ficou no sótão… mas talvez possamos fazer um ‘hoje' aqui.”
Zélia olhou à volta e viu um quadro de avisos com papel velho e carvão para escrever. “Podemos escrever ‘hoje' num papel!”
Tomás apontou para um pote de cola caseira na mesa. “A minha mãe faz cola com farinha e água. Cola tudo. Até ideias.”
Bia levantou a etiqueta “amanhã”. “Então vamos fazer a coisa certa: dar ao relógio uma palavra que o acalme.”
Lia mordeu o lábio. “Mas cuidado com os paradoxos.”
Tomás franziu a testa. “Para… o quê?”
Zélia explicou com calma, como se estivesse a ensinar um jogo. “É quando uma coisa faz um nó em si mesma. Tipo: se eu como o meu lanche de amanhã hoje, amanhã fico sem lanche, mas se eu fico sem lanche amanhã, talvez eu não consiga voltar no tempo para comer o lanche hoje… e pronto, nó.”
Tomás ficou de boca aberta. “Isso é… malicioso.”
“É um paradoxo malandro,” disse Bia. “Gosta de fazer confusão.”
Lia apontou para as regras do portal que ainda ecoavam na sua cabeça. “A Regra 1 dizia para não mexer sem combinar. Então combinamos tudo.”
As quatro crianças juntaram-se à mesa. Zélia escreveu num papel, com letras grandes: “HOJE”. Lia passou a cola com cuidado. Bia segurou o papel para não dobrar. Tomás levou uma escadinha pequena para alcançarem o relógio.
“Trabalho de equipa,” disse Tomás, orgulhoso, como se fosse o chefe do moinho por um minuto.
Subiram um degrau de cada vez. Lia ficou com o coração apertado só de estar alto, mas Bia segurou-lhe o braço.
“Eu estou aqui,” disse Bia. “E eu não deixo o ‘alto' ser assustador.”
“Obrigada,” disse Lia, aliviada.
Zélia colou o papel “HOJE” mesmo ao lado do relógio nervoso. Por um segundo, nada aconteceu. Depois, o ponteiro parou de tremer. Ficou firme. E fez um “tic” calmo, como um suspiro de alívio.
Lá fora, a roda do moinho pareceu sorrir com o som: “chhh… clac… chhh…”
Tomás aplaudiu baixinho. “Funcionou!”
Mas, no mesmo instante, uma rajada de vento entrou pela janela e levantou migalhas de pão do chão. As migalhas rodopiaram no ar, como se estivessem a dançar.
Bia apontou. “Olhem! Migalhas viajantes!”
As migalhas formaram uma setinha no ar, a apontar para a porta do moinho, e depois caíram direitinho ao chão, fazendo uma trilha até… um cantinho escuro perto da parede. Lá, escondido, havia um círculo brilhante pequenino, como o portal, mas do tamanho de um prato.
Zélia arregalou os olhos. “Um miniportal!”
Lia sentiu o estômago dar uma voltinha. “Isso não estava ali antes.”
Tomás coçou a cabeça. “Eu juro que eu limpei esse canto ontem.”
Bia agachou-se e viu algo dentro do brilho: um pedaço de papel colorido. Ela pegou com cuidado e puxou. Era uma etiqueta… igual às da caixa da avó.
Dizia: “ONTEM”.
Zélia sussurrou: “Ah. Aqui está o nó. O ‘ontem' apareceu depois do ‘hoje'.”
Lia pensou rápido. “Se deixarmos ‘ONTEM' aqui, o tempo pode querer voltar a confundir as horas. Temos de levar isto connosco e guardar no lugar certo.”
Bia levantou a etiqueta como se fosse uma pista de detetive. “Missão: devolver o ontem ao ontem.”
Tomás perguntou: “E eu posso ir?”
Lia olhou para ele, com carinho. “Não podemos. As regras do tempo são para não atrapalhar a tua fila. Mas podemos prometer uma coisa.”
“Qual?” perguntou Tomás.
Zélia sorriu. “Prometemos lembrar de ti.”
