Capítulo 1 – O Primeiro Dia no Grupo
Lucas acordou cedo, numa manhã cheia de sol. O quarto estava iluminado e seu urso de pelúcia sorria sentado na cama. Mas Lucas sentia um nó na barriga. Hoje era o primeiro dia no grupo de apoio para crianças que tinham pais separados. Lucas não sabia como seria. Ele queria sorrir, mas um pouquinho de tristeza não deixava.
— Mamãe, o que vou fazer lá? — perguntou Lucas enquanto tomava o pequeno-almoço, mexendo no pão com manteiga.
— Vais encontrar outros meninos e meninas como tu, Lucas. Vão conversar, brincar, desenhar e contar histórias — respondeu a mãe, passando a mão no seu cabelo despenteado. — Lembra-te, não estás sozinho.
Enquanto caminhavam até à escola, Lucas olhava os carros, as árvores, os passarinhos. Mas a cabeça dele pensava no grupo. O que diria? O que faria?
Chegando à sala do grupo, Lucas encontrou Sara. Sara era uma menina com cabelo cacheado e um sorriso tímido. Ela também tinha seis anos. No grupo, estavam mais algumas crianças e uma senhora simpática chamada Dona Vera.
— Olá, eu sou a Dona Vera, vamos brincar juntos hoje — disse ela, com voz suave.
Lucas sentou-se ao lado de Sara. Todos os meninos e meninas formaram uma roda. Dona Vera pediu para cada um dizer o nome e uma coisa de que gostava.
— Eu sou o Lucas — disse baixinho. — Gosto de desenhar super-heróis.
— Eu sou a Sara — disse sorrindo. — Gosto de brincar de casinha.
Logo, todos começaram a contar coisas de que gostavam. Lucas achou engraçado ouvir as vozes diferentes, tão alegres. O nó na barriga ficou menor.
Capítulo 2 – Partilhar e Ouvir
Depois da roda, Dona Vera deu folhas e lápis de cor a cada criança.
— Hoje vamos desenhar como nos sentimos — explicou ela. — Pode ser um sol, uma nuvem, um coração ou até um arco-íris. O que sentem no vosso coração?
Lucas pensou um pouco. Desenhou um coração partido e depois desenhou dois lares: uma casa azul onde morava com a mãe e um apartamento amarelo onde ficava com o pai. Desenhou também ele e Sara a brincar no parque.
Sara desenhou uma nuvem e muitos corações pequeninos. Depois, desenhou ela de mãos dadas com a mãe, o pai e a avó.
— Queres mostrar o teu desenho, Lucas? — perguntou Dona Vera com um sorriso.
Lucas mostrou e explicou:
— Aqui é a minha casa com a mãe. Aqui é o apartamento do papá. Às vezes fico triste porque queria que fôssemos todos juntos. Mas também fico feliz quando brinco no parque com o papá e quando ajudo a mamãe a fazer bolos.
Sara partilhou:
— Eu fico confusa. Sinto falta do papá. Mas a mamãe diz que posso falar com ele todos os dias. Gosto quando ele liga e conta histórias.
Dona Vera ouviu com atenção. Ela disse:
— É normal sentir saudades. É normal sentir-se triste, feliz ou zangado. O importante é conversar e não guardar só para dentro.
Lucas olhou para Sara. Sara olhou para Lucas. Eles sorriram. Sentiram-se melhor. Viram que não estavam sozinhos.
Capítulo 3 – Brincadeiras e Descobertas
No recreio, o grupo saiu para brincar. Correram atrás da bola, saltaram à corda e fizeram uma fila para escorregar. Lucas e Sara riam muito. Cada gargalhada parecia tirar um peso do peito.
Quando estavam sentados na relva, Lucas olhou para Sara e perguntou:
— Tu também tens dois quartos?
— Tenho — respondeu Sara. — Tenho uma cama cor-de-rosa na casa da mamãe, e uma cama cheia de bonecas na casa do papá. E tu?
— Eu tenho uma cama com foguetes na casa da mamãe e uma cama cheia de carrinhos na casa do papá — respondeu Lucas, orgulhoso.
Eles partilharam histórias engraçadas sobre as duas casas. Riram das aventuras, das diferenças entre as casas, dos brinquedos que ficavam em cada lugar.
Depois, Dona Vera chamou:
— Vamos para a roda de novo!
Todos se sentaram em círculo. Dona Vera falou:
— Todos nós temos famílias diferentes. Algumas pessoas vivem com as mães, outras com os pais, e outras com avôs ou tios. Mas todas as famílias podem ser felizes. O importante é o carinho, o cuidado e o respeito.
Lucas ouviu e ficou a pensar. Olhou para os outros meninos. Todos eram diferentes, mas todos podiam ser amigos.
Capítulo 4 – Sentimentos e Conforto
No final do dia, Dona Vera trouxe uma caixa mágica. Era uma caixa colorida, cheia de papéis com palavras felizes: amizade, amor, alegria, esperança, coragem, partilha, abraço.
Cada criança escolheu uma palavra. Lucas tirou "coragem".
— Lucas, o que é coragem para ti? — perguntou Dona Vera.
Lucas pensou e respondeu:
— Coragem é dizer o que sinto. Coragem é pedir um abraço quando estou triste.
Sara tirou "amizade".
— Para mim, amizade é brincar, dar as mãos e ouvir o que o outro sente — disse ela.
Dona Vera sorriu:
— Vocês são muito corajosos. Estão a aprender a falar dos vossos sentimentos, a ouvir os amigos e a ajudar uns aos outros.
Lucas sorriu. Sentiu-se bem, quentinho por dentro. Aprendera que era normal sentir saudades, sentir-se dividido entre as casas. Aprendera que falar ajudava, que os amigos podiam entender e apoiar.
Quando a mãe chegou para buscar o Lucas, ele correu e abraçou-a com força.
— Foi bom, mamãe. Falei sobre as casas, os sentimentos, brinquei com amigos que também têm pais separados.
A mãe sorriu, os olhos brilhando.
— Que bom, meu amor. Vais ver, tudo vai ficar bem.
No caminho para casa, Lucas contou tudo. Falou de Sara, dos desenhos, das palavras mágicas. Sentiu-se mais leve, com o coração menos apertado.
À noite, antes de dormir, Lucas abraçou o urso de pelúcia e pensou: “A minha família é diferente, mas continua a ser família. Eu tenho coragem. Tenho amigos. Não estou sozinho.”
E assim, Lucas adormeceu a sorrir, sonhos cheios de cor, amizade e esperança.