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História de pequenos investigadores 9 a 10 anos Leitura 17 min.

O mistério do sino desaparecido na Praça do Chafariz

Leonor, uma menina detetive que lê pistas no chão, investiga o desaparecimento do sino da bicicleta do padeiro, seguindo migalhas, pegadas e pistas que a levam a personagens da praça.

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Menina de 10 anos, Leonor, rosto redondo com sardas, cabelo castanho em rabo de cavalo, expressão concentrada e orgulhosa, mãos enluvadas segurando um pequeno guidão de bicicleta com um sino dourado brilhante; menino de ~9 anos, Tiago, cabelo curto preto, sorriso surpreso, agachado ao lado de Leonor apontando para migalhas no chão; menino de ~11 anos, Bruno, cabelo castanho despenteado, tímido mas aliviado, em pé atrás da bicicleta segurando um boné vermelho amassado; homem idoso, senhor Augusto, cerca de 60 anos, rosto enrugado e óculos redondos, avental de padeiro, inclinado segurando uma chave inglesa pequena pronto para consertar o sino; um corvo negro e brilhante pousado na beirada de um telhado vermelho ao fundo e uma pena caída perto do coreto; praça pavimentada com padrões ondulados claros e escuros, fonte de pedra no centro com respingos azuis, coreto de madeira branco e pequena biblioteca de telhado vermelho à direita; atmosfera de fim de manhã, cores vivas em estilo recorte de papel, texturas de cartão, sombras simples e colagens sobrepostas; situação principal: crianças reunidas em torno da bicicleta consertando o sino encontrado, gestos atentos, expressões de ajuda mútua e descoberta, migalhas levando ao corvo. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O desaparecimento do sino

A Leonor tinha 9 anos, um caderno de notas com capa verde e uma mania que a mãe achava engraçada: quando pensava, ela olhava para o chão. “É para ver melhor as pistas”, dizia Leonor, muito séria, como se o chão fosse um livro aberto.

Naquela manhã de sábado, a Praça do Chafariz estava cheia de sons: passos apressados, risos, um cachorro a espirrar água da fonte… e, normalmente, o tilintar do sino da bicicleta do senhor Augusto, o padeiro.

Mas não havia tilintar nenhum.

O senhor Augusto estava parado ao lado da banca de pão, com a bicicleta encostada ao banco de pedra. O guiador parecia… calado. Sem sino. E o senhor Augusto parecia ainda mais calado do que o guiador.

— Roubaram-me o sino — disse ele, com voz triste. — Era pequenino, mas fazia um som alegre. Agora a bicicleta parece uma galinha sem cocorocó.

O Tiago, colega da Leonor, riu-se baixinho.

— E por que é tão importante? — perguntou ele.

— Porque eu uso o sino para avisar as pessoas na rua. E também porque foi a minha neta que me ofereceu — respondeu o padeiro, mexendo no avental. — Sem ele, sinto-me… sem jeito.

Leonor abriu o caderno.

— Onde foi a última vez que ouviu o sino? — perguntou, como uma detetive de verdade.

— Aqui na praça, quando cheguei. Encostei a bicicleta ali, fui buscar as broas ao carro e… quando voltei, puf! — ele levantou as mãos. — Sumiu.

Leonor assentiu e olhou para o chão. A praça era pavimentada com pedras claras e escuras, formando ondas. Entre as pedras, havia ranhuras fininhas onde se escondiam migalhas, folhas e… coisas mais interessantes.

— Vamos procurar sem pressa — disse Leonor. — E vamos ouvir. Às vezes as pistas falam, mas muito baixinho.

O Tiago fez uma careta.

— Pistas que falam?

— Se a gente escuta bem, sim — respondeu ela. — Primeiro: o chão.

E começou a andar devagar, olhos baixos, como se estivesse a ler uma mensagem secreta escrita entre as pedras.

Capítulo 2: Pegadas na praça pavimentada

Leonor caminhou pela praça em ziguezague, como quem procura uma moeda perdida. O Tiago ia atrás, tentando não tropeçar.

— Olha, aqui tem migalhas — disse Leonor, apontando para um canto perto do banco onde a bicicleta estivera.

— Isso é pista? — perguntou Tiago.

— Pode ser — respondeu ela. — O senhor Augusto vende pão. Migalhas perto da banca não são novidade. Mas migalhas… andando para longe… isso é mais curioso.

E havia mesmo um caminho fino de migalhas, como uma trilha de formiguinhas. Leonor seguiu a trilha, sempre olhando para o chão.

