Parte 1: Orelhas que Ouviam Sussurros
Na colina atrás da aldeia, onde a relva era macia como um tapete verde, morava Lumo. Tinha olhos muito brilhantes, do tamanho de duas azeitonas, e duas orelhas compridas que mexiam sozinhas quando ele pensava. A sua pele parecia feita de luz suave, como uma lanterna pequenina num quarto escuro.
Lumo gostava de ser honesto. Quando encontrava uma coisa perdida, não guardava. Levava logo a quem era. E, se fazia asneira, dizia: “Fui eu, desculpa.” Às vezes isso dava medo, mas depois o coração ficava leve.
Naquele dia, o ar cheirava a bolo e a flores. As janelas tinham fitas coloridas e, na praça, penduravam-se grinaldas com coelhos de papel.
Lumo aproximou-se, curioso, e ouviu duas crianças a falar.
— Amanhã é a Caça aos Ovos! — disse a Rita, com os olhos a saltar de alegria.
— A mãe disse que alguns ovos brilham. Mas isso deve ser só conversa — respondeu o Tomás, a rir.
Lumo inclinou a cabeça. Orelhas em pé.
— Caça… aos ovos? — perguntou ele, com voz baixa, como quem não quer interromper um segredo.
A Rita olhou para ele e sorriu.
— É uma tradição da Páscoa! Escondem ovos de chocolate e ovos pintados. Depois nós procuramos. Quem encontra mais… ganha um cestinho especial.
— E o Coelho da Páscoa? — perguntou Lumo, ainda mais curioso.
O Tomás encolheu os ombros.
— Dizem que passa de noite e deixa os ovos. A minha avó jura que já viu pegadas.
Lumo arregalou os olhos. Pegadas? À noite? O coração dele fez “tum-tum” de excitação.
— Eu nunca fiz isso — disse Lumo. — Posso… posso participar?
— Claro! — disse Rita. — Mas tens de trazer um cesto. E tens de prometer uma coisa.
— Prometo — disse Lumo, sem saber ainda o quê.
— Se encontrares um ovo que não é teu… devolves — disse Rita, muito séria. — Senão não tem graça.
Lumo endireitou-se, orgulhoso.
— Eu sou bom nisso. Devolver é quase o meu superpoder.
Os dois riram, e o riso deles parecia sininhos.
Nessa tarde, Lumo foi ao bosque procurar um cesto. Encontrou um cesto velho, esquecido junto a um banco. Tinha uma fita azul desbotada e cheirava a pinho.
— De quem será? — murmurou ele.
Olhou à volta. Ninguém.
Lumo levou o cesto até à casa da Dona Bia, que sabia tudo o que era da aldeia.
— Dona Bia, encontrei isto. É de alguém?
A senhora, de avental com manchas de farinha, pegou no cesto e abriu um sorriso.
— Ai, isso é meu! Esqueci-me ontem quando fui apanhar ervas. Obrigada, Lumo. Que honestidade bonita!
Lumo sentiu-se quente por dentro, como chá com mel.
— Preciso de um cesto para a Caça aos Ovos — explicou ele.
Dona Bia piscou o olho.
— Então leva este. Mas agora é emprestado. E vou dar-te uma coisa.
Ela tirou de uma gaveta um lápis de madeira e um pequeno bloco de papel.
— Para desenhares o que vires. A Páscoa está cheia de cores.
Lumo pegou no lápis como se fosse uma varinha.
— Vou desenhar! Vou desenhar… um ovo gigante!
— Ou o que o teu coração mandar — disse Dona Bia.
Lumo saiu, saltitando. No caminho, notou algo estranho no chão: um pontinho dourado, como pó de estrela, a brilhar entre as pedrinhas.
Ele baixou-se e tocou. O pó colou-se ao dedo e, por um instante, o dedo brilhou.
— Ui! — disse Lumo, assustado e encantado ao mesmo tempo.
Uma brisa passou e levou o pó para o ar, como se dissesse: “Segue-me.”
Lumo seguiu.
