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História sobre a primavera 9 a 10 anos Leitura 13 min.

O detetive dos cinco sentidos e o canteiro da primavera

Quatro amigos exploram a primavera com um jogo dos cinco sentidos num canteiro, aprendendo a importância da calma, da atenção e de pequenos gestos de cuidado.

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Há cinco personagens: quatro crianças — Inês (10 anos), cabelo castanho-claro, junto ao primeiro plano à esquerda inclinada sobre um canteiro a observar uma pequena muda; Tomás (10 anos), cabelo castanho curto, agachado à direita a apanhar um papel; Marta (10 anos), cabelo preto trançado, atrás de Inês a apontar gotículas numa folha; Diogo (10 anos), cabelo encaracolado e óculos, com mochila no chão atrás de Tomás a respirar profundamente — e um homem jardineiro adulto, de chapéu de palha e camisa xadrez, agachado à esquerda a mostrar um rebento minúsculo. O cenário é um pequeno canteiro público no centro de uma praça, borda de pedra, terra escura e húmida, flores vivas e folhas brilhantes com gotas de água, banco de madeira gasto e árvores com rebentos desfocados ao fundo; luz dourada do fim da tarde, atmosfera calma e atenta, cores quentes e texturas visíveis. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O ar cheira a novo

A Inês encostou o nariz ao vidro da janela e respirou fundo, como se pudesse guardar o cheiro do dia num bolso. Lá fora, o céu estava claro e o vento já não picava como no inverno. Havia um sol tímido, mas quente o suficiente para fazer as poças brilharem.

— Hoje cheira a… relva acordada — disse ela.

O Tomás riu, a bater com a ponta do ténis no tapete da entrada.

— Relva não acorda, Inês.

— Acorda, sim — respondeu a Marta, a pôr o casaco mais leve. — No inverno fica a dormir, toda encolhida.

O Diogo, que era mais calado, apertou as alças da mochila e olhou para a rua.

— A minha avó diz que a primavera é como abrir a janela do coração.

A Inês virou-se logo.

— A tua avó diz mesmo isso?

— Diz — confirmou o Diogo, com um sorriso pequeno. — E hoje ela vai contar uma história. Prometeu.

Os quatro tinham 10 anos e uma curiosidade que parecia uma lanterna acesa, mesmo durante o dia. Saíram juntos, a caminhar devagar, porque não havia pressa nenhuma. Era sábado. Um daqueles sábados em que o tempo parece mais largo.

No caminho, ouviam os pássaros como pontinhos de som. Sentiam o sol na cara e o ar com um sabor fresquinho, quase como água. Passaram por árvores ainda com raminhos finos, mas já com botões verdes, como pequenas ideias a nascer.

— Olhem! — disse a Inês, parando. No passeio, uma formiga carregava uma migalha enorme.

O Tomás agachou-se.

— Parece eu com a mochila da escola.

A Marta soltou uma gargalhada curta.

— Só que a formiga não se queixa.

A Inês ficou a ver a formiga por mais um instante e depois endireitou-se, como quem guarda uma lição silenciosa. Seguiram até à casa do Diogo, onde a avó o esperava com uma chaleira ao lume e um olhar que sabia coisas antigas e boas.

Capítulo 2: A história da avó Aurora

A avó do Diogo chamava-se Aurora, e o nome parecia combinar com a maneira como ela falava: devagar, a iluminar.

Sentaram-se na sala. Havia um cheiro a chá de camomila e a bolachas simples. As cortinas deixavam entrar uma luz dourada que fazia o pó dançar no ar.

— Então — disse a avó Aurora, servindo os copos —, querem ouvir a história que o Diogo vos falou?

— Queremos! — responderam os quatro ao mesmo tempo.

Ela sorriu.

— É uma história pequenina. Aconteceu aqui perto, num canteiro de flores público, daqueles que a câmara cuida para toda a gente. Foi na primavera, num dia como este.

A Inês inclinou-se para a frente, com os olhos atentos.

— Quem são as personagens?

— Quatro crianças — respondeu a avó. — Da vossa idade. Curiosas. E um canteiro que parecia uma pintura.

O Tomás levantou a mão, como se estivesse na aula.

— E havia uma aventura?

— Havia uma aventura muito calma — disse a avó Aurora. — A aventura de aprender a olhar.

A Marta piscou os olhos.

— Isso parece… fácil.

A avó mexeu o chá e fez um som suave com a colher.