A trilha levava até a fonte. Ao lado da água, havia marcas molhadas no pavimento, como passos pequenos que tinham pisado numa poça.

— Pegadas! — sussurrou Tiago, animado.

Leonor aproximou-se.

— São pegadas pequenas, e não são de sapato — disse ela. — Vês estas linhas? Parecem… patinhas.

Tiago arregalou os olhos.

— Um… gato ladrão?

— Gatos gostam de roubar salsichas, não sinos — disse Leonor, com um sorriso. — Mas pode ser um animal a carregar alguma coisa.

Perto da fonte, um senhor varria folhas com uma vassoura enorme. Era o senhor Horácio, o jardineiro da praça, que varria como se estivesse a dançar com a vassoura.

— Senhor Horácio — chamou Leonor, com educação. — O senhor viu alguém mexer na bicicleta do padeiro?

O senhor Horácio encostou a vassoura, pensou e coçou a cabeça.

— Eu vi movimento, sim. Mas eu estava a ouvir música nos fones — confessou, tirando um auricular. — Vi um menino correr, e vi… um pássaro a saltar perto do banco.

Leonor anotou.

— Que menino?

— Um com boné vermelho. E mochila grande. Passou a correr, quase derrubou o meu balde.

Tiago franziu o nariz.

— Eu conheço um boné vermelho… o Bruno, do 5.º ano. Ele corre como se o chão o perseguisse.

Leonor olhou para as pedras.

— E o pássaro? Que pássaro?

— Um corvo — disse o senhor Horácio. — Preto, esperto. Ficou a bicar migalhas. Depois voou para o coreto.

Leonor sentiu o coração bater mais rápido. Um corvo. Migalhas. Patinhas molhadas.

— Tiago, corvos gostam de coisas brilhantes — disse ela. — E um sino é… brilhante.

— Então o ladrão é um corvo? — Tiago perguntou, meio assustado, meio divertido.

— Pode ter apanhado o sino… mas alguém pode ter assustado o corvo, ou até ajudado sem querer — respondeu Leonor. — Vamos ao coreto. E com calma. Pistas não fogem de quem sabe olhar.

Ela seguiu, olhos no chão, como se o pavimento lhe dissesse para onde ir.

Capítulo 3: O coreto e a pena perdida

O coreto ficava no meio da praça, com degraus de pedra e uma grade baixinha. O chão ali tinha folhas secas, bilhetes amassados e uma coisa que parecia um pequeno tesouro: uma pena preta.

Leonor pegou na pena com cuidado, como se fosse uma prova importante.

— Pena de corvo — disse ela.

Tiago inclinou-se para ver.

— E agora?

— Agora escutamos — respondeu Leonor. — Perguntar sem acusar. E prestar atenção.

No coreto, a dona Amélia, a florista, arrumava vasos de gerânios para a feira. Ela falava com as plantas como se fossem pessoas.

— Bom dia, dona Amélia — disse Leonor. — A senhora viu um corvo por aqui?

A florista sorriu.

— Vi sim, minha querida. Ele anda sempre a roubar coisas… quer dizer, a recolher. Uma vez levou uma fita azul que eu ia pôr num ramo. Que atrevido! Hoje vi-o com algo dourado no bico. Fez “clinc-clinc”. Achei que fosse uma chave.

Tiago deu um salto.

“Clinc-clinc” é som de sino!

Leonor escreveu no caderno.

— Para onde ele foi?

— Voou para aquele telhado baixo, o da biblioteca — respondeu dona Amélia, apontando.

A biblioteca ficava na esquina da praça. O telhado era de telhas vermelhas, e havia uma janela pequena. Debaixo dela, um cano de escoar água descia até ao chão.

Leonor aproximou-se do prédio, sempre olhando para o pavimento.

— Olha aqui — disse ela.

Havia gotas de água e marcas de patinhas, indo do cano até uma porta lateral da biblioteca, usada para entregas. Ao lado da porta, uma coisa inesperada: um pedaço de fita vermelha.

Tiago abriu a boca.

— Fita vermelha… como o boné do Bruno.

Leonor não respondeu logo. Respirou fundo. Ela lembrava-se do que a professora dizia: “Antes de concluir, ouve e confirma.”

— Não vamos inventar culpados — disse ela. — Vamos juntar fatos. Corvo, sino, fita vermelha. Pode ser coincidência.

— Coincidência com fita vermelha? — Tiago murmurou.

Leonor ergueu a mão.

— Shhh. Vamos falar com a bibliotecária. Com educação. E com ouvidos atentos.

