Capítulo 1: O Feiticeiro que Sabia Tudo (Quase)
Na Floresta dos Conselheiros, as árvores não eram só árvores. Tinham cara de “já vi de tudo”, ramos que apontavam como dedos e folhas que sussurravam opiniões sem parar.
Ali vivia Baltasar, um jovem feiticeiro de capa azul e botas que faziam “toc, toc” como se estivessem a contar piadas ao chão.
Baltasar gostava de responder a tudo.
“Baltasar, onde está a minha meia?” perguntou um esquilo com uma meia na cauda.
“Na tua cauda!” disse Baltasar, orgulhoso.
“Ah!” disse o esquilo, fingindo surpresa. “Que sabedoria.”
As árvores aplaudiram com folhas: “Fshhh, fshhh!”
Mas, naquele dia, Baltasar tinha uma coisinha a mais na mochila: um frasco com Etiqueta Importante, escrito a tinta brilhante: BOLHAS DE ENCANTO — NÃO AGITAR.
Ele olhou para o frasco e engoliu em seco.
“Eu não tenho medo… é só… respeito borbulhento,” murmurou.
Uma faia alta, chamada Dona Faia Filomena, inclinou-se.
“Menino Baltasar,” sussurrou ela, “às vezes o melhor feitiço é dizer ‘não sei'.”
Baltasar endireitou-se, com ar de quem tinha engolido uma colher de orgulho.
“Eu? Não sei? Eu sei… tudo.”
E, só para provar, sacou a varinha e disse:
“Borbulhícius… hum… Borbulhácius…”
O frasco fez “blup”.
Baltasar arregalou os olhos.
“Foi só um… blup de ensaio,” disse, fingindo calma, enquanto o coração fazia “toc-toc-toc” mais rápido que as botas.
Capítulo 2: O Blup que Virou BUM (Mas Um BUM Fofo)
De repente, o frasco tremeu como gelatina a ouvir música. A rolha saltou com um “POC!” e uma nuvem de bolhas coloridas escapou, subindo pelo ar como balões com cócegas.
“Ups,” disse Baltasar, numa voz pequenina.
As bolhas não eram perigosas. Eram… atrevidas.
Uma bolha pousou no nariz dele e fez “piiiiim!”, transformando o nariz em… um nariz de cenoura.
“Estou a cheirar salada!” gritou Baltasar, cruzando os olhos para ver a ponta laranja.
As árvores começaram a dar conselhos ao mesmo tempo:
“Assopra para o lado!”
“Não, para cima!”
“Diz a palavra certa!”
“Qual palavra?!”
Baltasar levantou a varinha como um maestro perdido.
“Eu sei o que fazer! Eu… eu…”
Uma bolha maior engoliu-lhe o chapéu e o chapéu apareceu… na cabeça de um caracol, que agora parecia um professor muito sério.
O caracol olhou para Baltasar e disse, bem devagar:
“U-m… m-o-m-e-n-t-o.”
Baltasar sentiu um medo pequenino, do tamanho de uma ervilha, a saltitar no peito.
E se ele não conseguisse parar as bolhas? E se ficasse com nariz de cenoura para sempre? E se o caracol virasse diretor da escola de magia?!
Ele respirou fundo.
“Ok… ok… eu não vou fugir. Vou… pensar.”
Capítulo 3: O Conselho das Árvores Tagarelas
Baltasar correu (com botas “toc, toc, toc!”) até ao círculo das árvores conselheiras. As bolhas seguiram-no, fazendo “plim-plom” como sininhos.
“Árvores, ajudem-me!” pediu ele.
O pinheiro Tonico pigarreou, lançando uma pinha como se fosse um microfone.
“Primeiro: não pânico. Segundo: não grites. Terceiro:—”
“Eu estou a gritar?” disse Baltasar, e percebeu que sim. “Desculpem.”
A Dona Faia Filomena balançou os ramos como quem faz um abraço de vento.
“Baltasar, o medo pequenino gosta de barulho. Se falares baixinho, ele encolhe.”
Baltasar baixou a voz:
“Tenho um bocadinho de medo.”