— Às vezes, o mais difícil é mesmo o que parece fácil. Olhar sem correr. Ouvir sem interromper. Sentir sem querer logo explicar tudo.

O Diogo endireitou-se no sofá, orgulhoso da avó.

— Conta, avó.

A avó começou, e a voz dela era como um caminho de terra batida: firme, simples, e agradável de seguir.

Capítulo 3: O canteiro que falava baixinho

— As quatro crianças da história — disse a avó — saíram num fim de tarde para ver se a primavera já tinha chegado a sério. Encontraram, no jardim da praça, um canteiro de flores cheio de cores novas: amarelos como limão, roxos como uvas, vermelhos como maçãs.

A Inês cheirou o próprio copo de chá, como se já estivesse naquele jardim.

— Eu adoro o cheiro das flores — murmurou.

— E elas também — continuou a avó. — Aproximaram-se devagar, porque viram uma placa a dizer: “Não pisar. Vamos cuidar juntos.” As crianças pararam mesmo à beirinha, com respeito.

O Tomás fez um “hum” sério.

— Eu pisaria sem querer.

— Por isso é que elas decidiram um jogo — disse a avó Aurora. — Um jogo de calma. Chamaram-lhe “O Detetive dos Cinco Sentidos”.

— Cinco sentidos! — disse a Marta, animada. — Visão, audição, olfato, paladar e tato.

— Exatamente — confirmou a avó. — Primeiro, a visão: uma delas reparou que as pétalas tinham risquinhos finos, como se alguém as tivesse pintado com um pincel muito, muito pequeno. Outra viu gotinhas de água agarradas às folhas, a brilhar como contas de vidro.

O Diogo abriu os olhos, imaginando.

— Como pequenas estrelas.

— Depois, a audição — continuou a avó. — Encostaram a orelha ao ar, sem fazer barulho. E ouviram coisas miúdas: o zumbido de uma abelha, o farfalhar de uma folha, e até um “ploc” suave quando uma gota caiu.

A Inês fechou os olhos, para ouvir melhor a história.

— A seguir, o olfato — disse a avó. — Cheiraram o canteiro sem arrancar nada. Cheiro a terra húmida, a verde fresco, e um perfume leve que parecia uma mistura de sabonete e mel.

O Tomás fez uma cara engraçada.

— Mel com sabonete? Isso deve saber esquisito.

A avó riu baixinho.

— E por falar em saber… o paladar entrou no jogo de um jeito diferente. Elas não provaram flores, claro. Mas uma delas lambeu os lábios e disse: “O ar sabe a chuva antiga.” Porque, na primavera, o ar às vezes traz um gosto fresco, como quando se bebe água depois de brincar.

A Marta assentiu, como se já tivesse sentido isso muitas vezes.

— E o tato? — perguntou a Inês.

— O tato veio com cuidado — respondeu a avó. — Não tocaram nas flores, mas tocaram na casca de uma árvore ao lado: áspera e quente do sol. Tocaram numa pedra do caminho: lisa e fria. E tocaram no próprio peito, só para sentir o coração a bater devagar quando a pessoa pára.

Nesse instante, na sala, todos ficaram um pouco mais quietos. Até o Tomás deixou de bater com o pé.

Capítulo 4: A pequena lição do jardineiro

— Enquanto jogavam — disse a avó Aurora —, apareceu um jardineiro com um carrinho de ferramentas. Tinha as mãos com cheiro a terra e um chapéu cheio de sombra.

O Diogo perguntou, baixinho:

— Ele era simpático?

— Muito — disse a avó. — Ele viu as crianças tão atentas que não as interrompeu logo. Esperou. Depois, perguntou:

“Estão a descobrir a primavera?”

As crianças responderam que sim, e contaram o jogo dos cinco sentidos. O jardineiro ficou contente.

“Sabem”, disse ele, “as flores gostam de calma. Não é que elas fiquem zangadas se houver barulho… mas a pressa faz-nos perder os detalhes. A pressa é como correr numa biblioteca: os livros estão lá, mas não conseguimos ler nada.”

O Tomás soltou um “ai” baixinho, como quem se sente apanhado.

— Eu corro sempre na biblioteca — confessou ele, para a sala.

A Marta deu-lhe um empurrãozinho no braço, sem maldade.

— Agora já sabes.

A avó continuou:

— O jardineiro mostrou-lhes algo muito pequeno: um rebento, quase invisível, a furar a terra. “Isto”, disse ele, “é coragem silenciosa. Não faz alarme. Não pede palmas. Só cresce.”

A Inês engoliu em seco, emocionada sem saber bem porquê.