Parte 2: A Pista de Açúcar e o Ovo que Falava
O pó dourado desenhava um caminho fino pela estrada, depois pela horta do senhor Manel, e finalmente até ao bosque. Era como uma linha a chamar: “Por aqui!”
Lumo avançou com cuidado, para não pisar flores. O cesto balançava no braço. O bloco e o lápis iam no bolso, a fazer cosquinhas.
No meio do bosque, atrás de um carvalho, ele viu uma coisa que não combinava com as folhas castanhas: um ovo.
Era um ovo grande, pintado com riscas cor-de-rosa e verdes. E brilhava um bocadinho, como a lua numa poça de água.
Lumo engoliu em seco.
— Um ovo… antes da caça?
Aproximou-se devagar. E então ouviu uma voz muito fininha.
— Psst! Ei! Tu, orelhas compridas!
Lumo deu um salto tão alto que quase caiu sentado.
— Quem… quem falou?
O ovo mexeu-se, só um bocadinho, como se tivesse espreguiçado.
— Fui eu. Não grites. As corujas são muito fofoqueiras — disse a voz.
Lumo levou as mãos à boca para segurar um riso nervoso.
— Um ovo a falar! Isto é… isto é…
— É Páscoa — respondeu o ovo, como se isso explicasse tudo. — E na Páscoa, algumas coisas ficam um bocadinho mais mágicas.
Lumo inclinou-se, com cuidado.
— Eu sou Lumo. Estou a aprender a tradição da Caça aos Ovos.
— Então estás a aprender no sítio certo — disse o ovo. — Mas tenho um problema. Perdi-me.
— Como é que um ovo se perde? — perguntou Lumo, e depois riu. — Desculpa. Parece uma piada.
— É uma piada! — disse o ovo, contente. — Adoro humor. Dá-me coragem.
Lumo riu mais. O bosque pareceu ficar mais claro.
— Eu posso ajudar — disse Lumo. — Sou bom a devolver coisas.
— Ótimo. Eu devia estar no Cesto Grande, com os outros ovos especiais. Mas caí do carrinho quando o Coelho… quer dizer, quando alguém… passou a correr.
Lumo arregalou os olhos.
— Tu viste… alguém?
O ovo hesitou. Depois disse:
— Vi uma sombra com orelhas a abanar. E cheiro a cenoura.
Lumo ficou com um sorriso parvo.
— Então existe mesmo!
— Shhh! — sussurrou o ovo. — Não é segredo proibido, mas é segredo divertido.
Lumo olhou para o pó dourado no chão.
— Foi tu que fizeste esta pista?
— Foi o meu brilho a pingar. Eu fico nervoso e brilho mais. É como suar… mas mais bonito.
Lumo achou aquilo tão engraçado que se sentou no chão.
— Eu suo… mas não brilha. Que injustiça!
— Tu brilhas por dentro — disse o ovo, com voz doce. — E isso conta.
Lumo ficou quieto um instante. Depois lembrou-se do que a Rita tinha dito: se encontrares um ovo que não é teu… devolves.
— Vou levar-te ao Cesto Grande — prometeu Lumo.
— E rápido, por favor. Tenho cócegas de formigas — queixou-se o ovo.
Lumo pegou no ovo com muito cuidado e colocou-o no cesto emprestado. O ovo suspirou, aliviado.
— Ahh… isto é melhor do que estar no chão frio.
Lumo começou a andar na direção da aldeia, seguindo o pó dourado que agora parecia apontar para a praça.
No caminho, apareceu uma raposa pequena, com um olhar curioso. Cheirou o ar e olhou para o cesto.
— Cheira a chocolate — disse a raposa, lambendo o focinho.
Lumo apertou o cesto.
— Não é para comer. É para devolver.
A raposa inclinou a cabeça.
— Devolver? Isso é uma palavra difícil.
— É uma palavra boa — disse Lumo. — Quer dizer que eu cuido do que é dos outros.
A raposa pensou e depois soltou um risinho.
— Então eu devolvo-te uma coisa também.
Ela empurrou com a pata um pedaço de fita amarela que estava preso num arbusto.
