Capítulo 1: O Sótão Arrumado e o Modo Eco-Sort
No sótão mais arrumado de toda a Rua das Chaminés, o feiticeiro Tomé Mexerico trabalhava com a seriedade de quem dobra meias por cores. Havia prateleiras alinhadas, frascos etiquetados (“Pó de Riso — NÃO CHEIRAR”), um tapete sem um único fio fora do lugar e uma janela redonda por onde entrava um sol bem comportado.
Tomé era um feiticeiro… e também uma matraca feliz. Falava com as caixas, com as vassouras e até com um velho chapéu que não respondia por timidez.
“Bom dia, chapéu! Hoje estamos elegantes, hein? Não que eu precise de elegância para conjurar, mas ajuda na autoestima. E na autoestima dos ratinhos, se existissem ratinhos aqui. Não existem. Porque eu arrumo tudo!”
Ele apontou a varinha para uma lanterna a óleo, desligada, e sussurrou o seu novo orgulho:
“Eco-sorts: poupar magia, poupar energia, poupar confusão… ou pelo menos tentar.”
A lanterna acendeu com uma luz suave, como se tivesse espreguiçado. Tomé sorriu e continuou o seu monólogo.
“Vês? Sem explosões! Sem faíscas! Sem… ai, espera… por que é que a etiqueta do ‘Pó de Riso' está a fazer cócegas no frasco?”
A etiqueta começou a ondular, como uma língua de papel. Tomé piscou.
“Não. Não, não, não. Eco-sorts, lembra-te: magia pequena, resultado grande.”
Ele pegou num caderno onde escrevia os seus feitiços em letras redondas: LISTA DE COISAS QUE NÃO DEVEM ACONTECER NO SÓTÃO. Em primeiro lugar: “NADA SAI DO SÍTIO”. Em segundo: “NADA FALA SOZINHO”. Em terceiro: “SE ALGO RIR, QUE SEJA EU”.
Nesse momento, um “plim!” ecoou. Uma pequena faísca verde saltou da ponta da varinha e… entrou no caderno.
O caderno arrotou. Um arroto educado, mas bem audível.
Tomé ficou de boca aberta. Depois, como era falador, reagiu falando ainda mais.
“Perfeito. Excelente. Maravilhoso. O meu caderno aprendeu boas maneiras… e arrotos. Isto é o quê? Feitiço de biblioteca viva? Não, Tomé, calma. Coragem tranquila. Respira. Um, dois, três… e não sopres em cima do pó nenhum.”
O caderno virou as páginas sozinho, como se procurasse algo. E parou numa folha em branco que começou a escrever, com tinta que aparecia do nada:
“AVISO: MODO ECO-SORT ATIVO. ECONOMIA DE MAGIA: 97%. CONSEQUÊNCIA: MALANDRICES IMPROVÁVEIS.”
Tomé coçou a cabeça.
“Consequência? Eu não encomendei consequências. Eu só queria poupar um bocadinho!”
Capítulo 2: A Revolta Educada dos Objetos
O sótão, que era um exemplo de ordem, decidiu experimentar uma coisa nova: personalidade.
A primeira a manifestar-se foi a vassoura, que bateu levemente no chão, como quem pede licença. Depois deslizou até ao centro do tapete e fez uma reverência.
“Olha só! A vassoura aprendeu teatro! Brilhante! Eu sempre disse que a limpeza é uma arte… embora tu sejas mais do tipo ‘varrer e posar'.”
A vassoura deu duas voltas, empinada, e parou diante de uma pilha de caixas perfeitamente alinhadas. As caixas estremeceram e começaram a trocar de lugar, uma por uma, com a delicadeza de peças num jogo de xadrez. No fim, continuavam alinhadas… mas em ordem inversa.
Tomé arregalou os olhos.
“Não! Isso parece arrumado, mas é uma arrumação ao contrário! Eu tenho um sistema! Um sistema muito sensível, com sentimentos!”
Um pote de botões começou a tilintar, como se risse. Um novelo de lã desenrolou dois centímetros só para provocar. E o chapéu, o tal tímido, finalmente falou — com voz abafada, como se falasse lá do fundo.
“Estou… com comichão.”
Tomé quase deixou cair a varinha.
“Chapéu! Tu falas! Eu sabia que havia um grande artista aí dentro. Ou uma traça educada. Espera… comichão? Onde? Não te coças com as minhas luvas, são de cerimónia!”
A etiqueta do “Pó de Riso” saltou do frasco e colou-se na testa do Tomé. De repente, cada palavra que ele dizia saía com uma risadinha no fim, como se a frase tivesse cócegas.
“Eu vou resolver isto, ha-ha! Com calma e coragem tranquila, hi-hi!”
A vassoura apontou, como se fosse uma seta, para a janela redonda. Lá fora, uma nuvem passou e fez um bigode no céu, só por implicância.
Tomé respirou fundo. Lembrou-se do aviso: “malandrices improváveis”. Era isso. O modo eco-sort economizava energia, mas deixava a magia procurar atalhos… e os atalhos eram traquinas.
