Capítulo 1 — O Escritório dos Encargos
No alto da Torre de Papéis, entre selos que cantavam e carimbos que bocejavam, ficava o Escritório dos Encargos. Era um lugar curioso: mesas com pernas tortas, cadeiras que resmungavam quando alguém se sentava e um relógio que às vezes marcava "hora de chá" em vez de horas. Ali trabalhava Gaspar, o pequeno sorcier de chapéu amassado e sorriso maroto.
Gaspar adorava organizar coisas. Planejava rotinas de pó de estrelas, distribuía lembranças para fadas esquecidas e preenchia formulários mágicos com caligrafia ondulada. Mas seu sonho maior era outro: criar um mini-festival de feitiços, onde todo mundo pudesse experimentar encantos divertidos sem bagunçar a cidade inteira.
— Um festival? — perguntou a Sra. Carimba, a chefe, com as sobrancelhas em forma de interrogação. — É arriscado, Gaspar.
Gaspar bateu com o pé no chão e enviou uma pequena faísca que dançou pelo ar, transformando um carimbo em um coelho de papel que fez reverência.
— Não vai ser perigoso, prometo! — disse ele. — Será certinho, com mapas, horários, e... um Guizo de Segurança! — mostrou um guizo brilhante que tocou uma nota muito gentil.
Sra. Carimba sorriu, só um pouquinho. Gostava do jeito que Gaspar garantiu tudo. Assim, assinou um formulário que brilhava: Autorização para Mini-Festival de Feitiços — Condições: Seguro Afetivo Obrigatório.
Gaspar passou a noite escrevendo convites, colando estrelas nos mapas e criando provas de habilidade que eram, na verdade, brincadeiras. No meio da papelada, ele pendurou um cartaz: "Festival dos Feitiços — Experimente, Ria, Não Tenha Medo!"
Capítulo 2 — Ensaios Desastradinhos
No dia do ensaio, o escritório parecia uma fábrica de risadas. Ele chamou Tica, a assistente borboleta que anotava tudo com antenas brilhantes, e o velho Pipo, o arquivista que tinha um bigode tão longo que costumava usá-lo como marcador de página.
— Primeiro número: transformação leve! — anunciou Gaspar. — Cada pessoa pode transformar uma coisa por cinco minutos. Só coisas pequenas, prometeram?
Tica bateu as asas nervosa. Pipo ajeitou o bigode e falou baixinho:
— Lembrem-se do protocolo: pergunta, consentimento, e o guizo de segurança ao lado.
O primeiro ensaio foi com a vizinha Dona Lila, que queria transformar sua vassoura velha em uma escova de pente para plantas. Gaspar soprou o feitiço, mas uma nuvem de purpurina envolveu todo o escritório. Papéis viraram borboletas, canecas começaram a cantar e o carimbo coelho fez uma corrida no balcão.
— Ops! — riu Gaspar, corando. — Pequeno bug de purpurina.
Todo mundo riu, até o relógio que anunciava "hora de chá" soou um sino feliz. Eles limparam com panos que dançavam sozinhos e anotaram no relatório: "Purpurina — nível aceitável de alegria."
O segundo ensaio foi um concurso de voos com capas. Tica quase voou até a janela, girando e dando piruetas; Pipo preferiu usar o bigode como paraquedas e flutuou suavemente. Quando chegou a vez de Gaspar, ele percebeu que o guizo de segurança tinha sumido. Procurou em gavetas, na cafeteira que cuspia letras, e até dentro do chapéu, onde encontrou um mapa antigo.
O mapa estava marcado: "Caminho para o Bosque Esquisito". Um bilhete no mapa dizia: "Se perder o guizo, siga o rastro de risadas." Gaspar sorriu. Um pequeno mistério antes do festival! Ele decidiu guardar a descoberta e continuar os ensaios com um guizo improvisado: uma colher que fazia "tilim".
— Está certo assim — disse, mas uma pergunta ficou no ar: onde estaria o guizo oficial?
Capítulo 3 — O Festival Começa (Quase Tudo Corre Bem)
No dia do festival, uma fila de criaturas incríveis e amáveis se esticava em frente ao Escritório dos Encargos. Havia crianças com meias coloridas, elfos que traziam bolsinhas de chá, um sapo músico e até um vassalo-doce que distribuía biscoitos com estrelas de chocolate. Gaspar estava radiante e um pouco nervoso.
Ele montou estações com placas: "Transformações de Cinco Minutos", "Voos de Teste", "Troca de Histórias Encantadas" e "Procura do Guizo Perdido — Para os Corajosos e Curiosos". Pipo ficou encarregado das fichas, Tica anotava reações e o guizo de segurança (o substituto colher) pendia numa corda com laços coloridos.
Tudo começou bem. Um feitiço que fez sapatinhos brilharem deixou as crianças dançando. Uma poção efervescente para contar piadas fez todo mundo gargalhar, inclusive a senhora que sempre falava baixo. Quem passava pela estação de voos recebia um empurrãozinho do bigode para subir devagarinho.
Mas então apareceu uma fila de duendes que trouxeram um elefante de bolso — um elefante tão pequenino que cabia numa caixa de fósforo. Eles pediram um feitiço de "alongamento" para que o elefante pudesse alcançar a maçã no alto de uma barraca. Gaspar apenas sorriu e acenou a varinha. Em vez de alongar o elefante, transformou a maçã em uma melancia folk que começou a tocar um banjo invisível.