— Encontrei isto ontem. Estava a fazer um ninho… quer dizer, um… não importa. Toma.
Lumo pegou na fita.
— Obrigado! É bonita.
— Fica bem no teu cesto — disse a raposa. — E assim pareces um ajudante importante.
Lumo prendeu a fita amarela no cesto. O ovo dentro do cesto disse:
— Uau! Agora parecemos um desfile.
Lumo riu.
— Um desfile de ovos!
Quando chegaram perto da praça, ouviram vozes. Havia pessoas a carregar caixas, a pendurar balões e a pôr mesas com toalhas coloridas. A Páscoa estava quase a explodir de alegria.
Mas de repente, Lumo viu um menino pequeno, o Dinis, a chorar perto de uma árvore.
Lumo aproximou-se.
— O que aconteceu?
Dinis fungou.
— Eu… eu tinha um desenho. Um coelho que eu fiz. E o vento levou. Era para dar à minha mãe amanhã.
Lumo sentiu uma pontada no peito. O bloco no bolso pareceu lembrar-lhe: desenhar ajuda.
Ele olhou para o céu. Viu um pedacinho de papel preso num ramo alto, a dançar.
— Eu vou tentar — disse Lumo.
Ele subiu com cuidado, usando as mãos e as orelhas como equilíbrio. O ramo abanou, mas Lumo foi devagar, corajoso. Conseguiu agarrar o papel e desceu.
— Toma! — disse ele, entregando o desenho ao Dinis.
O Dinis abriu um sorriso molhado.
— Obrigado! Tu és… tu brilhas.
Lumo riu, envergonhado.
— Hoje dizem isso muitas vezes.
O ovo no cesto murmurou:
— Eu disse primeiro.
Parte 3: A Caça, o Segredo e o Desenho que Começa
Na manhã seguinte, o sol acordou cedo, como se também quisesse procurar ovos. A praça estava cheia de crianças com cestos: alguns de vime, outros de plástico, outros feitos de caixas decoradas com autocolantes.
Rita e Tomás correram até Lumo.
— Lumo! Tens cesto! E com uma fita! — disse Rita.
— Parece cesto de campeão — brincou Tomás.
Lumo segurou o cesto com cuidado, lembrando-se do ovo especial lá dentro. Ele tinha acordado cedo e levado o ovo para a Dona Bia, que por sua vez o levou “para o lugar certo”. Foi o que ela disse, com um olhar misterioso e divertido.
— Eu tive uma pequena aventura — disse Lumo, sem contar tudo.
— A melhor parte é procurar! — disse Rita. — Preparado?
Uma senhora tocou um sino. Tlim-tlim!
— Já! — gritaram as crianças.
E começou a correria alegre. Havia ovos escondidos atrás de vasos, dentro de pneus pintados, debaixo de bancos, no meio de flores de papel.
Lumo correu, mas com atenção. As orelhas dele mexiam-se como antenas.
— Ali! — disse Tomás, apontando para um arbusto.
Rita achou um ovo azul.
— Encontrei! — gritou ela.
Lumo encontrou um ovo pequeno, com pintinhas laranja, escondido dentro de uma bota de borracha.
— Olá, ovo — disse ele, a rir. — Que casa estranha escolheste.
Pôs no cesto.
Depois encontrou outro, atrás de uma pedra: era de chocolate, embrulhado em papel brilhante. O cheiro fez-lhe cócegas no nariz.
— Lumo, queres provar um? — perguntou Tomás, já com chocolate nos cantos da boca.
Lumo pensou. Depois disse, com honestidade:
— Quero… mas vou esperar até a caça acabar. Senão vou ficar com chocolate no cesto todo e os ovos vão escorregar.
Rita riu.
— Tu pensas em tudo!
A caça continuou. Mini-reviravolta: de repente, um dos ovos que Lumo encontrou era um ovo pintado com uma carinha triste. Tinha um autocolante a dizer “Especial”.
Lumo franziu o sobrolho.
— Isto… parece importante.
