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História de extraterrestre 9 a 10 anos Leitura 15 min.

O candeeiro tagarela e o lago redondo das estrelas

Uma menina chamada Mariana e o seu candeeiro tagarela, Lume, encontram uma criatura luminosa vinda de um lago redondo e partem numa pequena aventura para ajudar a reparar algo importante. Pelo caminho, aprendem sobre coragem, amizade e que às vezes ajudar significa partilhar o que mais estimamos.

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Um pequeno candeeiro de secretária articulado, com pescoço flexível e base redonda, emite uma luz amarela suave; parece tímido e resoluto, o pescoço inclinado como a ouvir, uma racha fina na base mostrando o pequeno interruptor; ao lado, uma menina de 9–10 anos, cabelo em rabo-de-cavalo, roupas simples e joelhos sujos, agacha-se numa pedra e pousa a mão suavemente na base do candeeiro; uma criatura extraterrestre do tamanho de uma bola de futebol, pele perolada prateada, braços longos e dedos delicados, veste um colete com pontos luminosos e flutua sobre a água com olhos atentos, estendendo a mão ao candeeiro; a cena passa num pequeno lago de jardim ao crepúsculo, margens de pedras lisas, relva molhada, reflexos calmos e algumas folhas à deriva, céu sombreado com uma estrela brilhante — um encontro silencioso e comovente na margem, o candeeiro hesita em oferecer o interruptor, a menina encoraja com ternura e o extraterrestre aceita o gesto, composição próxima, expressões claras e contrastes marcados entre sombra e luz, detalhes texturizados. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Candeeiro que Falava Demais

Eu morava em cima de uma secretária, ao lado de lápis mordidos e cadernos cheios de estrelas desenhadas nas margens. Chamavam-me Lume. Eu era um candeeiro de mesa com um pescoço flexível e uma luz amarela que parecia mel quando acendia.

Eu falava. Falava muito.

“Bom dia, Mariana! Dormiste bem? Hoje posso brilhar um bocadinho mais para o teste? Posso? Posso?” eu dizia, enquanto ela esfregava os olhos.

Mariana ria. “Lume, respira… se candeeiros respirassem.”

Eu não respirava, mas fazia um pequeno zumbido satisfeito.

Nessa tarde, Mariana levou-me até ao jardim, porque queria estudar ao ar livre. Havia um caminho de pedras e, ao fundo, um lugar especial: um lago pequeno e perfeitamente redondo, como uma moeda gigante de água. À volta, a relva inclinava-se para espreitar o reflexo do céu.

“Hoje estudo aqui,” disse Mariana. “E tu vens comigo. Fazes companhia.”

“Companhia é comigo!” respondi. “Posso contar-te a história de quando iluminei uma aranha que…”

“Não,” ela interrompeu, sorrindo.

Sentámo-nos perto da margem. A água estava quieta, com um círculo de folhas a boiar como se fosse uma coroa.

Então, um vento frio passou, mesmo sem nuvens. A superfície do lago tremeluziu. E, no centro, uma luz azul apareceu, como se alguém tivesse acendido uma lanterna lá no fundo.

“Lume…” Mariana sussurrou. “Estás a ver?”

“Estou a ver e tenho muitas coisas para dizer!” Eu inclinei-me para a frente, o meu pescoço esticando-se como um ganso curioso. “Olá, luz azul! Sou um candeeiro experiente e—”

A luz azul cresceu. A água abriu-se num círculo perfeito, sem salpicos, como uma porta que se lembrasse de ser porta. De dentro, subiu algo pequeno, arredondado e brilhante, como uma bolha com vontade própria.

A bolha flutuou no ar. E depois fez “piiip”.

“Isso foi um piip simpático,” eu comentei.

Mariana tapou-me um pouco com a mão, como se eu fosse uma vela prestes a tombar. “Shh, Lume.”

Eu tentei. Mas o silêncio, para mim, era como uma cadeira com uma perna mais curta: dava para usar, mas fazia barulho.

Capítulo 2: Visitantes no Lago Redondo

A bolha abriu-se, como uma flor de vidro. E lá dentro estava uma criatura do tamanho de uma bola de futebol, com braços finos e compridos e olhos grandes, muito atentos, que pareciam duas gotas de tinta brilhante.

