Capítulo 1 — O mapa do pão e das bolotas
Miguel e Tomás acordaram cedo. O sol brincava nas cortinas. Eles tinham cinco anos e mil ideias na cabeça. No quarto, um lençol virou vela e uma cadeira virou barco. Mas, fora do barco, havia um grande mistério: sumiu o caminho da casa até a padaria.
"Miguel, onde fica a padaria?", perguntou Tomás, esfregando os olhos.
Miguel olhou pela janela. Havia um carvalho grande no jardim. Bolotas caíam como pequenas lanternas. "Não sei", disse Miguel. "Mas hoje vamos descobrir."
Eles fizeram um caderninho. No caderninho, desenharam um sol amarelo, um pão com sorriso e uma seta. Escreveram: 'Procurar caminho até a padaria'. Miguel segurou a caneta como se fosse uma espada. Tomás colocou o caderninho no bolso.
A mãe acenou da cozinha. "Voltem antes do almoço!", disse ela, com voz macia.
Eles fecharam a porta com cuidado. O bairro parecia diferente. Cada lixeira era um castelo. Cada bicicletinha, um pônei. Eles seguiram a rua com passos de exploradores.
No primeiro cruzamento, havia uma senhora com um grande chapéu florido. Ela mexia em um carrinho de plantas. Miguel pigarreou e, com voz firme, perguntou:
"Com licença, senhora, sabe onde fica a padaria?"
A senhora sorriu. "Claro, meninos. Sigam três passos até o poste azul, depois virem à direita onde a árvore tem uma marca de coração."
"Obrigadinho!" disse Tomás, imitando um aplauso. Miguel anotou no caderninho com desenhos: poste azul e coração na árvore. Eles deram dois pulos e seguiram.
Pelo caminho, encontraram um gatinho enroscado num arbusto. Ele mia como se contasse um segredo. Tomás se ajoelhou. "Com licença, gatinho, sabe o caminho?"
O gatinho ronronou e fez um pulo para frente, apontando com a cabeça para um beco florido. Miguel fez sinal de positivo e escreveu: beco florido.
Eles aprenderam a perguntar sem medo. Aprenderam a ouvir com respeito. E, quando alguém respondia, desenhavam. Assim o caderninho crescia. Havia muitos rabiscos, traços e um grande sorriso na última página.
Capítulo 2 — O parque que mudava de lugar
O beco florido levou-os até o parque. Mas o parque não estava no lugar de sempre. O balanço havia preferido ir mais perto do lago. As crianças conversavam com as árvores. Um esquilo vendia nozes em bandeja imaginária.
"Com licença, senhor esquilo, você viu a padaria?", perguntou Miguel, erguendo o queixo.
O esquilo ficou curioso. Saltou, pegou uma noz, e apontou para o caminho de pedras brancas. "Chii!" fez ele, o que, para eles, significava: sim, ali.
Tomás desenhou as pedras no caderninho e disse: "Você vê? Estamos ficando espertos."
No meio do parque havia um labirinto de arbustos. As folhas cochichavam histórias de outras crianças. Miguel e Tomás seguraram as mãos. O labirinto parecia grande. Mas eles tinham coragem. E o caderninho.
"Se nos perdermos, vamos perguntar", sussurrou Tomás.
"Sim", respondeu Miguel. "E ser educados."
Entraram no labirinto. Primeiro, viraram à esquerda porque um passarinho cantou uma canção alegre. Depois, seguiram o cheiro de pão fresco que parecia flutuar como fumaça doce. O cheiro estava perto, mas o labirinto virou a sua trilha.
No centro, encontraram um senhor com um chapéu de palha, desenhando uma flor no chão com um galho. Ele sorriu. "Vocês estão procurando algo?"
"Sim", disse Miguel, com voz clara. "Com licença, senhor, sabe onde fica a padaria?"
O senhor apontou para uma rua colorida, onde as casas pareciam feitas de goma. "Sigam o som de um sino. O padeiro gosta de cantar enquanto trabalha."
"Obrigadinho", murmuraram os meninos, e saíram com passos leves.
Perto da rua colorida, ouviram um sino. Era suave, como risadinhas de cristal. Seguiram o som. Ao lado de uma fonte, um grupo de crianças brancas como nuvens brincava com uma pipa. Uma delas, uma menina com laço azul, ofereceu-lhes um pedaço de papel.
"Vocês têm um caderninho bonito", disse a menina. "Vocês estão na caça do pão?"
"Sim!" responderam em coro.
"Então sigam o sino e o rastro de migalhas", sugeriu ela.
Miguel e Tomás agradeceram e desenharam uma pipa no caderninho. O rastro de migalhas levou-os por uma ruazinha. Eles iam contando migalhas como quem conta estrelinhas. Uma, duas, três... as migalhas formavam um caminho que parecia escrito só para eles.
De repente, uma nuvem escura passou. Não era uma nuvem de chuva. Era uma nuvem de dúvidas. "E se a gente se perder de verdade?", perguntou Tomás, com a voz um pouco trêmula.
