Capítulo 1: Dias Diferentes
Ana acordou com a luz suave do sol a entrar pela janela do seu quarto cor-de-rosa. O seu coelhinho de peluche, o Nuvem, estava deitado ao seu lado, como sempre. Ela esticou os braços e bocejou, sentindo-se quentinha debaixo do edredão. Mas, naquele dia, o coração de Ana batia diferente. Parecia que havia muitas borboletas a voar lá dentro.
A mãe entrou devagarinho no quarto e sentou-se ao lado dela na cama. Tinha um sorriso doce, mas os olhos estavam um pouco brilhantes de emoção. Ana sabia que algo estava a mudar, e não era só porque tinha crescido dois centímetros. A casa estava mais silenciosa, e o pai agora dormia noutra casa.
— Bom dia, minha querida — disse a mãe, fazendo-lhe uma festa no cabelo. — Hoje é terça-feira, lembras-te do que isso significa?
Ana pensou um bocadinho. Era preciso pensar bem, porque agora havia dias em que ficava com a mãe e outros em que ficava com o pai. Era como um calendário mágico, mas às vezes parecia complicado.
— Hoje estou contigo, mãe? — perguntou Ana baixinho, como se tivesse medo de errar.
A mãe abraçou-a com força e explicou, com palavras tão suaves como algodão.
— Sim, querida. Nos dias pares, ficas comigo. Nos dias ímpares, ficas com o pai. Hoje é dia 4, por isso vais tomar o pequeno-almoço comigo e depois vamos juntas à escola.
Ana sorriu, aliviada. Gostava de saber o que ia acontecer, mesmo que às vezes sentisse saudades de quando todos estavam juntos.
Capítulo 2: Corações em Dois Lugares
Na escola, Ana contou à sua melhor amiga, Leonor, que ia passar o fim de semana com o pai. Leonor ouviu com atenção, mexendo nos seus caracóis dourados.
— E tens dois quartos? — perguntou Leonor, curiosa.
Ana assentiu com a cabeça.
— Tenho um quarto na casa da mãe e outro na casa do pai. Tenho duas escovas de dentes, dois pijamas e muitos desenhos nos dois sítios. Mas só tenho um Nuvem, por isso levo-o sempre comigo na mochila.
A professora Dona Sílvia, que sabia ouvir até os segredos mais pequeninos, chamou Ana no recreio. Sentaram-se juntas num banco de madeira, perto do baloiço.
— Como te sentes com estas mudanças, Ana? — perguntou a professora, olhando com carinho.
Ana pensou. Sentia-se como o tempo: às vezes com sol, às vezes com nuvens. Havia dias em que tinha saudades do pai quando estava com a mãe e dias em que tinha saudades da mãe quando estava com o pai. Mas gostava dos passeios com cada um deles. Com o pai, ia ao parque ver patos. Com a mãe, fazia bolos de chocolate.
— Sinto falta deles juntos, mas gosto dos nossos momentos — respondeu Ana, com honestidade.
A professora sorriu, apertando-lhe a mão. — É normal sentires-te assim. É importante falares sobre o que sentes, sempre.
Ana sentiu-se segura. Era bom saber que podia contar o que ia dentro do peito, mesmo que fossem emoções misturadas.
Capítulo 3: O Calendário da Ana
Nessa tarde, quando voltou a casa, Ana encontrou a mãe a desenhar no quadro branco da cozinha. Havia dois corações desenhados: um com a letra “M” de mãe, outro com a letra “P” de pai. A mãe mostrou-lhe o calendário do mês, com os dias pares a azul e os dias ímpares a verde.
— Assim, ficas a saber sempre onde vais estar e com quem — explicou a mãe, entregando-lhe um marcador cor de rosa.
Ana desenhou um pequeno coelho nos dias em que levava o Nuvem com ela. Gostou de ver o calendário colorido. Afinal, cada dia tinha o seu brilho.
No domingo, o pai veio buscá-la. Trazia um sorriso e um casaco vermelho que Ana adorava. No carro, ela sentou-se na sua cadeirinha especial e olhou pela janela, vendo as árvores a passarem depressa.
— O que queres fazer hoje, filhota? — perguntou o pai.
Ana pensou e disse, — Podemos ir ver os patos e depois fazer o teu arroz de tomate?
O pai riu-se. — Claro, princesa. E depois, podemos desenhar juntos.
Ana gostava muito daqueles passeios. E, quando chegava a noite, o pai contava-lhe uma história antes de dormir. O Nuvem estava sempre ao seu lado, como se também gostasse de ouvir.
Capítulo 4: Sentir e Perguntar
Numa noite em que estava com a mãe, Ana sentiu-se triste. O Nuvem estava ao seu lado, mas o coração parecia apertado. Tinha saudades do pai. Ficou calada no sofá, a olhar para as luzes pequenas do candeeiro.
A mãe reparou e sentou-se ao seu lado.
— Estás a pensar no pai? — perguntou baixinho.
Ana acenou com a cabeça. Uma lágrima saltou-lhe para a bochecha.
A mãe abraçou-a com ternura.
— Sabes, é normal sentires falta dele. O pai também sente a tua falta quando estás comigo. Mas podes falar comigo sobre isso, sempre que quiseres.
Ana esfregou os olhos e perguntou, — E se eu quiser falar com ele?
A mãe sorriu, pegou no telefone e ajudou Ana a ligar ao pai. O pai atendeu logo, com voz contente.
— Olá, Ana! Que bom ouvir-te! — disse ele.
Ana contou-lhe o que tinha feito nesse dia e o pai disse que também sentia saudades. Depois, a mãe fez-lhe um chá quentinho e leu-lhe uma história, até Ana adormecer.
No dia seguinte, na escola, a professora pediu aos meninos para levantarem a mão se quisessem partilhar alguma coisa. Ana olhou para a mão, pensou um bocadinho e ergueu-a no ar.
Quando chegou a sua vez, Ana falou com voz pequena, mas decidida.
— Às vezes sinto falta do meu pai quando estou com a minha mãe, e sinto falta da minha mãe quando estou com o meu pai. Mas agora tenho um calendário e posso falar com eles sempre que quiser. E tenho amigos e professores para ajudar.
A professora sorriu para ela e disse que era corajosa por partilhar os seus sentimentos.
Ana sentiu-se orgulhosa. Percebeu que, mesmo quando as coisas mudam, podemos aprender a pedir ajuda, a falar sobre o que sentimos e a encontrar alegria nos pequenos momentos. E, acima de tudo, entendeu que o amor dos pais cabe sempre no mesmo coração.