Uma bolha pousou na sua orelha e fez cócegas. Ele deu uma gargalhada involuntária.
“Vês?” sussurrou a faia. “Nem tudo que atrapalha assusta.”
O castanheiro Alberto, que adorava dramatizar, disse:
“Pergunta ao medo o que ele quer!”
Baltasar olhou para o seu próprio peito, como se pudesse ver o medo lá dentro.
“Medo… o que queres?”
O medo não respondeu, mas uma bolha escreveu no ar com brilhos: “CERTEZA!”
Baltasar mordeu o lábio. Ele queria sempre ter certeza. E, quando não tinha, inventava.
A faia aproximou-se:
“Então tenta o feitiço mais corajoso de todos.”
“Qual?” perguntou ele.
Ela sorriu com folhas:
“Dizer ‘eu não sei'.”
Capítulo 4: “Eu Não Sei” e a Poção das Perguntas
Baltasar virou-se para as bolhas, para o caracol com chapéu e para o seu nariz de cenoura.
Levantou a varinha com menos pose e mais honestidade.
“Bolhas… eu… eu não sei como parar isto.”
Nada explodiu. Nada caiu. O céu não se rasgou.
Pelo contrário: as bolhas fizeram “oooooh”, como se estivessem a ouvir uma história boa.
Uma delas transformou-se numa bolha-mapa, mostrando o frasco original e uma palavra a piscar: DESAGITAR.
“Des… agitar?” leu Baltasar.
O pinheiro Tonico disse:
“É o contrário de agitar. Muito útil.”
Baltasar assentiu, corando um pouco.
“Ok. Eu não sei… mas posso aprender.”
A dona Faia Filomena indicou uma poça brilhante no chão.
“Essa é a Poça das Perguntas. Quem olha para ela com sinceridade, encontra o próximo passo.”
Baltasar ajoelhou-se. Na água, viu a si mesmo a sacudir o frasco antes, só por curiosidade.
“Eu fui parvo,” murmurou.
O castanheiro Alberto corrigiu:
“Não. Foste… curioso com excesso de entusiasmo.”
Baltasar riu-se, e a risada soltou o nó no peito.
Ele falou para a poça:
“Como desagito bolhas?”
A poça mostrou uma imagem simples: mãos devagar, respiração funda, e uma palavra: CALMA.
Baltasar inspirou… expirou… e, com a varinha, desenhou um círculo no ar.
“Calmíssimo Borbulhês!” disse, com voz tranquila.
Capítulo 5: A Grande Desborbulha e o Piscar Final
As bolhas abrandaram como se tivessem ficado sonolentas. “Plim… plom… plim…”
Uma a uma, começaram a entrar de volta no frasco, obedientes, como patinhos coloridos.
O caracol devolveu o chapéu (com muita dignidade) e deslizou embora, parecendo ainda mais professor.
O nariz de cenoura fez “puf” e voltou ao normal. Baltasar cheirou o ar.
“Ah… cheira a floresta, não a sopa,” disse ele, aliviado.
Quando a última bolha entrou no frasco, Baltasar fechou a rolha com cuidado e colou uma nova etiqueta:
BOLHAS DE ENCANTO — NÃO AGITAR. SE AGITAR: DIZER “EU NÃO SEI” E RESPIRAR.
As árvores sacudiram folhas como aplausos suaves.
“Vês?” disse Dona Faia Filomena. “Gerir medos pequenos é como segurar um frasco: firme, mas sem apertar demais.”
Baltasar ajeitou a capa.
“Aprendi uma coisa,” disse ele. “Eu não preciso saber tudo para ser feiticeiro.”
“Claro,” respondeu o pinheiro. “Se soubéssemos tudo, não teríamos assunto.”
Todos riram, até o castanheiro dramático, que riu em três atos.
Lá em cima, num ramo alto, um mocho observava tudo com olhos redondos, como duas luas curiosas. Baltasar olhou para ele.
“Obrigada por… sei lá… seres um bom público,” disse.
O mocho não falou. Só fez uma coisa perfeita, como um ponto final feliz:
piscou.