Miguel apertou o caderninho. "A gente pergunta", disse. "Sempre pergunta com jeitinho."
Nesse instante, um cão grande, de olhos meigos, deitou-se no meio do caminho. Ele late leve, como se fosse um guarda que dorme. "Com licença, senhor cão, sabe onde fica a padaria?" Miguel perguntou, já sabendo que a gentileza também acalma os outros.
O cão abanou o rabo, levantou-se e caminhou na frente como um guia. Chegou a uma porta de madeira. No batente havia um desenho de um pão. Olhos brilhavam por trás da vidraça.
"É aqui?" sussurrou Tomás, quase sem acreditar.
Miguel bateu na porta. Uma senhora abriu. Cheiro de pão quente invadiu a rua. "Olá, meninos. Estão à procura do pão?", perguntou ela.
"Sim, por favor", disse Tomás, com educada pressa.
"Entrem", convidou a senhora. "Vocês parecem exploradores."
Dentro, havia pães como nuvens e biscoitos com sorrisos. O padeiro cantava. Ele ofereceu um pão pequeno com manteiga. "Para energizar exploradores", falou ele, com voz grossa e doce.
Eles comeram com calma. Cada mordida parecia um troféu. E o caderninho ganhou uma página nova: desenho do padeiro, do sino e de um cão que os guiou. Eles anotaram também: sempre perguntar com jeitinho.
Capítulo 3 — O caminho de volta e o caderninho fechado
Com os pães embrulhados, começaram a voltar. O sol mudava de lugar devagar. O bairro parecia orgulhoso. As casas acenavam com as janelas. Eles seguiram as migalhas de volta. Em cada esquina perguntavam outra vez, por educação e por alegria.
No caminho, encontraram a senhora do chapéu florido. "Conseguiram achar?", perguntou ela, inclinando-se como uma vela.
"Sim! Com licença, senhora, obrigada pelo atalho do poste azul", disse Miguel, apontando ao caderninho.
A senhora bateu palminhas. "Vocês foram muito educados. E corajosos."
Perto do carvalho, as bolotas ainda caíam. Um vento brincalhão tentou levar o caderninho do bolso de Tomás. "Oh!", ele exclamou. Miguel correu e agarrou o caderninho antes que voasse como um pássaro.
"Que bom que trouxe o caderninho", disse Tomás, com alívio. "Ele guarda nossas perguntas e nossas respostas."
Eles foram mudando os desenhos com calma. Para cada pessoa que ajudou, fizeram um coraçãozinho no caderno. Para cada caminho novo, um traço de cor. O caderninho estava ficando cheio de luz.
Quando chegaram à casa, a mãe estava no portão, como um farol. "E então? Como foi a aventura?" perguntou ela, sorrindo.
"Foi ótima!" responderam em coro. Miguel mostrou o caderninho. A mãe leu devagar. Ela sorriu ainda mais.
"Vocês perguntaram com gentileza?", perguntou ela.
"Sim", disse Tomás, com voz cheia. "Sempre com licença e obrigada."
A mãe os abraçou. "Fico feliz. E vocês aprenderam a pedir o caminho?"
Aprenderam. Aprenderam a desenhar para lembrar. Aprenderam a ouvir. Aprenderam a ajudar também: Tomás ajudou a senhora com o carrinho, Miguel segurou o caderninho quando o vento soprou.
Quando o sol começou a se esconder, eles se sentaram na escada. Compartilharam um pão quente. O sabor de cada pedaço era uma lembrança. Miguel pegou a caneta. Tomás abriu a última página do caderninho. Havia um espaço em branco, só esperando.
"Devemos desenhar o que aprendemos?", perguntou Tomás.
"Sim", disse Miguel. Ele desenhou duas estrelas de coragem. Tomás desenhou duas mãos que se dão. Eles escreveram com letras redondas: "Perguntar com jeitinho. Ajudar sempre. Voltar para casa."
A mãe chamou: "Hora do banho!"
Na cama, com pijamas cheios de desenhos de foguetes e plantas, Miguel e Tomás trocaram um sorriso. Antes de apagar a luz, Miguel fechou o caderninho com cuidado. Passou a mão pela capa como se abençoasse um amigo.
Tomás sussurrou: "Vamos sair outra vez amanhã?"
"Vamos", murmurou Miguel, já com olhos meio fechados.
A casa ficou quieta. Do lado de fora, o carvalho suspirou. O caderninho descansava no criado-mudo. Ele tinha desenhos, palavras gentis e muitas mapinhas. Guardava o sol daquele dia.
A última página tinha um desenho simples: uma porta aberta e duas pegadas que voltavam para casa. Miguel fechou o caderninho. Livro guardado, portas fechadas, sonhos prontos. O caderninho foi colocado no cantinho, onde as bolotas contavam suas histórias.
E assim, com o caderninho fechado, os dois meninos adormeceram, prontos para novas perguntas, sempre com jeitinho e coragem, sempre juntos. O caderninho fechado.