A melancia-banjo começou a cantar:
— Eu sou uma melancia que sonha em tocar! Tra-la-lá!
A música virou um tango e todo mundo dançou. Ninguém ficou chateado — até o elefante de bolso bateu palmas com as orelhas em miniatura. Gaspar percebeu que, mesmo quando algo saía do combinado, a alegria continuava. Ele riu e anotou: "Efeito melancia — ponto extra de alegria."
No fim da tarde, uma nuvem de brilhinho mágico começou a subir sobre as barracas. Era o brilho do festival, espalhando-se como fumaça de chocolate quente. As crianças colocavam o brilho na boca e faziam caretas engraçadas, que se transformavam em gargalhadas calorosas.
Mas quando a noite começou a cair, alguém trouxe a notícia: o guizo oficial havia sido visto, segundo testemunhas, seguindo um rastro de risadinhas até o Bosque Esquisito. Gaspar sentiu o peito dar uma batida de curiosidade e, também, de responsabilidade. Era sua missão encontrar o guizo de segurança verdadeiro antes que ele resolvesse tocar canções por conta própria.
Capítulo 4 — A Caminhada, o Guizo e o Sonho
Gaspar pegou o mapa que achara no chapéu durante os ensaios. Tica ofereceu-se para guiar com a luz de suas antenas. Pipo insistiu em acompanhar, enrolando papéis como se fossem cobertores. A trilha era feita de risadas: pequenos ecos que brilhavam como vagalumes.
Eles enveredaram pelo Bosque Esquisito, onde cogumelos cochichavam piadas e flores tiravam selfies com pétalas. A cada passo, ouvia-se uma risadinha que parecia dar tchau e depois seguia adiante. Seguiram até uma clareira onde estava uma roda de fadas tomando chá — e, no centro do bule, o guizo de segurança tocava timidamente.
— Oh! — disse uma fada que cheirava a biscoitos de mel. — Encontraram o guizo! Ele estava fazendo amizade com o bule.
O guizo explicou, com um tilintar tímido, que queria provar o chá porque tinha ouvido dizer que infundia coragem. Gaspar sorriu com alívio e reconheceu que o guizo também precisava sentir-se seguro e amado. Puxou-o para perto e, delicadamente, explicou o quanto ele era importante para manter a calma e a alegria nas aventuras.
— Prometo que, da próxima vez, vamos convidar você para o chá — disse Gaspar. — Mas precisa voltar para o festival agora. Há crianças esperando.
O guizo aceitou. Tocou uma nota tão suave que as fadas aplaudiram com colheres. No caminho de volta, Pipo contou histórias do tempo em que era jovem e guardava carimbos rebeldes. Tica cantou uma música que fazia os passos parecerem nuvens fofas. Gaspar sentiu uma coisa quentinha no peito: segurança afetiva, pensou ele. Era quando você sabia que, mesmo que algo desviasse, teria mãos amigas para ajudar.
Voltar ao festival foi como entrar num abraço coletivo. As pessoas bateram palmas quando viram o guizo e, por algumas horas, toda risada parecia mais brilhante. O último número do festival foi um espetáculo de luz feito por guardanapos que viraram borboletas. Gaspar subiu num banquinho e falou com voz clara:
— Obrigado por vir. O festival é para todos que querem tentar, rir e se sentirem seguros. Se algo der errado, a gente ajeita junto.
As estrelas surgiram como confetes e o guizo tocou uma nota final que deixou um rastro de luz no ar. Enquanto as pessoas se despediam, Gaspar arrumou as mesas e guardou as lembranças: uma melancia-banjo desenhada num cartão, um sapato que cintilava um pouquinho, e, no bolso do casaco, uma pequena etiqueta que dizia: "Aqui mora uma coragem que gosta de festa."
Quando o Escritório dos Encargos ficou tranquilo, Gaspar fechou a porta, acendeu a lâmpada que sussurrava histórias de ninar e, com o guizo pendurado no pescoço, caminhou pela rua de paralelepípedos que levava a sua casa. No caminho, ele olhou para o céu — um céu que parecia um cobertor estrelado — e sentiu sono chegar como um abraço.
No trem que o levava de volta, entre cochilos e lembranças, Gaspar teve um sonho que se parecia com um filme: guardanapos que conteavam segredos, carimbos que dançavam valsa e o guizo tocando uma canção que dizia: "Tudo vai ficar bem, estamos juntos." No sonho, as risadas faziam caminhos de luz, e as criaturas do festival se reuniam em volta dele, cantando baixinho.
Ele acordou com o joelho ainda mole de tanto rir no sonho. Ao abrir os olhos, percebeu que o mundo real também estava cheio de calor: o bilhete no bolso lembrava que sua cidade era um lugar onde se podia tentar, errar, consertar e, acima de tudo, sentir-se amado. Gaspar suspirou feliz e, antes de adormecer de vez em casa, sussurrou ao guizo:
— Amanhã a gente prepara outro festival. Mas hoje, meu amigo, sonhe comigo.
O guizo tilintou, como quem aceita o convite, e Gaspar dormiu com um sorriso que parecia colado ao rosto.