Entraram pela porta principal. Lá dentro cheirava a papel e silêncio, aquele tipo de silêncio que faz a gente andar nas pontas dos pés sem perceber.

A bibliotecária, senhora Lurdes, levantou os olhos por cima dos óculos.

— Posso ajudar?

Leonor aproximou-se do balcão.

— Estamos a procurar um sino pequeno, de bicicleta. Desapareceu na praça. A senhora viu um corvo com algo brilhante hoje?

A senhora Lurdes franziu a testa e depois sorriu, como se tivesse uma história guardada.

— Um corvo? Vi um, sim. Ele estava na janela de trás, a bater com o bico no vidro. Fez um barulho danado. Eu fui espantá-lo com palmas, e ele deixou cair uma coisa no parapeito. Mas eu estava com pressa… — Ela suspirou. — Acho que caiu para dentro do pátio das entregas.

Tiago apontou.

— É ali! A porta lateral!

A senhora Lurdes hesitou.

— Posso abrir, mas com cuidado. Há caixas lá dentro.

Leonor assentiu, séria.

— Cuidado é o nosso superpoder.

Capítulo 4: A armadilha de migalhas

No pátio das entregas, havia pilhas de caixas de livros e um tapete de borracha. No chão, perto de um ralo, havia algo dourado.

Leonor correu, mas parou antes de pegar. Olhou bem para o chão, como sempre.

— Há mais coisas aqui — disse ela.

Ao lado do brilho, havia mais migalhas. E um fio fininho preso numa caixa, como se alguém tivesse amarrado algo.

Tiago inclinou-se.

— O sino está ali! Pega!

Leonor levantou a palma.

— Espera. Se alguém amarrou o sino para prender o corvo, ou para brincar, pode haver outra pista. Vamos observar primeiro.

A senhora Lurdes aproximou-se.

— Que menina atenta.

Leonor corou, mas continuou focada. Puxou o fio com cuidado e viu que ele levava até uma caixa aberta. Dentro, havia… um saquinho de pão vazio e um boné vermelho.

Tiago engoliu em seco.

— É o boné do Bruno.

Leonor respirou fundo de novo. Era hora de ouvir, não de acusar.

— Senhora Lurdes, quem costuma vir aqui atrás? — perguntou ela.

— Só entregadores e… às vezes crianças, quando há atividades. Hoje de manhã veio o Bruno ajudar a carregar livros para a sala de leitura. Ele é rápido e prestável, mas… também é distraído — disse a bibliotecária, com um sorriso cansado.

Tiago cruzou os braços.

— Distraiu-se e roubou um sino?

Leonor olhou para Tiago.

— Ou distraiu-se e deixou o boné. Ou tentou resolver um problema e fez confusão. Vamos chamar o Bruno e ouvir a história dele.

A senhora Lurdes foi buscá-lo. O Bruno apareceu com as bochechas coradas, como quem correu de verdade.

— O que foi? — perguntou ele, assustado ao ver todos a olhar para o pátio.

Leonor falou com calma.

— Bruno, o sino da bicicleta do senhor Augusto desapareceu. Encontrámos um corvo por perto e… o teu boné aqui. Queremos entender o que aconteceu. Podes contar-nos tudo, desde o início?

Bruno abriu a boca, fechou, e depois soltou de uma vez:

— Eu não roubei! Eu só… eu só quis ajudar!

Leonor apontou para o chão.

— Então ajuda-nos com a verdade. Nós estamos a escutar.

Bruno olhou para baixo também, como se o pavimento lhe desse coragem.

— Eu vi o corvo a bicar o sino no banco. Acho que ele puxou e o sino soltou! A peça já estava meio solta, eu vi a porca brilhante… — Ele fez um gesto com os dedos. — O corvo pegou e voou. Eu corri atrás dele para devolver ao senhor Augusto. Eu tinha pão no bolso, migalhas caíram, eu nem notei. Quando cheguei à biblioteca, o corvo deixou cair o sino no pátio. Eu tentei apanhar, mas a senhora Lurdes chamou-me para levar caixas. Eu larguei o boné e o pão e fui. Depois… eu tive vergonha. Achei que iam dizer que fui eu.

Tiago soltou o ar, como quem desincha um balão.

— Então tu só… perseguiste um corvo ladrão.

— Um corvo “recolhedor”! — corrigiu Bruno, com um sorriso tímido.

Leonor pegou finalmente no sino dourado. Estava um pouco sujo, mas inteiro.