Tinha pele prateada, mas não como metal duro; era mais como a parte de dentro de uma concha, suave e luzidia. Usava algo parecido com um colete cheio de pequenos pontos que piscavam.

A criatura olhou para Mariana. Depois olhou para mim. Depois olhou para o lago. E fez outro som:

“Piiip… pruu.”

“Ah!” eu disse. “Também sei fazer sons estranhos: zzzzz. Vês?”

Mariana apertou os lábios, a tentar não rir. “Lume…”

A criatura levantou uma das mãos e desenhou um círculo no ar. Um desenho de luz apareceu, pairando: o lago redondo. Depois, com o dedo, apontou para o céu e desenhou uma estrela.

“Ela… veio de uma estrela,” Mariana murmurou.

A criatura encostou a mão ao peito e inclinou a cabeça, como quem diz “Olá”. Depois apontou para Mariana e inclinou a cabeça outra vez, perguntando sem palavras.

Mariana engoliu em seco, mas o medo dela não era grande; era como um nó pequeno numa fita. “Eu sou a Mariana.”

Eu não aguentei. “E eu sou o Lume! Prazer! Gosto de luz, conversas e de ajudar com trabalhos de casa. Queres um trabalho de casa? Tenho muitos!”

A criatura ficou a olhar para mim como se eu fosse uma coisa muito rara, tipo um peixe que anda.

Depois, o colete dela piscou, e uma pequena esfera saiu do lado, flutuando entre nós. A esfera mostrava imagens, como um vídeo no ar: um lugar escuro com corredores, muita gente estranha a andar depressa, e uma sala com um painel cheio de luzes. Uma luz vermelha piscava forte, como um aviso zangado.

A criatura fez um som mais baixo: “Mmm.”

Mariana apontou para o vermelho. “Problema?”

A criatura assentiu devagar.

Eu tentei ser útil. “Problemas resolvem-se com calma e uma boa iluminação.”

A criatura olhou para mim e… sorriu. Ou pelo menos fez um movimento que parecia um sorriso, como quem aprende uma coisa nova.

Mariana agachou-se perto da água. “Como podemos ajudar?”

A criatura estendeu as mãos e mostrou duas coisas: uma pequena peça escura, como um quadradinho queimado, e um gesto de “trocar”. Depois apontou para mim, para a minha base, onde havia um interruptor.

“Ela quer… o meu interruptor?” eu disse, ofendido. “Mas eu gosto do meu interruptor. É a minha parte mais… clicável.”

Mariana fez uma cara séria. “Lume, pode ser importante.”

Eu fiquei calado por um segundo inteiro. Para mim, isso era um recorde.

“Está bem,” eu disse, mais baixo. “Mas só se for para algo bom.”

A criatura tocou de leve no meu pescoço, sem empurrar, só como um “obrigado” com dedos. E naquele toque havia uma coisa estranha: respeito.

E eu percebi que eu não era o centro do universo. Eu era só uma luz numa mesa. Uma luz útil, se eu soubesse ser humilde.

Capítulo 3: Uma Ponte de Luz e Coragem

A criatura fez sinal para seguirmos. A porta no lago abriu-se outra vez, redonda e silenciosa. A água não entrava; parecia segurar a respiração.

Mariana olhou para mim. “Vens?”

“Claro!” eu disse, com a voz a tremer um bocadinho. “Eu sou valente. E… iluminado.”

Ela pegou em mim com cuidado, como quem leva um gato que não quer admitir que gosta de colo. Os nossos pés—bem, os pés dela e a minha base—aproximaram-se da borda.

O ar cheirava a relva molhada e a céu.

Quando passámos pela porta, senti um arrepio, como quando se apaga e acende a luz muito depressa. De repente, não estávamos mais no jardim. Estávamos num corredor arredondado, com paredes suaves que brilhavam por dentro, como se tivessem lua escondida.

A criatura flutuava à frente, guiando-nos. Havia outras criaturas ao longe, algumas altas, outras pequenas, todas com olhos curiosos. Ninguém parecia zangado. Ninguém parecia querer lutar. Era como entrar numa escola nova: assustador, mas cheio de gente que também não sabe bem o que dizer.