“Está bem, objetos queridos, sem pânico. Eu continuo no comando. Só que… com o caderno a arrotar, a vassoura a fazer teatro e o meu próprio riso a escapar sozinho. Ótimo. Vamos negociar.”
Ele levantou a varinha com firmeza — firmeza tranquila, não dramática — e disse:
“Plano simples: ninguém sai do sótão, ninguém se magoa, e eu arranjo um feitiço de ‘voltar ao normal'. Tudo bem?”
O pote de botões fez “tlim-tlim”, como se dissesse “talvez”. A vassoura fez uma pirueta. O chapéu espirrou poeira.
Tomé engoliu em seco, mas sorriu.
“Eu consigo. Tranquilo. Eu só preciso de um ingrediente que… ai… está na prateleira de cima.”
A prateleira de cima, ofendida por ser chamada de “de cima”, decidiu subir mais um bocadinho. Só um bocadinho. O suficiente para ficar fora do alcance.
Tomé olhou para ela, depois para a sua própria altura, e suspirou.
“Coragem tranquila, Tomé. Isto é apenas uma prateleira com ambição.”
Capítulo 3: O Feitiço da Escada Que Não Queria Ser Escada
Tomé puxou a escada dobrável, que sempre colaborara, e colocou-a no lugar certo. Só que, ao tocar nela, a escada fez “clac” e… transformou-se numa coisa parecida com uma girafa de madeira, com degraus que se mexiam como joelhos.
“Ah. Uma escada girafa. Era o que me faltava para a coleção.”
A escada tentou andar para trás. Tomé falou com ela, porque falava com tudo.
“Escada, eu respeito a tua identidade. Se queres ser girafa, tudo bem. Mas preciso chegar à prateleira. Podes emprestar o teu pescoço, por favor?”
A escada girafa inclinou-se, desconfiada, e os degraus começaram a subir e descer sozinhos, como se estivessem a dançar uma música silenciosa.
Tomé colocou um pé no primeiro degrau. O degrau fez cócegas na sola do sapato. Tomé riu sem querer.
“Está bem, está bem! Eu também tenho cócegas. Mas foco, Tomé. Tranquilo. Um passo de cada vez.”
Ele subiu. O segundo degrau balançou como gelatina, mas não o deixou cair. O terceiro tentou esconder-se um pouco, mas Tomé, com paciência, encontrou onde colocar o pé.
“Vês? Eu não preciso de pressa. Coragem tranquila. Eu sou um feiticeiro, não um… acrobata em pijama. Embora isto pareça um pouco.”
Lá em cima, a prateleira altiva guardava o frasco do “Vinagre de Voltar ao Normal” — essencial para desfazer feitiços teimosos. Tomé esticou o braço. A prateleira recuou dois centímetros.
Tomé esticou mais. A prateleira recuou mais dois.
“Ah, então é assim? Um jogo de ‘apanha-me se puderes'? Muito bem.”
Ele não gritou. Não bateu com a varinha. Apenas respirou fundo e falou num tom calmo, como quem conversa com um gato que não quer entrar.
“Prateleira, eu sei que estás entusiasmada. Mas o sótão precisa de ordem para funcionar. Se me ajudares agora, eu prometo… hum… polir-te com óleo de limão. E colocar um marcador bonito para te chamar ‘Prateleira Principal'. Que tal?”
A prateleira parou. Pensou. Ou fez de conta. Depois deslizou para a frente, docinha como manteiga ao sol.
Tomé pegou no frasco de vinagre e desceu com cuidado. A escada girafa fez uma última dança e, satisfeita, voltou a ser escada normal com um “puf” discreto, como se nada tivesse acontecido.
Tomé pousou o frasco na mesa, aliviado.
“Vês, Tomé? Negociar. Coragem tranquila. E um pouco de óleo de limão no futuro.”
Mas, assim que ele abriu o frasco, o vinagre cheirou… a limonada. E a etiqueta dizia: “VINAGRE (talvez)”.
Tomé franziu o nariz.
“Modo eco-sort… tu és mesmo um artista da confusão económica.”
Capítulo 4: O Grande Remendo Mágico (Sem Explodir Nada)
Com o “vinagre talvez” na mesa, Tomé decidiu improvisar com cuidado. O eco-sort pedia feitiços pequenos, então ele faria um feitiço pequeno… mas muito bem pensado.
Ele reuniu três coisas do sótão arrumado: uma colher de madeira (porque madeira é paciente), uma tampinha de frasco (porque fecha problemas) e uma pena azul (porque dá leveza às ideias). Colocou tudo num pires.
“Vamos lá, equipa. Nada de dramas. Só um remendo mágico para pôr os objetos de volta ao sossego.”
O caderno, ainda animado, virou-se para ele e escreveu sozinho:
“SUGESTÃO: FEITIÇO ‘SOSSEGA, MAS NÃO APAGA A ALEGRIA'.”
Tomé sorriu.