— Falta uma coisa — disse Leonor. — A porca que prende o sino. Se estava solta, precisamos apertar direito, senão cai outra vez.

Bruno abriu a mão. Lá estava uma porquinha metálica pequenina.

— Eu apanhei isto no banco. Guardei para não perder. Queria entregar junto… mas depois fiquei nervoso — disse ele.

Leonor anotou mais uma frase no caderno: “Ouvir evita enganos.”

Capítulo 5: O tilintar que voltou

Voltaram à Praça do Chafariz. O senhor Augusto estava a arrumar pães com cara de quem tenta não ficar triste, mas falha um bocadinho.

Leonor aproximou-se.

— Senhor Augusto, encontramos o seu sino.

Os olhos dele brilharam.

— Encontraram? Onde estava?

Leonor contou a história com calma: o corvo curioso, a peça solta, o Bruno a tentar ajudar, a vergonha, o boné perdido. Enquanto falava, ela reparou que o senhor Augusto não interrompeu uma única vez. Ele escutou mesmo, com atenção, como se cada detalhe fosse importante.

Quando Leonor terminou, o senhor Augusto virou-se para o Bruno.

— Obrigado por tentares devolver — disse ele. — E obrigado por dizeres a verdade. Vergonha é uma pedra pesada. Ainda bem que a largaste.

Bruno sorriu, aliviado.

— Eu devia ter falado logo.

— Todos aprendemos — respondeu o padeiro. — E tu, Leonor… tu tens olhos de detetive.

— Tenho olhos… e tenho chão — disse ela, apontando para o pavimento. — O chão contou-me quase tudo.

Tiago riu.

— Ela olha tanto para baixo que um dia vai encontrar um tesouro.

— Já encontrei — disse Leonor. — Encontrei a prova de que ouvir resolve coisas.

O senhor Augusto tirou uma pequena chave inglesa de uma caixa (a ferramenta mais simples que ele tinha para apertar coisas) e, com a ajuda do Bruno, prendeu o sino ao guiador. Leonor segurou a bicicleta firme, com pés bem assentes nas pedras da praça.

— Agora, o momento importante — disse o padeiro, com solenidade exagerada, como se estivesse num concerto.

Ele tocou o sino.

“Trim-trim!”

O som espalhou-se pela praça pavimentada, alegre como uma gargalhada pequenina. Até o cachorro perto da fonte virou a cabeça, curioso.

Bruno soltou uma risada.

— Parece mesmo feliz.

— É porque voltou para casa — disse Leonor.

O senhor Augusto pegou num saco e entregou-lhes duas broas.

— Para os meus detetives.

Tiago já ia morder, mas Leonor olhou para o Bruno.

— Queres uma? — perguntou.

Bruno hesitou, e depois assentiu.

— Quero.

Sentaram-se no banco de pedra. Leonor, como sempre, olhou para o chão por um instante. Viu as ondas do pavimento, as migalhas que o vento levava, as pegadas que já secavam.

Ela percebeu uma coisa: o mistério tinha acabado, mas a praça continuava cheia de pequenas histórias à espera de atenção.

— Sabem — disse Leonor — às vezes a gente perde a confiança como se fosse um sino. Parece que sumiu. Mas está ali, em algum lugar… e volta quando alguém escuta e ajuda.

O Bruno respirou fundo, mais leve.

— Eu achei que ninguém ia acreditar em mim.

— A gente acredita quando há verdade e quando há escuta — respondeu Leonor.

O senhor Augusto tocou o sino mais uma vez, só para ter certeza de que ainda existia.

“Trim-trim!”

E, naquela praça, entre pedras e risos, a confiança voltou a fazer barulho bom.

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Tilintar
Som agudo e repetido, como o de um sino pequeno a tocar.
Avental
Peça de pano ou tecido que se põe na frente para proteger roupa.
Trilha
Caminho estreito formado por coisas que alguém deixou ao passar.
Patinhas
Pés pequenos de alguns animais, como pássaros ou gatos.
Coreto
Pequeno palco redondo numa praça, onde às vezes há música.
Pena preta
Pluma escura que cai do corpo de um pássaro, como um corvo.
Parapeito
Pequena mureta ou bordo de uma janela que fica na borda.
Porca
Peça de metal em forma de anel usada para apertar parafusos.
Pátio
Espaço aberto dentro ou atrás de um prédio, onde se pode andar.
Distraído
Pessoa que não presta atenção e esquece coisas facilmente.
Solenidade
Atitude ou momento levado com muita seriedade e cerimónia.
Recolher
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