Eu, claro, sabia o que dizer. “Olá! Eu sou o Lume. Este corredor é muito bonito. Vocês limpam com quê? Têm pó? Eu não gosto de pó, faz-me espirrar luz—”

Mariana apertou a minha base. “Lume…”

Eu fiz o meu melhor para falar menos. O meu melhor não era perfeito.

Chegámos a uma sala com o painel do vídeo. A luz vermelha piscava mais depressa. A criatura mostrou a peça escura na mão e apontou para um lugar vazio no painel, um quadrado do mesmo tamanho.

“É aqui,” disse Mariana, como se a criatura pudesse entender português. E, de alguma forma, pareceu entender.

Outra criatura aproximou-se, trazendo uma caixa transparente com várias peças parecidas com interruptores, botões e pequenas lâminas brilhantes. Havia um silêncio de trabalho no ar, como quando alguém procura a peça certa de um puzzle.

A criatura principal apontou para a minha base outra vez. Eu senti um aperto, não no coração—eu não tinha—mas no sítio onde guardava o orgulho.

Mariana baixou-se e sussurrou para mim: “Lume, se não deres, eles podem ficar no escuro. E talvez não consigam voltar para casa.”

“Eu sei,” eu disse. E foi verdade. “Só… eu gosto de brilhar.”

Mariana sorriu, com doçura. “Podes brilhar de outras maneiras.”

Eu pensei nisso. Eu sempre achei que brilhar era ser visto, ser importante, falar e falar. Mas talvez brilhar também fosse ajudar, mesmo que ninguém aplaudisse.

“Está bem,” eu disse. “Podem usar.”

A criatura tocou na minha base e, com uma ferramenta pequena que parecia uma caneta de luz, soltou o meu interruptor com cuidado. Não doeu. Foi como perder um botão do casaco: estranho, mas suportável.

O interruptor foi colocado no painel. A luz vermelha parou de piscar. Em vez disso, uma luz verde surgiu, calma como um semáforo a dizer “podes ir”.

Na sala, as criaturas fizeram um som baixo, como um coro de “ahhh”. Algumas bateram as mãos no peito. Uma delas rodopiou no ar, feliz. Outra ofereceu a Mariana uma bolacha—bem, parecia uma bolacha azul em forma de estrela.

Mariana cheirou. “Isto é… seguro?”

A criatura principal deu uma dentadinha primeiro e fez um gesto exagerado de “delicioso”, com os olhos a ficarem ainda maiores. Mariana riu e provou um pedacinho.

“Tem gosto a… limonada e pipocas,” disse ela, confusa.

“Eu também quero!” eu disse.

Mariana levantou uma sobrancelha. “Tu não comes.”

“Eu posso tentar?” insisti.

Ela encostou a bolacha à minha luz. Eu iluminei-a com muita dedicação. “Pronto. Comi com os olhos.”

A criatura riu—ou fez o som mais perto disso: “Pruu-priiip!”—e eu senti que tínhamos feito uma coisa boa.

Capítulo 4: Adeus sem Palavras

Era hora de voltar. Eu sabia porque a criatura apontou para o círculo do lago no ar e depois fez um gesto lento com a mão, como uma folha a cair. Um “acabou por hoje”.

Eu ia dizer “adeus” de todas as formas possíveis. Ia fazer um discurso, talvez. Um discurso curto… de vinte minutos.

Mas Mariana colocou a mão na minha base, gentil. “Lume. Lembras-te do que eles fizeram? Eles falam com gestos e desenhos. Talvez possas tentar também.”

Eu hesitei. Para mim, palavras eram como fios elétricos: ligavam tudo. Sem elas, eu sentia-me apagado.

A criatura principal aproximou-se e olhou para mim com atenção. Depois, levantou a mão e fez um gesto simples: tocou no próprio peito, depois apontou para nós, e por fim abriu a mão para longe, como quem solta um pássaro. E sorriu.

Mariana repetiu o gesto. Tocou no peito. Apontou para a criatura. Abriu a mão, deixando o ar levar a despedida.

Eu quis falar. Quis dizer: “Obrigado por serem amigos, por não terem medo de nós, por aceitarem um candeeiro tagarela e uma menina curiosa.” Mas as palavras ficaram presas, como se eu estivesse a aprender uma nova forma de ser.