Ele olhou à volta e viu uma menina mais nova, a Inês, a procurar perto das árvores, com a testa enrugada de preocupação.
— Estás bem? — perguntou Lumo.
— Eu… perdi um ovo especial — disse Inês. — A avó deu-me. Tinha uma carinha triste para eu lembrar que posso sorrir. E agora… sumiu.
Lumo abriu o cesto e mostrou o ovo.
— É este?
Os olhos da Inês brilharam.
— É! É ele!
Lumo entregou-lhe o ovo, sem hesitar.
— Toma. Eu encontrei. É teu.
A Inês abraçou o ovo com cuidado e depois abraçou Lumo também, com força.
— Obrigada! Agora ele já não está triste.
E foi aí que a carinha do ovo pareceu mesmo menos triste. Talvez fosse o sol. Talvez fosse magia. Talvez fosse só alegria a funcionar.
Tomás arregalou os olhos.
— Uau. Tu devolveste um ovo especial. Isso é… mesmo fixe.
Rita assentiu.
— Isso vale mais do que ganhar.
Lumo sentiu o peito cheio, como um balão.
No fim da caça, juntaram-se todos na praça. A senhora do sino contou os ovos. Houve palmas para quem encontrou muitos, e palmas para quem ajudou os mais pequenos.
Dona Bia apareceu com um grande cesto decorado com fitas. E, por um segundo, Lumo viu no chão uma linha de pó dourado a brilhar, muito fraquinha, como uma piscadela.
Dona Bia anunciou:
— Hoje temos um agradecimento especial ao Lumo, que devolveu o que não era dele e ajudou amigos. Isso é um coração bonito.
As pessoas bateram palmas. Lumo ficou corado, o que nele parecia uma luz mais quente.
E então aconteceu uma coisa pequenina e maravilhosa: perto do pé de Lumo, apareceram pegadas minúsculas, como se alguém tivesse passado ali mesmo. Pegadas em forma de cenoura. E desapareceram logo, como espuma.
Tomás cochichou:
— Viste?!
Rita tapou a boca para não gritar de alegria.
Lumo riu baixinho.
— Acho que… a Páscoa gosta de brincar.
Depois da festa, Lumo sentou-se num degrau, com o bloco de papel no colo. O sol fazia manchas douradas no chão. O cesto, agora cheio de ovos, estava ao lado. O cheiro a chocolate e a flores misturava-se e parecia uma canção.
Rita sentou-se perto.
— Vais desenhar o quê?
Lumo olhou para o lápis. Pensou no ovo que falava, na raposa que devolveu a fita, no Dinis e no desenho resgatado, nas pegadas que ninguém ia acreditar, mas que estavam no coração.
— Vou desenhar… a minha Páscoa — disse ele.
Tomás sentou-se do outro lado.
— Faz-me com uma cara de herói.
— E a mim com um ovo azul na mão! — pediu Rita.
Lumo riu.
— Está bem. Mas vai ser um desenho grande. Não cabe tudo de uma vez.
Ele pousou o lápis no papel. Fez primeiro um círculo: um ovo enorme no meio da página. Depois desenhou duas orelhas compridas ao lado, as suas. Desenhou uma fita amarela no cesto, um pó dourado a fazer um caminho, e uma raposa com olhar esperto.
Parou um segundo.
— Ainda falta o melhor — disse ele.
— O que é? — perguntaram os dois.
Lumo sorriu e desenhou, bem devagar, no canto do papel, umas pegadas pequeninas em forma de cenoura. E deixou espaço ao lado, em branco, como uma porta aberta para amanhã.
— Pronto — disse Lumo. — O desenho começou.
Rita encostou a cabeça ao ombro de Lumo.
— Está lindo.
Tomás apontou para o espaço em branco.
— E depois vais desenhar o resto?
Lumo olhou para o céu, que parecia um ovo azul gigante.
— Vou. Porque a tradição continua. E porque… é divertido descobrir.
O lápis ficou a descansar no papel, como se também sorrisse. E, no coração de Lumo, a Páscoa ficou a brilhar, suave e contente, como uma pequena lanterna que nunca se apaga.