— E depois? — perguntou ela.

— Depois, o jardineiro ensinou uma coisa prática — disse a avó. — Disse que, quando a cabeça está cheia de barulho, a pessoa pode fazer “a respiração do canteiro”: inspirar contando até quatro, como quem cheira uma flor; e expirar contando até quatro, como quem sopra uma semente para ela viajar.

O Diogo experimentou ali mesmo, tão discretamente que parecia um segredo.

A avó Aurora sorriu, percebendo.

— As crianças da história tentaram, também. E sentiram o corpo ficar mais leve, como se tivesse tirado um casaco pesado. Não resolveram todos os problemas do mundo, claro. Mas aprenderam a criar um cantinho de sossego dentro delas.

O Tomás levantou o dedo outra vez.

— E fizeram alguma coisa para ajudar o canteiro?

— Fizeram — respondeu a avó. — Viram papelinhos no chão. Sem drama, sem discursos, foram apanhando e pondo no caixote. O jardineiro agradeceu, e disse: “Cuidar é uma forma de dizer ‘bom dia' ao futuro.”

Na sala, os quatro amigos olharam uns para os outros. O Diogo foi o primeiro a falar:

— Podemos ir ao canteiro da praça amanhã.

— Hoje! — disse a Inês, com vontade, mas sem aquela pressa a empurrá-la. Era mais um entusiasmo tranquilo.

A avó Aurora pousou a mão no ombro do neto.

— Podem ir, sim. Mas lembrem-se: a primavera não foge. Ela espera por quem chega devagar.

Capítulo 5: Um regresso lento e um sono macio

Quando a história acabou, já a luz da tarde estava mais suave, quase cor de pêssego. Os quatro agradeceram as bolachas e o chá. Na rua, o ar estava fresco e cheirava a terra molhada, como se alguém tivesse regado o mundo.

— Gostei da coragem silenciosa — disse a Marta, a olhar para uma árvore com botões. — Crescer sem fazer barulho.

— Eu gostei da respiração do canteiro — disse o Diogo. — Dá para fazer em qualquer lugar.

O Tomás encolheu os ombros, mas com um sorriso.

— Eu gostei foi da parte de apanhar lixo. Parece pouco, mas dá aquela sensação de… “pronto, fiz uma coisa certa”.

A Inês caminhava com as mãos nos bolsos, a sentir o tecido e o calor do próprio corpo.

— Eu gostei de tudo — disse ela. — E acho que hoje vou ver o mundo como se tivesse uma lupa… só que calma.

Passaram pela praça e pararam, só por um minuto, junto ao canteiro de flores público. As flores estavam ali, firmes, a balançar um bocadinho com o vento. Havia abelhas a trabalhar com paciência. O sol fazia as pétalas brilharem como papel colorido.

Ninguém falou durante alguns segundos. Foi um silêncio bom, como uma manta.

Depois, despediram-se. A Inês foi para casa com passos leves. No quarto, lavou os dentes, vestiu o pijama e abriu a janela só um pouco. Entrou um cheirinho a noite limpa e a primavera a começar.

Deitou-se. Fechou os olhos. Lembrou-se do rebento a furar a terra, da gotinha a cair com um “ploc”, do conselho da avó Aurora: a primavera espera por quem chega devagar.

A Inês fez a respiração do canteiro: inspirou… um, dois, três, quatro. Expirou… um, dois, três, quatro.

O coração bateu tranquilo, como se também tivesse encontrado o seu lugar.

E, com um sorriso pequeno, adormeceu num dodo sereno, como uma flor que fecha as pétalas para guardar o sol para o dia seguinte.

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Relva acordada
Jeito de dizer que a relva parece viva, fresca e pronta para crescer.
Respiração do canteiro
Exercício de inspirar e expirar devagar para ficar calmo, como no jardim.
Coragem silenciosa
Força para crescer ou tentar algo sem fazer barulho ou procurar atenção.
Rebento
Pequena planta nova que sai da terra quando começa a crescer.
Farfalhar
Som suave que folhas ou papel fazem quando se mexem com o vento.
Zumbido
Som contínuo e vibrante que insetos, como abelhas, fazem.
Migalha
Pedaço muito pequeno de pão ou bolacha que fica no chão.
Terra húmida
Terra que está molhada e fresca, por causa da água ou chuva.
Pétalas
Partes coloridas e finas da flor que formam as suas “roupas”.
Canteiro
Lugar no jardim onde se plantam flores ou plantas para cuidar.

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