“Boa! Eu gosto disso. A alegria pode ficar. Só… sem a prateleira a fugir e sem o chapéu a reclamar comichões em verso.”
O chapéu pigarreou, como se quisesse participar.
“Eu… não reclamo em verso.”
“Ainda”, sussurrou Tomé, e a risadinha da etiqueta na testa escapou outra vez.
Ele desenhou no ar um círculo pequeno com a varinha e falou devagar, para não gastar magia à toa:
“Eco-sortezinho, bem levezinho, arruma a magia no seu ninho. Objetos falantes, obrigado e tchau, fiquem quietinhos… mas felizes, uau.”
O pires brilhou com uma luz morna, como um abajur. A colher de madeira deu um mini-tilintar, a tampinha fechou-se sozinha com um “tic” satisfeito, e a pena azul pairou um segundo antes de pousar, como se estivesse a fazer uma reverência.
No sótão, o pote de botões parou de tilintar. O novelo de lã encolheu o fio de volta, como se puxasse uma língua marota para dentro. As caixas voltaram à ordem original de Tomé (aleluia arrumativa). A vassoura fez uma última pose teatral e encostou-se à parede, quietinha, mas com ar orgulhoso.
E o caderno… deixou de arrotar. Em vez disso, escreveu:
“RESULTADO: 90% NORMAL. 10% MALANDRICE CONTROLADA.”
Tomé tirou a etiqueta do “Pó de Riso” da testa e colou-a de volta no frasco, com cuidado.
“Pronto. Tu ficas aí. E sem fazer cócegas em mim. Eu mando em mim. Quer dizer… eu e a minha coragem tranquila.”
Foi então que a janela redonda fez um “toc-toc”, como se alguém batesse do lado de fora. Tomé olhou: uma nuvem, a mesma do bigode, estava parada ali, colada no vidro, como se fosse uma pastilha elástica no céu.
A nuvem escreveu com vapor: “OLÁ”.
Tomé encostou a testa ao vidro.
“Olá, nuvem. Tu também foste apanhada pela malandrice improvável, foi?”
A nuvem fez o bigode outra vez e pareceu rir.
Tomé pensou: se a nuvem ficasse ali, tapava o sol e o sótão ficaria com cara de dia amuado. E o final do dia, ele queria que fosse limpo e brilhante, como o seu tapete.
Ele levantou a varinha, mas não para expulsar a nuvem à bruta. Eco-sort, lembrava?
“Vamos fazer isto com jeitinho.”
Capítulo 5: Um Céu Desimplicado e um Feiticeiro Mais Calmo
Tomé abriu a janela um pouco. A nuvem entrou só a pontinha, curiosa, como um gato de algodão.
“Escuta, nuvem. Eu sei que estás a brincar. Eu também gosto de brincar. Mas lá fora é o teu lugar. E eu gosto de ver o céu… bem… céu.”
A nuvem fez uma carinha triste que parecia um ponto de interrogação.
Tomé respirou fundo. Coragem tranquila não era só para subir escadas-girafa. Era também para dizer “não” sem ser mau.
“Que tal um acordo? Eu faço um feitiço pequenino para te dar uma forma divertida… lá fora. Um desenho no céu, rapidinho, e depois tu segues o teu caminho.”
A nuvem tremelicou, interessada.
Tomé fez um gesto leve com a varinha e sussurrou:
“Eco-sopro de vento, só um nadinha, leva a nuvem para a estrada do alto, bem certinha.”
Um ventinho delicado apareceu, como se pedisse desculpa antes de soprar. Empurrou a nuvem para fora da janela e, já no céu, a nuvem virou um enorme coelho fofo por dois segundos. Depois virou um barco. Depois virou uma meia (Tomé corou). E por fim, como se entendesse a mensagem, espalhou-se e foi embora, deixando o azul livre.
O sol, agradecido, brilhou sem fazer escândalo.
Tomé fechou a janela e olhou para o sótão: prateleiras no lugar, frascos quietos, tapete impecável. A vassoura piscou… ou parecia que piscou. O chapéu suspirou, confortável.
Tomé sentou-se na cadeira e riu, desta vez porque quis.
“Bem… isto foi uma aventura inteira sem sair do sótão. E eu consegui sem gritar, sem explodir nada e sem transformar ninguém numa batata. Vitória.”
O caderno escreveu uma última frase:
“CORAGEM TRANQUILA: APROVADA.”
Tomé pegou num pano e começou a polir a “Prateleira Principal” com óleo de limão, como prometera.
“Promessas são promessas. E amanhã… amanhã eu volto a testar o modo eco-sort. Mas com um aviso bem grande: ‘MALANDRICES, SÓ COM PERMISSÃO'.”
Lá fora, o céu estava completamente limpo, sem bigodes, sem meias e sem pastilhas de nuvem. Só um azul aberto, como uma página nova — desta vez, sem arrotos. Tomé olhou para cima, satisfeito, e sentiu aquela coragem tranquila a acomodar-se dentro dele, como um chapéu finalmente sem comichão.