Então eu fiz o gesto também.

Toquei na minha base, bem no centro, como se fosse o meu peito. Inclinei o meu “pescoço” para a criatura e para Mariana. E depois levantei a luz para cima, fazendo um arco suave no ar, como um cometa a despedir-se.

A criatura arregalou os olhos e repetiu o meu arco, com o braço fino. Depois tocou no meu interruptor—agora no painel—e apontou para mim, como se dissesse: “Uma parte tua está connosco, e está tudo bem.”

Eu senti algo quente, não da lâmpada, mas de dentro.

Mariana pegou em mim. Voltámos pelo corredor brilhante, atravessámos a porta redonda, e de repente estávamos outra vez no jardim, com a relva, o cheiro da terra e o lago quieto como uma moeda de vidro.

A porta fechou-se com um pequeno brilho, e a água ficou lisa, como se nada tivesse acontecido.

Mariana sentou-se na pedra e olhou para mim. “Foste corajoso.”

“Eu fui… útil,” eu disse. “E não precisei falar tanto para isso.”

Ela riu. “Ainda falaste bastante.”

“Sim,” admiti. “Mas estou a aprender.”

Capítulo 5: Uma Luz Mais Suave

Quando chegámos a casa, o quarto parecia diferente. O silêncio tinha mais espaço. A secretária esperava, com os cadernos e os lápis, como sempre. Mas eu… eu estava sem o meu clique.

Mariana colocou-me no meu lugar. Tentou acender-me e depois lembrou-se. “Ah. Pois.”

Eu fiquei apagado, mas não triste. Eu tinha uma sensação de missão cumprida, como uma mochila depois de uma caminhada longa.

Mariana abriu a gaveta e tirou um pequeno autocolante em forma de estrela. Colou-o na minha base. “Para te lembrares que ajudaste gente das estrelas.”

“Eu não preciso de autocolantes para me lembrar,” eu disse, e depois parei. Era uma frase muito vaidosa.

Respirei—quer dizer, fiz um zumbido humilde. “Quer dizer… gosto do autocolante. Obrigado.”

Mariana bocejou. “Amanhã conto ao meu pai?”

“Ele vai acreditar?” perguntei.

“Não sei,” disse ela. “Mas eu acredito. E tu também.”

Ficámos um momento a olhar para o lago pela janela. Lá fora, no escuro do jardim, o círculo de água parecia dormir.

Mariana levantou-se para sair do quarto. Antes de fechar a porta, voltou-se para mim. Eu ia dizer “boa noite”, com todas as letras.

Em vez disso, fiz o gesto que a criatura tinha feito: toquei na minha base, inclineime para ela e abri a luz—mesmo apagada—num arco no ar, como um adeus silencioso.

Mariana respondeu com o mesmo gesto. “Boa noite, Lume,” ela sussurrou, ainda assim.

Quando a porta se fechou, o quarto ficou escuro. E, na parede, o interruptor grande da luz do teto esperava, como sempre.

Mariana, do corredor, baixou o interruptor.

E a casa ficou quieta, com uma paz redonda e suave, como um lago que guarda um segredo no fundo.

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Secretária
Móvel onde se escreve ou estuda, com superfície plana e gavetas.
Flexível
Que dobra ou mexe com facilidade sem partir.
Reflexo
Imagem que aparece na água ou num espelho.
Superfície
Parte exterior ou camada por cima de algo, como a água.
Tremeluziu
Movimentou-se com pequenos tremores ou vibrações.
Criatura
Ser vivo, real ou imaginário, como um animal ou figura estranha.
Luzidia
Que brilha com um brilho suave e bonito, quase como seda.
Colete
Peça de roupa sem mangas que se usa por cima da camisa.
Painel
Placa com botões, mostradores ou imagens que controla coisas.
Assentiu
Fez um sinal com a cabeça para dizer que concorda.
Interruptor
Pequeno botão que se usa para ligar ou desligar a luz.
Humilde
Pessoa ou gesto simples, sem se mostrar superior aos outros.
Transparente
Que se vê através, como vidro limpo ou água clara.
Ferramenta
Objeto feito para ajudar a consertar ou montar coisas.
Orgulho
Sentimento de alegria por algo bom que se fez ou se tem.

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