Bia acrescentou: “E de que o teu moinho tem uma roda que bate palmas.”
Tomás riu. “Isso eu aceito.”
O pai de Tomás aproximou-se e ofereceu-lhes um saquinho pequeno de farinha. “Para recordação. E para panquecas.”
Lia segurou o saquinho. “Obrigada. Vamos voltar antes do sol ficar baixo.”
As três meninas deram um abraço em Tomás. Ele acenou, feliz, sem perceber tudo, mas confiando nelas.
E elas seguiram a trilha das migalhas até o portal maior, do lado de fora, perto de uma árvore inclinada que parecia apontar o caminho.
Capítulo 4: De Volta ao Presente, com um Autocolante
O portal brilhava com a mesma luz azulzinha. Antes de atravessar, Lia olhou para o moinho mais uma vez. Tudo estava calmo: a roda girava no ritmo certo, o relógio estava tranquilo, e os patos pareciam estar a contar piadas em “quá-quá”.
Bia segurou a etiqueta “ONTEM” com cuidado. “Não vou perder. Eu sou uma bolsa humana.”
Zélia levantou o saquinho de farinha. “E eu sou a bagagem científica.”
Lia respirou fundo. “Vamos juntas. Um, dois, três.”
Atravessaram.
O sótão voltou como se fosse uma página a fechar e outra a abrir. O ar cheirava a madeira velha e a caixas. A luz era a do fim da tarde, certinha, como se o tempo dissesse: “Está tudo no lugar.”
As três soltaram as mãos devagar, como quem não quer quebrar o encanto.
Bia olhou à volta. “Nós voltámos! E eu continuo a ser o calendário.”
Zélia apontou para a caixinha de etiquetas. “Olhem! Ainda há ‘HOJE' aqui.”
Lia franziu a testa. “Mas nós colámos um ‘HOJE' no moinho…”
Zélia sorriu. “Talvez o tempo tenha muitos ‘hojes'. Um para cada lugar.”
Bia abriu a mão e mostrou a etiqueta “ONTEM”. “E esta? Onde é que ela vai?”
Lia viu, na tampa da caixa, uma divisória pequena com a palavra “passado”. Talvez a avó tivesse organizado assim para brincar… ou talvez soubesse mais do que dizia.
“Vamos colocar lá,” disse Lia. “Sem truques. Direitinho.”
As três colocaram a etiqueta “ONTEM” na divisória. Nesse instante, ouviram um “tic” suave vindo da portinha do portal, como se alguém lá dentro tivesse dito “obrigado”.
Zélia encostou o ouvido à porta. “Acho que o relógio mastigador parou de comer bolachas.”
Bia olhou para o saquinho de farinha. “E agora… panquecas!”
Lia segurou o saco e sentiu-se feliz. Não apenas pela aventura, mas porque tinham feito tudo juntas: combinaram, ajudaram, respeitaram regras e consertaram o nó sem brigar.
“Sabem,” disse Lia, “o tempo é como o moinho. Se cada um puxa para um lado, dá confusão. Mas se a gente puxa junto, fica suave.”
Zélia assentiu. “Cooperação: a roda gira melhor.”
Bia pegou na etiqueta mais brilhante, a que dizia “HOJE”. Ela olhou para Lia e Zélia. “Última parte da missão: o ‘HOJE' tem de ficar onde a gente vive.”
Lia riu. “No presente.”
Bia colou o autocolante “HOJE” na capa do caderno de desenhos da Lia, bem no canto. Ficou perfeito, como um sol pequeno.
Zélia inclinou a cabeça. “Assim, quando a Lia abrir o caderno, vai lembrar: o hoje é importante.”
Lia passou os dedos na etiqueta, devagar. “E que o ontem ensinou uma coisa: a gente pode consertar confusões com calma e ajuda.”
Bia deu um salto pequenino. “E com panquecas!”
As três desceram do sótão a correr, mas sem pressa por dentro, porque agora sabiam uma coisa simples e forte:
O melhor lugar para estar, depois de uma grande viagem, é mesmo… aqui.
Hoje.