Desde muito pequena, todos os dias Lulu caminhava com sua mãe até a escola. A menina gostava de sentir o cheiro do pão da padaria, ver as flores do jardim da casa da esquina e passar a mão no cachorro que morava na casa de portão azul.
Eram cinco quadras até a escola, e no caminho passavam por uma casa velha que diziam ser abandonada e mal-assombrada. A menina tinha medo de todas as histórias que as outras crianças contavam de lá, mas no fundo alguma coisa a encantava e a deixava curiosa ao mesmo tempo. Seriam as conchas desenhadas no portão? O topo da casa que parecia uma coroa? A escadaria, com seus verdinhos brotando entre os degraus? Ou o desconhecido, dos segredos que moravam lá dentro?
Um dia, Lulu precisou ir para a escola sozinha e, no caminho, resolveu entrar na casa para procurar quais segredos estavam escondidos por trás daquelas altas portas de madeira. Pulou o muro e, sem grandes dificuldades, entrou por uma janela encostada.
Seus olhos percorriam todos os detalhes do lugar, ela estava admirada. A casa parecia ainda mais velha por dentro, e era ainda mais bonita. Tinha desenhos nas paredes, madeira no chão e vidros coloridos nas janelas. Alguns móveis estavam cobertos por panos brancos e, por debaixo de um sofá, ela viu o rabinho de um cachorro dormindo.
Lulu amava animais e logo foi passar a mão no cachorrinho. Mas, quando ele começou a se mexer... Opa, não era um cachorro!
– Ahhh! – A criatura e a menina se assustaram, dando um pulo para trás.
– Puxa, desculpe. Faz muito tempo que eu não vejo ninguém por aqui – disse a criatura.
– Você é um cachorro que fala? – perguntou curiosa a menina.
– Eu não sou um cachorro, eu sou o Monstro da Saudade – respondeu a criatura.
– O monstro de quê? – perguntou, de novo, a menina.
– Monstro da Saudade. Eu guardo as lembranças dessa casa e de todos que moraram aqui – respondeu com orgulho o monstrinho.
– Não acredito! Era você mesmo que eu queria encontrar! Todo mundo tem medo dessa casa aqui na rua, mas eu sempre quis saber suas histórias – falou a menina animada.
– Então senta que lá vem história... – disse o monstro mais animado ainda.
O Monstro da Saudade contou a história da família Silva, que tinha construído aquela casa muitos anos atrás. O pai trabalhava na antiga fábrica do bairro e a mãe era professora na escola onde Lulu estudava. Eles tinham dois filhos que amavam brincar de esconde-esconde pelos cômodos da casa, jogavam futebol no pequeno quintal dos fundos e comiam jabuticaba da árvore que ficava no jardim. Viveram dias alegres por lá, cheios de tardes de brincadeiras, cheiro de bolo saindo do forno e sons dos barulhos da chuva.
A menina estava viajando pelas histórias que o monstro contava e, em um certo momento, o interrompeu:
– Mas, onde está a família Silva nestes últimos anos?
– Com o passar do tempo, as crianças cresceram e foram morar em outros lugares, formando novas famílias. Os pais diziam que agora a casa tinha ficado vazia, que estavam envelhecendo e decidiram ir morar em um apartamento – explicou o monstro.
– E você? – quis saber a menina.
– Eu fiquei aqui na casa, cuidando para que as histórias da família Silva e dos próximos moradores que vierem nunca se percam – disse o monstro orgulhoso. E continuou:
– Mas saiba que eu tenho um irmão, o Monstro da Memória, que foi junto com os antigos moradores. No dia da mudança, ele me abraçou, me desejou boa sorte e partiu.
– E você nunca vai embora dessa casa? – perguntou a menina.
– Não, eu moro aqui, esse é meu lar. Toda casa tem um monstro da saudade, geralmente eles ficam escondidos, dentro de caixas de fotografias, embaixo da cama das vovós, atrás de porta-retratos. Quando uma família se muda, nós ficamos esperando os novos moradores chegarem trazendo novas histórias – explicou o monstro.
Bléim!
Era o sino da escola tocando. Lulu estava atrasada para entrar na aula. A menina deu um abraço no Monstro da Saudade, agradeceu por compartilhar com ela suas histórias e saiu correndo pela rua.
No fim do dia, Lulu saiu da escola, ainda pensando em sua aventura vivida naquela manhã. Caminhando lentamente de volta, olhou com atenção para cada uma daquelas casas de sua rua. Eles estavam lá. Dormindo escondidos atrás de venezianas fechadas, debaixo dos telhados, ou atrás das moitas dos jardins. Eram eles, monstros da saudade, carregados de lembranças, esperando para que pequenos curiosos como ela os acordassem.